Roberto Amaral: No fundo do poço, outro poço

Tempo de leitura: 6 min
Deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ). Imagem: Recorte de quadro de vídeo

No fundo do poço, outro poço

Por Roberto Amaral*

“Cuidemos. A República pode afundar.”
– Manuel Domingos Neto

Sinal dos tristes tempos: devemos comemorar a suspensão por seis meses do mandato do deputado Glauber Braga, decretada pelo plenário da Câmara Federal na última quarta-feira (10/12/2025).

No dia anterior, por ordem do presidente da Casa, ele fôra agredido por gendarmes da polícia legislativa.

As hosanas são justificadas porque o corretivo previamente decidido pela direita era a pura e simples cassação do mandato do parlamentar fluminense, cumulada com oito anos de inelegibilidade — sua virtual expulsão da vida pública, que ele tanto dignifica.

Antes disso, pelas artes e sortilégios de Artur Lira – dublê de capo e feiticeiro –, Glauber era submetido ao Conselho de Ética. Nada ouviu ali que merecesse ser tomado como acusação séria, mas teve a perda do mandato indicada. A espada de Dâmocles pesa sobre sua cabeça desde março.

A reunião do Conselho era um teatro farsesco, como deveria ser o julgamento em plenário: ambos montados com script pré-definido para cumprir formalidades regimentais exigidas para sancionar uma sentença previamente lavrada.

Uma vindita anunciada, concebida no melhor estilo siciliano. Não faltou, sequer, o Don Corleone de ocasião. O pretexto alegado, à falta de algo melhor, foi um pontapé — aliás, muito bem dado — por Glauber em canalha assalariado pela direita para insultar sua mãe, então no leito de morte.

O pontapé era apenas um pretexto, mas pretexto necessário. O que se pretendia, como ficou evidente nos discursos da direita, era punir o “conjunto da obra”: o mandato socialista de Glauber, bravo, corajoso, limpo, denunciador da miséria do sistema e também das vigarices do submundo parlamentar — entre elas o “orçamento secreto”, peça de corrupção explícita engendrada por Arthur Lira.

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Daí o coronel alagoano haver assumido o papel de arqui-inimigo de Glauber Braga, regendo uma orgia de ressentimentos e intolerância, a base paranoide do pensamento fascista.

É preciso ver em Glauber um alvo-símbolo escolhido a dedo. A vingança contra seu mandato visa a constranger o conjunto da esquerda, e assim deve ser vista e enfrentada.

Não é acaso que, na mesma sessão que o condenou, o plenário tenha absolvido a delinquente Carla Zambelli, ainda deputada por São Paulo (do PL, evidentemente), já condenada pelo STF a penas que somam 15 anos de prisão, por invasão ao sistema eletrônico do CNJ, porte ilegal de arma e assédio.

Refugiou-se na Itália, onde está presa e aguarda extradição. Imunes e impunes, como ela, permanecem outros “fora da lei”: o ex-policial federal Alexandre Ramagem (também deputado pelo PL), condenado pelo STF como partícipe da trama golpista, demitido por Lewandowski e homiziado nos EUA; e sua parelha, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL), conspirando desde fevereiro contra os interesses nacionais, promovendo lobby junto à Casa Branca para impor sanções a autoridades brasileiras e às nossas exportações — o “tarifaço” de Trump.

Crime de lesa-pátria, grave, e nada obstante impune.

Não é mera coincidência o encontro da violência contra Glauber com a anistia disfarçada de “dosimetria”.

Na mesma noite em que o deputado era agredido pela polícia legislativa (09/12), a mesma Câmara aprovava insólita e inaceitável redução geral de penas que pode abrir caminho para uma anistia aos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Mais uma ameaça à democracia; mais uma negociata entre costureiros da pequena política, senhores de baraço e cutelo de um Congresso perjuro que se requinta no reacionarismo, na deslealdade à República e no desprezo à democracia — esquecido de que, quando o edifício democrático cai, seus destroços soterram o Parlamento.

Lembrai-vos de 1937.

A proposta de anistia aos golpistas, que entrou na pauta com o codinome “dosimetria” para apaziguar o Centrão e recolocá-lo no redil da extrema-direita, foi o preço pago à chantagem explícita da autocandidatura do filho do capitão. Traficada por Hugo Motta, delfim de Lira e sucessor político inexcedível Eduardo Cunha.

No Senado, o projeto já corre célere. O relator, filhote da ditadura, mãos dadas com o inefável Paulinho da Força (réu em processo criminal no DF), declarou não descartar uma anistia “ampla, geral e irrestrita”.

Seria a reabilitação do golpismo, a pá de cal na responsabilidade democrática afirmada pelo STF, o anúncio da bolsonarização da política — a nos dizer que o fundo do poço esconde outro poço.

