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Rodrigo Vianna: Bolsonaro dá mais sinais de que aposta na ruptura; Moro e Guedes viram sócios na estratégia
José Cruz/Agência Brasil
Política

Rodrigo Vianna: Bolsonaro dá mais sinais de que aposta na ruptura; Moro e Guedes viram sócios na estratégia


17/06/2019 - 14h02

Bolsonaro dá mais sinais de que aposta na ruptura

Moro e Guedes viram sócios na estratégia de construir um governo “anti-sistema”

por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador

O escândalo da #VazaJato não foi o único movimento importante a mostrar o rearranjo das forças que apoiam o governo de Jair Bolsonaro.

Na mesma semana, o presidente fritou Santos Cruz (representante da ala militar não extremista, o general foi demitido da Secretaria Geral de Governo por se recusar a abrir os cofres estatais pra financiar o olavismo) e humilhou Joaquim Levy (liberal e privatista, o economista foi afastado do BNDES por não instalar uma caça às bruxas no banco, como pedem os bolsonaristas radicais, incluindo Paulo Guedes).

Os dois últimos episódios indicam que Bolsonaro caminha para se “encastelar” num governo minoritário (com apoio de 25% ou 30% do eleitorado), que prioriza o discurso do “contra tudo e contra todos” e do combate ao “sistema” e aos “políticos”.

Um governo que não vê problemas em criar arestas com militares e empresários, acreditando que a postura beligerante o credencia como único representante orgânico da direita.

Fica evidente que o fim desse processo é crise institucional grave. Todos sinais apontam nesse sentido.

Importante também é notar que Sergio Moro, que tinha agenda própria e imagem até mais ampla do que a de Bolsonaro (o ex-juiz dialogava com o centro liberal e até com setores da esquerda udenista), passa agora a ser sócio da mesma lógica anti-sistema.

Moro se desmoralizou de forma definitiva entre formuladores e operadores do Direito.

Perdeu apoio também na mídia (com exceção da Globo, temerosa pelo que os vazamentos possam revelar sobre os intestinos da empresa).

E, para sobreviver, dependerá cada vez mais de um subtexto extremista e cínico que se espalha nas redes: “ah, dane-se a Constituição; o objetivo era destruir PT e Lula, então o juiz não podia seguir as regras normais”.

Moro passa a depender também da rede subterrânea de apoios de Bolsonaro, que produz um discurso infantilizado e violento no Twitter e no Whatapp.

É isso que permite ao ex-juiz trocar de justificativa diante das evidências claras de que manipulou a Lava-Jato: primeiro, disse que não havia “nada demais ali” nos vazamentos (reconhecendo autenticidade do material); depois, encampou a tese da Globo dos “hackers” a adulterar mensagens; agora, simplesmente afirma que não reconhece as mensagens vazadas.

A oscilação discursiva faz com que Moro mude de posição no debate: de juiz “correto” e sóbrio, passa a um político sócio do discurso da extrema-direita no Brasil.

Isso, talvez, lhe dê força para sobreviver ao escândalo, fabricando uma realidade paralela sob a lógica de que “ninguém prova que escrevi nada para os procuradores”.

E mesmo que fique essa dúvida, Moro se refugia na ideia de que estava cumprindo o que o antipetismo queria, ou seja, abrindo caminho para a derrota de Lula. Bolsonaro mesmo já disse isso, que Moro foi decisivo pra barrar o PT.

O ex-juiz, portanto, deixa de ser o “superministro” que legitima Bolsonaro. E vira um político legitimado pelo bolsonarismo.

O mesmo ocorre com Paulo Guedes. No dia em que o relator Samuel Moreira (PSDB) leu seu texto para a Previdência (mudando vários pontos da proposta original do governo, mas articulando os votos necessários pra fazer a reforma andar), o ministro da Economia partiu pra cima do Congresso.

Muita gente viu na ação de Guedes um movimento desastrado. Parece-me que não se trata disso.

O ataque ao Congresso e, ao mesmo tempo, a fritura de Levy jogam na linha do governo “encastelado”. A Capitalização pretendida por Guedes na Previdência (e enterrada no relatório de Moreira) é mudança tão radical e perigosa que só seria possível sob a égide de rompimento ou de “refundação” institucional. E isso hoje no Brasil só se faz à força.

Moro e Guedes passam a atuar nessa trincheira. O general Heleno, com seus murros na mesa, indica o mesmo caminho.

