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Stiglitz: O que é bom para o Brasil, é bom para os Estados Unidos


07/05/2011 - 13h43

The IMF’s change of heart

The International Monetary Fund has realised that a nation’s economic well-being depends on social equality and justice [O Fundo Monetário Internacional se deu conta de que o bem-estar econômico de uma nação depende de igualdade e justiça social]

Joseph E Stiglitz, 07 May 2011 15:14

do Project Syndicate, na Al Jazeera

O encontro anual de primavera do Fundo Monetário Internacional foi notável ao marcar uma tentativa do FMI de se distanciar de suas próprias doutrinas de longo prazo sobre controle de capitais e flexibilização do mercado de trabalho. Parece que um novo FMI tem gradualmente, e cautelosamente, emergido sob a liderança de Dominique Strauss-Kahn.

Cerca de 13 anos antes, no encontro do FMI em Hong Kong, em 1997, o fundo tinha tentado emendar sua carta para ganhar mais poder para empurrar países à liberalização do mercado de capitais. O momento não poderia ter sido pior: a crise do Sudeste da Ásia estava em gestação — uma crise que foi resultado principalmente da liberalização do mercado de capitais naquela região que, dado o alto índice de poupança, era desnecessária.

As mudanças tinham sido defendidas pelos mercados financeiros ocidentais — e pelos ministros das finanças ocidentais que serviam lealmente aos mercados. A desregulamentação financeira nos Estados Unidos foi uma causa primária da crise que irrompeu em 2008, e a liberalização financeira e do mercado de capitais em outros lugares ajudou a espalhar o trauma “made in USA” por todo o mundo.

A crise demonstrou que mercados livres e sem restrições não são eficientes, nem estáveis. Eles também não fazem um bom trabalho no ajuste dos preços (vejam a bolha do mercado imobiliário), inclusive das taxas de câmbio (que na verdade são o preço de uma moeda em relação a outras).

Emerging markets, concerned countries

A Islândia demonstrou que responder à crise impondo controle de capitais poderia ajudar pequenos países a gerenciar o seu impacto. E o “quantitative easing” (QEII) do Banco Central dos Estados Unidos [através do qual o BC americano compra papéis do Tesouro, inundando o mundo de dólares] tornou o descarte da ideologia dos mercados sem restrições inevitável: o dinheiro vai para onde os mercados acreditam que o retorno será maior. Com os mercados emergentes em boom, e os Estados Unidos e a Europa em dificuldades, estava claro que muito da nova liquidez criada encontraria o caminho dos mercados emergentes. Isso era especialmente verdadeiro considerando que os dutos do crédito nos Estados Unidos estavam entupidos, com vários bancos regionais e comunitários ainda em posição precária.

A inundação de dinheiro nos mercados emergentes [ver a valorização do real no Brasil] significa que mesmo os ministros das finanças e governantes dos bancos centrais — que se opõem ideologicamente à intervenção — acreditam que não tem escolha. Na verdade, um país depois do outro tem escolhido intervir para evitar que o valor de suas moedas dispare.

Agora o FMI abençoou tais intervenções — mas, numa concessão aos que ainda não estão convencidos, sugere que isso só deve ser feito como último recurso. Ao contrário, deveríamos aprender com a crise que os mercados financeiros precisam de regulamentação, e que os fluxos de capitais através de fronteiras são particularmente perigosos. Tais regras deveriam ser uma peça-chave de qualquer sistema para garantir a estabilidade financeira; recorrer [ao controle de capitais] apenas em último caso é uma receita para contínua instabilidade.

Existe um grande número de ferramentas disponíveis para o gerenciamento do fluxo de capitais e seria melhor que os países usassem um menu delas. Mesmo que não sejam completamente eficazes, são tipicamente muito melhor que nada.

