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Diário da Resistência


O Estadão, que entende de quarteladas, adverte sobre Bolsonaro, “o falso Messias”
Fernando Frazão/Agência Brasil
Política

O Estadão, que entende de quarteladas, adverte sobre Bolsonaro, “o falso Messias”


21/05/2019 - 10h32

A razia de Bolsonaro

Cresce a inquietante sensação de que Bolsonaro decidiu governar não conforme a Constituição e com respeito às instituições democráticas, mas como um falso Messias

Editorial do Estadão

Depois de ter distribuído pelo WhatsApp um texto segundo o qual o País é “ingovernável” sem os “conchavos” políticos e de dizer que conta “com a sociedade” para “juntos revertermos essa situação”, o presidente Jair Bolsonaro voltou a fazer apelos diretos ao “povo” contra o Congresso – em relação ao qual nutre indisfarçável desprezo, embora tenha sido obscuro parlamentar durante 28 anos.

Cresce a inquietante sensação de que Bolsonaro decidiu governar não conforme a Constituição e com respeito às instituições democráticas, mas como um falso Messias cuja vontade não pode ser contrariada por supostamente traduzir os desejos do “povo” e, mais, de Deus.

Ao que parece, Bolsonaro passou a acreditar de fato na retórica salvacionista que permeou sua campanha eleitoral, alimentada por alguns assessores e pelos filhos com o intuito de antagonizar o Congresso – visto como o lugar da “velha política” e, portanto, como um obstáculo à regeneração prometida pelo presidente.

Ao cabo de cinco meses de governo, em que todos os indicadores sociais e econômicos apresentaram sensível deterioração, fruto de sua inação administrativa e da descrença generalizada e cada vez maior na sua capacidade de governar, Bolsonaro começa a flertar com a “ruptura institucional”, expressão que apareceu no texto que o presidente chancelou ao distribuí-lo na sexta-feira passada.

Diante da repercussão negativa, Bolsonaro, em lugar de serenar os ânimos e demonstrar seu compromisso com a democracia representativa, estabelecida na Constituição, preferiu ampliar as tensões, lançando-se de vez no caminho do cesarismo.

Ao comentar o texto de teor golpista que passou adiante pelo WhatsApp, Bolsonaro disse que “esse pessoal que divulga isso faz parte do povo e nós temos que ser fiéis a ele”. E completou: “Quem tem que ser forte, dar o norte, é o povo”.

Ora, o mesmo povo que o elegeu para se ver livre das proezas lulopetistas elegeu 81 senadores e 513 deputados, além de legisladores e governantes estaduais.

Depois, divulgou em seu perfil no Facebook o vídeo de um pastor congolês que diz que Bolsonaro “foi escolhido por Deus” para comandar o Brasil.

“Pastor francês (sic) expõe sua visão sobre o futuro do Brasil”, explicou o presidente, que completou: “Não existe teoria da conspiração, existe uma mudança de paradigma na política. Quem deve ditar os rumos do país é o povo! Assim são as democracias”.

O ilustre salvador talvez conheça a história do Congo, porque a do Brasil ele definitivamente ignora.

No vídeo que Bolsonaro endossou, o tal pastor, um certo Steve Kunda, diz que, “na história da Bíblia, houve políticos que foram estabelecidos por Deus”, como “o imperador persa Ciro”, e que “o senhor Jair Bolsonaro é o Ciro do Brasil, você querendo ou não”.

E o pastor lança um apelo aos brasileiros: “Não passe seu tempo criticando. Juntem as forças e sustentem esse homem. Orem por ele, encorajem-no, não façam oposição”.

Em condições normais, tal exegese de botequim seria tratada como blague, mas não vivemos tempos normais – pois é o próprio presidente que, ao levar tais cretinices a sério, parece de fato considerar sua eleição como parte de uma “profecia”.

O resumo dessa mixórdia mística é que Bolsonaro acredita ser um instrumento de Deus e o porta-voz do “povo” – nada menos.

Portanto, quem quer que se oponha a Bolsonaro – puxa! – não passa de um sacrílego.

Com 13 milhões de desempregados, estagnação econômica e perspectivas pouco animadoras em relação às reformas, tudo o que o País não precisa é de um presidente que devaneia sobre seu papel institucional e político e que, em razão disso, estimula seu entorno e a militância bolsonarista – a que Bolsonaro dá o nome de “povo” – a alimentar expectativas sobre soluções antidemocráticas, como um atalho para a realização de “profecias”.

O reiterado apelo de Bolsonaro ao “povo” para fazer valer uma suposta “vontade de Deus” envenena a democracia e colabora para a ampliação da cisão social entre os brasileiros e destes com a política.

A esta altura, parece cada vez mais claro que Bolsonaro não estava para brincadeira quando disse, em março, que não chegou ao governo para “construir coisas para nosso povo”, e sim para “desconstruir muita coisa”.

Espera-se que a democracia brasileira e suas instituições resistam a essa razia.

