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Túlio Muniz: Qual o objetivo de Bolsonaro ao acusar Macron de ‘mentalidade colonialista’?
Agência Brasil e rede social
Política

Túlio Muniz: Qual o objetivo de Bolsonaro ao acusar Macron de ‘mentalidade colonialista’?


30/08/2019 - 21h21

Bolsonaro e o dispositivo pós-colonial

por  Túlio Muniz, especial para o Viomundo

A retórica de Bolsonaro em relação à França é calculada.

Não é gratuita a acusação de “mentalidade colonialista” que ele faz ao presidente francês Emmanuel Macron na crise das queimadas na Amazônia.

Trata-se de estratégia ultranacionalista usada por governantes e militares brasileiros sempre que precisaram recorrer à figura de ameaça externa.

Um discurso acionado em outras épocas, como fizeram Getúlio Vargas ao evocar a ‘ameaça comunista’ para perseguir adversários, nos anos de 1930, copiado pelos militares golpistas de 1964, que um ano antes , entre fevereiro e março de 1963, foram protagonistas ativos no episódio conhecido por ‘Guerra da Lagosta’, conflito diplomático com mobilização militar de parte a parte entre o Brasil e …a França.

A ‘Guerra da Lagosta’ foi uma espécie de laboratório para o golpe de 1964.

Instados por armadores brasileiros que desde 1955 ingressaram no mercado internacional da pesca através da captura de lagosta ao nível industrial estabelecida pelo norte americano Davis Morgan no Ceará, governo e militares mobilizaram embaixadores e frota naval e aérea para reprimir barcos franceses que incursionavam por águas nacionais em busca de lagosta.

O assunto ganhou os jornais da época, nos quais era clara a disseminação de discurso nacionalista cuja hegemonia era disputada tanto por Goulart quanto pelos militares que, em vários episódios da ‘Guerra’, agiam à revelia do Executivo.

Ambos os setores visavam apoio da população envolvida pelo que chamei dispositivo pós-colonial (DPC).

A ‘Guerra da Lagosta’ foi resolvida no âmbito diplomático sem que um tiro fosse disparado, mas teve consequências internas a posteriori que levaram ao Golpe.

Portanto, esteve longe da mera ‘carnavalização’, como simplificou, erroneamente, o historiador Marco Antonio Villa no Jornal da Cultura, de 26 de agosto [1].

Está Bolsonaro a recorrer ao DPC para ostentar imagem de potência subimperialista (cf. Ruy Marini) que o Brasil nunca abandonou, e que sempre teve apoio da grande mídia nativa, ela mesma umbilical e financeiramente ligada ao Estado?

Tal como em 1963, Bolsonaro e os militares objetivarão o discurso ufanista e ultranacionalista para preparar um golpe militar, com apoio de parcela significativa da população?

O desgaste acentuado do governo por ausência de política econômica, pela crise ambiental e a corrosão da Lava Jato não indicam que Bolsonaro chega ao final do mandato.

Vai depender de manter mídia alinhada para emissão de discurso do tipo DPC, com potencial de coerção em torno de ‘inimigo externo comum’, no que as grandes redes de TV se esmeram desde sempre – a Globo, em particular.

É preciso aguardar o desfecho das crises simultâneas (a ambiental, a econômica e a política), e a iminente queda da Lava Jato e o posicionamento da mídia para saber se o governo supostamente democrático chega ao fim do ano sem recorrer ao autogolpe.

[1] O Ouro do Mar (2014), de  Túlio de Souza Muniz, Annablume Editora.

*Túlio Muniz é jornalista, historiador e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra.

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3 comentários

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Mano

02 de setembro de 2019 às 13h37

Ao menos no caso das lagostas, havia a presença real e física de barcos franceses para fazer a propaganda. Aqui, hoje, há os pedidos para que o Brasil cuide direito da amazônia, que são respondidos à coice. Bozonero criou uma situação onde os outros cogitam intervir, pra poder bradar “olha eles querendo nossa soberania!”
E o gado aplaude!

Responder

    Zé Maria

    31 de agosto de 2019 às 19h45

    Se bem que as aqui no braZil
    são “Coleiras” Amarelas…
    Ou seriam Verde-Oliva ?


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