O ultradireitista Aberlado de la Espriella venceu a eleição com uma pequena margem de votos sobre o candidato de esquerda Ivan Cepeda
Por Rita Camacho, no site da Fundação Perseu Abramo
Com quase 54 milhões de habitantes, a Colômbia tem a segunda maior população entre os países da América do Sul, estando atrás apenas do Brasil. É o quarto país da região em extensão, com 1.141.748 km².
As últimas eleições presidenciais na Colômbia foram realizadas em 2026. A saber:
Primeiro turno, em 31 de maio: concorreram 11 candidatos. Os dois candidatos mais votados, segundo os dados oficiais, foram Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria), ultradireitista, que teve 43,73%, e Ivan Cepeda (Pacto Histórico), de esquerda, com 40,91%.
Segundo turno, em 21 de junho: o ultradireitista la Espriella teve 49,66% dos votos. Cepeda alcançou 48,70%. A diferença foi de 250 mil votos.
La Espriella, que se autodeclara “mais uribista do que o próprio Álvaro Uribe”, deve tomar posse como presidente da República em 7 de agosto de 2026, em Cali. Ele sucederá a Gustavo Petro, que apoiava Cepeda.
Colômbia X Estados Unidos
A Colômbia, praticamente desde os tempos de Simón Bolívar, tem uma contradição com os Estados Unidos que alguns estudiosos têm chamado de o pensamento bolivariano versus o pensamento de Monroe, ou bolivarianismo versus monroísmo. O professor, advogado e assessor internacional do Pacto Histórico, Pietro Alarcón, explica que isso tem um antecedente histórico muito concreto, que foi a realização, em julho de 1826, do Congresso Anfictiônico [ou Congresso do Panamá] convocado por Bolívar, e do qual participou a maior parte dos Estados que tinham se independentizado da Espanha. Mas Bolívar não convidou os Estados Unidos, porque, em 1823, James Monroe havia feito seu famoso discurso no Congresso, no qual lança a ideia de “América para os americanos”, o qual Bolívar interpretou como uma formulação de conteúdo expansionista e anexionista dos Estados Unidos na América Latina e Caribe.
A partir daí, se inicia uma tensão com a morte de Bolívar e a maneira como os Estados Unidos começam a se introduzir, tentando colocar o sistema federativo na Colômbia, tentando minar esse pensamento independentista colombiano. Todo esse processo se dá entre 1830 até o final do século XIX, quando finalmente os Estados Unidos convocam o Congresso Pan-americano e se inicia um processo de maiores níveis de aproximação entre a Colômbia e os Estados Unidos, descaracterizando o pensamento do libertador Simon Bolívar. “O Bolívar independentista, o Bolívar que luta pela autodeterminação, o Bolívar que faz a lei contra a escravidão e pelos direitos dos povos originários, a preservação dos nossos recursos, ele passa a ser escondido”, explica Alarcón, professor da PUC-SP.
E então se gera aquela intromissão dos Estados Unidos na Colômbia, que, em 1903, teve um ponto culminante com o roubo do Panamá. “Ou seja, quando os Estados Unidos tiram o Panamá da Colômbia, havia uma guerra entre liberais e conservadores na Colômbia, os Estados Unidos colocam a embarcação Wisconsin no Pacífico e ameaçam a cidade do Panamá, que naquele momento era colombiana. Ali se desenvolvia uma luta entre liberais e conservadores e eles dizem simplesmente que “se não há paz, eles bombardeiam a cidade”.
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E isto promove posteriormente um movimento no Panamá de independência com relação à Colômbia, patrocinado pelos Estados Unidos até que, segundo Alarcón, em 1903, o presidente estadunidense Theodore Roosevelt pronuncia a frase “I took Panamá” (Eu tomei o Panamá [da Colômbia]) no Congresso dos Estados Unidos.
Já no século XX, ocorrem sucessivos processos de intromissão dos Estados Unidos na Colômbia, como na greve das bananeiras, em 1928; o bombardeio das chamadas repúblicas independentes, na década de 1960, que dá origem às guerrilhas liberais, a conversão das guerrilhas liberais em FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), na década de 1970, o florescimento do movimento insurgente.
Durante todos esses tempos, a burguesia e a classe dominante colombiana mantêm dois partidos: o Partido Liberal e o Partido Conservador, que repartem toda a institucionalidade, a estrutura burocrática, e há uma militarização constante da vida nacional. “Os Estados Unidos na Colômbia não são um observador do conflito, nem são um elemento alheio ao conflito colombiano. Os Estados Unidos são um ator permanente do conflito”.
Alarcón atribui todo esse interesse à posição geoestratégica da Colômbia. “A Colômbia é o comecinho da América do Sul. Conecta a América do Sul com a América Central. “Tem dois oceanos: Atlântico e Pacífico. É o único país da América do Sul que tem os dois oceanos. É a porta de ingresso à Amazônia. É a porta de ingresso à Orinoquia[1]. Pela Amazônia, você chega ao Brasil, ao Peru, você estende mais um pouco e chega ao Equador. Pela Orinoquia, você se conecta com a Venezuela. E, pelos mares, você tem Caribe e Pacífico. Então as rotas, a posição geoestratégica colombiana sempre foi para os Estados Unidos um motivo que levou a que, em sucessivos documentos do Departamento de Estado, se falasse na necessidade de que o território colombiano tivesse um papel em benefício da segurança dos Estados Unidos e para a projeção expansionista na América do Sul”. E Alarcón explica por qual razão faz esse retrospecto histórico: “O que nós estamos observando neste momento na Colômbia é que os Estados Unidos, de maneira muito mais decidida e contundente, decidiram que a Colômbia deve cumprir esse papel”.
