VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Rodrigo Vianna: O fascismo assustador do século 21


21/05/2013 - 19h23

Contra os gays e contra os imigrantes

Fundamentalismo no coração da Europa

publicada terça-feira, 21/05/2013 às 19:43 e atualizada terça-feira, 21/05/2013 às 19:41

por Rodrigo Vianna, a partir de indicação de @nilsonlage, no Escrevinhador

A notícia é manchete no portal do “Le Monde” – mais tradicional jornal francês: um fundamentalista se suicidou na França. E o gesto teria conotações políticas. Os mais apressados devem ter pensado: trata-se de um muçulmano desesperado, mais um na imensa diáspora de imigrantes árabes em Paris? Afinal, a imprensa ocidental acostumou-se a fazer a relação: “fundamentalismo”/muçulmano.

Só que a notícia é surpreendente e deve provocar arrepios entre os velhos liberais franceses: o gesto extremo foi de um francês. Um militante da extrema-direita francesa. Sim. E o mais impressionante: ele se suicidou dentro da Catedral de Notre-Dame. A seguir, as informações, traduzidas (com meus parcos conhecimentos de francês) do portal do “Le Monde”.

Dominique Venner, ensaísta e historiador de extrema-direita de 78 anos, antigo membro da Organização Armada Secreta (OAS), cometeu suicidio nesta terça-feira, dentro da catedral de Notre Dame, em Paris. Ele tombou, sem dizer uma palavra, atrás do altar, depois de dar um tiro na boca, por volta das 4 da tarde. Um segurança chegou a fazer massagem cardíaca. Monsenhor Patrcick Jacquin, responsável pela catedral, disse que Venner deixou uma carta sobre o altar: “Era uma cena apocalíptica, nunca vista aqui“, disse Jacquin para a imprensa.

O ministro do Interior francês disse que o suicídio aconteceu quando havia 1.500 pessoas na catedral, que é – segundo ele – “um dos símbolos de Paris e de nosso país”.

O objetivo de Venner parece ter sido este mesmo: um gesto extremo, num lugar simbólico para o catolicismo francês.

Marine Le Pen, dirigente da “Frente Nacional” (partido da extrema-direita francesa, fundado pelo pai dela), logo se manifestou no twiter qualificando o suicídio como “um gesto político”.

Antigo militante da extrema-direita, Venner foi paraquedista durante a Guerra da Argélia, e lutou para que o país africano seguisse sendo uma colônia francesa.

O site do “Le Monde” informa que Venner teria deixado uma outra mensagem, em que diz amar a vida, a mulher e os filhos, mas que julgou necessário “o sacrifício para romper a letargia”. O ensaísta acha que é preciso mostrar as ameaças contra a “família” e “nossa multimilenar civilização” – numa referência à cultura tradicional francesa.

A direita francesa tem feito grandes manifestações contra a lei que aprovou o casamento gay no país. Venner escreveu que não basta combater o casamento gay. Para ele, o inimigo principal seria o Imigrante (esse grande “outro”, ameaçador, que toma o lugar do judeu na mitologia do fascismo francês). A imigração de árabes (que, em sua maioria, professam fé muçulmana) é vista pela direita como ameaça à identidade da chamada “Civilização Européia”.

No próximo dia 26 (domingo), uma grande marcha foi convocada pela extrema-direita e por grupos cristãos tradicionalistas. O gesto extremo de Venner pod ser lido como uma tentativa de mobilizar os militantes ultraconservadores e xenófobos.

O ato de Venner mostra que o fundamentalismo chegou ao coração da Europa. Ou, talvez, tenha estado sempre ali – feito o monstro da lagoa que de repente vem à superfície.

O professor e jornalista Nilson Lage, pelo twitter nesta terça à tarde, comentou: “Espetacular suicídio: monge tibetano? Militante árabe? Não. Um católico fundamentalista homófobo francês”. E, mais tarde completou: “É bom lembrar que a França é o berço dos primeiros grandes teóricos do fascismo no Século XX: Le Bon, Maurras e Sorel.”

