VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Política

O país em que os ricos “prestam favores com o dinheiro dos pobres”


06/07/2011 - 12h40

de entrevista de Roberto Romano ao Correio da Cidadania

Correio da Cidadania: Mesmo que o caso Palocci revele problemas tradicionais de nosso Estado, sem dúvida alguma, o escândalo sobre o aumento patrimonial por ele auferido entre os anos 2006 e 2010, através de sua firma de consultoria, foi notório em um mandato ainda muito principiante. O que essa precocidade diz do atual quadro político?

Roberto Romano: Não quero discutir se o Palocci é culpado ou não, isso cabe a uma investigação e julgamento mais aprofundados. Mas ele foi incriminado por algo compartilhado pela maioria absoluta dos nossos políticos: a indistinção entre o público e o privado. Fora o desrespeito pelo povo e a falta de idéia de que quem está no poder deve prestar contas sempre, do dinheiro e das pessoas sob sua responsabilidade.

Além disso, é muito estranho que um legislador, isto é, alguém pago pelo Estado brasileiro e consequentemente por todos os contribuintes, tenha cláusulas confidenciais com empresas privadas.

A incoerência começa quando comparamos a origem do Palocci e outros membros do governo em termos ideológicos. Ele veio da esquerda trotskista, da Libelu, que pregava revolução internacional, modificação na estrutura da sociedade, democracia imposta da sociedade ao Estado, e de repente o vemos como o queridinho da Avenida Paulista.

Esse é o ponto que chama a atenção. O Jacques Wagner fala que é o dinheiro que chama a atenção. Eu não diria isso. Não é o fato de ele acumular 20 milhões que me preocupa. Se ele tivesse acumulado um real(!), mas com o esquema de favorecer antigos inimigos, já teria me chamado a atenção. Não sou daqueles que exige fidelidade ideológica eterna, pelo contrário, todos temos direito de mudar opiniões. O problema é que ele continua como representante de um partido que se disse orientado à modificação e democratização da sociedade.

Não acho que se você foi trotskista tem que morrer trotskista. Mas existem muitos matizes de mudanças de atitude. Se há quinze anos você tinha um discurso e prática que hoje são radicalmente diversos, é de se perguntar se existe, na verdade, algum ideal, algum valor, na cabeça dessas pessoas. Porque, na falta disso, você entra no realismo mais bruto, na falta de escrúpulos e de respeito ético pelo próximo. Aí que a coisa fica feia.

Correio da Cidadania: Acredita que essa tendência, a promiscuidade público-privado, vai se reafirmar no governo Dilma?

Roberto Romano: Vai, porque não depende só da presidente e nem do próprio executivo. É um sistema que domina o Estado e a sociedade do país. Somos uma sociedade onde os ricos prestam favores com o dinheiro dos pobres. O pobre espera o favor. O rico faz, só não conta com que dinheiro.

E o PMDB, o partido hegemônico no país, é a grande máquina de produção de favores. Vendem, trocam favores, chantageiam com favores. Basta ver o caso do Anthony Garotinho, a meu ver, esse sim, muito escandaloso. Em nome da fé cristã, chantageia o Poder Executivo dizendo que o caso Palocci é um diamante de 20 quilates. É de uma falta de responsabilidade ética e um cinismo que eu ainda não tinha visto.

Quando o Roberto Cardoso Alves falava que “é dando que se recebe”, ao menos enunciava uma prática geral. Não dizia quem dava nem quem recebia. Mas, nesse caso, o Garotinho foi explícito, pornográfico até: “O caso Palocci é um diamante de 20 quilates para nós e vamos explorá-lo”.

Tudo por causa de um casaco de 29 reais: quem ganha salário, no Brasil não tem representação política





20 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

operantelivre

07 de julho de 2011 às 08h37

Só ficam a indignação e uma sensação de que não entendo nada desse mundo político-econômico.
Somos lesados por todos os lados. Quando terminará este inverno para fazermos nossa primavera?

