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Pinheiro Salles: Não acredito no coronel


13/06/2011 - 17h42

Não acredito no coronel

Antônio Pinheiro Salles*

Comandante ou comandado, o torturador é uma espécie de gente que amesquinha e avilta a existência do ser humano. Por isso, jamais poderíamos admitir alguma forma de diálogo com ele, exceto quando especiais circunstâncias transformam a nossa palavra num instrumento de legítima defesa, ainda que excessivamente ineficaz. É o caso, por exemplo, do agonizante momento em que estamos amarrados e pendurados no pau-de-arara, vitimados por torturas complementares como choque elétrico, espancamento, afogamento e outros métodos que retiram de nós a possibilidade do exercício da dignidade.

A propósito, li o artigo “O delírio de Persio Arida” (Folha de S. Paulo, 27/05), do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI/Codi de São Paulo, tentando desmentir acusações que lhe foram formuladas numa entrevista. Também, na Folha do último dia 2, li “O coronel e a tortura”, do economista Persio Arida. E, diante dessa leitura, não poderia aceitar a minha omissão e me contentar com mais algumas poucas manifestações a respeito do assunto, como a do articulista Fernando de Barros e Silva (“Ustra e as unhas de Lobão”), no mesmo jornal.

Entrando no mérito, preciso esclarecer que não conheço Persio Arida, a não ser por meio de informações transmitidas pela grande imprensa. Então, sou levado a acreditar em todas as suas afirmações: 1º) porque acredito nas pessoas até quando elas comprovem o meu equívoco; e 2º) por tudo o que conheci no centro de horror do sanguinário regime militar, não vacilaria em garantir que ali foram praticadas atrocidades que o próprio economista não teve oportunidade de observar.

Quanto ao que escreve o coronel, sou obrigado a rejeitar tudo, em bloco, considerando o tétrico papel desempenhado por ele durante a ditadura e agora, quando os verdugos do Brasil desfrutam de um privilégio que seria inimaginável na Alemanha depois do nazismo ou na Argentina, no Chile e Uruguai, por exemplo, após as ditaduras dos generais. Aliás, nem poderia falar muito do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, porque, ao longo do período em que estive submetido à sua ferocidade, ele se apresentava como o “Doutor Tibiriçá”.

Preso há cerca de um ano no Rio Grande do Sul, quando comecei a me recuperar dos maus-tratos sofridos no Dops, em Porto Alegre, fui removido para o DOI/Codi (Oban) da rua Tutoia (SP), no começo de outubro de 1971. E caí diretamente na sala de tortura, que ficava ao pé da escada, equipada com cadeira do dragão, sinistras peças do pau-de-arara e toda a parafernália utilizada durante as macabras sessões que levaram à morte um grande número de brasileiros.

Ali, padeci nas garras dos carcereiros “Muniz” (Altair Casadei), “Lunga” (agente da Polícia Federal Maurício José de Freitas) e “Marechal”. Mais: seviciadores “Major Hermenegildo” (capitão Dalmo Luiz Cirilo), “Otavinho” (delegado Otávio Gonçalves), “Mangabeira”, “Doutor José”, “Jacó”, “JC”, “Oberdan” , “Doutor Tomé” e outros cujos nomes,  falsos ou verdadeiros, não descobri ou não guardei na memória, todos comandados pelo “Doutor Tibiriçá” (coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra).

Em 16 de novembro, entregaram-me ao Dops do capitão Sérgio Fernando Paranhos Fleury e sua famigerada equipe do Esquadrão da Morte. Mas lá passei apenas 15 dias, o tempo de experimentar novos horrores da tortura e “fazer cartório” (inquérito policial) com os delegados Alcides Singillo e Edsel Magnotti. De volta ao DOI/Codi, permaneci naquele inferno até o final do mês de dezembro, em péssimo estado físico. O que sofri e o que testemunhei, naquela ocasião, deixaram em mim a certeza de que tudo devemos fazer para o povo brasileiro nunca viver sob a ameaça da repetição de algo semelhante.

