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Morte de miliciano ligado ao clã Bolsonaro: operação de inteligência ou de “estupidez e ignorância”?
Política

Morte de miliciano ligado ao clã Bolsonaro: operação de inteligência ou de “estupidez e ignorância”?


11/02/2020 - 10h37

Da Redação

Foi uma operação “de inteligência”, como afirma a polícia, ou “de estupidez e de ignorância”, como avalia o sociólogo José Cláudio Souza Alves, estudioso das milícias?

As dúvidas sobre a morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, em Eldorado, interior da Bahia, na manhã do domingo 9, persistem.

A operação foi do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Companhia Independente de Policiamento Especializado (Cipe) Litoral Norte, do Grupamento Aéreo (Graer) e da Superintendência de Inteligência (SI) da Secretaria da Segurança Pública da Bahia, com apoio da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

As autoridades defendem a ação dizendo que Adriano reagiu e, por isso, foi baleado.

Porém, José Cláudio Souza Alves, autor do livro “Dos Barões ao Extermínio – Uma História da Violência na Baixada Fluminense”, questiona.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele respondeu:

Por que a morte de Adriano é suspeita de ter sido um caso de queima de arquivo? Ele não estava em Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, armado até os dentes e cercado de outros milicianos do seu grupo.

Ele não está numa favela, um território com alta complexidade onde não existe nitidez sobre quem é quem, numa configuração espacial urbana que dificulta a operação.

Ele estava numa residência em um espaço rural no interior da Bahia.

Como o fator surpresa estava nas mãos dos investigadores, se o objetivo fosse prendê-lo, os policiais poderiam eleger o momento ideal para isso e fazer um cerco.

Não há plausabilidade na situação descrita pela polícia de que ele teria reagido, se ferido e acabado morto. Na minha visão, é uma operação suspeita.

O Adriano era um cara com ampla experiência nesta área. Atuou no Bope. Numa condição de cerco, ele saberia que não teria chance alguma e se entregaria. Tudo indica, portanto, que partiram de um plano para eliminá-lo.

Mas ele pode ter, ainda assim, reagido. Esse procedimento de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com um confronto direto.

E estamos falando de um quadro simplificado, numa casa no campo, e não numa favela ou numa malha urbana, com milhares de variáveis.

Por isso a suspeita de que a morte de Adriano é um desfecho deliberado, que a operação foi feita com essa intenção.

Em outra entrevista ao diário conservador paulistano, acrescentou:

Estamos falando de um quadro simplificado: um cerco a uma casa no campo. Investiram recursos públicos para desembocar naquilo que é o oposto do desejável. Não dá para falar em operação policial de inteligência, mas sim de estupidez e de ignorância.

Outra pergunta recorrente: tido como exímio atirador, Adriano não acertou um tiro sequer, mas foi atingido duas vezes?

Até agora sabe-se que ele teve três esconderijos na Bahia.

Um condomínio de luxo em Porto do Sauípe, de onde fugiu quando a polícia chegou para prendê-lo — segundo a versão oficial, pela janela.

Deslocou-se então para um parque de vaquejadas em Esplanada, de propriedade do empresário e pecuarista Leandro Abreu Guimarães, que fica a cerca de 100 quilômetros de distância.

Finalmente, andou mais 10 quilômetros até a propriedade rural de um vereador do PSL em Eldorado, Gilsinho da Dedé, onde foi morto.

Tanto o pecuarista quanto o vereador dizem que não conheciam o passado de Adriano — não sabiam de seu envolvimento com a milícia, nem com Flávio Bolsonaro.

Adriano, é bom lembrar, não foi incluído na lista dos mais procurados do Ministério da Justiça, com o argumento de que os crimes cometidos por ele não teriam caráter “interestadual”.

Fica a dúvida: foi montado um esquema para esconder Adriano, foragido há mais de um ano?

Falando à Ponte Jornalismo, José Cláudio Souza Alves levantou a questão:

Pouco importa se Bolsonaro não está mais no PSL. Havia vínculo político desse cara [Gilsinho da Dedé] com essa estrutura partidária.

Como ele diz que não sabia quem era a pessoa? É estapafúrdio.

Uma rede de proteção pode ter sido montado para o Magalhães e ele acaba sendo morto nessa rede de proteção. Não é algo fortuito: um político vinculado ao partido que foi do presidente da República.