Responder

ZePovinho

06 de julho de 2011 às 16h01

Digite o texto aqui![youtube AegE3TOVcag http://www.youtube.com/watch?v=AegE3TOVcag youtube]

Conclusão: Os acionistas privados deixaram parte da rede da Light "apodrecer", tirando o máximo de lucros da empresa, sem gastar o necessário em manutenção. Venderam a empresa "bichada" pelo preço de nova ao então governador Aécio Neves, passando a sucata para a conta do estado (através da CEMIG) pagar o conserto caro que terá que fazer, e que não foi feito em mais de uma década privatizada.
http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com/2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011
Explosão de bueiros no Rio! O culpado tem nome e endereço: Aécio Neves

Alô, bloco "Minas sem censura":

A explosão de bueiros no Rio de Janeiro, nas instalações da concessionária de eletricidade Light, tem um responsável político direto: Aécio Neves (PSDB/MG).

Vamos entender o caso:

1996, Maio – José Serra (PSDB/SP) privatizou a Light quando conduziu o programa neoliberal de privatização no governo FHC, como ministro do planejamento, alegando que a mão invisível do mercado é que tinha dinheiro para investir.

1996 a 2009 – A Light privatizada não investiu como Serra alegava que faria. Sofreu todo tipo de especulação financeira, trocou de mãos algumas vezes depois de privatizada, demitiu técnicos e terceirizou serviços com mão-de-obra barata e menos qualificada; e deixou de investir na manutenção da rede e na troca de equipamentos antigos, com "prazo de validade" vencido, que estão explodindo em série.

2009, Dezembro – Aécio Neves (PSDB/MG), quando era governador de Minas, recomprou o controle da Light (que pertencia à Andrade Gutierrez, entre outros acionistas privados), através da CEMIG. Agora ele é o responsável político direto pela lerdeza da empresa em fazer manutenção e troca de equipamentos vencidos, que colocam a vida da população em risco.

Conclusão: Os acionistas privados deixaram parte da rede da Light "apodrecer", tirando o máximo de lucros da empresa, sem gastar o necessário em manutenção. Venderam a empresa "bichada" pelo preço de nova ao então governador Aécio Neves, passando a sucata para a conta do estado (através da CEMIG) pagar o conserto caro que terá que fazer, e que não foi feito em mais de uma década privatizada.

Esse é o choque de gestão demo-tucano. Privatizam os lucros para os magnatas amigos e financiadores de campanha dos tucanos e socializam os prejuízos para o povão pagar a conta.

Responder

O_Brasileiro

06 de julho de 2011 às 15h55

Depois dos aeroportos e da banda larga, o que a "FHC de saias" vai privatizar esse mês???

Responder

    Valdeci Elias

    07 de julho de 2011 às 09h01

    Privatizar os aeroportos, é um preço pequeno a se pagar, entroca da erradicação da miseria do país. Daqui a 100 anos ,Dilma não vai ser lembrada como a pessoa que acabou com as filas nos aeroportos, más como a pessoa que acabou com a miséria no Brasil.

Clucster

06 de julho de 2011 às 15h17

Valdeci Elias disse tudo!!!

Responder

Marcio

06 de julho de 2011 às 15h11

Já começa errado quando distorce fatos pra comprovar sua tese. Fala do PMDB, mas cita Garotinho, do PR, como exemplo.

Responder

Julio Silveira

06 de julho de 2011 às 15h04

Tem gente, que eu modestamente considero burras, com todo o respeito, que ao ver um texto que fere com a verdade as situações claramente identificaveis, que deveria servir de alerta ou uma correção de rota daqueles que foram pegos na contradição e seus cumplices apoiadores, buscam atacar tentando desqualificar um fato.
Francamente a mim não interessa o partido do sujeito se o que ele fala é fato plausivel e comprovavel. Esse escapismo inutil, feito por inteligencias a serviço do mau feito é que tem levado nossa gente a cegueira e a prejuizos que via de regra nada lhe trazem de bom, a não ser aos beneficiados pela situação.
Se o texto foi produzido por um tucano, ou petista a mim pouco importa importa o conteudo de verdade que ele contem e estando isso ocorrendo não ha como esconder sob o risco de repetirmos eternamente os erros do passado.