Em meus nove anos de cárcere (1970-1979), no Rio Grande do Sul e em São Paulo, mais umas três vezes estive na máquina de terror onde o “Doutor Tibiriçá”, em nome do general Médici, tinha poderes para decidir sobre a vida e a morte das pessoas. Mas quase nada disso se pode compreender sem uma análise mínima do que representou a ditadura para o Brasil, especialmente durante o plantão Médici-Geisel (1969-1979), quando a concepção identificada com o nacional-socialismo alemão (nazismo) orientava as ações do Estado militar.

No curso desses anos, o combate a qualquer forma de oposição era feito, sistematicamente, por meio de prisões ilegais, torturas, genocídio, mortes e desaparecimentos, utilizando-se, sempre, os métodos mais cruéis e desumanos. A administração do governo, como lembra Agassiz Almeida, ficou em segundo plano, priorizando-se o aniquilamento dos opositores. Se nas demais fases do regime autoritário ocorreram violências indescritíveis e assassinatos, ainda não havia a institucionalização do terrorismo de Estado.

Sabe-se que no Brasil o número de mortes foi infinitamente menor que na Alemanha de Hitler e em outros países da América Latina. Entretanto, adotou-se aqui uma estratégia que superou o próprio nazismo: desmoralizar e desestruturar a personalidade do adversário, recorrendo-se à crueldade do suplício físico e psicológico da maneira mais degradante, com alternativas que na maioria das vezes não produziam marcas visíveis.

Destacaram-se como defensores da ideologia importada da Alemanha e adaptada à realidade do regime militar, dentre outros, os artífices da doutrina da “segurança nacional”, que levou a monstruosos crimes: Golbery do Couto e Silva, Orlando Geisel, Meira Matos, Ernesto Geisel e Emílio Garrastazu Médici, numa estreita aliança com o governo dos Estados Unidos.

Dos mais de 120 centros de tortura em funcionamento no país, o da rua Tutoia, nos porões do II Exército, em São Paulo, foi o que mais comprovou competência para defender os objetivos do Estado totalitário. Sem dúvida, não foi desprezível a atuação, nesse processo ignominioso, do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ele comandou o DOI/Codi (Oban) entre 1970 e 1974. Repito: não conheci o economista Persio Arida, mas estou certo de que o coronel Ustra é o “Doutor Tibiriçá”, de quem espero ainda poder dizer tudo o que sei à Comissão da Verdade a ser aprovada pelo Congresso Nacional. Não posso acreditar em uma única palavra dita ou escrita por ele, que há muito deveria estar pagando pelos crimes que cometeu contra a humanidade.

*Antônio Pinheiro Salles é jornalista profissional e bacharel em Direito. Abordando o tema da ditadura militar, tem quatro livros publicados. Passou nove anos nos cárceres do Rio Grande do Sul e de São Paulo.





17 comentários

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lauro oliveira

29 de junho de 2011 às 17h50

O testemunho de Antonio Pinheiro Sales é um legado para nossa história. Uma parte muito infeliz, que a qualquer custo temos que evitar sua repetição. A comissão da verdade tem que trabalhar a exaustão para evitar que estas bestas feras se empoderem novamente.

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    Paulo Martins

    17 de fevereiro de 2020 às 16h44

    Vivi lá – como jornalista – e cobri atos de terrorismo praticados pelos que hoje se dizem “inocentes e vítimas”. Assaltos, sequestros, assassinatos eram a tonica e faziam o clima se transformar em terror, mas isso pelo lado daqueles que agiam em busca da implantação do regime comunista, Cheguei a ser sequestrado de dentro do estúdio da Radio Farroupilha. Pelos prontuários da época era difícil alguém ser preso sem ter pelos ombros a prática de crimes até hediondos. Conheci C.A.B. Ustra…Me animo a duvidar de tudo o que dizem dele, inclusive esse Salles que bem poderia mostrar seu prontuário informando por quais crimes cometidos que foi tirado de circulação. E a propósito, no Livro a Verdade Sufocada estão fotos, documentos, datas e demais informações oficiais sobre o banditismo comunista que era praticado.

Érika

20 de junho de 2011 às 11h28

Mais uma vez, em pouco tempo o passado que não quer calar e, que grita na memoria e no corpo de cada torturado, ou de cada familia que sofreu na mão de torturadores como o cel. acima citado_ vem a tona com toda força diante das possibilidades da Comissão Nacional da Verdade.
Parabéns Pinheiro Salles, pela contribuição histórica mais uma vez dada em prol do povo brasileiro e da dignidade humana.

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Clara

18 de junho de 2011 às 21h07

Que ninguém se cale diante das barbaridades cometidas pela ditadura militar. O meu pai cumpre o seu dever de continuar fiel aos princípios da justiça, da democracia e do socialismo. Portanto, é de extrema importancia a urgente aprovação da comissão da verdade, para que pessoas como ele possam ser ouvidas, dando uma contribuição, de grande valia, para que a justiça seja feita em nosso país e a impunidade possa ser derrotada.

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Valéria

17 de junho de 2011 às 16h53

O coronel é ingênuo quando desmente torturados ,alegando ter documentos dos fatos, que apagam provas; essas, têm o mesmo valor daquelas de um tempo quando era comum “ APAGAR PESSOAS”. Que passem 40, 50, 70 anos ! A memória dos que resistiram às torturas funciona a todo vapor. E se o Persio estivesse delirando (não é o caso) , como afirmou o coronel , seria fisiologicamente normal. Indivíduos expostos a sofrimentos de natureza tão demoníaca, entram em pane mental, em surto _ forma de desligar a consciência da realidade quando as forças não correspondem à dor de experiências tão degradantes _ caso de tantos presos seqüelados mentais, irrecuperáveis, após torturas físicas e psicológicas. Precisamos acreditar em um Brasil que não cresça só economicamente, mas seja um gigante na justiça , punindo todos os torturadores. Os tempos mudam! O coronel e seus companheiros são os SUBVERSIVOS de hoje _ tempo de reafirmação da DEMOCRACIA em uma nação comandada por uma MULHER, ex-presa política comunista, que também foi torturada!

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Francisco Santos

15 de junho de 2011 às 12h58

O jornalista Antonio Pinheiro Sales é um ícone da resistência à ditadura militar no Brasil. Nunca se calou diante das injustiças praticadas neste país. Se manteve e se mantem fiel aos seus princípios. Nenhum pau-de-arara, choque elétrico ou covarde fardado o fez mudar sua trajetória de luta pela liberdade. Nem mesmo as decepções com alguns de seus ex-companheiros, que hoje mudaram de lado e não deixam criar a comissão da verdade. Quem teve a oportunidade de conhecê-lo de perto sabe que a liberdade e a verdade estão impregnados em sua alma e em seu coração. Esses Ustras não podem e não devem andar por aí como se fossem cidadãos de bem, emitindo relatos mentirosos, escrevendo em colunas de jornais, eles são criminosos, bandidos, marginais, têm que viver atrás das grades. E é de se perguntar: Afinal o que impede a punição desses criminosos no Brasil? As forças armadas? A rede globo, folha, veja, etc? o pmdb?
Vamos construir um país de verdade ou de faz-de-conta?

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Rogério

14 de junho de 2011 às 15h04

Excelente o texto do Pinheiro Salles. O monstro da rua Tutóia é um psicopata perigoso, serial killer. Por isso mesmo mente de forma contumaz: no documentário sobre o Boilesen, ele declara que seu amiguinho dinamarquês esteve uma única vez na OBAN, para cumprimentá-lo por ocasião do Natal. Não é demais?
E o monstro só deixou a caverna porque foi reconhecido há anos por uma pessoa que torturou.

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Nino

14 de junho de 2011 às 13h46

O legado de maldades, pervesidades, tortura e toda forma de atentado contra a vida , a integridade e a liberdade humana, deixado pelo coronel "brilhante" parece ter tido algum brilho somente no periodo das trevas da nossa história.Que cada coração e mente que alimenta o ideal e a verdadeira luz da Justiça Perfeita em nossa nação possam flamejar como fogo agora diante de um insulto tão grande a nossa inteligência e ao nossos nobre sentimentos de igualdade e fraternidade quando lemos algo de conteúdo tão inversossimel e cruel à memoria dos que lutaram pela democracia, sejam vivos ou mortos agora. A indignação e a verdade de homens como Pinheiro Salles, como seu sincero desejo por justiça serão o registro de um legado que eternizara na memoria daqueles que sonharam e sonham por um mundo livre e melhor. Mais uma vez Viva Pinheiro Salles, Viva a Comissão Nacional da Verdade.

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Jorge

14 de junho de 2011 às 08h31

Azenha

O Pinheiro Sales tem sequelas físicas das torturas que sofreu. Pelo que diz continua ingênuo e gostaria de acrescentar, sem desanimá-lo, que a ditadura foi ainda mais severa ao apagar os seus rastos. Impregnou-se nas instituições com o apoio irrestrito da UDN (ARENA E PDS), com a política mais sórdida do coronelismo ao "colocar os afilhados nos melhores postos e cargos do Estado".

Lembremos SEMPRE de que naquela época não se fazia CONCURSOS PÚBLICOS e só passavam dois bichos: peixes (amigos da ditadura ou cobras, raras exceções que sabiam muito, principalmente, o direito).

Portanto, por essa sórdida engenharia CONSTRUÍRAM A MAIORIA que até hoje manda nas instituições.

Alguém tem dúvida de qual o poder de influência (indicação de nomes) que um Sarney da vida teve nos destinos do Judiciário e demais poderes do Estado?

Humildimente acho que, para resgatarmos pelo menos a metade de nossa história, proponho um PLEBISCITO À EQUATORIANA JÁ.

Proponho desde já a revogação da lei de anistia e mandatos revogáveis para políticos, ministros dos tribunais superiores, membros dos MPs e para juízes e desembagadores.

Um abraço.

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gilberto

14 de junho de 2011 às 07h39

Precisamos dos nomes dos bois, dos endereços dos bois , dos nomes dos descendentes dos bois, o coicote aos bois tem que ser sobre os descendentes tambem.

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    sergiopamplona

    14 de junho de 2011 às 10h29

    Ops, amigo, calma aí, os descendentes dos boi já não seria demais? Vai querer amaldiçoar, demolir a casa e jogar sal, tal como fizeram com Tiradentes? Isso seria uma crueldade vingativa extremamente violenta e injusta.
    Veja meu próprio caso. Sou um cidadão de esquerda, libertário, anti-ditadura, ecossocialista, permacultor, filho de um oficial da aeronáutica de direita. Nasci em 65, e atravessei os anos de chumbo como criança. Vc quer me colocar no pau de arara pela minha ascendência? Bacana isso.
    Pense melhor, companheiro.
    Quanto a dar nome aos bois e tudo mais, botar na justiça, apurar responsabilidades, sou inteira e totalmente a favor.

    Geysa Guimarães

    14 de junho de 2011 às 23h20

    Sérgio:
    Excelente comentário. Os bezerros não podem carregar o fardo dos bois.

    SILOÉ -RJ

    15 de junho de 2011 às 23h19

    Não queremos vingança, queremos justiça. Que cada um pague pelo que fez e nada mais.

SILOÉ -RJ

14 de junho de 2011 às 00h04

Nada que os algozes da ditadura dizem se comprovam como verdade.
Haja vista a recente reportagem na globo news onde o general NEWTON CRUZ, mesmo depois de tantos anos, não se arrependeu, não perdeu a prepotência, nem a arrogância e nem o cinismo.
Sem o menor peso na consciência, declara ainda querendo nos fazer de idiota, que: …"AS BOMBAS DO RIO CENTRO ERAM SÓ PARA MARCAR PRESENÇA" …" OLHA!!! VOCÊS ESTÃO AÍ E NÓS ESTAMOS AQUI" !!!…
"ERAM SÓ UMAS BOMBINHAS" !!! … Dá para acreditar???
QUE O CONGRESSO APROVE O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL ESSA COMISSÃO DE JUSTIÇA, ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS, PARA VER ESSES BÁRBAROS NA CADEIA E NOSSOS VERDADEIROS HERÓIS JUSTIÇADOS.

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FrancoAtirador

13 de junho de 2011 às 22h52

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Esse Coronel Carlos Alberto é um brilhante URCO.
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Responder

Gustavo

13 de junho de 2011 às 22h47

Onde encotramos o Ustra? Endereço?

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