Uribe
O governo de Álvaro Uribe (2002-2010) foi exemplo claro dessa ingerência dos Estados Unidos na Colômbia. “Nós sabemos que Uribe faz parte da lista dos narcotraficantes colombianos. Ele ocupa um dos lugares da lista da DEA[2] e se tornou [presidente da República] em função de um pacto para militarizar a Colômbia e promover uma política que se chamava segurança democrática, que é a militarização da vida nacional, a criminalização do movimento social colombiano, a estigmatização, a saída militar ao conflito da época, o que levou aos chamados falsos positivos[3]. Enfim, tudo isso era um acordo. Uribe e Estados Unidos. Uribe é um narcotraficante que chega à Presidência da República em função dessa concessão que fazem os Estados Unidos de retirá-lo da lista, de pelo menos não o tocar, e a contrapartida de Uribe de promover todo esse panorama contra a esquerda. Uribe é eleito, é reeleito, são os anos mais duros para nós, alguns dos anos mais duros.”
Pacto Histórico
Quando começa o governo de Iván Duque Márquez, em agosto de 2018, Alarcón avalia que as contradições na Colômbia e a luta social já tinham chegado a uma espécie de ápice. “A luta de classes na Colômbia chega a um momento em que, do ponto de vista político, os partidos que estão dominando, que representam a classe dominante colombiana, não têm mais condições, porque não têm alternativas para a crise que o povo colombiano sente na carne. O desemprego, a saúde, há uma deterioração selvagem da vida econômica, da comida na mesa das pessoas, e se produz, durante o governo de Duque, em 2019, o que a gente chama aqui de estouro social. E esse estouro social precisava de uma autêntica rebelião popular”.
Na opinião de Alarcón, isso fugiu das mãos de qualquer ator organizado. “Ou seja, aqui havia um comitê de greve conformado pelas centrais sindicais, movimento social, e os partidos políticos, obviamente, acompanhando tudo isso. Porém, o processo, a dinâmica social, extrapolou aquilo que tinha sido, de alguma forma, discutido e decidido. Na verdade, foi um movimento que espontaneamente surgiu em vários lugares, a gente se organizou, estudantes, trabalhadores, donas de casa, que saíram para as ruas e protagonizaram um momento em que se chegou ao ápice da luta popular. Isso precisava de um instrumento político. E é aí que surge o Pacto Histórico, que se define como um movimento, em primeiro lugar, que precisa estabelecer uma nova relação com os Estados Unidos e com o entorno regional”.
A essa altura, a Colômbia não tinha relações com o Equador e a Venezuela. “As relações com o Brasil eram boas, mas não havia maiores graus de cooperação, digamos, porque os governos não tinham afinidade, havia respeito mútuo, enfim. Durante o governo de Duque, o território colombiano era permanentemente utilizado pelos Estados Unidos para hostilizar a Venezuela. Então, o Pacto Histórico se propõe, do ponto de vista da sua política externa, rever isso e apresentar uma nova proposta de desenvolvimento, longe do neoliberalismo que tinha nos governado até esse momento, tinha sido um modelo imposto pelos governantes, e empreender um conjunto de reformas sociais, de reformas de natureza econômica, e de diminuir, por assim dizer, a pressão do capital e aumentar, então, o nível salarial dos trabalhadores, e dessa maneira, incidir no conjunto de questões que tinham ocasionado a violência na Colômbia, que tinham ocasionado todo o processo de violência”.
Poucos anos antes, em 2016, ainda sob o governo Juan Manuel Santos (2010-2018), foi assinado o Acordo de Paz no Teatro Colón, em Bogotá. “Então, isso também gerou um nível de distensionamento, porque depois que as FARC se desmobilizam, supostamente, na Colômbia, a violência teria cessado, teria que cessar, mas não foi assim. O que se comprovou, depois do 2016, é que a violência vinha do Estado, que o terrorismo do Estado era a política do governo, que a violência, a estigmatização, a criminalização não respondia a uma lógica da existência de um conflito interno militar, mas a um conflito social que estava instalado, pelo qual o Estado colombiano denominava todas essas forças parte de um processo subversivo. Os professores na faculdade, os trabalhadores, os estudantes faziam parte de um grande processo subversivo e que deveria ser contestado a partir do terrorismo do Estado, grupos paramilitares, enfim. O instrumento político, o Pacto Histórico, ele resulta da união, naquele momento, no ano 2022, era uma coalizão de partidos para poder ganhar a Presidência da República e, efetivamente, se ganha com Gustavo Petro e Francia Márquez. Esse é o chamado governo da mudança, ou, como dizemos aqui, el Gobierno del Cambio”.
E as mudanças efetivamente começaram: em primeiro lugar, Petro anuncia a implementação integral do Acordo de Paz, cujo primeiro ponto é a reforma agrária, com a devolução das terras aos camponeses deslocados pela violência paramilitar. “Os setores paramilitares de Uribe, enfim, todos esses setores passam então a ficar recuados diante de um governo que propõe algo diferente. E a institucionalidade colombiana, o Ministério da Agricultura passa a trabalhar com essa gestão, com esses objetivos. Temos dados concretos que te dizem, houve redistribuição de terras, em alguns casos, houve comodato, o Estado comprou, entregou a terra, enfim, especialmente na Costa Norte da Colômbia, houve uma grande distribuição de terra”.