O site Opera Mundi lembrou que Venner deixou um último texto em seu blog, com indicações do que considera os próximos passos para mobilizar a extrema-direita:

Em seu texto, ele criticou toda a classe política, com exceção do partido de extrema-direita Frente Nacional. “Após 40 anos, os políticos e governos de todos os partidos (salvo o FN), além dos empresários e da Igreja, trabalharam ativamente para acelerar de todas as maneiras a imigração dos afro-magrebinos”, escreveu.

Segundo ele, “são necessários gestos novos, espetaculares e simbólicos para fazer agitar essa sonolência chacoalhar as consciências anestesiadas e despertar a memória para as nossas origens”.

Verdade que Paris tem como um dos seus símbolos o lindo prédio do Instituto da Cultura Árabe. Prova de que boa parte dos franceses (e, sobretudo, o Estado francês) tem conseguido incorporar os traços de outras culturas. Mas há uma outra França que se agita: a mesma que deu as boas-vindas a Hitler nos anos 40. A França de Vichy, dos colaboracionistas. A França fascista.

Assustador? A história não se repete, ok. Mas já vimos filme parecido nos anos 20/30 – em meio a crise econômica tão severa como a atual.

PS do Rodrigo Vianna: Na versão inicial desse texto, havia referências a fundamentalismo “católico”; mas alguns leitores me alertaram para o fato de que não haveria ligação entre Venner e o catolicismo. Fiz a correção.

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27 comentários

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Bonifa

22 de maio de 2013 às 17h31

Este suicídio não vai parar a invasão de imigrantes na Europa. Lenta e gradualmente, eles virão de todo o mundo hoje considerado pobre. Vão se misturar à população local local e vão predominar sobre ela. Porquê? Porque é um movimento milenar da Humanidade em marcha, basta ler Toynbee e Ibn Kaldun para entender. A cultura europeia se esgotou, e uma cultura nova está prestes a surgir na Europa, onde o predomínio será dos imigrantes. Eles têm vontade de viver, não estão destroçados interiormente pelo niilismo neoliberal. Acreditam na vida e têm fé sincera. Nos Estados Unidos, a mesma coisa acontecerá.

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Pedro Macambira

22 de maio de 2013 às 17h17

Nas diversas doutrinas cristãs, suicídio é a vitória final do Satanás sobre o homem. Uma pena o que fez este senhor. Tanto em vida, mas principalmente para morrer. O seu fim é a prova de que tinha muita sujeira no coração, assim como os seus partidários.

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Elvys

22 de maio de 2013 às 11h21

Bem, vou remar contra a mare: ninguem pensou que o cara pode servir como martir para a causa dos neofacistas? Pensem seriamente sobre isso. Ou duvidam que na proxima manifestacao da extrema direita francesa, vao apresentar fotos e faixas lembrando o “sacrificio” do nobre professor?

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Malvina Cruela

22 de maio de 2013 às 10h43

sejamos sinceros..ter de escolher entre esquerda e direita é como ter escolher quem levar pra casa: Drácula ou o lobisomem..ter câncer ou aids,
ou como a grande polemica das crianças de minha época: melhor morrer afogada ou queimado???

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    Alexandre Maruca

    22 de maio de 2013 às 14h18

    Sinceramente, não concordo. Certamente o lobisomen frequenta sua casa.

hugo

22 de maio de 2013 às 10h00

É uma pena quem tão poucos idiotas como Venner tenham coragem de dar fim à própria vida. Essa é a única contribuição que essas bestas podem dar para que o nosso mundo se torne um lugar melhor.

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Narr

22 de maio de 2013 às 09h56

Quero manifestar meu total apoio ao nobre gesto de Monsieur Venner. Que seu ato desprendido seja imitado por todos os que endossam tão valorosa causa.

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Julio Silveira

22 de maio de 2013 às 08h04

Infelizmente não deveriamos estranhar o fascismo em pleno andamento do seculo XXI, já que costumamos enraizar em nossos DNAs culturas comprovadamente egoistas e desumanas. E não necessitamos ir muito longe para encontrá-las, basta veriricar que mesmo aqui no Brasil, temos um exercito (pequeno é verdade) de mestiços, que se dedicam ao facismo, a doutrina nazista e a tantas outras que religiosamente pregam , aprofundamento das diferenças, como se houvessem diferenças. Que na falta de culpar imigrantes, por termos poucos ainda, culpam nordestinos, negros, gays, ou qualquer outros seres que essa turma de desajustados, de infancia, nomeiem causadores da causa de suas infelicidades. Aqui dentro de nosso País muita gente insuspeita é fascista. Quando vejo essa campanha contra o Bolsa Familia por exemplo, sem a mesma contundência, ou virulencia na contraparte Bolsa Midia, Bolsa 10%, Bolsa CCs(cargos em comissão), fica estampado um facismo camuflado em nosso país.

