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Sérgio Augusto: A vitória de Petra Costa em Hollywood
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Política

Sérgio Augusto: A vitória de Petra Costa em Hollywood


10/02/2020 - 10h29

Mesmo sem levar o Oscar, Petra Costa já venceu

Sérgio Augusto, no twitter, em 08.08.2020

Com a entrega dos Oscars já dobrando a esquina e a possibilidade, ainda que remota, de Democracia em Vertigem levar uma estatueta, a desinformação e a má-fé se deram as mãos e invadiram as mídias impressas e digitais, seu trottoir de eleição.

A desinformação de quem ignora a elasticidade do gênero documentário e crê ingenuamente em sua mítica imparcialidade; a má-fé de quem se aproveitou do filme de Petra Costa para exorcizar seus demônios, vestir a carapuça de golpista ou isentão, que até hoje insistem em negar o que o primeiro beneficiário do golpe e um de seus artífices, Michel Temer, já admitiu ter ocorrido.

Em pleno fastígio da polarização político-ideológica incendiada pelo sucessor de Temer, um filme abertamente impressionista sobre o Brasil de ontem e hoje virou saco de pancada da ultradireita, sobretudo desta, vilã insofismável do putsch parlamentar que derrubou Dilma Roussef quatro anos atrás.

As tais “pedaladas fiscais”, na época apontadas como a causa mortis do seu governo, foram nesta semana rebatizadas “dribles” pelo jornal Valor Econômico, numa reportagem sobre o rombo de R$ 55 bi no teto de gastos do governo em 2019.

As modalidades esportivas mudaram, a metáfora ainda é a mesma.

Os elogios que Democracia em Vertigem recebeu e ainda recebe, aqui e no exterior, superaram amplamente as críticas e os insultos, muitos bem pesados e beirando a boçalidade, que nos últimos dias lhe foram dirigidos.

Esse desequilíbrio a seu favor não conta voto na Academia de Hollywood, de resto já recolhidos àquela inviolável pasta da Price Waterhouse, a ser aberta amanhã (domingo, 08/02) à noite, mas gratifica o ego da diretora e lava a alma de seus apreciadores, entre os quais me incluo, mesmo fazendo-lhe algumas restrições.

Não existe filme imparcial, neutro, seja ele de ficção ou documentário.

A verdade no cinema, mais que uma utopia, é uma falácia.

A angulação da tomada já é uma interferência no real, uma escolha subjetiva.

Elementar, meu caro Watson Macedo.

Um documentário confessional, quase um diário ou um livro de reminiscências assediadas por perplexidades e incertezas, como é Democracia em Vertigem, não merece ser medido com o rigor de quem avalia um ensaio de cunho histórico.

Tem viés ideológico? Tem.

Qualquer obra cinematográfica tem, mais e menos pronunciado.

Não pretendia ser um agit prop petralha; mas se, por força das circunstâncias, virou um filme aparentemente simpático aos perdedores, o principal culpado é o governo desastroso do capitão.

Democracia em Vertigem poderia apresentar uma visão bolsonarista de nossa história recente; felizmente não o fez.

Se o fizesse, a única academia que o consagraria seria a das Agulhas Negras, que, como se sabe, não premia filmes.

Não quero relativizar coisa alguma.

Tirantes certos detalhes, a meu ver irrelevantes (procurem no Google o significado da expressão “catar pulga em leão”), o filme de Petra Costa reproduz na tela o essencial da escalada neofascista que há oito meses contemplamos com nojo e horror diariamente renovados.

Ninguém nos contou, nós vimos e vivemos aquilo tudo.

Está tudo gravado, documentado. E ainda fresco em nossa memória.

“Com seu fluir tranquilo, narrado por uma voz que nada tem de assertiva ou panfletária, o filme nos passa a sensação da inevitabilidade, de um monstro movido por inércia, que nada nem ninguém poderia deter ou tirar do seu rumo”, escreveu Luiz Zanin Oricchio, no Caderno 2 do Estadão, em junho passado.

Se a voz não fosse da própria autora, desqualificá-la como “chatinha” seria apenas um juízo de valor, não uma objeção inoportuna, com viés de implicância.

