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No Rio Grande do Sul, a polêmica sobre a lei Carrion


11/05/2011 - 17h25

Carta aberta ao governador Tarso Genro, do Rio Grande do Sul

De: Vila Vudu, São Paulo

Em: 10/5/2011

Quem puder, envie, por favor, ao governador Tarso Genro (não temos o endereço dele)

Sancione a “Lei da Língua” do Deputado Carrion, Governador!

Imagine-se que Newton (o dos Principia) recebesse, um belo dia, uma carta de um dos professores da Igreja do século 17, que lhe dissessem que “não se atreva!” [a escrever leis sobre os céus], porque só Deus é autoridade para escrever leis sobre os céus.

O absurdo seria o mesmo, se um gnomo, um dia, escrevesse à presidenta Dilma e lhe dissesse que “não se atreva!” [a escrever leis sobre a Floresta Amazônica], porque só os gnomos são autoridade para escrever leis sobre florestas.

Esses exemplos caricatos são úteis, porque fazem aparecer o absurdo evidente: primeiro, porque em todos os casos, nas sociedades humanas, sempre há e sempre haverá quem se interesse por legislar sobre o mundo social. Evidentemente, quem se interesse por legislar sobre línguas, tem e deve ter perfeito direito democrático de fazê-lo. A ideia de que “não se atreva a legislar” sobre isso ou aquilo é doideira – quando não é o liberalismo conservador mais leviano e arrogante –, ou de professores de igrejas e igrejinhas, ou de gnomos.

Em segundo lugar, também é perfeito absurdo pretender que “não se legisla sobre língua”.

A língua é construto social, só existe inteira dentro da sociedade da qual é parte constitutiva e potência constituinte. Assim, a língua está sujeita, como todos os construtos sociais e potências constituintes, às vicissitudes em função das quais a humanidade se faz leis.

Portanto, pode-se definir como direito inalienável das sociedades (1) legislar sobre o que bem entenderem; e (2) legislar sobre língua, se uma ou outra sociedade entender que alguma lei sobre língua é necessária ou útil.

O argumento de que não se poderia legislar sobre língua, porque a língua “é viva”, como escreveu o professor Idelber Avelar em “Carta aberta ao Governador Tarso Genro” (em http://contextolivre.blogspot.com/2011/05/carta-aberta-tarso-genro-sobre-lingua.html, e adiante, cortada-colada para referência) é tão completamente absurdo quanto pretender que não se poderia legislar sobre a preservação da Floresta Amazônica. A Floresta Amazônica e todos os seres que nela e dela vivem, afinal, são tão perfeita e absolutamente “vivos” quanto qualquer língua e seus falantes. Ou que não se poderia legislar sobre a preservação de tartarugas e golfinhos, sob o argumento segundo o qual, de tão “vivos” que são, poderiam ser deixados entregues às forças… da seleção natural.

O argumento segundo o qual a vida é viva e, por isso, poderia ser deixada, rendida, à “natureza”, é tão epistemologicamente e historicamente e linguisticamente ridículo, que quase nem se vê o quanto é reacionário. É perfeita, rematada – e muito reacionária – bobagem.

Verdade, mesmo, é que já se legislou, com efeito muito produtivo, até sobre língua dita “morta”: Israel fez exatamente isso, com extraordinário, sensacional sucesso, ao fazer do hebraico dado como língua morta, a língua vivíssima que hoje já é primeira língua de milhões de falantes. O que Israel fez fê-lo por lei e não teria feito sem leis (aliadas a muito bom saber lingüístico, claro, de lingüistas que JAMAIS diriam que “não se legisla sobre língua” – o mantra tolo, a asnice oficial, de parte significativa da patética ‘linguística’ brasileira).

Verdade é que, exatamente ao contrário do que nunca se cansam de repetir alguns linguistas brasileiros, o mundo está cheio de “leis sobre línguas”, sempre requisitadas pelas sociedades como instrumento necessário.

Há milhares – sim, senhor! Milhares – de leis sobre língua, produzidas em todo o planeta, exatamente em 318 países, reunidas, por exemplo, na página “L’Amenagement Linguistique dans le Monde”, mantida pela Université Laval, do Canadá, na Internet, em http://www.tlfq.ulaval.ca/AXL/. Essa página é gigantesca, e os interessados encontram lá leis sobre línguas, para todos os gostos.

Assim se dá por provado que, sim, se legisla sobre língua. E que se pode legislar muito democrática e muito legitimamente sobre língua –, exatamente o contrário do que ensina o prof. Idelber Avelar, dentre outros ‘inteligentíssimos’ ou metidos a.

As leis de língua podem ser abordadas a partir de uma posição política e, também, a partir de uma posição científica. Nos dois casos, claro, a discussão pode ser complexa, mas a evidência de que uma discussão seja complexa jamais foi argumento democraticamente válido para fugir da discussão e pretender ‘resolver’ a questão por argumentos de autoridade.

Um caso de lei de língua abordada por posição política clara pode ser lindamente exemplificada pelo discurso dos guerrilheiros angolanos que, um dia, souberam que havia em discussão no Brasil uma lei apresentada como “de preservação da língua portuguesa do Brasil”. Aqueles atormentados guerrilheiros angolanos correram a se manifestar contra a tal lei.

Rejeitavam a lei que lhes parecia reacionária, e, claro, pediram outras leis, que mais lhes interessavam. Disseram que:

[Guerrilheiros de Angola, em 1979] “Não, não, de jeito nenhum! Essa lei é inadmissível! Se a língua portuguesa for muito protegida, estamos é danados, nós, de vez! Cá em Angola, só os ricos falam português. Os pobres falam mais de cem línguas nativas, e esse, aliás, é um dos motivos pelos quais pouco se entendem entre si e absolutamente não se entendem com os ricos. E os vendedores planetários de armas só falam inglês.