Enquanto a Câmara promovia essa deslealdade contra a República, o Senado aprovava, em dois turnos, a PEC que restringe os direitos dos povos originários a áreas ocupadas ou litigiosas até 1988.

Vitória do bilionário lobby do agronegócio, que se confunde com grilagem, depredação ambiental e mineração criminosa com o business que habita a Faria Lima, que dialoga com o submundo do Comando Vermelho e com a superestrutura legal do crime organizado.

Como lembra meu amigo Fernando Mousinho, o 8 de Janeiro não terminou. O ciclo de golpes de Estado vem de antes: inaugura-se com o impeachment de Dilma Rousseff, atravessa o impedimento de Lula de concorrer em 2018, chega à intentona fascista de 2023 e prossegue até agora, com ímpeto de seguir em frente. Tudo sob o manto das “quatro linhas da Constituição”, isto é, golpes operados dentro do poder, sem baionetas à mostra.

O ministro do Exército, general Villas Bôas, intimidou o STF a não conceder habeas corpus preventivo a Lula para impedir sua candidatura em 2018. E assim o líder das pesquisas foi excluído do pleito. Tudo “dentro da ordem”.

O que se seguiu é sabido. A intentona de 2023 faz parte do mesmo processo. Nada obstante a eleição de Lula em 2022, vivemos sob o mesmo ciclo golpista continuado, regido por maioria parlamentar empenhada na erosão da democracia.

O episódio Glauber Braga se insere na ofensiva de domínio da vida congressual pela extrema-direita, cuja tática é entravar o governo Lula e perseguir quadros da centro-esquerda.

Opera-se por todos os meios, a começar pela captura do Orçamento da União, que cerceia o Executivo, pulveriza e malversa os recursos públicos.

Essa prática ilícita, constitucionalmente vedada, consolidou-se como mecanismo de distribuição de emendas individuais, emendas de bancada e emendas “de relator remodeladas”, todas de execução opaca, todas a serviço do patrimonialismo rasteiro, do mandonismo local, do clientelismo político, da corrupção administrativa, da mentira eleitoral que destrói a legitimidade da representação popular, sem a qual não há República digna de honesta consideração.

O objetivo é o financiamento da renovação de mandatos parlamentares às custas do erário.

Veja-se o orçamento de 2025: ao governo federal são alocados R$ 170,7 bilhões em despesas não obrigatórias (tudo o que pode gerir com alguma liberdade na gerência de seus projetos) enquanto as emendas impositivas (destinadas pelos parlamentares aos seus currais eleitorais, consomem R$ 50,4 bilhões. Some-se o Fundo Partidário (R$ 1,319 bilhão) e, em ano eleitoral, o Fundo Especial de Financiamento de Campanhas (R$ 4,962 bilhões em 2024). Quanto será em 2026?

A maioria de direita ainda procura intimidar o STF, ameaçando reduzir suas competências constitucionais e abrir processos de impeachment contra seus ministros.

No Senado, seu presidente, dado a traquinagens de aprendiz de feiticeiro, tenta interferir na indicação do novo ministro do STF — prerrogativa do presidente da República. Diz-se amuado.

Com maioria absoluta nas duas Casas, a direita deixa claro que pode interromper qualquer programa de governo e até depor o presidente da República sem “firulas jurídicas”.

No mercado correm as listas de juristas como Miguel Reale Filho e paus-para-toda-obra do porte de Eduardo Cunha. Dilma bem que poderia ajudar, escrevendo suas memórias.

***

Mulher de César — A modernidade atribui a César uma frase que não ditou (o conteúdo remete a Plutarco e Suetônio), traduzida para o vernáculo como: “Para a mulher de César, não basta ser séria; é preciso parecer séria.” O conteúdo é ético, mas profundamente político: das instituições e dos servidores públicos — governantes, legisladores, juízes, ministros, diplomatas, militares — exige-se não apenas competência e decoro, mas o afastamento de situações que possam suscitar suspeitas. A norma vale para o Legislativo, mas também para o Executivo, para o Judiciário, e mais ainda, para o STF, tão central hoje na defesa da República. O ministro Dias Toffoli, porém, rejeita esse preceito. A sociedade e seus pares esperam que explique o que fazia no jatinho particular que o levou a Lima para a final da Libertadores, na companhia de advogado que atua no STF como patrono dos interesses do Banco Master. E que, para o bem do processo, se declare impedido de relatar as investigações sobre o banco.

Piratas no Caribe — Em que corte internacional os EUA de Trump serão julgados pelo roubo de um navio-tanque da Venezuela na costa daquele país — roubo que os jornais têm apelidado, gentilmente, de “apreensão”? Ou o crime de pirataria só ocorre nas águas da Somália?