A uma entrevista de Petra Costa na TV americana, serenamente contundente e sem qualquer acusação que não seja do conhecimento público, burocratas do governo, sicofantas de sua base parlamentar e o que sobrou dos bolsominions arrependidos desencadearam uma blitzkrieg digital com quase indistinta diferença entre os que gritavam “mata!” e os que gritavam “esfola!”.

Com uma hashtag sufixada com um “liar” (mentirosa, em inglês), Petra foi acusada de espalhar calúnias lá fora, de ser uma “militante anti-Brasil” e outras injúrias que são, notoriamente, uma especialidade de B*ro.

Marco Feliciano, um fariseu evangélico atolado em casos de corrupção e nostálgico da ditadura militar, chegou a pedir o enquadramento da cineasta na Lei de Segurança Nacional.

Quando o chefe da Secretaria de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten, utilizando-se de um perfil oficial, sustentado, assim como ele, com os nossos impostos, soltou um vídeo abjeto e tuitou calúnias a respeito da entrevista, só os muito distraídos não se deram conta de que ele estava tentando, mais do que executar ordens, desviar a atenção das denúncias de corrupção, pelo MP, que ganharam destaque nos jornais do dia seguinte.

Acusar Petra de difamar o Brasil lá fora é minimizar o que o presidente mais tem feito, inclusive de corpo presente, desde que assumiu.

Qualquer dano que ela e seu filme possam causar à reputação do país terá o mesmo efeito que teria um bombardeio da cidade alemã de Dresden pelas forças aliadas depois do dia 15 de fevereiro de 1945, quando ela já estava em ruínas. Ou um oitavo gol da Alemanha, na Copa de 2014.

Imaginem o que teriam feito com Petra Costa se ela tivesse repetido, literalmente, as litanias contra o povo brasileiro que, poucas horas depois, um telejornalista mais desacreditado que João de Deus regurgitou em seu canal no You Tube, na presença do presidente, que o endossou entusiasticamente e ainda repercutiu a afronta em sua rede social.

Alguém comparou o escarcéu de Wajngarten à retórica persecutória do governo Médici, que a todas as denúncias de torturas cometidas pela ditadura militar reagia com o mesmo bordão: Fulano “difama Brasil no exterior”.

Fizeram isso com o bispo Dom Helder Câmara, entre outros. Petra Costa é a inimiga expiatória da vez.

Sérgio Augusto é jornalista, crítico de cinema e colunista semanal de O Estado de S.Paulo.

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5 comentários

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Zé Maria

11 de fevereiro de 2020 às 16h33

“O filme da Petra incomoda a consciência de uma geração de jornalistas
que tem de se olhar no espelho e se perguntar onde estava para se permitir
ser usada como correia de transmissão de um projeto de poder que manipulou
a Justiça e a imprensa, colocando nossa democracia em risco”
https://twitter.com/KennedyAlencar/status/1224779492738072585
“Não consigo normalizar o que está acontecendo no Brasil.
O governo atacou a Petra, mas já cansou de atacar jornalistas e os veículos.
Até quando brincaremos de democracia?”
https://twitter.com/KennedyAlencar/status/1224779493585379330

Jornalista Kennedy Alencar

Responder

Zé Maria

10 de fevereiro de 2020 às 22h02

“Democracia em Vertigem ñ levou o Oscar, mas levou p/ o mundo a qualidade e competência de nosso cinema e da jovem cineasta.
Mostrou o golpe no Brasil e a ascensão da extrema direita.
Parabéns Petra!
Foi um oásis p/ o Brasil num deserto de vergonha q temos passado perante o mundo”

Deputada Federal Gleisi Hoffmann (PT=PR)
Presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT)

https://twitter.com/gleisi/status/1226820454024912896

Responder

Zé Maria

10 de fevereiro de 2020 às 19h20

https://pbs.twimg.com/media/EQYaKYFWsAAP_qw?format=jpg&name=small

“VIVA O CINEMA BRASILEIRO! VIVA AS MULHERES NO CINEMA!
Mesmo sem Oscar, Petra foi gigante,
o documentário “Democracia em Vertigem” fez história
e mostrou ao mundo o golpe contra a democracia no Brasil.”