Então, por favor, quem quiser ajudar Angola, que escreva logo uma lei que obrigue as escolas a ensinar todas as línguas a todos os pobres: o português dos ricos, faz favor, para todos; e o inglês dos comerciantes de armas, no mínimo, só para nós, para que eles nos engambelem menos facilmente. Sendo possível, ok, que ensinem inglês para todos. E além dessas duas línguas, e também para todos, e para que não se percam as línguas tradicionais que já estão por um fio, e nas quais os pobres somos criados – que ensinem também línguas tribais, todas, para todos.

Sendo possível, escrevam também uma lei que obrigue as escolas a alfabetizar as crianças nas línguas de suas respectivas tribos. Onde e quando as línguas tradicionais tribais não conheçam a escrita, chamem linguistas competentes que construam grafias. A grafia, afinal, sempre é artificial e sempre aparece muito depois da língua falada. Os tais linguistas que trabalhem e façam serviço útil aos pobres, afinal, prá variar!”

Outro bom exemplo de lei de língua, também proposta como ativa militância política democrática e de resistência cultural e política, é o que se vê no Brasil, no município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.

Ali, em 2002, escreveu-se, votou-se e aprovou-se muito democraticamente – belo trabalho das comunidades indígenas locais e do Instituto de Investigação e Desenvolvimento de Políticas Lingüísticas (Ipol) a pedido da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) – uma lei que co-oficializa as línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa: a lei municipal 145/2002, aprovada no dia 22/11/2002, proposta pelo vereador indígena Camico Baniwa. Por essa lei, tornaram-se “línguas co-oficiais”, naquele município, as línguas ali faladas. As populações indígenas ganharam o direito de ter seus filhos alfabetizados nas suas línguas tradicionais e em português. As placas de rua são obrigatoriamente apresentadas nos dois (e mais) idiomas locais.

E há, na cidade, jornais absolutamente diferentes, um para cada idioma ali co-oficial.

É muito mais do que há, por exemplo, em São Paulo, uma das mais pujantes metrópoles do planeta, mas onde, desgraçadamente,  tooooooooooooooooooooodos os jornais e noticiários de televisão são absolutamente idênticos (e identicamente desdemocráticos e desdemocratizatórios).

A lei de língua de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, Brasil, como se vê, é lei que foi requisitada e conquistada por uma comunidade social humana vivíssima, e lei perfeitamente democrática.

A possibilidade de legislar-se sobre língua, apresentada e defendida como “posição científica”, também se comprova em magníficos trabalhos no campo da lingüística séria – em muito diferente da lingüística leviana e pretensiosa que se ensina no Brasil.

Há sólidos trabalhos de lingüística, com declarado conteúdo político, que fortemente recomendam que os países defendam por lei, seus idiomas locais ou nacionais, no caso de que os sintam cultural ou politicamente (ou, até, militarmente!) ameaçados. Nesses casos, fala-se de “políticas linguísticas de democratização e preservação de idiomas que se sintam ameaçados”.

O exemplo mais famoso desses estudos, no mundo – embora continue perfeitamente ignorado na ridícula linguística brasileira –, é o trabalho do Professor Robert Phillipson, dinamarquês, exposto em seu livro, de 1992, Linguistic Imperialism (sem tradução para o português, apesar de ser item obrigatório de bibliografia especializada em universidades de todo o planeta).

Bom resumo do seu pensamento atualizado encontra-se na conferência que o prof. Phillipson fez no simpósio “DUO IV Dialogue under occupation”, Washington DC, 2-4/6/2010, “Americanisation and Englishisation as processes of global occupation” [“Americanização e anglicização como processos de ocupação global”] (em http://www.cbs.dk/en/Research/Departments-Centres/Institutter/ISV/Menu/Staff/Menu/Videnskabelige/Videnskabelige/Professor-Emeritus/phillipson, PDF, em inglês). No resumo dessa conferência, escreveu o prof. Phillipson, ano passado:

“Os que defendem o idioma inglês como universalmente válido, aí incluída a atual moda na lingüística aplicada, de analisar o inglês como “língua franca”, veem o inglês como lingua nullius [língua de ninguém], separada das forças que comandam sua expansão política. A integração da educação superior na Europa, está sendo coagida a seguir um único padrão, segundo o qual “internacionalização” seria sinônimo de “formação em inglês”. Alguns países europeus, contudo, já começam a construir políticas para o idioma de modo a assegurar que o inglês seja mantido como língua assessória. Linguistas críticos, que lutam a favor de maior justiça social, já trabalham para demonstram como a ocupação, física e mental, está sendo legitimada, além de militarmente, também pelo idioma; e que é possível construir políticas linguísticas de resistência local.”

E é nesse contexto de resistência política e cultural – resistência democrática e legítima, que nada tem de xenófoba, resistência tão legítima quanto é legítima a luta dos indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, que visam à preservação de seu idioma histórico e cultural tradicional – que se inscreve o projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB).

Esse projeto de lei, que aguarda – e conta com – a sanção do governador Tarso Genro, “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”, e foi aprovado dia 19 de abril pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Diferente do prof. Idelber Avelar, que ouve cantar vozes “modernas” na oposição a essa lei, nós só ouvimos, na oposição a essa lei de resistência política também pelo idioma, as  vozes do mais lamentável conservadorismo arrogante, mal disfarçado sob véus ‘linguísticos’, e de uma tão duvidosa e suspeita quanto só autoproclamada “esquerda”.