Mas uma mudança ainda mais importante é a conexão que o FMI finalmente desenhou entre desigualdade e instabilidade. A crise foi largamente o resultado das tentativas dos Estados Unidos de dar impulso a uma economia enfraquecida por desigualdade crescente, através de uma taxa de juros baixa e do relaxamento da regulamentação [permitindo que os norte-americanos se afundassem em dívidas, parte delas feita com o refinanciamento de imóveis. O gajo refinanciava a casa, pegava dinheiro do banco e pagava a faculdade dos filhos, comprava um carro novo e assim por diante] — o que resultou em muita gente emprestando além de sua capacidade de pagar. Serão anos para desfazer as consequências deste endividamento excessivo. Mas, como outro estudo do FMI nos lembra, não é um novo padrão.

Unemployment, rising class-divide

A crise também colocou em teste outros dogmas de longo prazo que culpam a rigidez do mercado de trabalho pelo desemprego, já que países com salários mais flexíveis, como os Estados Unidos, se deram muito pior que países do norte europeu, inclusive a Alemanha. Na verdade, quando os salários enfraquecem, os trabalhadores terão ainda mais dificuldades para pagar o que devem, e os problemas no mercado imobiliário serão ainda piores. O consumo continuará represado e uma recuperação forte e sustentável não poderá ser bancada com outra bolha baseada em dívidas.

Os Estados Unidos são tão desiguais quanto eram antes da Grande Recessão e a crise, gerenciada da forma como foi, aumentou ainda mais a desigualdade de renda, tornando a recuperação ainda mais difícil. Os Estados Unidos estão a caminho de criar sua própria versão da malaise de estilo japonês [baixíssima taxa de crescimento desde os anos 90].

Mas existem formas de escapar deste dilema: reforçar o poder coletivo de barganha [dos trabalhadores], reestruturar dívidas imobiliárias, usar cenouras e porretes para forçar os bancos a retomar os empréstimos, reeestruturar a cobrança de impostos e os gastos públicos para estimular a economia agora através de investimentos de longo prazo, e implementar políticas sociais para garantir oportunidade para todos. Do jeito que está, com quase um quarto da renda e 40% da riqueza dos Estados Unidos indo para o 1% do topo, os Estados Unidos são agora ainda menos uma “terra de oportunidades” que a “velha” Europa.

Para progressistas, esses fatos abismais já são parte de uma litania de frustrações e ultraje justificado. O que é novo é que o FMI aderiu ao coro. Quando Strauss-Kahn concluiu seu discurso na Brookins Institution pouco antes do recente encontro do Fundo, disse: “No fim das contas, emprego e igualdade são tijolos da estabilidade econômica e da prosperidade, da estabilidade política e da paz.  Este é coração do mandato do FMI. Precisa ser colocado no coração da agenda política”.

Strauss-Kahn está se provando um líder sagaz do FMI. Podemos apenas esperar que os governos e os mercados financeiros ouçam as palavras dele.

Joseph E. Stiglitz is a professor at Columbia University, a Nobel laureate in Economics, and the author of Freefall: Free Markets and the Sinking of the Global Economy. He is also a former Senior Vice President and Chief Economist of the World Bank.

[] As frases entre colchetes são notas de tradução, para facilitar o entendimento.





31 comentários

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A prisão do diretor do FMI | Viomundo - O que você não vê na mídia

16 de maio de 2011 às 06h31

[…] tinha recebido fartos elogios do economista Joseph Stiglitz, por mudar os rumos do FMI (ver aqui). […]

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fILIPPINI

08 de maio de 2011 às 20h36

Vou usar este texto e seu respectivo link,para dar uma provocada naqueles fundamentalistas aloprados do Instituo Mises Brasil.
Vou ser expurgado de lá À PAULADAS,FEITO RATAZANA PRENHA.

