Por Vanderlei Tenório*
Pesquisas eleitorais já foram coisas mais simples. Ou ao menos fingiam ser. Perguntava-se, somava-se, publicava-se na primeira página do jornal de domingo, com aquela sobriedade cinzenta dos gráficos de barra. E pronto: o país parecia caber perfeitamente numa planilha bem diagramada. Havia um pacto de silêncio e distância entre o instituto que media e o cidadão que era medido.
Hoje não. Hoje elas continuam perguntando e somando, mas já não se comportam como antigas senhoras discretas da estatística, que recolhiam seus dados e saíam de fininho pela porta dos fundos. Entraram na festa, tiraram o casaco, ficaram na sala, comentam a decoração e ainda ditam como deve ser o ritmo da música. Tornaram-se personagens, e das mais barulhentas.
Entre o “vou votar em tal candidato” dito ao pesquisador na calçada e o ato de apertar o botão na urna existe agora um corredor longo, escuro e barulhento, cheio de portas que se abrem e fecham o tempo todo.
Nesse corredor mora a dúvida, o meme de quinze segundos do “Six Seven” que desidrata uma reputação, o vídeo curto com trilha sonora de músicas batidas do TikTok, o grupo de WhatsApp da família onde tios debatem geopolítica com figurinhas de Lula e Bolsonaro em situações constrangedoras, e a pesquisa eleitoral. Ela passa por ali como quem não quer nada, fingindo neutralidade, mas acaba deixando um bilhete caprichado em cima da mesa da cozinha. E esse bilhete muda o assunto do jantar.
O curioso é que os números ganharam vida social e CPF próprio. São compartilhados nos stories como se fossem opinião pessoal, discutidos na mesa do bar com o mesmo fervor com que se discute um pênalti roubado no futebol, e usados como se fossem previsão do tempo, só que com uma dose cavalar de ansiedade. “Subiu dois pontos na rejeição”, alguém diz no meio do expediente, com a gravidade de quem anuncia um meteoro em rota de colisão com a Terra. E todo mundo ao redor reage como se tivesse levado um guarda-chuva aberto diretamente na cabeça. O número já não descreve a realidade; ele cria o clima da semana.
A tecnologia ajudou a dar essa agitação toda, transformando o que era ciência em feed de notícias. Agora tudo é mais rápido, mais automático, empacotado em gráficos coloridos feitos para o clique. A política deixou de ser fotografada de tempos em tempos, superando aquela pose estática de três em três meses, e passou a ser filmada por uma câmera de segurança de alta definição, operando em tempo real e sem piscar. Só que, como toda vigilância contínua, esse excesso de nitidez também cansa os olhos, distorce os rostos e acelera o batimento cardíaco do debate público antes da hora.
A tal da opinião pública, que antes parecia uma senhora de bobes no cabelo sentada na cadeira de balanço da varanda, hoje se parece mais com uma pista de dança de festival, onde cada caixa de som toca um ritmo diferente e todos gritam para serem ouvidos. Redes sociais, mensagens encaminhadas com a tag de “frequente”, vídeos de cortes de podcasts e algoritmos que entregam o que você quer odiar ficam todos juntos e misturados. No meio do tumulto, a pesquisa tenta, com a prancheta na mão e muita educação, perguntar quem é você, afinal de contas.
Nem sempre a resposta ajuda muito. O eleitor aprendeu a jogar o jogo.
Quando entram em cena as pesquisas online e os painéis digitais, aparece um problema meio óbvio e frequentemente ignorado pelo mercado: nem todo mundo habita a mesma internet. E mesmo quem está nela não navega do mesmo jeito. Tem gente que responde ao formulário com sinceridade quase confessional; tem gente que sabota o questionário por pura irritação política; tem uma massa silenciosa que nem sabe por que clicou ali enquanto tentava fechar um anúncio de jogo de celular. Mas o resultado final sai formatado em PDF, com margem de erro e nível de confiança, como se fosse uma foto panorâmica e límpida da sala de estar. E às vezes é só o reflexo distorcido de um azulejo quebrado na cozinha.
Apoie o VIOMUNDO
As campanhas, claro, entenderam a neurose coletiva antes de todo mundo. Hoje os comitês políticos olham para a pesquisa diária, os famosos trackings, como um médico plantonista olha para o monitor cardíaco de um paciente na UTI.
Se o gráfico subiu meio ponto, abre-se o espumante e decreta-se a genialidade do marqueteiro. Se caiu dentro da margem de erro, muda-se a dieta do candidato, o que significa cortar o sorriso, acrescentar um tom de indignação ou alterar a cor da camisa no horário eleitoral. Se empatou na liderança, todo mundo engole em seco e finge uma calma quase teatral diante dos jornalistas. E assim, de ponto em ponto, vai se montando uma política meio artificial, refém dos próprios números que ela gasta milhões para ajudar a produzir. Não se lidera o povo; persegue-se a curva do gráfico.
No fundo, há uma pergunta filosófica que teima em não sair de cena: como é que se mede a alma de um país continental com algumas centenas ou poucas milhares de ligações telefônicas? A estatística, coitada, é uma ciência honesta e nunca prometeu milagre ou vidência, mas o público consumidor de notícias exige dela o tarô e a bola de cristal.
E aí começa o verdadeiro espetáculo.
Durante a eleição, nada mais é o que é. Tudo vira tendência. Tudo vira ponto de inflexão. Tudo vira cenário favorável. A disputa real pelas necessidades das pessoas deixa de ser o centro do palco e vira apenas o pretexto para a narrativa da disputa. É a transformação da democracia em uma espécie de novela das nove de Walcyr Carrasco, só que com spoilers diários, análises de especialistas de estúdio e apostas em aplicativos. O cidadão deixa de ser o mestre do destino do país e passa a ser o espectador ansioso do próximo capítulo.
Até que, finalmente, chega o domingo da votação.
E nesse dia específico acontece uma coisa maravilhosa e quase poética: o país desliga o modo simulação.
Calam-se os cientistas políticos, travam-se os algoritmos, evaporam-se as projeções, os cenários e os discursos do pretenso avanço das tendências. O que sobra no silêncio da seção eleitoral, diante do biombo de plástico, é o velho método de sempre, analógico na sua essência e meio primitivo até, que consiste no cidadão sozinho com a sua consciência, o barulho do teclado e o voto contado um a um.
É exatamente nesse intervalo sagrado, o espaço de ar que existe entre o que os modelos matemáticos imaginavam na véspera e o que a realidade despeja nas urnas ao fim do dia, que as pesquisas revelam o que são de verdade. Nem profecia divina, nem engano fraudulento. São apenas uma tentativa humana, tateante e às vezes apressada, de tirar o retrato de um país que insiste em mudar de ideia enquanto a câmera ainda está tentando focar no seu rosto.
*Vanderlei Tenório é jornalista e professor.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Leia também
Jeferson Miola: Aceitar acordo de delação com Vorcaro seria um tremendo absurdo




Comentários
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!