Em segundo lugar, o governo Petro atuou para aumentar o nível aquisitivo dos trabalhadores. “Então aumentou o salário-mínimo. Nós temos hoje um salário-mínimo mais elevado que o brasileiro, por exemplo.”
Mas o Pacto Histórico tinha dificuldades no Congresso. “Essa foi uma das grandes lições, digamos. Não adianta você ter a Presidência da República. A elaboração dos documentos legais, a elaboração das leis passa pelo Congresso. Precisamos articular alianças dentro do Congresso que nos permitam a aprovação de projetos. Precisamos aprender muito mais sobre coisas concretas, como transição energética, meio ambiente, para apresentar projetos de lei que de fato incidam nas condições concretas das pessoas”.
Diante da fragilidade do governo no Congresso, a direita se mobiliza e impede, por exemplo, a aprovação da reforma da saúde, que impactaria diretamente em empresas internacionais que serviam de intermediárias na prestação do serviço. Como assessor internacional do Pacto Histórico, era parte da responsabilidade de Alarcón a transmissão ao governo de Petro das políticas públicas que tinham desempenho positivo no exterior. “Eu lembro que o primeiro projeto que eu apresento é o projeto SUS-Colômbia. Eu tive que estudar muito o SUS-Brasil para dizer que nós podemos funcionar com outro modelo de saúde, o que significava brigar com as empresas de saúde colombianas que repassam, ou seja, que recebem recursos do Estado para então poder prestar o serviço. Essas intermediárias, que mesmo levando embora uma grande quantidade de recursos, não garantem qualidade e o sistema é extremamente precário. Havia umas 28 delas na Colômbia no início do governo e terminaram quatro ou cinco. Porque algumas delas não tiveram mais possibilidades de rever os contratos, porque se demonstrou os índices de corrupção que elas tinham. Outras simplesmente renunciaram quando observaram que haveria investigações, que o Ministério Público chegaria, enfim, tudo por orientação do governo. Eu não diria que foi um fracasso, mas um dos meus grandes dissabores é que, muito embora o esforço que fizemos para a questão de saúde, nós não conseguimos [aprovar a reforma], porque é muito dinheiro e a briga contra as empresas internacionais de saúde e os planos de saúde e tudo isso é uma luta muito dura.”
O governo conseguiu, por outro lado, aprovar a reforma tributária, ainda que com muitas emendas. “Mas, em linhas gerais, uma reforma que, de uma vez por todas, diz: quem é rico paga mais. Ou seja, equilibrou a questão fiscal.”
O Gobierno del Cambio tinha vários objetivos. Em primeiro lugar, a paz integral, que foi dirigida por Ivan Cepeda, senador da República. A tarefa principal era conversar com os grupos que desenvolvem atividades militares no território que desafiam a capacidade militar do Estado. Ou seja, que se confrontam também com o Estado. “Aí entra, por exemplo, o Clã do Golfo, que é uma organização que tem relações com o México, narcotráfico; o Exército de Libertação Nacional; as dissidências das FARC, setores que não se comprometeram com o acordo de paz. Então, essa ideia de paz integral significa que se abre o diálogo com todos os setores para a gente conseguir avançar na ideia de gerar um ambiente fundamentalmente pacífico em algumas regiões consideradas estratégicas para poder implementar os planos produtivos. Você não consegue implementar plano produtivo, nem redistribuir, nem fazer nada, se você está no meio de uma zona em disputa. Então, para poder avançar um projeto de desenvolvimento nacional, você precisa gerar a condição da paz.”
Em segundo lugar, a questão da reforma trabalhista, também aprovada. “Por exemplo, a noite, na Colômbia, que começava às 10 horas para efeitos laborais, agora começa às 6. O nível de exploração dos trabalhadores era descarado e escandaloso.” Também foi aprovada a reforma das pensões. “Os idosos, hoje, têm uma pensão, recebem seu dinheirinho, e anteriormente isso não existia.”
O tema da reforma política, que significava as garantias para os partidos, também não passou. Aprovou-se apenas o chamado Estatuto da Oposição. “Então, aqui, é um regime de situação e oposição. E os partidos se declaram em oposição e então têm um conjunto de elementos que devem cumprir. A votação em bancada, o estatuto estabelece de que maneira deve ser o comportamento da oposição contra os projetos; o regime de participação nas mesas do Congresso, que tipos de acordos podem ser feitos, enfim. Tudo isso foi regulamentado. Mas digamos que isso é a parte legal.”
Fraude estrutural
Alarcón elenca uma série de episódios que ele chama de fraude estrutural contra o processo eleitoral colombiano. Primeiro, o que se armou contra o Pacto Histórico. “Ele nasce como uma coalizão, porém, se torna partido majoritário, partido de governo. As forças que estão no interior do Pacto Histórico não podem mais se apresentar pela legislação colombiana de maneira isolada. Partido Comunista, União Patriótica, Colômbia Humana, PDA [Polo Democrático Alternativo], nós não teríamos como participar. Então não podemos nos coligar. Precisamos que nasça um partido. Junta-se uma questão legal com uma exigência política e das bases. As condições para a unidade estavam relativamente amadurecidas.”
A direita e os Estados Unidos estavam de olho nisso. “Pensaram no seguinte: ‘Enquanto eles não se unifiquem, está tudo ótimo, porque eles não vão poder participar mais do processo eleitoral. Caso se apresentem sozinhos, ninguém vai ter a quantidade de votos necessários, nem a quantidade de senadores e deputados que tem, muito menos a Presidência da República. Mas vem a decisão, que é uma decisão dura para muitos.” Alarcón se refere ao fato de que alguns partidos que compunham o Pacto Histórico estavam recuperando naquele momento sua personalidade jurídica e teriam, por força da transformação do Pacto em partido, que renunciar à personalidade recém-conquistada, era o caso, por exemplo, do Partido Comunista Colombiano e da União Patriótica.