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Bonifa

08 de maio de 2011 às 18h53

É isso. E o Patriota?
Líbia: Rússia condena ataque contra família de Kadhafi
01 de Maio de 2011, 11:02

Moscovo, 01 mai (Lusa) — Konstantin Kossatchov, dirigente do Comité para Relações Internacionais da Duma Estatal da Rússia, considerou que as últimas notícias da Líbia mostram que a morte de civis não para as forças da coligação.

"Se se confirmar a informação dos apoiantes de Kadhafi sobre a morte do seu filho e dos seus três netos será o golpe mais sensível desferido na atividade da coligação anti-líbia", declarou ele.

Segundo este deputado da Câmara Baixa do Parlamento russo, "isso é uma confirmação evidente de que o emprego indiscriminado da força pela coligação anti-líbia é tão inaceitável como os ataques de Kadhafi e das forças que lhe são leais contra a população civil".

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enio

08 de maio de 2011 às 09h40

Os Estados Unidos esqueceram o que John Rawls escreveu sobre justiça e igualdade. Uma pena.

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Elza

08 de maio de 2011 às 04h52

Alceu Gonçalves no seu poust "….Quanto à "nova postura" do fmi, somente da boca pra fora. Vejam as imposições que fizeram a Portugal, para que o mesmo seja merecedor da suada graninha dos especuladores". É por aí, atitudes que não são compatíveis com os discursos são FALÁCIAS. Fica de olho Mantega e bem abertos.

O FMI ñ é cria dos USA? E eles pensam no bem de alguém? Not, not, not…..

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A “crise” dos carrinhos. E a oposição com isso? | Viomundo – O que você não vê na mídia « Ficha Corrida

08 de maio de 2011 às 00h02

[…] a hiperinflação. Afinal, não é sempre que um Nobel de Economia recomenda que os Estados Unidos sigam o exemplo do Brasil, atacando a desigualdade e dando mais poder de barganha salarial aos […]

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João

07 de maio de 2011 às 22h50

Jisuis!! O que os "Chicago Boys" tupiniquins farão agora? Votarão para a Faculdade para aprender sobre os ensinamentos de Keynes?

Responder

    Luís

    08 de maio de 2011 às 10h55

    E desde quando eles frequentaram uma faculdade, a começar pelo candidato dos bicudos?

    Carmem Leporace

    08 de maio de 2011 às 12h14

    Quem gosta de estudar mesmo é o Lula não é rapaz???

    Nunca estudou na vida a ainda se glamouriza da sua total falta de cultura…

    Pedro1

    08 de maio de 2011 às 15h09

    Nunca estudou na vida e fez o melhor governo da história do Brasil.

    Mário SF Alves

    08 de maio de 2011 às 21h13

    E ainda assim, a anos-luz de distância do que seria o ideal em termos de governança do Brasil!

    gustavo

    08 de maio de 2011 às 15h55

    Prefiro alguém que asuma que não tem curso superior, o que alguém que minta que possue!

    Bonifa

    08 de maio de 2011 às 18h43

    Lula passou toda a sua vida estudando. De moda independente, e não em colégios que ensinam as pessoas a serem assassinos capitalistas.

Alceu Gonçalves

07 de maio de 2011 às 20h30

Quanto à "nova postura" do fmi, somente da boca pra fora. Vejam as imposições que fizeram a Portugal, para que o mesmo seja merecedor da suada graninha dos especuladores. A velha receita do arrocho geral e em todas as áreas; trabalhista, fiscal, previdenciária e não se esqueçam portuguesada, privatizar tudo! Rato pode até perder os dentes, mas continua transmitindo doenças.

AlceuCG.

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    Luís

    08 de maio de 2011 às 10h57

    É aquele velho ditado: Raposa velha perde os pelos, mas não perde o vício.

