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Vivaldo Barbosa: Ilegalidades da Lava Jato e os inocentes da República de Weimar
Fotos: Ricardo Stuckert/PR e Wikimedia commons
Política

Vivaldo Barbosa: Ilegalidades da Lava Jato e os inocentes da República de Weimar


03/07/2020 - 20h37

OS INOCENTES DA REPÚBLICA DE WEIMAR

por Vivaldo Barbosa*

Diante dessas revelações sobre fortes ligações dos procuradores de Curitiba, Lava Jato e seus delegados com o FBI e o Departamento de Justiça americano, estreitadas nos governos Lula e Dilma, me veio à lembrança o comportamento inocente dos dirigentes da República de Weimar.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, assumem o governo da Alemanha os social-democratas, felizes por terem posto fim na monarquia alemã com a deposição do Keiser.

Os militares alemães, que haviam levado a Alemanha à guerra e responsáveis pela dorrota, caem fora, saem de cena, que passa a ser ocupada pelos novos dirigentes que vão assinar o Tratado de Versailles, de rendição alemã, humilhação e com consequências econômicas terríveis.

Os representantes da Alemanha são acusados de traição. Os militares ficam de fora, se unem aos fascistas, passam a representar o orgulho nacional ferido, surgem o partido nazista e Hitler, a economia entra em desastre, o governo sucumbe, acontece o que aconteceu.

Os inocentes social-democratas são tragados, juntamente com comunistas, católicos e demais setores de esquerda e democratas.

O governo FHC fez acordo diplomático com o governo americano de cooperação nas áreas de investigações, envolvendo tráfico de drogas, terrorismo, lavagem de dinheiro e…a famosa corrupção.

Coisa pesada, encontros aqui e lá, seminários, palestras, cursos aqui e lá, mais lá do que aqui.

E informações, muitas informações sobre Petrobrás e outras empresas brasileiras.

O Ministério da Justiça representava o Brasil nestas relações, ao lado do Itamaraty.

Mais adiante, o Ministério da Justiça transfere esta representação para a Procuradoria Geral da República, ferindo as regras de representação diplomática, já que o Ministério Público não é órgão do Executivo.

Um pouco mais adiante, Rodrigo Janot transfere tal representação para a chamada Força Tarefa de Curitiba, a já famosa de anos Lava Jato, com um monte de estropolias já aprontadas. A coisa atingiu seu ápice.

A montagem ficou pesada. Palestras, encontros prá lá e prá cá, Sérgio Moro e Dallagnol prá lá e prá cá, entrevistas a toda hora, forte apoio de toda a mídia e do conservadorismo na política, dinheiro rodando solto.

Ganhou até as ruas, muitas manifestações. Coisa muito pesada. O Ministério da Justiça a tudo acompanhou, inocentemente, assim como os inocentes da República de Weimar a tudo assistiram. Ambos sofreram as dramáticas consequências.

Sabe-se, agora, que a chefe dos serviços do FBI nessas tratativas, Leslie Rodrigues Backschies, nuito acolhida pelos procuradores e Polícia Federal, em entrevista à imprensa, afirmou: “Nós vimos presidentes derrubados no Brasil”, além de referências a outros países com ações semelhantes.

Não se referia tão somente à deposição de Dilma Roussef, pois o Brasil ostenta um rol de presidentes derrubados, igualmente em outros países.

Esses esquemas de derrubada são pesados, às vezes irresistíveis. Em outubro de 1945, derrubou-se o todo poderoso chefe do Estado Novo, Getúlio Vargas, popularíssimo, com tudo na mão, Judiciário, interventores nos Estados, polícias estaduais e federal, com abertura e processo eleitoral já em curso, eleições marcadas.

Não queriam que ele influenciasse nas eleições, pois queriam mãos livres para tentar derrubar a CLT e a nacionalização do subsolo, minérios e petróleo, inscrita na Constituição autoritária, corportativista de 1937, a famosa polaca.

Elegeram a Constituinte em 1946 e derrubaram a nacionalização do subsolo. Getúlio disse a interlocutres que quem o derrubou não foi a cúpula do Exército, mas sim o embaixador americano na Argentina, que já havia aprontado na Colômbia e outros países, inclusive provocado a saída do General Peron do Ministério do Trabalho.

Em 1961, não fora a resistência heróica de Brizola, nem Jango tomaria posse. Em 1964, a deposição de Jango já é muito conhecida.

Alguns observadores fazem comparações do golpe de 1964 e os acontecimento recentes.

Brizola fez a última tentativa dramática de resistir, pedindo a Jango para nomeá-lo Ministro da Justiça para comandar a Polícia Federal e puxar as polícias estaduais, envolver governadores, Congresso, e nomear o General Ladário Teles para Ministro do Exército para recompor o Exército com os que não haviam se envolvido ainda com o golpe.