“Isso cria dentro dos partidos internamente um debate muito profundo. Mas era necessário. O PDA, que é um grupo que não tem a estrutura dos partidos comunistas ou da União Patriótica, mas que é um partido, digamos, de chefias, cada um com suas estruturas territoriais, faz várias tentativas de congresso e, finalmente, num congresso que unifica, entrega a personalidade. A Colômbia Humana é um partido com movimentos no seu interior. É um partido majoritário. E é o partido do presidente Gustavo Petro. Só que é o partido que tem maiores dificuldades para se unificar. Começam os prazos, os tempos. E há uma decisão dentro do Pacto Histórico: as candidaturas todas se escolhem por consulta. Portanto, é preciso uma plataforma, é preciso que a gente se afilie, é preciso que seja feita a consulta, enfim.”
O Pacto Histórico envia uma comunicação ao Conselho Nacional Eleitoral pedindo que se cumpram todos os requisitos, se entregue a personalidade jurídica ao Pacto Histórico. “Esse processo no Conselho Eleitoral demorou meses. Por quê? O problema é o perigo que representa a unidade de um partido como o Pacto Histórico. Tanto é assim que o Conselho Nacional Eleitoral na Colômbia é um órgão político. Muito embora eles se denominem juristas, e seja necessário que sejam juristas, a verdade é que todos são nomeados pelos partidos. É um órgão político dos partidos para regulamentar como funcionam os partidos políticos e como funcionará o processo eleitoral. Então o Conselho, dilata a questão. E quando sai a decisão, diz que a Colômbia Humana não cumpre as exigências. Significa: ‘Gustavo Petro, você não cumpre’. Isso quer dizer que há uma exceção no Pacto Histórico.”
Vem aí a segunda decisão do Pacto Histórico, importante no nosso processo. “Para nós, o Conselho Nacional Eleitoral fez em direito uma decisão, mas politicamente nós vamos unificados em todo lado. E temos que buscar a saída. Aí começa a fraude.”
Para Alarcon, a fraude “não é um negócio de software”, mas um conjunto de manipulações políticas, tecnológicas, que são feitas durante todo o processo eleitoral para impedir que uma força consiga estabelecer níveis de participação que lhes permitam desafiar o esquema dominante e conseguir uma vitória eleitoral. “Então a fraude começa ali. É jurídica. De que maneira você consegue dificultar a unidade do Pacto Histórico? Mas o Pacto resistiu politicamente. Então, se apresentaram situações muito interessantes. Por exemplo, Colômbia Humana precisava definir candidato. Eu vou te colocar uma questão pessoal, inclusive, para você entender a dimensão disso. Colômbia é um dos poucos países onde toda a migração tem representação no Congresso, ou seja, deputados federais. Tem que ter três candidatos no exterior. No máximo. E eu sou responsável internacional, eu pego. Mas como Colômbia Humana não tinha ainda candidato — era uma força dentro do Pacto que estava golpeada pela decisão do Conselho Eleitoral para conseguir cumprir os prazos até ele definir candidato e dar tempo que o Conselho Eleitoral decida —, eu me inscrevi na vaga da Colômbia Humana. E Colômbia Humana faz seu Congresso sabendo que Pietro [Alarcón], que é uma pessoa de uma outra organização, está ocupando a vaga dele. Eu renuncio 48 horas depois, quando o Congresso é feito e ele entra, aproveitando as brechas legais. É uma luta jurídica e política constante estressante, complexa. Para, ao final, você dizer que nasce o Pacto Histórico. Então, quando nasce o Pacto Histórico, vem também um conjunto de demandas contra a decisão do Conselho Nacional Eleitoral de dar personalidade jurídica ao novo partido. Rodear juridicamente e politicamente o processo. Essa é a primeira questão, a primeira grande batalha que nós ganhamos.”
Mas viriam outras.
O Pacto Histórico tinha vários pré-candidatos à Presidência da República e decide fazer uma consulta pública em 26 de outubro de 2025. Durante o processo de organização da consulta, alguns deles declinaram, um deles, Daniel Quintero, desistiu alguns dias antes do pleito, restando em disputa somente Carolina Corcho (de Colômbia Humana) e Ivan Cepeda (do Polo Democrático Alternativo, o PDA). Cepeda saiu vitorioso com 65,13% dos votos. E então Carolina ficou para o primeiro lugar na lista fechada ao Senado.

Sem primária
Passada essa etapa, o Pacto Histórico parte para a organização de uma frente ampla. “Porque o Pacto Histórico sozinho não ganha. Nós tínhamos os cálculos. Então, o nosso candidato, Ivan Cepeda, com outros candidatos, vai formar a frente ampla. Só que, pela regra, Ivan Cepeda tem que se submeter novamente à consulta junto com os outros candidatos da frente ampla. Mas o CNE diz que Ivan Cepeda não pode ir para a consulta, porque ele já participou de uma consulta como membro de um partido, que é o PDA, dentro de um partido como Pacto Histórico, junto a uma candidata de Colômbia Humana que ainda não tinha personalidade jurídica. Ou seja, quando foi feita a consulta de outubro, Colômbia Humana não tinha ingressado oficialmente no Pacto. Então, era outro partido, não estava dentro do Pacto. Ivan é candidato do PDA, Pacto, e havia uma candidata de Colômbia Humana. Então, o CNE diz: ‘Se Colômbia Humana não é do Pacto, Ivan é do Pacto. Então, esta foi uma consulta interpartidária. Depois que Colômbia Humana entrou no Pacto, Ivan não pode participar de duas consultas para ser candidato’”.