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Roddrigo

22 de maio de 2013 às 08h00

É incrível como o revolucionário, ativo, festivo ou passivo tem como norma a inversão da realidade dos fatos. Mesmo com as grandes mudanças que se vê hoje na sociadade: aborto, casamento gay, direitos humanos, restrições ao funcionamento do capital entre outras – em breve a pedofilia – o cara reclama que existe alguém contra, que não é unanimidade, que um cara se matou para tentar chamar atenção. É incrível. Não pode haver ninguém contra, se houver será considerada tentaiva de golpe. É uma boa estratégia se fazer vítima quando se é o algoz. Convence aos idiotas.

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    rodrigo

    22 de maio de 2013 às 15h49

    Xará, seria legal você tentar clarear um pouco mais teu raciocínio. Tá osso pra entender essa enxurrada de impropérios eufemísticos. Como eu sou super bonzinho, te dou até uma dica: “bando de comunistas safados, sem vergonhas, barbudos, pilantras e fedidos”. Que tal?

Ted Tarantula

22 de maio de 2013 às 08h00

A França não serve de exemplo…pegue o grande documentário sobre a ocupação nazista nesse país Le Chagrin et la Pitié e veja com atenção…a lei nazista previa a prisão e deportação apenas de inimigos (judeus, comunistas, gays, ciganos…) maiores de 14 anos..os franceses colaboracionistas prendiam e deportavam para os campos da morte crianças de qualquer idade, sem qualquer distinção…os franceses são mais nazistas que os alemães.

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Gerson Carneiro

22 de maio de 2013 às 03h10

Há uma rede enorme de rádios e TVs nas mãos de gente que odeia o PT espalhada pelo interior do Nordeste. A coisa mais fácil é plantar terror na população nesses lugares. Não tem como fiscalizar. E vem aí a Copa do Mundo. Oportunidade de ouro para os sabotadores sacanearem, como por exemplo desligar a energia elétrica, espalhar terror em aeroportos…. bem ali na véspera da Eleição.

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simas

22 de maio de 2013 às 01h15

Senhor Vianna, com dois “enes”, risos… Eu já estou em dúvida, q de assustador, seria. O fascismo europeu; ou a crise vivida. Pq, meu velho, eu vejo duas coisas… A Europa é a grde pátria do fascismo; qto a crise financeira é forânea, forasteira. Produto de exportação; não de importação.
Sabe? eu, no meu fraco entendimento, fico a pensar se não seria o fato União Européia, o dado obscuro do problema. Se cada um por si, ficaria difícil conduzir uma questão; agora, a Europa unida, fácil controlar… Qdo se impõe uma austeridade, fascista, à União… fica meio difícil, conduzir a solução redutora de ganhos sociais; significando, até, um ataque, direto, à União e sua sobrevivência. Agora, então, o q está em jogo, é a manutenção de unidade, maior ganho no continente, desde sempre.
Por isso, percebo q o assustador seria a dissolução da União Européia. Justo, pq o fascismo já é hipótese, constante, européia.
Guerras e fascismo, sempre assistimos e deploramos na velha Europa. A União seria o nó no q de peçonhento, o fascismo poderia provocar.
Estou correto, não?
Abraço, fraterno

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Delmo Arguelhes

21 de maio de 2013 às 22h43

OAS, Organisation d’lArmée Secrète, seria melhor traduzido como Organização do Exército Secreto. Foi um grupo paramilitar / terrorista de extrema direita que objetivou primeiro impedir a independência da Argélia, depois o objetivo passou a ser assassinar De Gaulle. Congregava militares franceses e pieds noirs (colonizadores franceses do norte da África).

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Urbano

21 de maio de 2013 às 22h00

Se o caso tivesse ocorrido nos isteites, certamente viraria moda, como os trucidamentos…

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Lóki

21 de maio de 2013 às 21h40

Que se matem todos ! Racistas nojentos !