E agora, saber exatamente o que aconteceu, vai depender da investigação da mesma polícia que comandou a ação.

A meu ver, há um conjunto de pessoas envolvidas que fazem parte de um projeto político nacional. Eles querem se projetar agora em 2020.

Na mesma entrevista, José Cláudio falou sobre a importância da milícia da Zona Oeste do Rio — que tinha em Adriano um de seus líderes — nas eleições municipais de 2020:

A zona oeste do Rio toda está fechada com eles. Tirando o Comando Vermelho na Cidade de Deus, que está encurralado. Além disso, tem a Baixada Fluminense, onde funciona um dos maiores esquemas eleitorais que é nomear pessoas para cuidar de contratações.

Tenho a informação de que os milicianos estão acessando essa rede e indicando nomes. Um dos importantes nomes da Baixada ligado à milícia, que é o Jura, que está preso, mas foi nomeado pela prefeitura de Belford Roxo para ocupar cargo.

Em ano eleitoral, ocupar cargos na prefeitura é determinante, define apoio.

A vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), assassinada no Rio de Janeiro, assessorou o hoje deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ), autor do requerimento que criou a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

José Cláudio opina:

Ela [a milícia] só vai desaparecer se você tirar o braço político e econômico. O caso da Muzema é a expressão da continuação dos negócios imobiliários daquela rede naquela região

Esse é um dos pontos centrais do assassinato da Marielle e agora, com a morte do miliciano, está obstruído. Fecharam o caixão e colocaram a gente dentro.

Dez anos depois da CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Marcelo Freixo pintou um quadro sombrio, ao fazer o balanço da situação:

As milícias cresceram por uma razão: os sucessivos governos do Rio não tiraram das milícias o domínio territorial e as fontes de riqueza econômica.

A milícia é um grupo criminoso que busca dinheiro, busca riqueza através de seu controle territorial. Os controles das vans, do “gatonet”, do gás, da extorsão direta não foram retirados das milícias.

Houve a prisão dos líderes milicianos por meio de uma ação conjunta da CPI, do Ministério Público e da Polícia Civil, mas milícia é máfia.

Depois das prisões, não se fez aquilo que o relatório sugeria, que era aquela retirada do poder econômico. Eles continuaram ganhando dinheiro e isso gerou a conquista de mais territórios.

Hoje existem mais territórios controlados pela milícia do que pelo próprio varejo da droga.

Pergunta do Viomundo: se as milícias entregam votos — e estamos em 2020, um ano de eleições municipais — quem quer denunciar e enfrentar as milícias?

A quem interessava queimar arquivo?

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3 comentários

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Bel

11 de fevereiro de 2020 às 21h53

O fazendeiro levou o miliciano ao esconderijo. Disse que foi ameaçado para não dizer onde o havia levado. Foi o segurança do miliciano que contou à polícia onde o miliciano estava. Estranho que foi o fazendeiro e não o segurança que levou o ex-capitão ao esconderijo e mesmo assim o segurança sabia o que o fazendeiro não contou. Ah, sei lá…

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Bernardino SOUZA neto

11 de fevereiro de 2020 às 16h37

Esse Rui COSTa,governador PT,é um frouxo-covarde.Com um trunfo desses nas mãos,abalaria a republica.Jamais deveria permitir policiais de outro estado protagonizar a operação.Se o secretario dele agiu sem comunicá-lo,aumenta mais ainda sua frouxidão.O velho Brizola disse no roda viva:!”O PT é a UDN de tamancos e LULA a espuma da historia”.Grande profeta.
O PT no ´poder aprendeu a ajoelhar-se e a lamber as botas da casa grande.
Que oportunidade rara de dar o troco!!Isso,porém,é para homens de fibra como Brizola,Marighela eoutros leões da esquerda historica.Por essa e outras não mais votarei neles para qualquer cargo eletivo!!!!

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Marys

11 de fevereiro de 2020 às 15h41

Cadê o corpo que ninguém mostra?Por que o local não foi protegido e interditado? E as fotos das clápsulas de bala? Parece filme de Hitchcock. Nesse caso tudo é suspense. Logo logo a imprensa se cala e vira passado.
Porque não mostraram a cena do crime?

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