A decisão significava não só que Ivan Cepeda teria que lançar-se candidato diretamente no primeiro turno das eleições, mas que o Pacto Histórico, por não participar das primárias, ficava proibido por lei de receber os recursos públicos para a campanha. “Nós ficamos sem um tostão. Então a ideia era como é feita uma campanha sem um tostão. Surge a ideia de austeridade eleitoral, que significa uma campanha com limitações de recursos”. Restou ao partido buscar financiamento bancário, e apenas um banco emprestou. “Agora estamos endividados”. O financiamento eleitoral de terceiros é proibido na Colômbia.
Ivan X Uribe
Pesava a favor do novo partido a imagem positiva e de grande prestígio de Cepeda, que havia ganhado muita visibilidade por seu enfrentamento a Uribe nos tribunais. O ex-presidente foi condenado em primeira instância, em agosto de 2025, a 12 anos de prisão domiciliar, por fraude processual e suborno de testemunhas (no caso dos falsos positivos), mas acabou sendo absolvido pela Justiça colombiana em 21 de outubro de 2025, quando a sua condenação e prisão foram totalmente revogadas. “Isso na Colômbia é um fato estranho, no mínimo, e surpreendente. E Ivan era o homem do momento. Para as vítimas do conflito social e armado, Ivan era uma espécie de herói. Mas a questão é: não tínhamos recursos, mas tínhamos um excelente candidato, que, sobretudo, tinha um profundo respaldo da sociedade colombiana castigada pela violência. Um cara que fala de paz, um filósofo da universidade, que tem um discurso muito calmo, diferenciado com relação ao de Petro, em termos de estilo, que propõe uma revolução econômica, uma revolução ética, uma revolução na questão da paz, enfim.”
Mas Alarcón admite um erro. “O Pacto Histórico dizia: Qual é o nosso inimigo fundamental neste momento? O Uribe. Tudo o que representa o Centro Democrático, que a gente chamava de ‘Centro Demoníaco’. Tudo o que representa esse passado, a guerra, as bases militares, a segurança democrática de Uribe, os Estados Unidos presentes. E nós não conseguimos enxergar em tempo o fenômeno do líder. Ou seja, quem, de fato, a direita impulsiona? A direita abandona Uribe. Ou seja, nós não conseguimos farejar bem o que estava acontecendo. Uribe tinha um candidato, que era Paloma Valencia. Então Paloma representa Uribe no meio de vários candidatos. De repente, aparece um setor na Colômbia que coloca um candidato importado: Abelardo de la Espriella. Um cara que mora na Itália, que é cidadão estadunidense, que é advogado das grandes máfias e que vem com uma caracterização midiática: O Tigre. Nós, de imediato, respondemos. Nossa comunicação responde. Na Colômbia, não há tigres. Na Colômbia, há jaguares. E surge a questão: na Colômbia, você está com o Jaguar ou com o Tigre? Na Colômbia, não tem tigre. Tigre tem lá na Índia. Aqui existe o jaguar. Por isso, Petro fala nos discursos: ‘Estão despertando o jaguar’.”
Trump X Petro
Na avaliação de Alarcón, Trump não esperava por isso. “Ele dava o golpe e esperava que o mundo ficasse acuado, ou seja, que as pessoas apenas escutassem. Nós falamos: ‘Não, nós não podemos assumir isso e precisamos responder energicamente. Isso vai ter consequências, sim. Então nós falamos o seguinte: ‘Eles têm que ter respeito por nós’. E aí veio o caso dos migrantes. Como em nossa relação com Estados Unidos dizíamos: ‘Estados Unidos não vão deportar nossos migrantes do jeito que fez em outros países, acorrentados e tudo isso’. E nós mandamos o avião, não era um avião deles. Os Estados Unidos diziam que eles são delinquentes, e a Colômbia responde: ‘Quem diz que são delinquentes não somos nós, eles são, até este momento, colombianos. Talvez diante da legislação colombiana não sejam delinquentes, talvez sejam diante da legislação de vocês, porque a maior parte está em situação de ilegalidade, mas não na Colômbia, senão lá, onde estão vocês’.”

Desculpas?
O governo Petro também anunciou em comunicado público que não estava de acordo com a política do ICE[4]. “Petro tem seu gênio também, ele vai para as Nações Unidas, aproveita que está lá, sai do hotel, e entra em uma manifestação de imigrantes, e na manifestação ele ordena, ele fala para os policiais que não obedeçam às determinações do governo Trump, o que caracteriza a ingerência estrangeira, é o caso de um presidente que às vezes extrapola.”
À época, Alarcon considerou que era necessário um pedido de desculpas. “Foi o que eu propus, mas nunca foi feito. Eu falei assim: ‘Olha, o melhor neste momento para não gerar um grau de tensão maior, é um pedido de desculpas formal, e uma visita do nosso embaixador, Daniel Garcia Penha, ao presidente, ou a alguém lá, enfim, para minimizar o fato.”