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    Mardones

    22 de maio de 2013 às 09h44

    Tomara que a moda pegue por todo mundo. Assim nos livraríamos dessas pestes. Menos um infeliz no mundo.

Fernandes

21 de maio de 2013 às 21h08

Penso que todos da mesma linha política devam seguir o exemplo do francês… Seria ótimo.

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Fabio Passos

21 de maio de 2013 às 20h38

A Europa esta mergulhada na crise e sem perspectiva de curto prazo para recuperacao.

A esquerda abdicou de sua tarefa historica de construir uma sociedade sem classes… e serve ao regime. Serve a burguesia.

Se a populacao nao encontrar representantes populares, que defendam realmente os interesses da maioria trabalhadora, pode cair na armadilha fascista.

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    simas

    22 de maio de 2013 às 00h27

    Fábio, vc acha, realmente, q a esquerda abdicou de suas responsabilidades e trabalha em consonância com a classe, burguesa?
    Eu já entendo q não se trata de uma abdicação. É q o trabalho foi feito, pra se retomar o poder. Isso, feito; olhou-se para os lados e se concluiu q não existia campo de manobra, política. Q o envolvimento (econômico-financeiro) foi, mesmo, bem feito e pegou à todos, tremendamente endividados. Culpa de quem? Da própria esquerda q se deixou seduzir, bem antes. Tdo bem; a Alemanha está no vermelho, igualmente. Todavia, não vive problemas sociais experimentados pela França. Além de tudo, é conservadora, de pai e mãe… enqto a França vive sob pressão, generalizada. Ora no fundo, a mim, parece, o objetivo está sendo cumprindo. A Europa está empobrecida. circunscrita numa crise social e de valores; ainda, sem horizontes. A Alemanha, conservadora, agarrada à hegemonia, aparente, dita ordens… recebidas.
    Vc não acha q, no Brasil, vivemos melhores momentos, não? Pelo menos existe uma margem de manobra para a atividade do Gov Progressista; neh? Tdo bem, aqui, não se consegue mudanças, consistentes, como aquelas das velhas Reformas de Base… Aqui, a atividade governamental balança entre a esquerda e a direita… Parece. Mas, é q não existe margem, maior e segura, de manobra. Se bobiar, cai no raiar do outro dia…
    Parecido, na França. Só q, por lá, não existe essa, de poder circular por caminhos, q lhes dê ganho político. Por isso, o sentimento de desencanto com o governo, esquerdista.
    Abraço, fraterno

O Brasil vai mal, diz jornal de continente falido pela austeridade - Viomundo - O que você não vê na mídia

21 de maio de 2013 às 20h29

[…] Rodrigo Vianna: O fascismo assustador do século 21 […]

Responder

Dialética

21 de maio de 2013 às 19h54

Nem ligo.

No Brasil pode haver um fascista em cada casa, em cada esquina, ou dentro de um jornal, ou dentro de uma universidade, ou ao teu lado no trabalho, mesmo que não o saibam ou não se considerem. É só passar o teste e ver.

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Luís Carlos

21 de maio de 2013 às 19h39

Aqui também temos fascistas. Alardear boatos mentirosos sobre a suspensão dos pagamentos do bolsa família é dessa mesma ordem, dentre os que defendem a redução da maioridade penal, que criticam as vacinas em populações carcerárias, atacam gays, matam travestis, atacam negros, etc. Temos muito disso por aqui.

Responder

Gerson Carneiro

21 de maio de 2013 às 19h37

Estou preocupado com Jair Bolsonaro. Será que ele vai seguir o exemplo?
Não o deixem ler esse post.

Responder

    Osvaldo

    21 de maio de 2013 às 20h30

    Gerson,

    Já fiz minha parte e enviei para ele, inclusive, o material no texto em original e a tradução, além dos diversos comentários e aplausos fascistas de apoio ao gesto do Venner postados no site da Frente Nacional.Imagine o potencial de capas de jornais e manchetes pelo Brasil afora se ele realmente fosse macho de fazer isso.

    Jhonatan Queiros

    22 de maio de 2013 às 16h58

    Cuca frequenta sua casa!
    No lindo mundo da imaginação com a xuxa.


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