É “meio irresistível dar algumas risadas”, na escrita enrolada do professor Idelber Avelar, não, evidentemente, da lei, mas dos saberes autoproclamados do professor Idelber, que se apresenta como alguém que conheceria “algo acerca de como funciona o idioma”.

A nenhum dos indígenas do Alto Amazonas, que lutaram muito para ver protegidas por lei as suas línguas históricas tradicionais e venceram sua luta, jamais ocorreu apresentar-se ao mundo como alguém que conhecesse “algo acerca de como funciona o idioma”. Aquelas pessoas, os indígenas falantes e os lingüistas empenhados que trabalharam para construir e fazer aprovar aquela lei, apresentaram-se ao mundo e à luta, no máximo, como falantes política e democraticamente empenhados numa duríssima, dificílima, luta política. Não há melhor saber do que esse, em matéria de “como funciona o idioma”.

E esse bom saber reivindicou a proteção da própria língua. É o que conta. O resto, como ensinou Mao Tse Tung, “só a luta ensina” (e, como samba, não se aprende na escola nem em cursos de lingüística no Brasil).

Esperamos pois, governador Tarso Genro, que o senhor sancione a lei recém aprovada. Com isso, o Rio Grande do Sul estará na vanguarda nacional da luta pela preservação da língua portuguesa do Brasil, orgulhosamente posto ao lado dos valentes indígenas de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.

Com essa lei aprovada, sancionada e vigente, o Rio Grande do Sul estará também na vanguarda nacional da luta de resistência contra o imperialismo lingüístico. Até no Department of International Language Studies and Computational Linguistics da Universidade de Copenhagen, Dinamarca, haverá muita gente que saberá nos aplaudir. Os mesmos, precisamente, que aplaudiram os indígenas de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. E, isso, ainda sem dizer que os indígenas de São Gabriel da Cachoeira também muito aplaudirão o governo democrático do Rio Grande do Sul. O que mais se poderia desejar, em matéria de legitimação democrática?

E a “esquerda” que riu da lei do Deputado Carrion, que ria. (O que mais, cá entre nós, se poderia esperar dessa “esquerda” já completamente endireitada?! Eles que vão rindo… Eles e o galaico-português metido a ‘erudito’ e só reacionário, lá deles!)

Assina: COLETIVO DE TRADUTORES VILA VUDU
[email protected]

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PARA REFERÊNCIA:

Carta aberta a Tarso Genro: Sobre a língua viva não se legisla. Vete a lei, Governador

De: Idelber Avelar

Em: http://contextolivre.blogspot.com/2011/05/carta-aberta-tarso-genro-sobre-lingua.html

Excelentíssimo Governador Tarso Genro:

Eu e uma legião de eleitores de esquerda fomos surpreendidos, no dia 19 de abril, com a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB), que “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”. Foi o estranho dia em que a direita representou a voz da sensatez. Apesar de que, felizmente, não está claro que o Sr. sancionará essa nociva e inútil lei, o Sr. condenou as chacotas e declarou que só as pessoas “muito caipiras” podem se opor às tentativas de defesa do vernáculo. Começo esta carta aberta atendendo o seu pedido de que a matéria seja tratada com seriedade, embora, que fique dito, para quem conhece algo acerca de como funciona o idioma, é meio irresistível dar algumas risadas de uma lei como esta. Noto, no entanto, minha discordância com seu uso do termo “caipira”. Em seu sentido pejorativo—que eu costumo evitar, aliás–, “caipira” é, segundo Houaiss, o “acanhado, pouco sociável”, enfim, justamente aquele que constrói cercas em volta de si mesmo. Caipiras são, portanto, os defensores da lei.

Tenho esperança de que o Sr. consultará alguns dos extraordinários profissionais do Instituto de Letras da UFRGS ou da Faculdade de Letras da PUC/RS — duas instituições de ponta, que estão entre as melhores do Brasil, tanto em literatura como em Linguística — antes de sancionar essa sandice. Sim, porque de sandice se trata.

A Linguística, como qualquer outra disciplina, possui diversas correntes e debates internos. Mas há um postulado do qual nenhum linguista discordaria: a língua é organismo vivo, em constante transformação. O dicionário é só uma sistematização pontual — um recorte — da coleção de vocábulos utilizados pelos falantes da língua em determinado momento. Essa coleção vai mudando, com a queda em desuso de algumas palavras e a incorporação de outras. É um processo natural da língua. Nele, os chamados estrangeirismos aparecerão sempre. Especialmente num mundo globalizado, eles são inevitáveis e, acima de tudo, não reguláveis por decreto, ainda mais um decreto estadual. Os próprios mecanismos internos da língua se encarregam de incorporar alguns, expelir outros, aportuguesar outros. Aliás, se formos ser rigorosos e eliminar todos os estrangeirismos, terminaremos onde? No tupi-guarani ou na passagem da vulgata latina ao galaico-português?

PS do Viomundo: O leitor Eric adverte que o texto de Idelber Avelar, conforme reproduzido no texto da Vila Vudu, é incompleto. Aparentemente foi reproduzido de forma incompleta pelo Contexto Livre. Seguimos o link oferecido por ele, para reproduzir o texto completo:

Carta aberta a Tarso Genro: Sobre a língua viva não se legisla. Vete a lei, Governador

02 de maio de 2011 às 14:28, blog Outro Olhar, da Revista Forum

Excelentíssimo Governador Tarso Genro:

Eu e uma legião de eleitores de esquerda fomos surpreendidos, no dia 19 de abril, com a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB), que “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”. Foi o estranho dia em que a direita representou a voz da sensatez. Apesar de que, felizmente, não está claro que o Sr. sancionará essa nociva e inútil lei, o Sr. condenou as chacotas e declarou que só as pessoas “muito caipiras” podem se opor às tentativas de defesa do vernáculo. Começo esta carta aberta atendendo o seu pedido de que a matéria seja tratada com seriedade, embora, que fique dito, para quem conhece algo acerca de como funciona o idioma, é meio irresistível dar algumas risadas de uma lei como esta. Noto, no entanto, minha discordância com seu uso do termo “caipira”. Em seu sentido pejorativo—que eu costumo evitar, aliás–, “caipira” é, segundo Houaiss, o “acanhado, pouco sociável”, enfim, justamente aquele que constrói cercas em volta de si mesmo. Caipiras são, portanto, os defensores da lei.

Tenho esperança de que o Sr. consultará alguns dos extraordinários profissionais do Instituto de Letras da UFRGS ou da Faculdade de Letras da PUC/RS—duas instituições de ponta, que estão entre as melhores do Brasil, tanto em literatura como em Linguística—antes de sancionar essa sandice. Sim, porque de sandice se trata.

A Linguística, como qualquer outra disciplina, possui diversas correntes e debates internos. Mas há um postulado do qual nenhum linguista discordaria: a língua é organismo vivo, em constante transformação. O dicionário é só uma sistematização pontual—um recorte—da coleção de vocábulos utilizados pelos falantes da língua em determinado momento. Essa coleção vai mudando, com a queda em desuso de algumas palavras e a incorporação de outras. É um processo natural da língua. Nele, os chamados estrangeirismos aparecerão sempre. Especialmente num mundo globalizado, eles são inevitáveis e, acima de tudo, não reguláveis por decreto, ainda mais um decreto estadual. Os próprios mecanismos internos da língua se encarregam de incorporar alguns, expelir outros, aportuguesar outros. Aliás, se formos ser rigorosos e eliminar todos os estrangeirismos, terminaremos onde? No tupi-guarani ou na passagem da vulgata latina ao galaico-português?

Vamos aos exemplos.

O Sr., que é colorado, se lembra da época em que os termos “córner” e “escanteio” coexistiam na língua portuguesa. Houve época em que era só “córner”. Com o tempo, os dois foram coexistindo e hoje “escanteio” parece ter se imposto, embora “córner” ainda seja compreensível para a maioria dos fãs de futebol. Aliás, “futebol”, um dia, foi gravado “football” e era um puro estrangeirismo. Será que a língua portuguesa estaria mais autêntica e protegida se usássemos “ludopédio”? Ora, a grafia de “football” foi aportuguesada e hoje ninguém pensa mais nisso. É a língua, Governador. Por outro lado, “match”, que era o termo usado nas publicações esportivas brasileiras dos anos 20, morreu mesmo, substituído por “jogo”, “partida”, “certame” ou “peleja”, sem que nenhum Carrion tivesse aparecido para decretar seu fim. Os próprios mecanismos que regem a interação real entre os falantes—estudados pela sociolinguística e pela pragmática—se encarregam da triagem. Muitas vezes, a grafia estrangeira permanece, sem dano nenhum ao idioma, como é o caso, aliás, dos dois gigantes gaúchos, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e o Sport Club Internacional.

“Abajur”, não muito tempo atrás, era “abat-jour”. Algum Carrion da época teria nos obrigado a usar “quebra-luz” e, assim, privado os falantes da língua de um enriquecimento lexical, que hoje nos permite designar um objeto específico, sem nenhuma ambiguidade. “Sutiã”, até outro dia, era “soutien”, e a vernaculização do estrangeirismo nos poupou do “sustenta-seios” que o PCdoB teria preferido.

Imagine, Governador, se o Deputado Carrion tivesse assessorado a administração das capitanias hereditárias e proibido os estrangeirismos na época. Não teríamos hoje a marca lexical mais distintiva da língua portuguesa, que não é “saudade” coisa nenhuma, mas a indefectível “bunda”. Só nós a possuímos. Foi um presente maravilhoso do quimbundo, e que hoje é tão brasileiro como o samba–outro estrangeirismo, aliás. Os hispanos não têm “bunda”. Usam “culo”, o que, sabemos, não é a mesma coisa. Dá para imaginar, Governador, uma língua portuguesa sem bunda?

O Deputado Carrion, inclusive, demonstra ignorância da língua que quer defender. Em sua justificativa ao projeto, ele declarou que não vai ao shopping center, e sim ao centro comercial. Ora, essas duas expressões não são sinônimas! “Shopping center” é parte da língua portuguesa, e quem o diz é o dicionário Houaiss, que em sua edição de 2008 reconheceu o uso dos falantes reais, como fazem sempre os bons dicionários, e registrou: “shopping center: centro comercial de arquitetura específica”. Qualquer falante brasileiro, pelo menos das áreas urbanas, sabe disso, mesmo que intuitivamente. Mas a esquerda legislativa do Rio Grande quer abolir esse saber natural dos falantes por decreto. O Deputado Carrion afirmou que só nos EUA ele iria ao “shopping center”. Teria dificuldades, pois o que, em língua portuguesa, é “shopping center”, na língua inglesa, pelo menos nas variações dialetais estadunidenses, chama-se, em geral, “mall”, da mesma forma como o que designamos como “outdoor” em português é chamado de “billboard” em inglês. É o que ficou imortalizado como “a contribuição milionária de todos os erros” pelo genial Oswald de Andrade, escritor que confiava na nossa capacidade de absorver, incorporar, processar e transformar tudo, sem medo e sem complexo de inferioridade. É um autor que o PCdoB deveria ler com mais frequência.

O PCdoB, partido que eu respeito e ao qual é filiada a minha atual representante na Câmara dos Deputados—já que o PT-MG meteu-se em tucaníssimos enredos–, tem, no entanto, essa estranha mania de decretar o que é e o que não é autenticamente brasileiro, como se o comunismo tivesse sido invenção tupiniquim. As cotas para as indústrias cinematográfica e televisiva brasileiras, por exemplo, são temas que podem ser debatidos seriamente. Decretar uma cerca em volta do idioma, não. Como afirmei num texto anterior, projetos desse tipo são de mastodôntica ignorância:

a) sociolinguística, porque ignoram que sobre a língua viva não se legisla.

b) filológica, porque não sabem que a evolução da língua inclui a incorporação de vocábulos estrangeiros.

c) pragmática, porque ignoram que cada falante, individualmente, tenderá a ter a capacidade de selecionar os estrangeirismos adequados para cada contexto e, no caso de não fazê-lo, a própria interação subsequente com os outros falantes atuará, corrigindo-o.

d) psicolinguística, porque querem cercear legislativamente o leque de escolhas lexicais do falante da língua.

A língua portuguesa vai bem, Governador, obrigado. Cada vez mais enriquecida pela interação com as outras. Não deixe que a esquerda do Rio Grande pague esse mico. Consulte o seu companheiro de lutas, Olívio Dutra, que é formado em Letras. Vete essa nociva, inútil, xenofóbica e medrosa lei.

Atenciosamente,

Idelber Avelar





26 comentários

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FrancoAtirador

12 de maio de 2011 às 22h58

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Pois, pois!

Por que será mesmo que, lá em Portugal,

os portugueses chamam "máuzi" de "rato"

e "nótibuqui" de "computador portátil" ?

Esses portugueses não têm jeito mesmo…
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Responder

FrancoAtirador

12 de maio de 2011 às 21h33

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Cultura, Aculturação e Padrões culturais!

Por Daniel Alabarce

(…)
Fato é que, cultura é determinada pela localização geográfica, pelo idioma, pelas tradições, pelo clima, pelos alimentos, pelos modos de produção de cada conclomerado humano e, principalmente, pelas representações simbólicas particulares de cada sociedade. Existem outros fatores determinantes de uma cultura, mas estas são as mais importantes.

Eu olho uma cultura e vejo que, destes fatores, três são os mais significativos, sem os quais a cultura pode ser drasticamente modificada ou destruida: Idioma, representações simbólicas e o modo de produção vigente.

Até uns séculos atrás, as diferenças culturais eram bem mais numerosas, bem mais complexas do que hoje. O que alguns chamam globalização, eu prefiro nomear como aculturação.

A globalização é um fenômeno essencialmente determinista, dominador e castrante, pois impõe certos padrões que estavam anteriormente relacionados apenas a uma cultura, mas que agora deverá ser seguida por todas as demais.
Poderíamos dizer que esse padrão é estadunidense, americanizado, capitalista e tudo o mais, porém, prefiro dizer que o padrão reflete os ideais das grandes corporações, das empresas multinacionais e das classes média e alta da sociedade.

O idioma inglês traz consigo todas as nuances culturais de quem utiliza esta forma de linguagem. Já disseram que o idioma é a característica fundamental de uma cultura, para destruir uma cultura, destrua seu idioma! Foi o que os gregos fizeram, indiretamente, com a magnífica ajuda de Alexandre, o Grande, que propagou o idioma grego, o pensamento e a filosofia grega por todo seu imenso império.

Foi o que Roma fez com todas as suas colônias, destruindo toda e qualquer forma de idioma existente, propagando o latim.
Foi o que os portugueses fizeram com os índios brasileiros, quando extinguiram o tupi-guarani… Alguém pode citar características fundantes da cultura indígena brasieleira? Provavelmente apenas os antropólogos, e com muita dificuldade! Justamente porque o idioma tupi simplesmente foi reduzido a nada, fomos aportuguesados, aculturados, colonizados pela língua portuguesa. Não temos identidade própria, o Brasil é uma grande prostituta das nações!
Foi o que fizeram conosco por meio do idioma inglês, esse "idioma universal" da nossa época.

Qual não é o nosso espanto quando vimos bares, boates, hotéis e vários estabelecimentos comerciais com nomes e citações no idioma inglês. Às vezes, o cara não sabe escrever seu próprio nome, mas coloca uma palavra em inglês no seu pequeno negócio…

As representações simbólicas estão entrelaçadas ao idioma, porque as imagens simbólicas nada mais são do que palavras em formas mentais. Imagem é palavra e o contrário é verdadeiro.
Logo que um idioma se torna dominante as representações simbólicas próprias desta cultura se cristalizam, passam a ser propriedades dos aculturados.
Daí que nossos ideiais de heroismo, liberdade, competitividade, divisão social, educação e política estejam tão atrelados aos da cultura e idioma inglês (mais precisamente, o americano!).

Íntegra em:

http://danielalabarce.blogspot.com/2011/03/cultur

Responder

FrancoAtirador

12 de maio de 2011 às 21h14

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Olhem só, a que ponto está chegando o processo de aculturação:

http://www.zazzle.com.br/tea+party+presentes

Responder

FrancoAtirador

12 de maio de 2011 às 19h56

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Sobre o tema sugiro a leitura do projeto de lei nº 1676/1999,

que está parado na Câmara dos Deputados,

esperando para ser votado, desde 2008.

Este projeto, foi apresentado pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB)

no tempo em que ele ainda era um nacionalista e um patriota.

http://www.partes.com.br/em_questao05.html

http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?i

Responder

Artur

12 de maio de 2011 às 11h40

Ok. Só não cometam ezquizofrenias do tipo Liberalismo Conservador… a própria lei que visa resguardar o idioma pátrio é conservadora, pois visa conservar um valor peculiar da Pátria…

Responder

William Lima: Pela liberdade da língua portuguesa | Viomundo - O que você não vê na mídia

12 de maio de 2011 às 11h18

[…] Sobre a polêmica no Rio Grande do Sul, que aprovou a lei Carrion: […]

Responder

@orivaldog

12 de maio de 2011 às 10h54

Eu sou um ferrenho defensor da Lingua Portuguesa, inclusive evito ao máximo expressões em outros idiomas, até mesmo nomes empresas. E, sempre fico preocupado com as influências maléficas da cultura de outros países no Brasil. Mas, não sou um troglodita neste assunto, gosto de música de boa qualidade seja em que idioma for e utilizo versões de programas de computador no idioma que estiver disponível com preferência para o português e o espanhol, tenho muita dificuldade com o idioma do imperialismo moderno, o inglês. Acredito que esta lei é importante, inclusive já houve proposta semelhante na Câmara dos Deputados, não sei se estou correto, mas parece que o projeto era do deputado Aldo Rebello.

Responder

    Étore

    12 de maio de 2011 às 19h52

    Sim, era do Aldo. Ele volta e meia insiste nisso, acalmou agora porque é relator de um projeto de lei de verdade. O Carrion é do mesmo partido, tava sem pauta e pegou essa pra aparecer um pouco na mídia (e conseguiu).

Rogerio

12 de maio de 2011 às 10h53

Eu queria perguntar aos sábios quantas palavras do portugues foram agregadas ao ingles do nosso tempo?
Eu queria perguntar quantas palavras do portugues foram e são substituidas por um equivalente ingles, sistematicamente todos os dias?
Eu queria perguntar aos sábios como ocorre de uma lingua morrer, se pelo uso ou pela substituição dos seus significados?

Responder

William Lima

12 de maio de 2011 às 10h11

O texto abaixo que eu escrevi há algum tempo defende um dos lados da polêmica dos textos que estão na sequência. Os deputados do RS estão achando que vivem em um mundo à parte, talvez numa terra ideal, no sentido platônico do termo (todas as ideias estão prontas e devem ser apenas acessadas, sem interferências dos 'usuários'). Vale a reflexão!

Nem por decreto: pela liberdade da língua portuguesa

Certa vez, participei de uma discussão sobre “defender a língua portuguesa na publicidade, nas artes etc.”. Estavam querendo uma lei que “protegesse” a língua, com previsão inclusive de multa para quem fizesse publicações com “erros de português” e proibindo o uso de estrangeirismos. Uma primeira discussão que poderia surgir é a do preconceito linguístico, a do uso excessivo da gramática como norteadora das nossas relações linguísticas, sem se levar em conta as questões pragmáticas, por exemplo. Entretanto, meu enfoque não vai ser este.

Acredito que respeitar a língua é fundamental para sua manutenção, bem como para a preservação e disseminação da cultura de um povo. Não podemos nos esquecer, entretanto, de que a publicidade tem por objetivo convencer. Não acredito que a publicidade se utilize tanto de erros como pareciam querer apontar. Aliás, gostaria que tivessem me mostrado exemplos de erros de português em textos publicitários para discutirmos, mas não mostraram.

Sobre os estrangeirismos/empréstimos linguísticos, não concordo com o que disseram. Os estrangeirismos/empréstimos são uma forma de enriquecer a língua, porque eles são o resultado da "apropriação" pela língua de um termo estrangeiro e, quando isso ocorre, essa nova palavra passa a fazer parte da língua, e a constar dos dicionários, e, consequentemente, a "funcionar" de acordo com sua norma. Um exemplo é a palavra XEROX, que, na verdade, é uma marca, mas estrangeira de qualquer forma. Quando nos referimos a "fazer cópias reprográficas", dizemos XEROCAR. Como podemos observar, o verbo está no infinitivo como os verbos AMAR, BEBER, SORRIR. O estrangeirismo não é o uso de um idioma em detrimento de outro. Como já disse acima, é a "apropriação" de um termo estrangeiro pela língua materna. Assim, se um termo já está dicionarizado e já segue as normas da língua portuguesa, ele é incorporado por esta, deixando de ser um termo estrangeiro.

O que a pessoa queria discutir, então, seria a dominação linguística e cultural, e não o estrangeirismo/empréstimo. Se antigamente o francês era a língua dominante, após a Segunda Guerra o inglês passou a sê-lo. E, sendo a língua dominante, a cultura em língua inglesa (mais propriamente a cultura norte-americana) passou a ser a dominante também. Outro ponto interessante é que nós nos sentimos (e somos) fortemente influenciados pelos EUA porque estamos na América. Tem-se que levar em conta que na Europa não é o inglês americano que se ensina na maioria dos países, porque lá existe o Reino Unido e outros países falantes da língua inglesa que já o falavam antes. Sobre a dominação linguística, realmente não podemos utilizar um idioma estrangeiro em detrimento do nosso, mas isso não quer dizer que tenhamos que nos alienar em relação à língua de maior uso nos negócios internacionais: o inglês.

Aprender a língua portuguesa corretamente (e não apenas o uso gramaticalmente correto, mas perceber as possibilidades e flexibilidades da nossa língua) é fundamental para uma boa formação cultural sólida de qualquer brasileiro, mas saber uma segunda língua é fundamental para se ter sucesso profissional em um mundo globalizado e cada vez mais competitivo. Não são raras as matérias em jornais que abordam exatamente esse assunto: há muitas vagas de emprego que não são preenchidas por falta de mão-de-obra qualificada, e isso em qualquer nível de escolaridade, inclusive a falta de conhecimento de uma segunda língua.

É nesse contexto que acredito na liberdade de uso da língua. Nós a construímos diariamente. Não é um decreto que vai fazê-la ser mais nacional ou mais norte-americanizada. Não é desse tipo de proteção que precisamos, precisamos que o português escrito seja ensinado na educação básica para que possamos ter acesso à literatura em língua portuguesa compreendendo as figuras de linguagens, as (des)construções artístico-poéticas, além de podermos fazer uma leitura mais intertextual de cada obra ou texto a que temos acesso.

William César Ramos Lima

Funcionário público, bacharel em Tradutor pelo UNIVEM, pós-graduado em linguística pela UNESP de Assis

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Flávio

12 de maio de 2011 às 09h37

Pelo que entendi, o projeto de lei apenas “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”.

Ora, meu deficiente intelecto não vê qualquer autoritarismo ou imposição que impeça o uso de palavras ou expressões em língua estrangeira, mas apenas a exigência de sua tradução ao velho e bom Português.

E assim ficamos todos satisfeitos, os "retrógrados" defensores da língua pátria e os "avançados" cultores dos modismos linguísticos estrangeiros, ou melhor, anglo-americanos.

A meu ver, estamos em condições de passar a outros itens da pauta…

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Marcelo Fraga

12 de maio de 2011 às 01h24

Fantástico projeto de lei do deputado Raul Carrion.
É ridículo ver aquelas lojas com a vitrine estampada "50% off", como se falássemos inglês.

Os publicitários, metidos a moderninhos, usam e abusam dos estrangeirismos para parecerem legais e agradarem a classe média, principalmente na indústria automotiva. Agora compra-se New Civic, New Fiesta, Sandero Stepway, Ecosport Freestyle, Corsa Joy, Ranger Limited, Renault Symbol, Palio Adventure, Voyage Comfortline, e tantos outros.

Citei os carros porque é com o que trabalho, mas dá pra citar alimentos, conjuntos habitacionais, eletroeletrônicos, etc.

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Eduardo Susin

12 de maio de 2011 às 00h45

Acho que se criou uma celeuma cesnecessária acerca desta lei.
Até onde sei a lei apenas torna obrigatória a tradução de expressões estrangeiras para o idioma pátrio.
Exemplo disso o proprio autor da lei manifestou que é estarrecedor passar em frente a lojas que possuem FREE em suas vitrines, em vez de LIQUIDAÇÃO ou PROMOÇÃO.
A incorporação de estrangeirismos em nosso idioma não será proibido PELO AMOR DE DEUS. O que o autor da lei propoe é que as pessoas tenham familiaridade com a tradução para o português de palavras estrageiras usadas em anuncios publicitários apenas para chamar a atenção de possíveis clientes. E nesse sentido a lei é totalmente valida e necessária.

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Eric

11 de maio de 2011 às 23h37

Poderiam pelo menos ter a honestidade de publicar o texto completo que o Idelber escreveu, ao invés de três parágrafos mutilados:
http://revistaforum.com.br/idelberavelar/?p=90

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    Luiz Carlos Azenha

    12 de maio de 2011 às 00h13

    Chequei o link oferecido pelo pessoal da Vila Vudu e é reprodução fiel do post publicado no Contexto Livre. abs

Étore

11 de maio de 2011 às 23h11

O real objetivo desta lei é colocar seu autor na mídia por algum tempo, a lingua é apenas uma desculpa.
Para que os que não leram a lei na íntegra basta dizer que a versão original apresentada pelo deputado obrigava inclusive que nomes próprios (de empresas, marcas, produtos, etc.) fossem traduzidos ou tivessem uma tradução em português ao lado do original. Este e outros pontos foram alterados por emendas mas o resultado continua indefensável.
Infelizmente coisas como essa não são novidade em um estado que possui uma lei, recente, determinando como se deve fazer um churrasco para que ele possa ser realmente considerado um churrasco.

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Lazlo Kovacs

11 de maio de 2011 às 22h44

Não sei se entendi bem o problema, mas parece que a questão é espinhosa. De fato, a língua é dinâmica e, portanto, ela exprime mais do que a si mesma: exprime classe, formação cultural, quando não mais, exprime as formas consideradas cultas, condizentes com os "papers" (exemplo a título de ironia) dos economistas e acadêmicos de praxe.

O que talvez cause estranheza é a lei regular o uso da língua, quando o correto é a lei se estabelecer a partir do uso da lingua.

No entanto, a título de exemplo, em Portugal, várias palavras de origem inglesa foram adaptadas à lingua ou, simplesmente, utilizaram uma palavra cujo sentido seja semelhante. No primeiro caso, "xampô" (do inglês shampoo); no segundo caso, o conhecido "rato" (mouse) de computador. Pessoalmente, considero tal prática razoável; tanto isto que prefiro, por exemplo, usar "sítio" em vez de "site", para o estranhamento de alguns de meus interlocutores.

Se entendi bem o problema, não é possível colocar no mesmo patamar a preservação das palavras de língua inglesa e aqueles dialetos que, simbólica e praticamente, tornam-se resistência cultural. Pasolini escrevia, na juventude, versos em friulano como forma de resistência à imposição do italiano como língua nacional na época de Mussolini. Não é o caso da língua inglesa; ela é tratada como uma língua de negócios, que traz em seu bojo toda uma cultura de massa – não é Sterne, nem Cummings, muito menos Swift, mas Lady Gaga e quetais. Já houve quem lamentasse a decadência da influência da língua francesa por aqui, mas não cabe tratar disto agora.

O que pode estarrecer é o fato de uma mudança na língua não vir do próprio uso, mas de uma imposição legal. A tese seria de que o usuário da língua não efetua uma mudança ao português brasileiro e que, portanto, esta mudança tem que vir "de cima". A consequência é que a dominação cultural (via língua) não parece inferior ou pior do que a dominação via legislação.

Os linguistas, sim, estão corretos, mas parecem não observar o contexto histórico (a não ser em seu próprio campo, o da linguística histórica) em que o Brasil se insere como dominado. A língua não existe, simplesmente; ela se impõe culturalmente a partir de uma cultura que também se impõe. E como afirmei acima, sofremos processo de dominação cultural e parece haver uma falta de discussão em torno das necessidades de esclarecer em torno do uso e preservação da língua portuguesa. Afinal, nas escolas, impõe-se a regra gramatical, ora tal e qual professor se baseia na "Língua de Eulália" para dizer que não é bem assim, ora fala-se sobre os "diversos discursos", mas não se explicita o problema. É justamente neste vácuo que aparecem legislações dignas de um Lima Barreto.

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    Edson Barbosa

    11 de maio de 2011 às 23h18

    Muito bom lembrar de Policarpo Quaresma. A língua portuguesa foi imposta aqui no Brasil. Fez bem lembrar também sobre qual imposição é pior…a Legal ou a Cultural. Gosto muito de ler os comentários aqui porque de um modo ou de outro, mesmo na contradiçao, podemos relembrar ou ampliar nosso conhecimento

Anarquista Lúcida

11 de maio de 2011 às 21h15

O texto é de uma agressividade completamente desnecessária em relaçao ao Idelber. Por causa de outras histórias? Podia-se debater o assunto com civilidade. Aliás, o mesmo deboche se manifesta em relaçao aos linguistas brasileiros em geral. Pena ver isso num site tido como progressista.

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    Edson Barbosa

    11 de maio de 2011 às 22h57

    Gostei muito de sua observação sobre a agressividade do Coletivo da Vila Vudu cmanisfestada contra o o Prof. Idelber. Geralmente quem briga é porque já perdeu a razão faz tempo. No texto acima exageraram na profusão de textos apenas para manifestarem pensamento contrário. Bastava listar os links, ops e posicionar-se totalmentre contra a carta do professor. Acima de tudo as ironias quanto ao saber deste professor são dispensáveis.
    Quanto à lei ela é sensata e utilizo a palavra "bullying" como exemplo de exageros no uso de palavras estrangeiras. Fala-se muito e pouco explica-se desta forma de violência que numa tradução livre é a prática contínua de atos de violência física ou psicológica exercida por uma pessoa, ou um grupo, dirigida contra uma ou mais pessoas.

    Eduardo Martinez

    15 de maio de 2011 às 15h15

    E a agressividade do Ibelber, Pessoa Que Não Revela Nome e Sobrenome Por Que Será, com o autor do projeto e com o projeto? Mais parecia alguém do departamento de estado dos EUA protestando contra um chilique de soberania de uma das colônias. Um legítimo Quinta Coluna. E a agressividade e violência verbal do Idelber Avelar contra mim no Facebook, por questionar sua irresponsabilidade e falta de educação ao tratar do tema?

    24 de abril às 04:01 Denunciar
    ‘Você foi excluído porque é um chato, grosseiro, a quem eu tenho certeza que nunca acrescentei a nenhuma lista de amigos minha e de quem tenho certeza que nunca ouvi falar, o que coloca a você na obrigação de ter uma preocupação extra com a educação e a cordialidade no momento em que visita MEU espaço para dar uma opinião. Minha lista de amigos não é uma “blogosfera democrática”. Você é tão burro que não consegue perceber a diferença entre o critério para escolher um governo (democracia) e o critério para escolher uma LISTA DE AMIGOS. Tchau, babaca’. Idelber Avelar

    O Idelber pode ser agressivo, mas isso não vale para ele. Um baita mal educado e egocêntrico.

    PS: Anarquista Lúcida é nome de batismo. O meu é.

    Luís

    20 de maio de 2011 às 14h36

    Eduardo Martinez, o chorão. Até agora tá chorando porque não se conforma do professor Idelber Avelar (viu. Ele tem nome e sobrenome) tê-lo chamado de feio e bobo e tê-lo excluído da lista de "amigos" do facebook.

    Ah, cara. Vai arranjar o que fazer.

    E no mais, concordo com que o professor disse.

Morvan

11 de maio de 2011 às 20h18

Boa noite.

Contrariando o prof. Idelber Avelar, apesar de ser alguém, como diz o articulista, que "sabe como funciona o idioma", quando da tomada e ocupação da Grécia, a primeira providência do Império Romano foi emitir a seguinte sentença, em forma de Lei: "Nihil Grik" – Nada de grego. Não se fala grego. Roma, o Império sabia que ou os dominaria, aos gregos, ou por eles seriam dominados (via idioma).
É a mais sutil e perversa de todas as dominações, pois o faz pela língua. A língua é feita de palavras e as palavras são o revestimento do mundo. "tateamos" o mundo via palavras.

Abraços,

Morvan, Usuário Linux #433640

Responder

    Rogerio

    12 de maio de 2011 às 10h54

    Boa! Gostei da sua argumetação. Penso igual.

    Seger

    12 de maio de 2011 às 18h38

    Até que enfim alguém para iluminar a discussão. Parabéns!

    Anarquista Lúcida

    13 de maio de 2011 às 18h03

    E adiantou tanto que os gregos continuaram falando grego… E inclusive o Império Romano do Oriente (que falava GREGO!) durou muito mais que o do Ocidente. Ninguém é obrigado a saber História, mas dar argumentos falsos é dose…


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