Mas Jango já sabia da presença dos americanos nas nossas costas, Arraes já havia sido preso no Recife, no Rio haviam destruído a sede da UNE e do ISEB, tanques nas ruas, sindicalistas presos país afora.

Não quis resistir, não atendeu Brizola. No caso recente, com a Presidência da República na mão, não resistir foi mais lamentável.

As ilegalidades desferidas pela Lava Jato, com participação da Polícia Federal, não poderiam ter sido toleradas.

Para isto, teria sido necessário nomear ministos do STF e outros tribunais com gente fiel ao cumprimento da Constituição e à sustentação dos poderes da República, não os que batiam à porta conduzidos por mãos desavisadas, inocentes.

Os generais e demais oficiais das Forças Armadas promovidos e nomeados deveriam estar comprometidos com a obediência ao poder civil eleito e à sustentação da República, não os figurantes do almanaque vinculados a pensamento e posturas políticas que o Brasil já havia ultrapassado.

Não poderia ser quem veio a ameaçar o STF para não libertar Lula. Promovidos e nomeados inocentemente.

A luta política contra privilégios e espoliação é dura, pesada, não é para inocentes.

Lula, ao não querer se envolver com os que são responsáveis por tudo que se abateu sobre o Brasil e o povo brasileiro, demonstra compreensão do processo histórico que vivemos e das perspectivas que se abrem para a luta política.

O PT, comandado pela Gleisi Hoffman, igualmente.

O papel do Estado, a defesa da soberania, a compreensão do papel dos Estados Unidos, do império, e da TV Globo (não é mais uma implicância de Brizola) têm outra dimensão no pensamento e na ação política de Lula e do PT. O que os difere dos demais políticos e partidos.

Vivaldo Barbosa é advogado e professor. Brizolista e trabalhista histórico, foi deputado federal pelo PDT.



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7 comentários

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Justino

05 de julho de 2020 às 22h48

Muitas pessoas ligadas às mídias tradicionais e a esquerda tradicional têm negligenciado situações preocupantes no nosso país, assistindo uma tentativa controle das mídias alternativas e a perseguição a determinados grupos políticos ditos de direita. Estão de olhos vendados…acreditando que a Nova Esquerda ou os progressistas nunca se voltarão contra eles…mais uma vez estão assistindo tudo em berço esplêndido…dessa vez por conveniência do momento…Lembro à todos que de acordo com vazamentos de Julian Assage o governo americano que promoveu espionagem, inclusive, nos e-mails de Dilma era do progressista Obama.
Lembro inclusive que a eleição de Bolsonaro não fazia parte dos planos desse complô que derrubou a presidenta Dilma…os presidenciáveis dessa turma eram outros…
Portanto, abram os olhos, pois muitos que se vendem como paladinos da Justiça…São oportunistas

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    Nelson

    07 de julho de 2020 às 22h17

    Meu caro Justino.

    A meu ver, o Sistema de Poder que domina os EUA, planejador, organizador do golpe de 2016, que segue a monitorá-lo, tinha quatro outros candidatos preferenciais em 2018, antes do Bozo. Não necessariamente nesta ordem, eram eles Meirelles, Amoedo, Alckmin Álvaro Dias. Eleito, qualquer um deles aplicaria o mesmo projeto de Bolsonaro que é, em suma a continuidade do desgoverno de Temer.

    Como nenhum deles demonstrou punch para evitar que a turma do PT voltasse ao poder, esse Sistema resolveu apostar suas fichas no Bozo. Até porque sabia que, além dele ser um basbaque entreguista, se rodearia de uma plêiade de militares também entreguistas, conformes, portanto, com o projeto que o Sistema tinha para o nosso país.

    Por outro lado, se Haddad tivesse ganho a eleição e quisesse implantar – tenho cá muitas dúvidas quanto a que pudesse ser esta a intenção dele e da cúpula majoritária do PT – o programa necessário e inadiável ao país e seu povo, passaria a sofrer uma pressão brutal para que desistisse de seus propósitos.

    O programa necessário e inadiável teria que contemplar o fim das privatizações, vindo mais adiante o resgate, para estrito controle estatal, de setores altamente estratégicos como energia elétrica, petróleo e comunicações, entre outros.

    Tal programa também exigiria a revogação da reforma Trabalhista, a consolidação da Previdência Social realmente universal, com aposentadoria justa e digna para todos, a consolidação do sistema de Seguridade Social proposto pela Constituinte de 1988, com acesso à saúde pública de qualidade para todos, trabalho decente e por aí afora.

    Porém, como quem está no poder no PT é uma ala liberal – que se mostra amante de um liberalismo que nunca existiu e que já se mostrou extremamente nocivo ao país, a qualquer país, na verdade -, creio que seria muito difícil que um programa assim fosse implantado. Na verdade, como alguém já definiu, esta turma de liberais do PT não passa de um bando de tucanos de plumagem vermelha.