O quadro é grave e perigoso. E se aprofunda quando o presidente vai a um evento militar no sul do país e defende “o povo armado” (milícias?)…

A essa altura, já está claro que Bolsonaro não será capaz de entregar o que a maior parte do eleitorado esperava dele: um país mais seguro, com empregos de volta e serviços de mais qualidade na saúde e educação. Diante disso, só resta ao capitão fabricar inimigos, culpar o “sistema” e apostar no confronto.

Conta, pra isso, com o porão das Forças Armadas e das polícias, com os setores extremistas das igrejas evangélicas e com um lúmpen empobrecido nas grandes cidades que segue a acreditar no discurso fácil do bolsonarismo.

A economia não vai melhorar. No curto prazo, Bolsonaro tende a perder mais apoio… mas parece apostar nesse núcleo radicalizado que permitirá, logo mais à frente, partir para um tudo ou nada: ou Bolsonaro cai, ou fecha o regime e aprofunda o autoritarismo.

É isso o que indicam os movimentos aparentemente desconexos da semana que passou.

Do “lado de cá”, ou seja, entre os setores democráticos, há dois movimentos em paralelo:

– a centro-direita, liderada por Rodrigo Maia, rompeu qualquer ilusão de “pacto” e tenta avançar a agenda da Previdência (o que tira parte do discurso de Bolsonaro, de que o “sistema” não lhe deixa governar);

– a centro-esquerda segue a ampliar apoios nas ruas, incorporando setores moderados que parecem já enxergar o risco de Bolsonaro para a Democracia, para o bolso dos aposentados e para o futuro dos estudantes.

Esse duplo movimento indica que Bolsonaro chegará ao momento do “tudo ou nada” mais isolado do que a centro-esquerda.

Se minha aposta estiver correta, em seis meses ou um ano, viveremos uma grave crise institucional. E, para derrotar o campo extremista, será necessário construir uma ampla frente democrática.

O “Lula Livre” (ilude-se quem pensa diferente) só poderá se completar quando esse momento chegar, ampliando essa frente até setores da direita (no STF, no Congresso e na mídia) que em 2016 jogaram no golpe…

Há seis meses, eu diria que a extrema-direita teria mais chances de se impor num confronto assim.

Hoje, parece-me que a balança já pende – ainda que de forma leve – para o lado das forças democráticas. Será preciso luta, sabedoria e amplitude pra evitar o pior.

Este post foi modificado pela última vez em 17/06/2019 11:00

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7 comentários

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RICARDO DE FARIA GODINHO

18 de junho de 2019 às 09h12

A questão é saber o tamanho do quisto de extrema direita dentro das polícias e das Forças Armadas. Direitistas mais de noventa por cento deles são, não duvido. Mas se os extremistas-olavistas-bolsonaristas forem uma parcela relevante, não há possibilidade para a sobrevivência da Democracia, a não ser pela via armada, pela via da guerra civil, porque direitistas, de modo geral, ao longo de toda a História, se alinham e aliam aos extremistas de seu campo, de resto sempre muito mais organizados, do que com centristas ou esquerdistas.
Então, para que a Democracia sobreviva, é fundamental que setores da esquerda e da centro-esquerda, que no passado recente contruiu relações pessoais com os militares, comece a conversar com eles, ressaltando, com a maior veemência, que não querem cooptá-los para um contragolpe de esquerda, mas saber qual o tamanho desse quisto extremista e qual a disposição da maioria da oficialidade, se é apoiar os olavobolsonaristas ou garantir o apoio à manutenção da ordem constitucional e a ação dos demais poderes, que no caso de tentativa de golpe por Bolsonaro, devem prender e julgar o presidente, na forma da lei.

