Roberto Amaral: A nova Pax Americana — o império sem máscara

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Trump discursa após EUA sequestrarem na Venezuela Nicolás Maduro e a esposa Cília Flores. Imagem: Quadro de vídeo

A nova Pax Americana: o império sem máscara

Por Roberto Amaral *

“Vamos recuperar nosso quintal”Peter Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA

Há escassa novidade por trás dos fatos: raramente o processo histórico se manifesta de forma tão coerente clara e reveladora como nos últimos eventos que se abateram, se abatem e por muito tempo ainda se abaterão sobre a Venezuela e a América do Sul (passando pelo Brasil, ninguém se iluda), prolongando a tragédia do país vizinho, levado à miséria por ser naturalmente rico.

País soberano — ao menos no formalismo arcaico do direito internacional, sem forças de efetividade, portanto inútil, como é hoje a ONU, reduzida a mero fórum de debates sem consequência —, a República Bolivariana da Venezuela caminha de volta ao quadro colonial dos maus tempos espanhóis.

Paga a pena de abrigar o maior estoque de reservas de petróleo bruto do mundo, nada menos que 303 bilhões de barris (cerca de 1/5 das reservas mundiais), superando Arábia Saudita e Irã. E superando, de longe, os EUA (detentores de algo entre 45 e 55 bilhões de barris), o que começa a explicar muita coisa.

Seu destino imediato, anunciado pelos invasores, porém, é o de um protetorado a caminho da recolonização.

Mais precisamente, um novo Porto Rico: território “assumido”, mas não incorporado ao mapa dos EUA; carente de soberania de qualquer ordem, inclusive autogovernativa, algo como uma “colônia moderna” — vá lá o anacronismo. Assemelha-se a Guam, Samoa Americana ou Ilhas Virgens. Ou à Guiana Francesa.

Os atuais dirigentes da Venezuela, consentidos, à frente a nova presidente, Delcy Rodríguez (anunciada como interina), apenas permanecerão em suas funções enquanto Caracas cumprir as exigências apresentadas pela Casa Branca.

Sabe-se que delas constam cessar o apoio a Cuba, expulsar de seu território os iranianos e outros atores indesejáveis aos EUA, fechar o abastecimento de petróleo para adversários de Washington e abrir o mercado de petróleo às empresas estadunidenses. Tudo já em marcha batida.

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Com efeito, lê-se na primeira página de O Globo do último 08/01: “EUA tomam controle do petróleo e obrigam a Venezuela a importar produtos americanos. Governo Trump anuncia que vai gerir recursos obtidos pela venda do óleo e divulga plano que culmina com transição de poder no país”.

Ao largo, o bloqueio aéreo-naval, já de meses, a pirataria dos marines e as sabotagens da CIA e dos inumeráveis “serviços de inteligência”, refazendo o papel de rapina dos galeões ingleses, onde a história norte-americana toma o fio.

Nada, porém, que não seja velha crônica contada e sabida. Há uma novidade a registar, embora sua fonte remonte a Theodore Roosevelt: a absoluta falta de disfarce, ou escrúpulos da fala.

Nesta gestão republicana o discurso rompe com a dubiedade e mesmo a hipocrisia que sempre marcou os governos do Partido Democrata (vide o histórico de Obama), e também se fez presente nas administrações republicanas.

Com Trump, a preservação do império torna-se o único objetivo a ser perseguido, e o país entra em rota de colisão com tudo que possa ser identificado como progresso: é a vigência do que Marina Basso Lacerda denomina “paleoconservadorismo”. Talvez, ainda, uma alteração de postura: a quase sobriedade de Biden é travestida no delírio narcísico de Trump. Mas, ao fim e ao cabo, nada de substancial.

Essa nova ordem imposta de fora para dentro não deve ser reduzida a ameaça cingida à nossa companheira de fronteira; certamente contaminará o subcontinente, abater-se-á sobre um ou outro país. Poderá chegar até nós. Em qual feição?

Teremos, então, como responder?

O ponto de partida analítico descarta, na invasão americana e em seus desdobramentos presentes e previsíveis, qualquer sugestão de fato inusitado, solto no ar e no tempo, gratuito, sem história e, nesses termos, justificador de surpresas.

Uma vez mais, “nada de novo no front ocidental”, porque não há nada de insuspeitado na invasão do território venezuelano, na destruição de sua soberania, há tanto tempo com os dias contados, nem no sequestro de Maduro (sequestro que o representante do Brasil na OEA fez bem em chamar pelo nome, recusando a farsa da “captura”, imposta pela grande imprensa, e que nosso governo assimilou em seus primeiros pronunciamentos oficiais), nem muito menos na pirataria de seus recursos.