SILOÉ -RJ

07 de maio de 2011 às 20h30

Antes tarde do que nunca…

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Leider_Lincoln

07 de maio de 2011 às 20h27

O FHC aquele líder cujas palestras valem 1penas 13% das do grande líder Lula, deve estar se perguntando: "Meus ateus, o que eu fiz"

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Artur Neto está de volta. E voltou com medo | Viomundo - O que você não vê na mídia

07 de maio de 2011 às 20h21

[…] E aqui para ler o texto em que um economista sugere que os Estados Unidos persigam o aumento da rend…   […]

Responder

A “crise” dos carrinhos. E a oposição com isso? | Viomundo - O que você não vê na mídia

07 de maio de 2011 às 19h26

[…] a hiperinflação. Afinal, não é sempre que um Nobel de Economia recomenda que os Estados Unidos sigam o exemplo do Brasil, atacando a desigualdade e dando mais poder de barganha salarial aos […]

Responder

augustinho

07 de maio de 2011 às 19h04

Gente, quem dorme de touca o lobo vai comer.!!!!!!!
mantega, E nosso bacen,prestar atençao nos sinais.
O Mexico, ele mesmo, até o prestimosoe prestativo Mexico, bem quietinho acaba de comprar pelo seu Banco central certa de 100 toneladas de ouro.! Se isso nao quer dizer nada, tem pais como china, russia e principalmente India vem fazendo o mesmo ha dois ou 03 anos. Isso é nova velha moeda de reserva de valor. A bolivia vem fazendo o mesmo com quantidades menores, é claro. O kpreço internacional da ONÇA…
multiplicou por 5 ou 6 mas mesmo assim, é comprar logo, nao precisa ter medo de onça.
E nós vamos continuar a entesourar papel pintado de verde, e SÓ ele e ainda por cima com isso financiando as guerras de agressão imperiais?

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PAULO P,

07 de maio de 2011 às 18h50

A QUEM POSSA INTERESSAR….

'Greece Considers Exit from Euro Zone'

A COISA ESTA FEDENDO….
http://www.spiegel.de/international/europe/0,1518

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    Mário SF Alves

    08 de maio de 2011 às 21h17

    "SPIEGEL ONLINE has obtained information from German government sources knowledgeable of the situation in Athens indicating that Papandreou's government is considering abandoning the euro and reintroducing its own currency."
    É… tá chegando a hora da onça-troy beber água!

luiz pinheiro

07 de maio de 2011 às 18h41

Parece ser boa hora para o Paulo Nogueira Batista Junior escrever para nos informar a respeito.

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Roberto Locatelli

07 de maio de 2011 às 16h55

Sei, sei, o FMI fez seu encontro "de primavera". Primavera de quem, cara pálida? Eles continuam se achando o centro do mundo.

Responder

    SILOÉ -RJ

    07 de maio de 2011 às 20h21

    Eles não se acham, eles são pelo menos por enquanto…
    Uma nova ordem mundial já começa a se desenhar e foi reforçada com a morte do bin Laden.
    Os paises mulçulmanos em sua maioria ainda detem o petróleo e por mais conchavos que se faça, a religião deles agora, falará mais alto.
    Vamos aguardar…

Armando S Marangoni

07 de maio de 2011 às 16h41

Os senhores que brincam com o cenário julgando-o um fato consumado podem estar também a um passo de, vamos dizer, quebrarem a cara.
Desde quando um acadêmico, laureado ou não, principalmente da área da psicologia de mercados, hoje também conhecida como economia, consegue algum avanço na limitação da avidez dos especuladores? O mundo é deles, sempre foi e, na ausência de milagres duradouros, sempre será.

Responder

Maria Auxiliadora

07 de maio de 2011 às 15h19

only with money

Responder

Yes we créu !!!

07 de maio de 2011 às 14h27

O filme poderia se chamar "In Navy Seals we trust. All others bring cash".

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    07 de maio de 2011 às 14h36

    We accept checks…

    marisa

    07 de maio de 2011 às 16h06

    Since it has appropriate cover…

    Mário SF Alves

    08 de maio de 2011 às 21h21

    Yes, they can, but "until then"?


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