Responder

Edgar Rocha

18 de junho de 2019 às 02h02

Considerando o fato de que gente como eu, cidadão comum, costuma colocar o carro à frente dos bois e, por falta de informação mais clara, tende a levar a sério certas indagações conspiracionistas (vez por outra, corretas), tomo a liberdade para fazer a seguinte indagação: qual foi mesmo a razão pro apagão na Argentina e no Uruguai neste últimos dias? No domingo passado, senti os sintomas que precederam aquele apagão no Governo da Dilma: houve uma queda de voltagem momentânea e intermitente, seguida de alguns minutos sem energia. Teria ocorrido só aqui em Itaquera, onde moro?
O que me vem à cabeça (minha cabecinha maluca) é que bastaria um black out programado, uma leve “sabotagem” em Itaipú ou outras hidrelétricas importantes para, num certo horário do dia, e com apoio dos doidos bolsonaristas de plantão, implantar algumas horas de terror em metade da América Latina, incluindo aí o Sudeste brasileiro, toda a Argentina – de Macri – e o Uruguai. O caos que seria gerado por um ataque às grandes cidades sem energia elétrica talvez fosse a gota d’água necessária para o início de uma ação autoritária.
É meio maluca a ideia. Mas, maluco por maluco… A gente tem que tentar pensar como estes malucos que estão no poder. Limite eles não têm e todo mundo sabe disto.
Enquanto isto, o PCC anda quieto demais. Pelo menos, ações orquestradas deixaram de ser veiculadas em manchetes nestes últimos dias. De que lado estão? A julgar pela proximidade com as milícias, tendo a achar que poderiam ser um reforço ao conservadorismo, caso ele precise. Espaço pra barganha há e muito.
Bom, é isto.

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abelardo

17 de junho de 2019 às 21h38

O que me parece estar acontecendo e muito pouco comentado é que toda a atuação de Bolsonaro, desde a sua posse, nada mais é do que um planejado plano olaviano para fazer Bolsonaro conquistar (tomar) o poder total e absoluto, através do uso e abuso dos seus seguidores, em fazer uma intensa e maciça pressão na direção da câmara e do congresso, de modo que encurralem e induzam a maioria dos deputados e senadores a oficializarem todas as medidas provisórias impostas e todos projetos de lei estratégicos e fundamentais em votações, para conseguir consolidar as ambições e interesses planejadas, talvez, por Olavo e executada por sus seguidores, e ele. Imagino que Bolsonaro e filhos. não estão nem aí para o Staff do governo e muito menos para a grave crise que assola o Brasil. Desmorona o estado de direito, desmoronam os direitos civis desmorona a ordem, desmorona a segurança, desmorona a crise econômica, desmorona a crise financeira, desmorona a crise constitucional, institucional e política. Não se percebe nenhuma boa vontade, por parte do atual governo, em combater seriamente e urgentemente a tenebrosa tempestade caótica que se avoluma em proporções dantesca. O governo só fala e vive pela aprovação da reforma da previdência, pela liberação das armas para milhões e milhões de pessoas, pelo afrouxamento das leis em práticas de crimes, pelo fim dos direitos trabalhista que ainda restam, pela redução do poder do estado e, em contra partida, promovem e exaltam a elevação do poder de forças para militares, que por coincidência é o único setor que ainda não se observou sofrer baixa, no apoio a Bolsonaro. A luz amarela já foi trocada pela vermelha, em claro sinal de que o perigo se aproxima do paiol explosivo para liberar toda a horda insana, que se alimenta ferozmente da convulsão social, do caos e do horror. Aí sim, se chegarmos a esse ponto, eu penso que finalmente e confortavelmente Bolsonaro reinará no habitat em que é altamente especialista, enquanto a nós, só restará as orações e aguardar o fim.

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Guanabara

17 de junho de 2019 às 21h03

O difícil será depender de quem acredita que a bandeira do Japão é a nova bandeira do Brasil sob a égide do comunismo pra mudar esse quadro. 30% de muito é muita coisa… E numa hipótese de Lula Livre, qual será a reação desses mesmos 30%, agora, com armas na mão?

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Zé Maria

17 de junho de 2019 às 18h34

A Ruptura institucional já houve
com o impeachment de Dilma,

e vem paulatinamente se agravando
com a Condenação e Prisão do Lula,
e a Eleição Fraudulenta do Jair Bolsonaro;
Com Supremo, Com Tudo.
Daí pra frente, é a Batalha do Mito imbecil
para se manter no Poder de qualquer jeito.

Responder

SERGIO ESPOSITO

17 de junho de 2019 às 17h08

Enfim uma análise sensata

Responder

Pedro Cândido Aguarrara

17 de junho de 2019 às 15h48

O Mourão deve assumir o quanto antes a Chefia do Estado Emergencial.

Assumir e reconhecer que o pleito de 2018 está INVALIDADO.

E convocar eleições para Presidente em Novembro/Dezembro 2019.

Mandato tampão de 3 anos.

Mas isso RÁPIDO!!!

O país não aguenta mais!!!

Responder

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