Israel
Diante de tudo o que estava acontecendo, o governo tomou algumas decisões, como, por exemplo, quebrar as relações com Israel. Os contratos que já estavam assinados seriam cumpridos, mas não haveria novos contratos. “Petro vai fazendo tudo isso no meio de uma campanha eleitoral nossa, certo? E plenamente consciente de que ele não pode ser reeleito, que na Colômbia não há reeleição. Então nós temos que trabalhar com uma orientação eleitoral, mas com um conjunto de fatos acontecendo, aos quais temos que também dar resposta. E começa toda a campanha de mídia com o Tigre: ‘Com Estados Unidos, as relações poderiam ser melhores’. Nós estávamos no olho do furacão, porque Estados Unidos estavam olhando permanentemente para nós de maneira negativa”.
Venezuela
As animosidades dos Estados Unidos com Petro seguiam. Em 10 de dezembro de 2025, em meio à ofensiva militar estadunidense no Caribe, Trump dispara: [o presidente da Colômbia, Gustavo Petro], “vai se meter em grandes problemas se não ficar esperto”. Logo em seguida, em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos começam o que Alarcón chama de processo de estabelecimento do protetorado venezuelano; sequestram Nicolás Maduro e Cilia Flores. “É um golpe extremamente grave na Colômbia. Nós estávamos para realizar eleições em março, para o Congresso Nacional. O impacto que tem esse processo com a situação na fronteira e com o nosso capital eleitoral e a maneira como a mídia retrata isso, era como dizer: ‘O próximo é Petro’”. Foi então que Petro propôs ao Pacto Histórico: “Eu vou para aos Estados Unidos. Vou conversar diretamente com Trump”. Mas essa jogada, na avaliação de Alarcon, Trump também não esperava. “Ou seja, ele esperava que Petro recuasse em algum momento.”
Segundo Alarcón, Petro não recua em nenhum momento. E convoca uma grande mobilização para 7 de janeiro. “No Brasil e em outros países, o grau de diálogo entre o movimento social e o governo tinha, em algum momento, registrado uma espécie de divórcio. E o grau de mobilização social tinha abaixado. Nós não, nós falamos: ‘Nós vamos manter o grau de mobilização permanente’. Então nós montamos as conferências nacionais populares, o 1º de maio, que tem que ser de formal, tem que ser de mobilização popular. É força. A direita tem que sentir o movimento social no 1º de maio. Dia 8 de março é de luta. Vamos para a rua, certo? Dia 20 de julho [Dia da Independência] é rua. Ou seja, é um estado de mobilização permanente. Petro, durante todo o processo, moveu muito isso, a mobilização permanente.”
Trump apazigua com Petro; Noboa faz a ofensiva
Em 3 de fevereiro de 2026, Petro vai aos Estados Unidos, e conversa diretamente com Trump. “E Trump se compromete a não agressão. Só que Trump se compromete, mas Noboa não está comprometido”. Alarcon se refere a Daniel Noboa, presidente do Equador desde maio de 2025, totalmente alinhado com os Estados Unidos. Em 20 de janeiro, Noboa já havia anunciado a cobrança de taxas de 30% sobre produtos da Colômbia, medida cuja vigência teve início em 1º de fevereiro. “Qual foi a reação da equipe econômica? Nós podemos aguentar o rojão? Podemos. Até porque isso para Noboa é pior, porque a economia colombiana é dez vezes mais forte que a economia equatoriana. Nós temos quase 60 milhões de habitantes. Temos a terceira economia da América. A segunda da América do Sul, depois do Brasil. Então nós temos uma economia relativamente equilibrada aqui. Temos reduzido os índices de inflação. Temos conseguido reduzir a especulação do dólar. Reequilibrar um pouco as contas públicas”. As taxações incidiam em produtos como óleo comestível e sucos.
30%, 50%, 100%
Mas Noboa não parou por aí. Em 1º de março, a taxação subiu a 50%. Ainda que isso não tivesse um impacto econômico importante nas contas da Colômbia, a repercussão negativa para o governo Petro na mídia foi intensa. Noboa dobrou a aposta. Em abril, a taxa sobre os produtos colombianos já era de 100%. “Então nós começamos a pensar no seguinte. Não pode ser Noboa, porque, inclusive, é um tiro no pé. O Trump se comprometeu conosco. Mas Noboa não se comprometeu conosco. Portanto, há uma instrumentalização aqui. Isso para nós foi duro, porque nós temos uma grande quantidade de colombianos no Equador. E, no Equador, a propaganda é: ‘É tudo culpa de Petro’. Com uma taxa de 100%, o leite que era de quatro reais passou para 15 ou 12. Então tudo isso gera um mal-estar e a fraude vai sendo construída através das taxas impostas por Noboa”.
As redes
Mesmo com toda essa campanha negativa, as atividades de campanha do Pacto Histórico enchiam as praças. “De fato. Mas a manipulação tecnológica [da direita, estava em curso]. Nós não conseguimos detectar o outsider. Nós não conseguimos lidar com a questão tecnológica. Quando nós conseguimos lidar com isso, já era muito tarde. As redes sociais eram tomadas por eles, literalmente. Nossa linha gráfica era muito confusa. E aí veio a questão do software [eleitoral]. O software é o mesmo que foi utilizado em Honduras e não tem auditoria. Há uma pergunta muito concreta que foi feita para nós. Por que nós, quando Petro ganhou em 2022, se era o mesmo software, nós não falamos que havia problemas? A verdade é que nós, naquele momento, nós ganhamos por 800 mil votos. E o que conseguimos detectar é que os níveis de transparência desse software foram reduzidos nesse processo eleitoral, de maneira tal que o algoritmo podia ser manipulado. Por isso, nós dizíamos: ‘Se nós tivéssemos tido 20 milhões de votos, de la Espriella teria 20 milhões 250 mil’. Porque o que aparece como grande questão é esse número mágico: 250. Ao que dizem, isso eu não posso te comprovar, é que essa é a cifra que estava colocada dentro do sistema para que sempre ganhasse de la Espriella por essa diferença além dos votos do Pacto. A sensação que tinha o Pacto Histórico era de que nós ganharíamos. Porém, eu estive várias vezes nas reuniões com o PT, estive no Congresso do PT, com Humberto Costa, com Mônica Valente. Eu fui quem fiz a intervenção em nome do Pacto. Eu dizia: ‘Nós estamos frios e mobilizados. Porque sabemos que isso não está ganho. Há uma grande quantidade de coisas. Mas estamos frios e mobilizados’. Sim, mobilizados porque estávamos enchendo praças. E frios porque estávamos conscientes dos perigos. Mas a nossa base estava muito triunfalista. Então, em algum momento, nossa base abaixou o ritmo, no sentido de que: ‘Isso está ganho. Ninguém tira de nós. Ivan Cepeda é um fenômeno. Aliás, Aida Quilcué [vice de Cepeda] gerou uma unidade do movimento indígena. Suficiente para ganhar? Em condições normais de temperatura e pressão, sim. Mas quando se tem uma ingerência como a dos Estados Unidos, direta, através de operações como a Operação Júpiter, é complexo.”
O que é a Operação Júpiter?
Alarcón explica que Operação Júpiter é a realização dos chamados Seminários pela Democracia patrocinados por grandes empresas em toda a Colômbia. “Cada empresa individualmente recebe um recurso para programar os eventos. Isso é uma educação cívica que a empresa pode fazer em qualquer momento. É um cenário de convivência onde se monta a oficina. É uma coisa muito simples. Você convoca uma pessoa que vem aqui, passa três passos de mágica e alguém que faça uma exposição sobre a democracia no mundo. Então, todo mundo assiste, com as famílias, tudo isso, regularmente, no domingo. Sabe quantos tipos de eventos foram feitos aqui na Colômbia? Mais de 700. Isso foi depois do mês de março e se estendeu praticamente durante o processo eleitoral. No final, todo mundo fica convencido em quem tem que votar. ‘Para as prerrogativas desta empresa continuarem, para você ter esse salário que você tem, para você e sua família, entendeu?’ Espalharam isso pela Colômbia inteira. E todo esse pessoal é voto amarrado. Quantos votos há nesta empresa. E são convenientemente detalhados, convenientemente centralizados. Tem uma estrutura para isso. Tudo era patrocinado pelos Estados Unidos. São as empresas que respondem aos Estados Unidos.” O que fez o Pacto Histórico? Denunciou essa prática.
Quanto à manipulação tecnológica, Alarcón diz que já se sabe que partiu de algumas ilhas da região, como Aruba e Curaçao, e de alguns países como o próprio Brasil. “Todas as redes estavam interligadas para inundar com mensagens. A questão dos recursos nós estamos ainda investigando como entraram recursos para a campanha [da direita], que fundações, que gente deu recurso. Isso é muito complexo de demonstrar”.
A apuração e as denúncias
O voto não é obrigatório na Colômbia, mas a participação cresceu nos últimos anos. O sistema de votação é em papel (a cédula se chama tarjetón). Na apuração, os votos têm que ser verificados ata a ata, de todas as regiões do país e do exterior. Mas os votos do exterior no segundo turno não foram escrutinados em Bogotá. “Há uma diferença aí de mais de 200 mil votos”.
Por essas e outras prováveis fraudes eleitorais, o Conselho de Estado (uma justiça administrativa) recebeu 27 demandas, das quais seis foram apresentadas pelo Pacto Histórico e as demais por diversos movimentos sociais. Todas em torno do resultado da eleição e de como o processo foi conduzido. Todas pedem a nulidade da ata do Conselho Nacional Eleitoral que proclama a vitória de Abelardo de la Espriella. Não há prazo legal para que o Conselho de Estado julgue as demandas. “E se o Conselho de Estado decide, ainda pode passar pela Corte Constitucional”.
Alarcón não vê possibilidade real de nulidade, mas explica que as demandas são parte da estratégia de que o Pacto Histórico não fará nenhuma concessão a de la Espriella. “Ele vai sofrer conosco. O Conselho de Estado, em algum momento, vai ter que se pronunciar. O povo vai sair às ruas. Nós somos a metade deste país. Ou seja, neste país nós tivemos quase 13 milhões de votos. Eles obtiveram 13 milhões e um pouquinho. Nós não subestimamos que há muita gente na Colômbia que assume a ideologia de direita. Que é racista, porque é machista, porque é anticomunista, porque é anti-Pacto Histórico, porque é antipetrista. Tudo isso a gente sabe também. Nós não podemos dizer que tudo foi por ingerência dos Estados Unidos. A ingerência encontrou um ambiente muito bom em alguns cenários.Por ignorância, por cultura, por isto. Ou seja, isso tem que ser dito também. Há muitos setores da Colômbia onde há um sentimento anti-FARC, porque as FARC foram um grupo armado. Como grupo armado, atacaram, agrediram, se defenderam. Ou seja, é uma guerra”.
De la Espriella X comunismo
“O pior inimigo do Cristianismo é o comunismo”, essa é apenas umas das inúmeras declarações de la Espriella contra as ideologias de esquerda. O presidente eleito da Colômbia já anunciou que romperá relações com Cuba e Nicarágua. Confirmou o fechamento de 14 embaixadas e 15 consulados, e afirmou que reabrirá a missão diplomática em Jerusalém e reverterá várias decisões de política externa adotadas durante o mandato de Gustavo Petro.