Responder

Eduardo Guimarães

06 de julho de 2011 às 14h48

Roberto Romano está sempre indignado, só que sempre de forma seletiva

Responder

    Carmem Leporace

    06 de julho de 2011 às 15h16

    Saquei!!

    alberto silva

    06 de julho de 2011 às 17h22

    Pra fora!!! Ponto pra Edu…rsrs

    Julio Silveira

    06 de julho de 2011 às 16h22

    Não podemos incorrer no mesmo erro.

Adilson

06 de julho de 2011 às 14h41

Azenha,

Esses políticos tinham que fazer como o nobre governador do Rio de Janeiro, que, com dúvidas com relação a o binômio público/privado, convocou toda a sociedade para juntos construirem um "código de ética".

Isso chega a ser comovente.

Responder

Marcelo de Matos

06 de julho de 2011 às 14h34

Roberto Romano, professor de ética política e filosofia da Unicamp, articulista da Folha… Quando teremos por aqui o sociólogo Demétrio Magnoli e o historiador Marco Antônio Villa, que prestam relevantes serviços ao tucanato no Jornal da Cultura? Mas, vamos ao que interessa: “é muito estranho que um legislador, isto é, alguém pago pelo Estado brasileiro e consequentemente por todos os contribuintes, tenha cláusulas confidenciais com empresas privadas.” O professor Romano é muito bom nas disciplinas que leciona, mas, não entende patavina de Direito. Está falando de cátedra sobre o que não conhece. E ele tem topete para fazer isso! Em agosto de 2000 ele publicou artigo na Folha polemizando com os juristas Américo Lacombe, Celso Bandeira de Mello, Fábio Konder Comparato: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz210820…. Desde quando deputado não exerce atividade privada? Desde quando deputado não enriquece? O Congresso Nacional nada mais é que o quintal da elite brasileira. Chega de farisaísmo.

Responder

ZePovinho

06 de julho de 2011 às 14h01

Não comentarei o tucano do texto em epígrafe.Como já disse,milhares de vezes,aqui:capitalismo é coisa para pobre.

Responder

Fabio_Passos

06 de julho de 2011 às 13h03

Análise corretíssima.

Não faltam exemplos no Brasil de políticos que se converteram a direita afrikaaner em troca das benesses do capital: fhc, palocci, serra…

Responder

    José Alberto SSA BA

    06 de julho de 2011 às 14h04

    Dilma está indo no mesmo caminho.
    Espero estar totalmente errado, darei meu braço a torcer.
    Até a hora do velório de Itamar coincide para estar junto de FHC/Aécio/Serra? Coincidência mesmo?

Gabi

06 de julho de 2011 às 12h58

"E o PMDB, o partido hegemônico no país, é a grande máquina de produção de favores. Vendem, trocam favores, chantageiam com favores. Basta ver o caso do Anthony Garotinho, a meu ver, esse sim, muito escandaloso. Em nome da fé cristã, chantageia o Poder Executivo dizendo que o caso Palocci é um diamante de 20 quilates. É de uma falta de responsabilidade ética e um cinismo que eu ainda não tinha visto."

Um dia ouvi uma pessoa comentar que achava o PT um partido "meio nazista", portanto perigoso, e dava como contra-exemplo o PMDB que segundo ela "não tem ideologia".

Deve-se sempre desconfiar de quem "tem ideologia", claro…

Mas deve-se desconfiar mil vezes mais de quem "não tem ideologia"…

Responder

Remindo Sauim

06 de julho de 2011 às 12h48

Só para clarear. Qual foi mesmo a lei e o artigo que Palocci transgrediu?

Responder

    Valdeci Elias

    06 de julho de 2011 às 12h59

    O governo a quem ele pertence , diminuiu os gastos com propaganda, deixando o PIG sem dinheiro.

    Bucaneiro

    06 de julho de 2011 às 13h40

    Pode não ter quebrado lei nenhuma, mas será que não feriu a ética?


Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding