Paulo Capel Narvai: Cristão não deveria votar em Flávio Bolsonaro

Tempo de leitura: 7 min
Flávio Bolsonaro Foto: Reprodução

Embora eu soubesse que meu amigo cristão votará em Lula, surpreendeu-me a contundência da sua afirmação de que um cristão não deveria votar no candidato da oposição, que se diz um cristão

Por Paulo Capel Narvai*, em A Terra é Redonda

1.

Na semana passada, conversando com um amigo por videoconferência sobre as propostas dos candidatos à Presidência da República, para a saúde e o SUS, fui surpreendido com sua afirmação de que “um cristão não deveria votar em Flávio Bolsonaro”. Ele é cristão. Embora eu soubesse que ele votará em Lula, surpreendeu-me a contundência da sua afirmação de que um cristão não deveria votar no candidato da oposição, que se diz cristão e que está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.

A fala foi feita quando a conversa enveredou pelas pesquisas eleitorais. Nelas, o voto a favor de Bolsonaro filho predomina amplamente entre cristãos, mesmo entre profissionais da saúde e trabalhadores vinculados, direta ou indiretamente, ao SUS.

Tenho vários amigos(as) religiosos, dentre os quais judeus, muçulmanos, candomblecistas. Mas, dentre meus amigos religiosos, predominam os cristãos, creio que pelas características do Brasil. O modo categórico com que meu amigo cristão, eleitor de Lula, afirmou a negativa do voto cristão em Bolsonaro filho, me intrigou.

– Você diz isso porque vai votar no Lula. Mas a maioria dos cristãos vai votar no filho do ex-presidente.

– Não, não é por isso, não. É porque não há coerência nesse voto de um cristão no Flávio Bolsonaro.

– Claro que há coerência. No PT se dizia antigamente que trabalhador vota em trabalhador. Agora, é coerente dizer que cristão vota em cristão, não te parece? Por que não? Por que um cristão não deveria votar em Flávio Bolsonaro?

A resposta do meu amigo me deixou ainda mais intrigado: “porque essas pessoas que se dizem cristãs, e pensam de fato que são cristãs, não são efetivamente cristãs”.

– Não são cristãs?

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– Não são. Se fossem, não votariam em Flávio Bolsonaro, pois ele é o contrário do que deve ser um cristão.

– Mas, se elas não são cristãs, são o quê? – retruquei.

– São maniqueístas – respondeu imediatamente.

– Maniqueístas?

– Sim, maniqueístas – e, percebendo minha cara de quem não está entendendo o rumo da prosa, foi logo explicando.

2.

– O maniqueísmo foi uma religião muito popular no Império Romano e na Ásia, na época do cristianismo primitivo. Foi fundada na Pérsia, lá pelos anos 200 a 300 depois de Cristo, por Maniqueu, um profeta. A religião atraía muitas pessoas, pois explicava o mundo de modo muito simplista e radical. Era muito fácil de entender, pois sempre opunha o bem e o mal como causa de tudo. O bem de um lado e o mal do outro.

Interrompi a explicação:

– É que o bem e o mal existem, e as pessoas vivenciam isso.

– Claro que o bem e o mal existem. Mas os maniqueístas incluíam os seres humanos nessas duas condições. Ou alguém era do bem ou era do mal. Não havia meio termo, como se diz.

– E qual é o problema? Não há pessoas do bem e pessoas do mal? – provoquei.

– Isso é muito mais complexo, não é? – devolveu o meu amigo cristão.

– Complexo?

– O problema é que o bem e o mal não estão fora de nós. O bem e o mal estão em todos nós e, em cada um de nós, disputam o tempo todo o arbítrio que Deus atribui a cada pessoa, para decidir sobre as coisas. Ninguém é “do bem” ou “do mal” o tempo todo, a vida inteira, entende? Se fosse assim, tudo estaria definido previamente por Deus. Mas isso não seria nada cristão.

Significa que Deus decidiria, antes mesmo de uma pessoa nascer, se ela é “do bem” ou ela é “do mal”. Assim, todos nós seríamos condenados por Ele, sem ter chance de, na Terra, durante nossas vidas, escolhermos livremente ser “do bem” ou “do mal”. Deus, seria, portanto, nessa visão maniqueísta, criador do mal, da maldade, do pecado. E Deus é o bem, a bondade, a pureza, o amor.

– Você parece um teólogo, falando desse jeito.

– Não sou teólogo – riu. – Sou cristão. Estou te dizendo o que todo cristão deveria saber, falar e fazer. O maniqueísmo é o contrário do cristianismo. Para um cristão, diferente do que pensam os maniqueístas, ninguém nasce bom ou mal. Todos nascemos bons, puros, inocentes e livres. Mas o que cada um faz com sua vida, depende do livre arbítrio com que faz escolhas, ou que consegue fazer escolhas.

Como se diz, a vida não é fácil para ninguém. Vem daí a possibilidade da remissão dos pecados do homem. É que, na vida, podemos errar e nos arrepender. Pecar e ser perdoados. Sabe aquele trecho da oração que fala em “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”? Pois é. Para ter o perdão de Deus, quando praticamos o mal, nós precisamos aprender a perdoar a quem nos fez o mal.

– Você está dizendo, então, que se somos humanos, todos buscamos o bem, mas estamos sujeitos a fazer o mal e que o que importa é admitir que erramos ao praticar o mal e que devemos nos redimir, que podemos nos afastar do mal e retomar o caminho do bem?

– É mais ou menos por aí.

3.

– Mas, voltando ao voto, por que um cristão não deveria votar em Flávio Bolsonaro?

