Por Jeferson Miola, em seu blog
A relação dos presidentes da Câmara e do Senado com este terceiro governo Lula nunca foi estável; menos ainda de decência e honestidade política.
Nos dois primeiros anos do mandato, para contornar e neutralizar os efeitos das vilanias da presidência bolsonarista de Arthur Lira na Câmara, Lula procedeu de duas maneiras.
De um lado, aplacou a sanha extorsionária de Lira liberando emendas do orçamento e entregando cargos importantes, como a diretoria da CEF.
E, por outro lado, assentou a governabilidade numa aliança institucional sui generis entre Executivo, Suprema Corte e cúpula restrita do Senado, que atuou como o adulto do Congresso.
Eleito para a presidência do Senado em fevereiro de 2025, à primeira vista Davi Alcolumbre sinalizou com a manutenção dos compromissos com essa governabilidade precária, nos moldes do seu antecessor Rodrigo Pacheco.
O espírito chantagista e achacador do Alcolumbre foi provisoriamente aplacado com a entrega de diretorias de agências reguladoras, cargos em estatais e, claro, muita emenda orçamentária. Mesmo assim, para a tramitação de qualquer matéria legislativa do seu interesse, o governo sempre foi obrigado a pagar pedágio adicional para o rei do achaque.
Alcolumbre, no entanto, logo rompeu o pacto de governabilidade. Isso aconteceu ainda em dezembro, antes de completar seu primeiro ano na presidência. O marco –ou pretexto– da ruptura foi a indicação de Jorge Messias para a Suprema Corte.
A inflexão oposicionista de Alcolumbre ganhou contornos definitivos no primeiro trimestre deste ano, quando pesquisas indicaram piora da aprovação do governo e a consolidação da candidatura de Flávio Bolsonaro como a mais promissora do bloco anti-Lula. Alcolumbre raciocinou, então, que chegara o momento de pular para o barco da ultradireita.
O escândalo Master aprofundou a má-vontade do presidente do Senado com o governo, pois Alcolumbre é padrinho do presidente do instituto de previdência dos servidores públicos do Amapá, que aportou R$ 500 milhões em fundos fraudulentos do banqueiro mafioso. Ele nunca escondeu a insatisfação com a investigação técnica e independente da PF.
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Alcolumbre passou a agir na presidência do Senado como Arthur Lira agia na presidência da Câmara. Ele impôs uma das mais impactantes derrotas a Lula com a rejeição de Messias para o STF, e sinalizou disposição de acirrar o enfrentamento.
Aprovou as chamadas pautas-bomba, que se não forem revertidas pelo STF, poderão causar um rombo de quase R$ 300 bilhões para beneficiar em especial a base eleitoral do bolsonarismo, como é o caso da dívida de ruralistas e latifundiários.
Assim como Lira foi no seu tempo, ele é hoje o senhor absoluto das pautas e das estratégias da extrema-direita no Congresso. Ele maneja o timing político do bolsonarismo, de quem é aliado para se proteger no escândalo Master e se reeleger à presidência do Senado em fevereiro de 2027.
Numa decisão relâmpago, engavetou o pedido de CPI do Master no mesmo momento em que o recebeu.
Na sessão de 3 de junho, não consumiu mais que dois minutos –isso mesmo: dois minutos– para aprovar Decreto Legislativo relatado pela senadora ultra-bolsonarista Damares Alves revogando resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que disciplina o acesso digno de crianças à interrupção da gravidez decorrente de estupro. Um retrocesso reacionário em relação ao disposto no Código Penal de 1940.
Em contraste com a marcha supersônica na condução das pautas reacionárias e conservadoras dos bolsonaristas, ao receber a PEC que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho, Alcolumbre retardou a tramitação com o argumento de que “uma proposta com essa relevância precisa ser debatida com serenidade” …
O laço orgânico de Alcolumbre com o porão fétido do bolsonarismo ficou patente no ato de 10/6 designando o senador corrupto Ciro Nogueira/PP, que recebia R$ 500 mil por mês de propina de Daniel Vorcaro, pra representar o Senado no Fórum de Alto Nível da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, em Nova Iorque, de 12 a 16 de julho.
Seria piada de mau gosto, mas é um escárnio explicável no contexto da aliança do Alcolumbre com o bolsonarismo contra Lula.
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