PS do Viomundo: Publicamos do Estadão porque reflete o pensamento dos liberais e das falidas famílias quatrocentonas de São Paulo. Se eles estão preocupados com ruptura institucional, na qual são craques — o golpe contra Dilma Rousseff é a mais recente — imagina a gente…

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4 comentários

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Antonio Ubirajara da Silva

22 de maio de 2019 às 08h50

Só vejo uma solução para o Brasil: Impeachment Já! Ou a renúncia de Bolsonaro, bem como a do ministro da Economia, o cavalo de Troia, Paulo Guedes, e toda a sua equipe econômica por inexperiência e incompetência absoluta, pois já está comprovado que eles não entendem de economia o suficiente para recolocar o país de volta nos trilhos. Estão apostando na Reforma da Previdência, que, se for aprovada, será um desastre, e não solucionará o problema da Economia. Tem tudo pra ser um governo do fracasso!!! É como diz Lula, “O Brasil está sendo governado por um bando de malucos”. Chama Lula, que o homem dá jeito! Lula é um gigante! Lula é um ser humano fantástico! Lula é genial!!! Lula entende de Economia e de Previdência Social porque tem experiência e governou o Brasil por duas vezes e, com absoluto sucesso. Lula tem capital político, e tem prestígio nacional e internacionalmente. Além do mais, é um excelente articulador político. Lula deixou a Presidência com uma avaliação de 85% de Bom e Ótimo. Lula é o único brasileiro neste país em condições de governar o Brasil a contento, e de recolocar o país de volta nos trilhos. Lula é o único brasileiro que conhece e sabe das necessidades do povo brasileiro. Lula foi, simplesmente, o maior e melhor Presidente do Brasil de todos os tempos. Era tanto progresso que assustou o mundo! Quem não se lembra disso? Viva o ex-Presidente “Luiz Inácio Lula da Silva”, o eterno Presidente da gente! #LulaLivre #LulaPresoPolítico #LulaPerseguidopelaJustiça #LulaCondenadoSemProva #LulaInocente (Poeta nordestino, de Sousa, no Sertão da Paraíba)

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Jardel

22 de maio de 2019 às 00h22

Quando as elites apoiaram o Golpe de 2016 eles pensavam em colocar o PSDB no poder… Deu ruim. Aécio foi pego com a boca na botija, e o Geraldo, destruído pelas urnas.
Acabaram acidentalmente produzindo esse Bozo patético e, pior, perigosíssimo.

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Zé Maria

21 de maio de 2019 às 17h53

Não é difícil desmistificar Bolsonaro.
Só é preciso compreender um pouco
os signos e símbolos religiosos
aplicados na construção do “Mito”.

A manipulação do imaginário popular, para transformar o Jair em ‘Mito’
e elegê-lo um ‘Fuhrer’ (espécie de ‘Messias’, Condutor da Nação’), vem desde
quando, premeditadamente, o Pastor Everaldo batizou Bolsonaro no Rio Jordão, em Israel, precisamente no dia em que os Senadores votavam a admissão do
impeachment da Presidente da República Dilma Rousseff (PT), considerado um
dos marcos temporais pelo Antipetismo Supersticioso.

O simbolismo daquele batismo [ 1 ] – ‘nas mesmas águas em que João batizou
Jesus Cristo’ – teve um efeito de conversão, na mente da população Evangélica,
especialmente a Pentecostal e a Neopentecostal, muito embora Jair Bolsonaro
ainda seja católico, tanto que seguidamente aparece fazendo o “sinal da cruz”,
gesto ritual que não faz parte da tradição dos evangélicos.

Soma-se a isso o fato de que um de seus sobrenomes, trazido da mãe, é ‘Messias’
e teremos o ‘Grande Líder’, o ‘Libertador da Nação’, de equivalência igual ou superior, a Ciro da Pérsia, o Grande, que alforriou os judeus do Cativeiro na
Babilônia, autorizando-os, inclusive, a regressar a Jerusalém para a construção
do Segundo Templo, no mesmo local onde o Rei Salomão havia Construído o Primeiro, e a cidade proclamada capital pelo Rei Davi, no século 10 aC.

Daí a disputa não apenas política, mas religiosa, principalmente com os islamitas,
por aquele território da antiga Palestina considerado sagrado por ambas as
Religiões, a Judaica, pelos motivos já vistos, e a Muçulmana [ 2 ].

Daí também por que um dos Primeiros Atos anunciados, em 2019, pelo Itamaraty
foi o de transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv (capital administrativa) para Jerusalém.

Na realidade, praticamente todas as palavras e os atos políticos de Jair Bolsonaro
– quando ele não descamba para a ignorância, o que é corriqueiro – são medidos
previamente pela régua da Cristandade na Área de Comunicação do Governo.
Os Governos de Hitler (Fuhrer), na Alemanha Nazista, e de Mussolini (Duce),
na Itália Fascista, sempre operaram através da Mitificação do ‘Restaurador’
da Nação e da idolatria ao ‘Salvador’ da Pátria, ou seja, da ‘Divinização’ do Mito.

[ 1 ] (https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-e-batizado-em-israel-enquanto-impeachment-corria-no-senado,10000050816)

[ 2] Jerusalém é a terceira cidade sagrada do Islamismo, pois segundo o Islã foi ali,
no Monte do Templo, que Maomé teria ascendido ao céu (Mi’raj), e teria dialogado
com Alá (Deus) e com outros Profetas*, inclusive Moisés (Musa) e Jesus (ʿĪsā
ou Issa)**, o qual conforme o Corão teria prenunciado a vinda de Maomé à Terra.
Por tal razão, foram ali construídas pelos Maometanos, por volta do ano 690 dC.,
a Cúpula (Dome) da Rocha e a Mesquita de Al’Aqsa, sobre as ruínas do mesmo Templo Judeu Construído por Salomão, o que futuramente causaria discórdia.
Conforme anuário estatístico atual de Jerusalém existem nos dias de hoje dentro
da cidade 1 204 Sinagogas, 158 igrejas, e 73 Mesquitas.
*(https://pt.wikipedia.org/wiki/Profetas_do_isl%C3%A3o)
**(https://pt.wikipedia.org/wiki/Issa)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jerusal%C3%A9m#Significado_religioso

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Pierre

21 de maio de 2019 às 13h01

Bolsonaro é burro demais para arquitetar um golpe. O que ele sente não é ganância e sim medo. Depois de Lula e Dilma, se instalou uma insegurança jurídica no planalto.

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