Sem qualquer comparação com o presidente deposto e sequestrado — cujo desastre rotundo não é o centro da questão, mas pretexto —, relembremos, como fato político, o sequestro e assassinato do congolês Patrice Lumumba, entre outros mártires do anticolonialismo; a deposição do presidente Juan Bosch, da República Dominicana (1965), desta feita com a inominável participação das forças armadas brasileiras, então como sempre irmanadas com a doutrina que emana do Pentágono e é reproduzida na ESG e nos quartéis — e que, nada obstante o desencontro com a realidade e os interesses do país, ainda faz “os corações e mentes” dos fardados: autoritarismo no plano interno, subserviência nas relações com os EUA.

De uma forma ou de outra, a sobrevivência do letal “complexo de vira-lata”, um de nossos muitos “males de origem”, para lembrar a expressão de Manoel Bomfim.

Afinal, o que nos pode surpreender?

E por que a redução dos crimes de hoje dos EUA à responsabilidade de personagem que apenas se diferencia de seus antecessores pelo boquirrotismo e a extravagância dos gestos e das grosserias?

Trump, como seus antecessores, foi construído pelo processo histórico da formação nacional estadunidense; como eles, reflete — eis certamente a questão central — o que se pode chamar de “a alma americana”. Não há loucura, mas muito cálculo.

Insisto neste ponto: o detestável Trump não é um ponto fora da curva na história da Casa Branca, não é um doidivanas; está a serviço do establishment, justamente assustado com a crise do capitalismo, as ameaças do desenvolvimento chinês e sua expansão pelos mercados de todo o mundo, expansão que perigosamente chega à América Latina e à América do Sul, o “quintal” do grande império do Norte, sua área de “segurança estratégica”.

Como cenário principal, base das guerras comerciais que antecipam conflitos bélicos — muitos já em curso e ocupando todos os continentes —, o espectro da renovada disputa pela hegemonia mundial, ganha da URSS na Guerra Fria e agora ameaçada pela emergência mundial da China-Eurásia.

É isto, é tudo isto, mas é também mais do que isto, porque é, essencialmente, a projeção da sociedade americana e de sua alma yankee.

A política da Casa Branca é velha como a Sé de Braga; o que ressalta é sua aplicação sem intermitências, coerente e retilínea. E sempre implacável. Vem de tempos anteriores.

O “MAGA” é um pastiche declarado da Doutrina Monroe (1823) — “a América para os americanos”, ou seja, em termos não cínicos, “a América para os EUA”. Bate os coturnos no big stick do Corolário Roosevelt (1904), mas os fatos a tudo isso se antecedem.

A história do México tem muito a ensinar, muito a prevenir. Os Estados Unidos Mexicanos de hoje, fraturados e fatiados, conheceram no século XIX o peso insustentável da fome insaciável do vizinho. Em 1846, os EUA lhe declaram guerra e, em 1848, se proclamam senhores de nada menos que 55% de seu território. E agora, em 2025, ameaçam até o ainda Golfo do México.

A lista das agressões na América Latina é extensa e não parece ter fim: Cuba — ocupação militar após 1898, ocupação da Baía de Guantánamo (base naval desde 1898), mais ocupações posteriores, mais ameaças de invasões, mais bloqueio econômico, político, financeiro, militar e sanitário, e tudo o que for possível para maltratar o povo da ilha, punindo-o por seu desejo de autonomia.

Porto Rico — incorporado aos EUA ao fim da Guerra Hispano-Americana (1898). Panamá (1903), ocupação do Canal. Intervenções diretas no Haiti (1915–1934), na Nicarágua (1909–1933), na Guatemala (1954), na República Dominicana (1916–1924 e 1965), em Granada (1983) e no Panamá (1989).

O relato ficaria tedioso se ainda fosse necessário lembrar as sabotagens aos governos democráticos da região. Talvez nos baste recordar o golpe contra Allende (1973) e a deposição de João Goulart e, como seu desdobramento, a instauração da ditadura militar, sob os auspícios do Departamento de Estado, com suas belonaves costeando nosso litoral.

A imprensa internacional já fala em “Corolário Trump”. Ora, esse “corolário” não existe, porque a política intervencionista dos EUA está sempre in progress.

Como esquecer o “corolário” de Truman e suas bombas nucleares sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki? E a Coreia? E o Vietnã?

A história de hoje remonta a tudo isso, mas remonta, como reflexo da imagem no espelho, à própria história do país: a formação de seu povo, a emergência da nação, o processo de independência e a construção do império de pretensões romanas, em nome da “liberdade dos povos” é o “destino manifesto”, autoproclamação de um dever civilizatório, a missão de impor seus valores — eufemismo para interesses objetivos —, como as Cruzadas impunham a fé: a ferro e fogo, porque era preciso punir os ímpios para poder salvá-los.

Trump não é um acaso, mas ator de um script que não lhe foi dado escrever, embora desempenhe o papel que lhe foi confiado pelas circunstâncias com a eficiência do canastrão, como o fez Ronald Reagan, uma de suas inspirações.

O magnata, em cuja campanha eleitoral anunciou sem rebuços o que seria — e está sendo — seu governo, representa os interesses do establishment, o que não é pouco, mas representa ainda muito mais do que isso.

Sua eleição deve ser encarada como um referendo ao discurso do candidato. O silêncio do Congresso, o silêncio da universidade, da chamada “sociedade organizada”, é denotativo.

Trump, como seus antecessores do pós-Segunda Guerra Mundial — de Truman a Biden —, é servidor dos interesses do imperialismo, abalado com a crise do capitalismo e assustado com as ameaças que chegam do extraordinário desenvolvimento tecnológico e econômico da China e da mundialização de seu comércio e de seus interesses. Que chegam, inclusive, ao Brasil.

A Venezuela logo será uma etapa vencida dessa nova fase, mais agressiva, do imperialismo.

A América do Sul está — militar e politicamente — sob um cerco que lembra o garrote vil: Venezuela, Peru, Equador, Bolívia, Chile, Paraguai (candidato a base militar) e a Argentina, que relembra os tempos sórdidos das “relações carnais” com o imperialismo, apregoadas pelo peronista Carlos Menem (1989–1999).

Resistem as quase social-democracias do Uruguai, da Colômbia (ao menos até junho) e o Brasil, para quem as eleições deste ano são uma grave incógnita.

Em meio ao controle do “quintal”, o alvo que exige maior atenção do imperialismo é, evidentemente, nosso país. Por tudo o que é óbvio: seu território, sua população, seus recursos naturais, as extensas fronteiras com dez países, o largo litoral atlântico abrindo rota para o Pacífico na direção do Oriente. E, nada obstante as dificuldades presentes no governo Lula, sua influência econômica e política na região.

Devemos contar com duas alternativas. A primeira, a intervenção político-eleitoral-diplomática-econômica (no esteio do predomínio ideológico), esta que já produziu efeitos significativos na região e que estão à vista. Fracassada, não nos iludamos quanto ao que pode se abater sobre um país pobre de lideranças populares e nacionalistas, sem serviço de inteligência minimamente equipado nem forças armadas dignas de confiança — desaparelhadas para a defesa nacional e ideologicamente dependentes do catecismo do Departamento de Estado. Em suma, sem qualquer poder de dissuasão diante de eventuais ameaças de ataque. Assim como se revelou a Venezuela.

Neste quadro aziago, é urgentíssimo que a geopolítica e, em especial, os temas de segurança e defesa, tradicionalmente ignorados em nosso campo, entrem na ordem do dia dos debates à esquerda: não podemos seguir acreditando que vivemos numa ilha isolada do mundo – um mundo, em todo caso, benévolo e amistoso, que nunca irá bulir conosco. Sonhos de Cândido, exemplar personagem de Voltaire.

A violência contra a Venezuela deve ser vista como demonstração espantosa, desabrida, bárbara do poder do Império, que manda claro recado à América Latina. E a quem mais, tendo juízo, quiser ouvir.

Soberania não é um sentimento, uma vontade, uma aspiração. Não é discurso, nem se estabelece em tratados. Ela se sustenta numa ordem objetiva: sua capacidade de defesa. E se não refletirmos sobre segurança e defesa, outros o farão.

***

Barbas de molho – Ontem (08/01), na cerimônia que lembrou os três anos da intentona bolsonarista que buscou derrubar à força o governo empossado, assassinando o presidente da república e seu vice, além do chefe do STF, o presidente Lula anunciou o veto integral ao infame “PL da Dosimetria”, que o Congresso se prestou a aprovar para salvar os golpistas. E alertou: a democracia não é uma conquista inabalável.

Integração à vista – Nesta quinta-feira (09/01), uma maioria qualificada de países da União Europeia aprovou, enfim (passado um quarto de século), o acordo de livre comércio UE-Mercosul. Será um sinal de que o Velho Mundo começa a perceber que os EUA já não premiam a subserviência como antes?

Este artigo foi publicado originalmente no site de Carta Capital em 09/01/2026.

*Roberto Amaral foi presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula. É autor do livro História do presente – conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle).

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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