“As primeiras declarações após a eleição são que ‘os comunistas têm que ser exterminados, a esquerda tem que ser exterminada, o presidente vai ser extraditado, eu vou ter a honra de extraditar Petro’. Então não existe ambiente [para a transmissão de cargo]. Há uma questão que hoje [27 de julho] Ivan [Cepeda] dizia na reunião que tivemos de manhã, que é insanável. Ele [la de Espriella] é dos Estados Unidos. Ele jurou aos Estados Unidos fidelidade. O juramento para a obtenção da cidadania dos Estados Unidos impede que ele tenha lealdade pela Colômbia. Nós nos encaminhamos para um protetorado. Estamos, literalmente, sob a mira dos Estados Unidos. O FBI chega aqui na primeira missão no dia 8 de agosto. No dia 9 de agosto já deve começar a funcionar o ESMAD [Esquadrão Móvel Antidistúrbio] de novo. Então, e os decretos já estão praticamente prontos. Primeiro, a embaixada de Cuba já foi convidada a sair. Nós não teremos mais relações com Cuba. Nós não teremos mais relações com alguns outros países. Enfim, há uma lista de países com os quais não haverá relações. E se reabrem a partir do dia 8 de agosto as relações com Israel. E a assessoria militar de Israel retoma na Colômbia. As bases militares prosseguirão e poderá haver incrementos dessas bases militares [hoje são oito bases dos EUA na Colômbia]. Nós sabemos que podem vir por Petro. Ivan Cepeda está sendo investigado por suposta extrapolação de funções nos seus diálogos com as forças criminais com as quais havia dialogado [em sua função oficial]. Porque a direita diz que com eles não havia que dialogar e que foram feitas concessões inconstitucionais. E que Ivan é um aliado desses grupos”. Ivan Cepeda, sendo segundo colocado na eleição presidencial, passa a ser senador novamente com mandato até 2030, encabeçando a oposição no Senado. É uma das regras do Estatuto da Oposição.
Petro já fez seu discurso de despedida do mandato em 20 de julho e chamou o povo à resistência. “A nossa consigna é desobediência civil. Nós temos dito que é o povo vai sair para manifestar sua rejeição a Abelardo. Mas temos que evitar provocações. Porque tudo o que quer neste momento Abelardo é que haja um atentado, uma bomba, alguma coisa. E eles próprios podem gerar isso. Eles próprios podem fazer. Então estamos pensando em um 7 de agosto [dia da posse] onde podemos ir à Barranquilha. Também fazer um evento em Cali, como Pacto Histórico, e outro em Bogotá”.
Para o Pacto Histórico, de la Espriella será um presidente ilegítimo. “Ele ganhou através da interferência direta, financeira, midiática. E através de ameaças, de declarações. O próprio Trump falou. A primeira ligação de Abelardo [de la Espriella, após ser declarado ganhador] foi pra Trump. E Trump diz para ele, depois da vitória: ‘Quando você chegou aqui, você era o candidato número 11 [entre os candidatos presidenciais no primeiro turno]. Eu tornei você vitorioso. E eu espero que você não esqueça disso’. E o Abelardo fala disso com uma naturalidade espantosa. O próprio chega e diz: ‘Acabei de falar com o Trump e Trump diz que ele me elegeu. Eu sou muito grato a ele’”.
Para Alarcón, a Colômbia terá um governo transnacional. “Que apresenta todas as características dessa direita que vem em ascensão, nos marcos desse projeto de dominação que os Estados Unidos têm para a América Latina e o Caribe. [Nayib] Bukele [presidente de El Salvador] faz parte disso, [Javier] Milei [presidente argentino] faz parte disso. Um não é clone do outro exatamente, porque as peculiaridades são diferentes. De la Espriella terá que lidar com uma realidade diferente, porque a Colômbia tem algumas questões que a tornam singulares na América Latina e no Caribe. Aqui a solução dos conflitos sociais não passa necessariamente pela cooperação e o diálogo. Ou seja, nós estamos em guerra de guerrilhas desde os tempos de Bolívar. E é preciso lidar com o tema da paz de maneira muito responsável para não voltar a uma época na qual o país chega a graus de deterioração dos direitos humanos e de violências sistemáticas muito graves, como o assassinato de líderes do movimento social e popular”.
O Pacto Histórico também começa a programar seu primeiro congresso. “A discussão de hoje de manhã, além do tema de o que nós vamos fazer no dia 7 de agosto, é o Congresso. Provavelmente seja em maio do próximo ano. Primeiro Congresso do Pacto Histórico. Você poderá imaginar como vai funcionar isso, sendo nós cinco partidos. Ivan unifica. É bem o estilo dele. Mas há diferenças. Unifica-se eleitoralmente. Mas há diferenças também.”
Notas:
[1] É uma vasta região geográfica e de savana na América do Sul, marcada por rica biodiversidade, forte cultura de pecuária e grandes bacias hidrográficas. Abrange os Llanos da Colômbia e da Venezuela, estruturando-se ao redor da bacia do rio Orinoco.
[2] DEA – sigla em inglês para Drug Enforcement Administration, agência do governo dos Estados Unidos contra drogas.
[3] Uma investigação concluiu que 6.402 civis foram assassinados por militares colombianos entre 2002 e 2008 e apresentados como rebeldes (guerrilheiros), numa prática denominada “falsos positivos”.
[4] ICE, sigla em inglês para Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos).
Rita Camacho é jornalista
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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