    O mais certo é que, pelos seus posicionamentos, cheio de sorrisinhos e afagos trocados com FHC e a tucanaiada – golpistas juramentados -, Haddad viesse a dar continuidade ao “Lulinha paz e amor” e acoitasse em seu governo neoliberais do quilate de um Marcos Lisboa no comando da economia e em outras áreas.

    Não tenho prazer algum em afirmar isto aqui, até porque, mesmo sabendo disso votei nele. Contudo, penso que um governo Haddad não se esquivaria, totalmente, como é necessário, de dar sequência ao desmonte do país, em proveito das megacorporações capitalistas e dos países ricos.

    A diferença de Haddad para os demais é que ele o faria em doses mais homeopáticas, digamos assim, que as aplicadas pelo MiShell Temer e Bolsonaro. A vantagem para nós é que teríamos um tempo maior antes de o país se esmaecer por completo, para tentarmos mobilizar e organizar a maioria do povo no sentido de colocar pressão sem tréguas sobre nossos governantes exigindo que apliquem o programa que citei acima.

Paulo Henrique Tavares

05 de julho de 2020 às 14h07

Eu sei que o queridinho da classe media, se refugiou em Paris ao final do primeiro turno.

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antonio cesar perin

04 de julho de 2020 às 16h03

Na área jurídica, os governos Lula e Dilma foram marcados por um profundo endurecimento dos aparelhos de repressão do Estado e de suas instituições jurídicas, medidas que culminaram como uma das protagonistas na série de ações e reações que levaram à queda do petismo da Presidência da República. Os ex-presidentes também foram responsáveis por falta de avanços, quando não retrocessos, em áreas que a pauta progressista demorará muitos anos para ter a possibilidade de fazer algo diferente, como, por exemplo, a questão carcerária e a política de drogas.

Essa introdução-conclusão é necessária para entender o fato de todos os dias termos que lidar com ministros do Supremo Tribunal Federal medíocres no campo cognitivo. São reprodutores do senso comum reacionário e estão sendo responsáveis por um dos maiores rompimentos formais das instituições com a Constituição Federal. Ultimamente, vale tudo. – Justificando

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antonio cesar perin

04 de julho de 2020 às 16h00

Mas o PT preferiu perder como protagonista do que tentar ganhar como coadjuvante. A estratégia foi boa para o partido, que perdeu a eleição, mas manteve a hegemonia no campo oposicionista ao formar a maior bancada na Câmara. Mas foi ruim para o país, que, após oito meses, está com uma oposição enfraquecida e desarticulada para enfrentar o desmonte avassalador do estado brasileiro. THe Intercept

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Marcos Videira

04 de julho de 2020 às 15h30

O prólogo histórico sobre a tragédia que se abateu sobre o Brasil, relatado pelo Vivaldo, creio que pode ser aceito como um resumo verdadeiro de fração de nossa história política. O problema não está no prólogo, mas sim na interpretação do momento político presente.
O “inocente” Lula tem uma súbita epifania e agora compreende o processo histórico e as perspectivas para a luta política. Então Obama estava errado quando afirmou “esse é o cara” ? Lula era um inocente e nós éramos uns iludidos ?
Essa suposta epifania serve para defender as atuais posições políticas de Lula.
Primeiramente, Vivaldo faz uma distinção entre Lula e o PT de Gleisi. Parece-me que isso não existe. O PT não é de Gleisi e sim de Lula. Haja vista a Idolatria dominante em parte significativa dos petistas. Ou não é Lula quem dá a última palavra no PT ?
Lula não quer se envolver com aqueles que são responsáveis pela tragédia que se abate sobre o povo brasileiro. Vivaldo reforça a falsa narrativa de que Lula e o PT não tem nenhuma responsabilidade pela ascensão de Bolsonaro. A estratégia eleitoral de Lula em 2018 priorizou os interesses do PT e deu no que deu. Cristina Kirchner fez exatamente o contrário de Lula e o resultado foi exatamente o contrário. Quem priorizou o povo ? Quem respeitou a realidade do jogo político ?
O último parágrafo é uma contradição na análise de Vivaldo. Graças a esta suposta epifania, Lula teria alterado a ação política do PT e isto diferiria o PT dos demais partidos. Ora, isto na essência não significa mudança alguma: o PT sempre se considerou diferente e superior aos demais partidos. Está no DNA do PT essa empáfia. Quando estava na oposição, o PT apontava o dedo para os outros partidos e dizia: são corruptos. Dá para sustentar esse pedantismo sectário após o Mensalão e o Petrolão ? Ou não houve corrupção nos governos do PT ?
Penso que o PT é um importante partido político. Porém, Lula está levando essa organização para um gueto, isolando importantes forças sociais e ensejando o fortalecimento dos fascistas. Lula não estaria se comportando exatamente como os “inocentes da República de Weimar” ?

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Antonio Cesar perin

04 de julho de 2020 às 11h20

O PT foi de um ingenuidade fora do comum no Governo………………

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