Este artigo foi publicado originalmente no site de Carta Capital em 12/12/2025.

*Roberto Amaral foi presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula. É autor do livro História do presente – conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle).

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Comentários

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Zé Maria

.
“Carla Zambelli anunciou renúncia
a um mandato que já não existe”
https://x.com/LindberghFarias/status/2000282413138899058
.

Zé Maria

“Isso é grave. Muito grave.

Mesmo sendo alvo de ameaças de morte,
com investigações em andamento na Polícia Federal
e na Polícia Civil [do Estado do Rio de Janeiro], tive
minha escolta retirada de forma unilateral, sem aviso
prévio, por decisão do presidente da Câmara, Hugo
Motta.

Sou uma mulher negra, mãe, deputada federal
mais votada da esquerda do Rio, e há anos enfrento
violência política, inclusive contra meus filhos.

Nenhuma investigação concluiu que o risco acabou.
Nenhuma.

A escolta não foi concedida por privilégio, mas por
necessidade.

Segurança institucional existe para prevenir tragédias,
não para reagir depois que algo acontece.

Coincidentemente, ou não, essa decisão veio logo
após enfrentarmos o PL da Anistia e após minha atuação
na liderança do PSOL para impedir a injusta cassação do deputado Glauber Braga, de forma contundente.

Não vou recuar.

E não aceitarei que coloquem minha vida,
e a dos meus filhos, em risco.

Seguiremos exigindo a revisão imediata
dessa decisão.”

TALÍRIA PETRONE
Deputada Federal (PSOL/RJ)
Líder do PSOL na Câmara.
https://x.com/Glauber_Braga/status/1999919865264738387

https://www.cartacapital.com.br/politica/camara-suspende-escolta-para-taliria-petrone-deputada-do-psol-ameacada-de-morte/

.

Zé Maria

O Deputado Federal Glauber Braga (PSOL/RJ)
auxiliou o Pessoal da Limpeza da Câmara,
ao Botar Pra Rua o Lixo Fascista do MBL.

Zé Maria

Excertos

“Na mesma noite em que o deputado era agredido
pela polícia legislativa (09/12), a mesma Câmara
aprovava insólita e inaceitável redução geral de
penas que pode abrir caminho para uma anistia
aos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Mais uma ameaça à democracia; mais uma negociata
entre costureiros da pequena política, senhores de
baraço e cutelo de um Congresso perjuro que se
requinta no reacionarismo, na deslealdade à
República e no desprezo à democracia — esquecido
de que, quando o edifício democrático cai, seus
destroços soterram o Parlamento.

[…]
“A proposta de anistia aos golpistas, que entrou na
pauta com o codinome ‘dosimetria’ para apaziguar o
Centrão e recolocá-lo no redil da extrema-direita, foi
o preço pago à chantagem explícita da autocandidatura
do filho do capitão. Traficada por Hugo Motta, delfim
de Lira e sucessor político do inexcedível Eduardo
Cunha.

No Senado, o projeto já corre célere.
O relator, filhote da ditadura, mãos dadas com o
inefável Paulinho da Força (réu em processo criminal
no DF), declarou não descartar uma anistia ‘ampla,
geral e irrestrita’.

Seria a reabilitação do golpismo, a pá de cal na
responsabilidade democrática afirmada pelo STF,
o anúncio da bolsonarização da política — a nos dizer
que o fundo do poço esconde outro poço.

Enquanto a Câmara promovia essa deslealdade
contra a República, o Senado aprovava, em dois
turnos, a PEC que restringe os direitos dos povos
originários a áreas ocupadas ou litigiosas até 1988.

Vitória do bilionário lobby do agronegócio, que se
confunde com grilagem, depredação ambiental e
mineração criminosa com o business que habita a
Faria Lima, que dialoga com o submundo do
Comando Vermelho e com a superestrutura legal
do crime organizado.”

https://t.co/Z1yP2FoDds
Mestre ROBERTO AMARAL
https://x.com/VIOMUNDO/status/1999889940331831732
.

Zé Maria

A Burguesia Financeira Neoliberal Improdutiva
da Faria Lima (SP) – onde tb opera o Crime
Organizado – associou-se com o Fascismo
de Extrema-Direita para apear o PT do Poder,
além de comprar votos de Parlamentares
para aprovarem Leis Desregulatórias e Contra
o Interesse Público, sempre com a voz do
Mercado, a Mídia Venal e Canalha, a apoiá-los.

Zé Maria

E no Fundo do Outro Poço Um Alçapão
por Onde Escapam os Criminosos
com Assento no CongreSSo Nazi.

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