https://twitter.com/MidiaNINJA/status/1226696729011130373

Responder

Zé Maria

10 de fevereiro de 2020 às 18h29

https://i.ytimg.com/vi/PmBdLMdGaaY/maxresdefault.jpg
https://s2.glbimg.com/lCifN88H5W98r-D-woc2-riGa-M=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/02/07/83060286_205790303938525_3533763780032236337_n.jpg
Elas Venceram com Talento, Resiliência e Sensibilidade
https://media.giphy.com/media/ZdCD4w4Tae8VmMEqLm/giphy.gif
https://uploads.metropoles.com/wp-content/uploads/2020/01/31133944/petracostal_82001129_410475653075727_7325105077755064549_n.jpg

https://f.i.uol.com.br/fotografia/2020/01/28/15802212155e30431f67346_1580221215_3x2_md.jpg
E, por uma Noite, a Sensatez e a Arte venceram a Barbárie
https://br.web.img3.acsta.net/newsv7/20/01/28/23/30/3090072.jpg
https://s2.glbimg.com/UGLZV7udwKyejhRBbEoPy8Z302o=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/01/28/83022929_591638241630093_5229771000929075545_n.jpg

“Workers of the World, united”
“Trabalhadores do Mundo, uni-vos!”
Julia Reichert, Diretora de “American Factory”,
Citando o “Manifesto Comunista”
de Karl Marx & Friedrich Engels.
https://www.facebook.com/MidiaNINJA/videos/269190044044376/

#DemocraciaEmVertigem não levou o Oscar.
Mas a diretora de American Factory,
que saiu vencedor, terminou seu discurso
com um “trabalhadores do mundo: uni-vos!”.
O Cinema segue sendo Resistência.
Parabéns @petracostal e toda equipe.
Vocês foram incríveis!”

https://twitter.com/julianopsol50/status/1226693330387505153

Os Nazi-Fascistas se deram mal:
Ganhou o Manifesto Comunista !
De Karl Marx & Friedrich Engels !

https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcQVKPJT2R0fgL-ax5iZJrjiGNq8jGt9FaDg_hjI3Z7_OnxpBHHU
https://s2.glbimg.com/JKtHTMnmHQfSgvXIN-Dunm4TbMM=/620×438/smart/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2020/02/09/equipe_do_democracia_em_vertigem_pronta_para_o_oscar_2.jpg
https://conteudo.imguol.com.br/c/parceiros/e6/2020/02/09/petra-costa-direto-da-cerimonia-do-oscar-em-entrevista-ao-fantastico-foto-reproducaotv-globo-1581301628856_v2_300x225.jpg
https://youtu.be/sO6TySzyygE
“No Meio do Caminho tinha uma Petra”
“Tinha uma Petra no Meio do Caminho”
do Golpe da Rede Globo de Televisão
https://twitter.com/JanesJorge/status/1224463255982264320
https://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/807509/
https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcS8goBs4heDL7rgYgzHlCMFrvS3mAAQkTp9rdXmu_JoNaSxgjQF

Responder

Zé Maria

10 de fevereiro de 2020 às 15h40

Como se escreve a história de um país?
No dia em que Petra @petracostal espera o Oscar,
um miliciano investigado pelo assassinato de Marielle
foi morto.
O filme nos pega pela mão para entendermos o dia de hoje.
https://twitter.com/Debora_D_Diniz/status/1226562085758406657

Brasil, a História em Vertigem

Descrever Petra Costa como ‘militante’ não é um gesto ingênuo de Bolsonaro
Na novilíngua dos regimes autoritários, militante é palavra suspeita para
descrever o inimigo.
Por isso, convocar Costa como uma voz ‘anti-Brasil’ é um convite ao ódio.
Para os que vivem a política com o espírito da ‘polarização’, inimigo é alguém
a ser eliminado e para vencê-lo não há respeito às regras civilizatórias da verdade.

Por Débora Diniz* e Giselle Carino**, no El País BR: https://t.co/cKP1nPe0ER

“Como se escreve a história” é uma obra de Paul Veyne dos anos 1970.
O “como” do título não é uma pergunta, mas o desvendamento de um segredo.

Os historiadores escolásticos responderiam que a pesquisa em arquivos precede a escrita da história.

