Manuel Domingos Neto: Portões de Múcio

Tempo de leitura: 2 min
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Manuel Domingos Neto* 

Reações a uma frase de José Múcio, proferida essa semana, mostram o desaviso do democrata brasileiro quanto à orientação prevalecente para a Defesa Nacional.

Referindo-se a possível agressão estadunidense em nosso território, Múcio disse: o mais sensato seria “abrir os portões”, posto não termos capacidade de nos defender.

O fato se deu em evento na Confederação Nacional da Indústria, diante de pessoas ávidas de investimentos públicos de longo prazo em equipamentos e tecnologias de guerra.

Múcio usou o prosaísmo reacionário que marcou sua carreira política.

Revoltados, alguns pedem sua cabeça. Indignação ingênua. Proposição temerária. Descabida.

O Ministro foi jocoso, não aleivoso. Não temos, de fato, capacidade de reação militar ao imperialismo. As corporações de que dispomos integram esquema comandado pelo Pentágono para o exercício do domínio mundial. Na cultura militar vigente, não há lógica em se preparar para tecer armas com a potência que nos “protege”.

No mais, nossos portões nunca estiveram efetivamente fechados aos estrangeiros gananciosos.

O militar brasileiro, desde a Independência, voltou-se contra o “inimigo interno” e os vizinhos.

Persiste cultuando glórias do tempo colonial-escravista. Não se preparou para dizer não às vontades imperiais. A Armada, então, persiste batendo continência para descendentes de reis portugueses e repudiando o Almirante Negro..

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Múcio não recebeu o cargo para mudar a Defesa Nacional. O presidente confiou-lhe o apaziguamento de quartéis agitados por devaneios golpistas e delírios militaristas. Não recebeu o cargo para reposicionar militarmente o país na ordem mundial em construção.

A rigor, Múcio sequer é propriamente ministro: não apresentou nem gerenciou planos, não formulou estratégias, não propôs reformas, não conteve voracidades corporativas. Assumiu-se como alegre porta-voz de quartéis.

O presidente da República rendeu-lhe elogios e afetos. Lula quis governar sem contrariar as fileiras. Tal como seus antecessores, respeitou a plena autonomia castrense. Não assumiu o papel constitucional de comandante supremo das Forças Armadas.

Outras instituições relevantes para controle da autonomia corporativa também evitaram contrariar as fileiras. O STF e o Senado foram obsequiosos com comandantes que permitiram militância golpista nos quartéis. Nem a Corte nem o Senado foram atacados pelos que querem a cabeça de Múcio.

A sugestão de “abrir os portões” prejudicou a campanha eleitoral?

Aqui, a prosa fica mais complexa. Múcio deu mote inflamado para o discurso do nacionalismo de esquerda, pouco ou nada afeito às questões da Defesa Nacional.

Mas, por outro, cativou contingente expressivo em eleição apertada: a “família militar”.

Ao justificar desajeitadamente investimentos públicos em material de guerra, Múcio pode ter neutralizado eleitores propensos a votar na direita. Se for deposto, a direita pode ganhar as eleições.

O inegável é que o debate propiciado pelo jocoso ministro mostra o quanto os nacionalistas de esquerda precisam avançar na defesa consistente da Soberania Nacional.

Um projeto efetivo de Defesa Nacional deve ser arvorado para que o próximo mandato de Lula suplante os desafios à soberania do Brasil.

*Manuel Domingos Neto é doutor em História pela Universidade de Paris. Autor de O que fazer com o militar – Anotações para uma nova Defesa Nacional (Gabinete de Leitura).

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Comentários

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Morvan

Eu me enfileiro ao melhor, mais digno Ministro da Defesa que esse país já pôde ostentar: José Genoino, bem como ao grande cientista, neurologista Nicolelis: Fora Traíras. E também signatário do Método Dilma:«

Ou você sai, ou saio com você»

—; Dilma Roussef, se referindo a outro golpista, este chegado inclusive a uma farda. Não usava Black-tie.
Possível prejuízo eleitoral? Duvido. Também duvido de engajamentos, por isso.
Primeiro, porque é logicamente inconciliável ser Ministro da Defesa e Chefe de Cerimonial dos Invasores; mutuamente excludentes. Depois, a Pasta exige um Homem, não o gênero, mas a estirpe; Lula perde a enorme oportunidade de dar um recado bem ostensivo aos esbulhadores. E não adianta fazer mesuras. Somos BRICS+G. Pajear o agressor não nos dará paz, a não ser a dos mausoléus. Não romperia com nossos eternos “amigos”. Ao contrário. Seria sutil, só dessa vez. Daria um gelo de deixar a Antártida com síndrome de inferioridade, mas não romperia formalmente, nem mesmo com os outros nazis, o “povo de deos”.
Mas, ao Múcio, mostraria os portões. Canalha!

FrancoAtirador

.

“Capitulação Fantasiada de Realismo”

Por Gustavo Guerreiro em: https://t.co/lakl90d72n

https://x.com/VIOMUNDO/status/2085352794807042451

https://www.viomundo.com.br/politica/gustavo-guerreiro-capitulacao-fantasiada-de-realismo.html
.

FrancoAtirador

Excerto

Nossos portões nunca estiveram efetivamente fechados
aos estrangeiros gananciosos.

O militar brasileiro, desde a Independência, voltou-se contra
o “inimigo interno” e os vizinhos.

Persiste cultuando glórias do tempo colonial-escravista.

Não se preparou para dizer não às vontades imperiais.

A Armada, então, persiste batendo continência para descendentes de reis portugueses e repudiando
o Almirante Negro.

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