– Porque ele não é cristão, ele é maniqueísta. Ele se considera o “bem” e quem não está com ele seria o “mal”. Mas isso é falso. Ele pratica o mal quando mente, quando engana as pessoas, quando oculta dos eleitores informações sobre as coisas que ele faz e sobre quem ele verdadeiramente é. E basta ver o currículo dele para saber de coisas bem desabonadoras.

Mas a Bíblia condena a enganação. “Não furtem. Não mintam. Não enganem uns aos outros” diz o Levítico (19:11) e, no Êxodo, o livro sagrado dos cristãos prega, no Nono Mandamento, que “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (20:16). Porém, o Bolsonaro filho contraria a Bíblia. Mente demais na propaganda eleitoral e falseia a verdade, buscando enganar eleitores. Não merece o voto de cristãos.

– Você acha que ele está se afastando dos ensinamentos religiosos do pai dele?

– Eu acho que ele continua os atropelos do pai ao cristianismo. O Jair Bolsonaro, pai dele, era igualzinho. Lembra aquela coisa horrorosa de dizer “E daí? Eu não sou coveiro!”. Ele disse isso ao ser informado sobre milhares de mortes por covid-19. Aquela não foi uma reação nada cristã. Frente à morte de qualquer ser humano, um cristão deve elevar seu pensamento a Deus e perdoar os pecados do morto, confortar familiares e amigos em momento de dor, perda e sofrimento.

Ainda mais se o cristão for um presidente da República, ou uma autoridade pública qualquer. Para isso servem as religiões. Para confortar, na dor e na tristeza. A indiferença e o ódio, nesses momentos, são atitudes arrogantes, de quem se considera a própria encarnação do “bem”. São atitudes típicas de quem é maniqueísta, não de um cristão.

– Você falou em mentir. Mas todo mundo mente. Um candidato mentir faz parte das disputas eleitorais – contra-argumentei.

– Depende da mentira. Mentir para proteger alguém a quem se ama pode ser compreensível, até aceitável em certas situações. Mas um candidato a um cargo como o de presidente da República mentir para enganar eleitores? Isso é inadmissível. Um cristão não pode fazer isso. Ao contrário, deve sempre dizer a verdade. Está na Bíblia.

4.

Desafiei meu amigo, demostrando dúvida.

– Na Bíblia? Onde?

Pois não é que ele pediu uns minutos, foi buscar sua Bíblia e me respondeu.

– Está aqui, olha – com o livro aberto, foi me mostrou várias páginas – Está em Provérbios 12:22 que “o Senhor odeia os lábios mentirosos, mas se deleita com os que falam a verdade”. Em João 8:44, Jesus descreve o diabo como “mentiroso e pai da mentira”. Em Efésios 4:25, diz que “cada um de vocês deve abandonar a mentira e falar a verdade ao seu próximo”.

Fechou o livro e prosseguiu.

– Então, se alguém que se diz cristão mente descaradamente, não deve ter o voto de um cristão. Mentir é coisa do capeta, do coisa ruim.

– E por que você considera que muitos cristãos de hoje em dia, como o Bolsonaro filho, não são cristãos, mas maniqueístas?

– Porque eles não entenderam o ensinamento básico de Jesus Cristo. O ensinamento de que o mal não está apenas nos outros, mas está também em nós. E que devemos lutar contra o mal em nós mesmos, diariamente, para encontrarmos o caminho do bem, nos livrarmos do pecado e do mal, para vivermos em concórdia e pacificamente.

– Lembro-me de uma vez em que o Leonel Brizola disse que, ainda hoje, certos cristãos se pudessem, se tivessem poder para isso, seriam capazes de matar em nome de Cristo, como fizeram os cruzados na Idade Média. Então, levar esse entendimento, o do “bem” em mim e do “mal” nos outros, para o campo da política, seria um erro nos dias de hoje, pois isso significaria aceitar que algumas candidaturas são do “bem” e outras são do “mal”?

– Exatamente. Isso leva cristãos, ou pessoas que pensam ser cristãs a agir não como os cristãos que pensam que são, ou mesmo que gostariam de ser, mas como os maniqueístas. No caso destas eleições no Brasil, adotam essa postura absurda de ver o “bem” no candidato da oposição, o Bolsonaro filho, e o “mal” em Lula. É um erro enorme. Os candidatos deveriam ser avaliados por suas propostas para resolver os muitos problemas reais que o país enfrenta, se as propostas que apresentam aos eleitores são boas ou más para enfrentar os problemas, e para a maioria do povo e o país. E não serem avaliados segundo critérios religiosos de bem ou mal, de modo maniqueísta.

– Por falar nisso, que fim levou a religião do Maniqueu?

– Acabou mau. Como essa prática religiosa gerava muito radicalismo na sociedade, dividindo e jogando umas pessoas contra as outras, inclusive nas famílias, foi perseguida pelo Império Persa. Durante a Idade Média, a religião maniqueísta foi acusada de heresia pela hierarquia da Igreja Católica e, muito perseguida, acabou extinta.

– Bom, foi extinta como religião, mas os maniqueístas seguem por aí, não é?

– Sim, seguem semeando radicalismo, dividindo as sociedades, apregoando a si mesmos como porta-vozes do bem, quando na verdade, não passam de falsos cristãos que não praticam o que dizem. São lobos em peles de cordeiros. E uns falsos moralistas. É preciso muito cuidado com eles. Tentam falar em nome de Jesus Cristo, mas não passam de pessoas hipócritas.

*Paulo Capel Narvai é professor titular sênior de Saúde Pública da USP. Autor, entre outros livros, de SUS: uma reforma revolucionária (Autêntica). [https://amzn.to/46jNCjR]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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