Fugiriam da pergunta sobre o “como” e escapariam listando suas “fontes”:
livros, documentos, artefatos, fotografias, diários, cartas ou entrevistas.
É isso que Petra Costa faz: revira os arquivos da história recente do Brasil,
desde a ditadura militar até a emergência do bolsonarismo, e apresenta
uma narrativa.
“Democracia em Vertigem” está na lista dos cinco finalistas para o Oscar de melhor documentário.

Nas últimas semanas, Costa peregrina por televisões, jornais e debates públicos sobre o filme.
Suas entrevistas são atípicas para uma artista a poucos dias da cerimônia do Oscar:
quase não se discute as escolhas estéticas, os desafios de captura das imagens
no instante dos acontecimentos ou a brutalidade da montagem de um arquivo
de longa duração.
O tema das conversas é quase sempre o mesmo:
“O que se passa na democracia brasileira?”.
De diretora de um documentário, Costa é ouvida como uma brasilianista-brasileira que explica o que foi a Operação Lava Jato, como é um processo
de impeachment no Brasil e suas diferenças para os Estados Unidos,
como se deu a colonização evangélica na política ou a crise na Amazônia.

Sua entrevista ao canal PBS, nos Estados Unidos, provocou a fúria do presidente Jair Bolsonaro, que a descreveu como ‘militante anti-Brasil’ em canais oficiais
de comunicação do Governo.
É sabido que a arte intimida os regimes políticos autoritários.
E Costa é mesmo uma personagem assustadora: é a escrita da história pelas
lentes e voz de uma mulher.
É o autoritarismo patriarcal que se encurrala com o palanque global conquistado
pela mulher que enquadra um país numa narrativa.
Não é simples desdém estético os que ironizam da suavidade de sua voz como narradora do filme.
A voz que narra não é o abstrato “voz de deus” dos documentários pedagógicos que ensinam o que os comuns ignoram.
A voz chega antes de seu corpo, e sua biografia familiar se esmiúça às das elites
do país que alçaram ao poder um personagem fanático.

O filme é um documentário, uma classificação antes política que estética.

Qualquer documentário é um enredo sobre o real a partir de um ponto de vista.

Há autoria e, no caso de um filme, com narradora, não há como esquecer-se
de quem fala.
É assim que a voz de Costa é um convite à autenticidade e à honestidade autoral:
sabemos quem escreve a história e por que essa história importa desde
sua própria gênese individual e familiar.

Com menos transparência biográfica, é também assim na história impressa
em livros — Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado; Raízes do Brasil,
de Sérgio Buarque de Holanda; ou Brasil: uma biografia, de Heloisa Starling
e Lilia Schwarcz são narrativas sobre o Brasil.

Ter um ponto de vista, ou uma vista para o ponto, como gostam de provocar
as feministas na epistemologia da ciência, não é apossar-se da liberdade ficcional
para falar sobre o real ou mesmo resvalar-se para o campo ideológico:
é assumir-se como uma narradora desde uma geografia específica da vida.

Costa é autora de uma história sobre a política brasileira e lhe interessa
particularmente entender o momento em que as “sementes do fascismo”
brotaram nas ruas com os movimentos de 2013.

Descrevê-la como ‘militante’ não é um gesto ingênuo.
Na novilíngua dos regimes autoritários, militante é palavra suspeita para
descrever o inimigo.
Por isso, convocar Costa como uma voz “anti-Brasil” é um convite ao ódio.

Para os que vivem a política com o espírito da ‘polarização’, inimigo é alguém
a ser eliminado e para vencê-lo não há respeito às regras civilizatórias da verdade.
Assim foi com o ex-deputado Jean Wyllys, hoje, no desterro pelo fanatismo bolsonarista.

Mas enquanto peregrina como tradutora do Brasil, Costa não se silencia.
Em uma das entrevistas, perguntada se teme perseguição do Governo brasileiro
pelo filme, sua resposta é a de quem sabe o lugar da história para a democracia:
“Eu espero um país melhor”.

O filme já é parte da memória e se transforma em argumento
para a transformação política.

*Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown. **Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR.

https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-02-07/brasil-a-historia-em-vertigem.html

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