VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Mauro Santayana: Brasil se consolida como República


05/08/2011 - 12h46

por Mauro Santayana, no JB Online, via Conversa Afiada, sugestão do leitor Morvan

O Ministro Nelson Jobim, respeitemos os fatos, é um político singular na história recente do país. Ele surge no cenário nacional em 1987, ao eleger-se para a Câmara dos Deputados. Rapidamente, impressionou seus pares pelo desembaraço. Sua vida acadêmica é rica:  professor-adjunto de Direito da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em que se formou, nela também  obteve o mestrado em Filosofia Analítica e Lógica Matemática.  Não obstante esses títulos, Jobim é intelectualmente discreto: nunca demonstra todo o seu saber nos pronunciamentos políticos ou em seus escritos. A vaidade ele a guarda para a prática cotidiana da política. É um homem que, em todos os  atos, parece dizer que nasceu para mandar. Mas, pelo que vemos, não entende que o poder depende da legitimidade. Em seu caso, a legitimidade é conferida pela confiança da Presidente. Quando falta legitimidade a qualquer poder, ele é tão sólido quanto uma nuvem de verão.

No duelo de grandeza entre ele e Fernando Henrique, registre-se  a verdade, o sociólogo levou vantagem sobre o filósofo e jurista. Matreiramente, como  sempre foi, o então presidente valeu-se da intemperança de Jobim, sem que esse percebesse. Fez como se seguisse a orientação do gaúcho, dando-lhe corda, enquanto o conduzia pelos cordéis da lisonja. Jobim tem uma relação quase pavloviana com a real ou falsa admiração alheia. Nesses momentos, ele consegue inflar a alma por dentro do corpo.

Em uma visita que lhe fez, quando ocupava o Ministério da Justiça, o saudoso jornalista Márcio Moreira Alves anotou que o Ministro demonstrava sua cultura, ao ter, sobre a mesa, o conhecido compêndio de ensaios políticos de John Jay, James Madison e Alexander Hamilton, The Federalist. Os três grandes pensadores e políticos norte-americanos, mais do que discutir os fundamentos constitucionais da jovem república, redigiram uma espécie de manual republicano, a partir do pensamento clássico e dos filósofos ingleses do século 17. É, na certa, um bom estudo, principalmente para o uso daqueles que se sentem desestimulados a visitar o pensamento original e mais complexo  dos clássicos, de Aristóteles a Locke, de Santo Tomás a Montesquieu, que inspiraram os políticos norte-americanos. Marcito, que se encontrava em  fase serena de sua carreira, tratou Jobim com tal bonomia que os maliciosos poderiam ter considerado irônica.

Jobim é vaidoso, embora, pelo que se sabe, não se mete em negócios estranhos. Tal como Romero Jucá, porém,  sua adesão ao governo independe de quem o chefie ou do partido que nele exerça hegemonia. É o terceiro período presidencial em que  se destaca, nos  poderes republicanos, como parlamentar, ministro, juiz e presidente do STF.

Em nenhum cargo Jobim se sentiu tão ele mesmo como no Ministério da Defesa. Seu entusiasmo foi o do escoteiro ao ser admitido no grupo. Tanto assim, que não titubeou: em poucas horas já envergava o uniforme de campanha dos oficiais superiores do Exército. Jobim é assim construído: tem o seu lado lúdico, e algum psicanalista de botequim poderia concluir que ele brinca sempre.

Mandar é com ele mesmo. Lula, que tem outro tipo de astúcia, bem diferente da que esgrime Fernando Henrique, também manobrou bem com Jobim. É certo que Lula não ficou muito à vontade quando Jobim, ao substituir um dos homens mais dignos de nossa história política, o baiano Valdir Pires, cometeu a grosseria de insinuar que seu antecessor não ocupara o cargo com a autoridade que lhe competia. A diferença é que Valdir administrava um ministério de militares em tempo de paz, enquanto Jobim parecia sonhar com o desempenho de Rommel e de Patton nos desertos africanos, e de Eisenhower e Zhukov,  no desembarque na Normandia e no avanço sobre a Alemanha. Os chefes militares logo descobriram que Jobim estava encantado em brincar de marechal, e com ele se ajeitaram. Enfim, como Jobim fingia que mandava, eles, mais experientes, fingiam que obedeciam.

Ele se encontrava pouco à vontade, quando despachava com a presidente. Convenhamos que não é cômodo para Jobim submeter-se ao mando de uma mulher. Talvez mais para justificar-se diante de seus amigos paulistas do que para expressar um sentimento real, disse o que disse na festa dos oitenta anos de Fernando Henrique, a propósito dos “idiotas” do governo, com os quais era forçado a conviver hoje, bem diferentes dos “geniais” ministros do excelso intelectual. As suas declarações à Revista Piauí – que ele, sem muito jeito, tentou desmentir – ajustam-se à sua personalidade. A mais grave delas se refere ao episódio da nomeação de José Genoíno como seu assessor, quando afirma que, diante da hesitação da presidente sobre a capacidade do ex-guerrilheiro para o cargo, cortou logo a dúvida: quem sabia se Genoíno desempenharia bem a sua função era ele, Jobim, e não ela, Dilma. Se o diálogo realmente houve, ele não só contrariou as normas do poder, mas, ainda mais,  violou as regras do cavalheirismo.

Por mais Dilma Roussef tenha recebido o apoio de Lula, ao assumir o cargo ela se tornou a chefe de Estado do Brasil, com todas as responsabilidades e prerrogativas do cargo, legitimada pela vontade da nação. Ela só tem que obedecer aos interesses nacionais, e cumprir a Constituição e as leis, de acordo com a sua própria consciência. E os que se sentirem incomodados com sua liderança, se assim lhes parecer melhor, podem deixar o governo. O Brasil tem centenas de milhares de cidadãs e cidadãos, patriotas e de probidade, capazes de exercer bem o múnus republicano – mesmo que não conheçam os endereços de Brasília.

Foi assim que se desfez a pequena crise: Jobim se demitiu no início da noite e um grande e sensato brasileiro, Celso Amorim, já foi nomeado para substituí-lo. O Brasil se consolida como República.

Charles Carmo: Dilma se livrou de um inimigo dentro de casa

Aqui, uma homenagem musical ao Nelson Jobim

Estadão derruba Amorim e coloca os tanques na rua: saudade das quarteladas





24 comentários

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Página 13 » Blog Archive » A República se consolida

12 de agosto de 2011 às 00h32

[…] Fonte: Viomundo […]

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andre

06 de agosto de 2011 às 11h36

Excelente!

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O_Brasileiro

06 de agosto de 2011 às 11h04

Gelisy Hoffmann deve estar lisonjeada com o comentário de Jobim, pois tudo de que o Brasil não precisa é de políticos viciados em poder, acostumados a conchavos!
Precisamos no poder é de pessoas, dignas, honradas, sérias e competentes!

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Morvan

06 de agosto de 2011 às 09h43

Bom dia.
Olhem só a pérola que eu li no PIGTerra:
"Jobim diz estar 'aliviado' após deixar Ministério da Defesa"
.
Fonte: Terra. Elo: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,O…
Pergunto: mais do que nós, brasileiros? Duvido…

:-)

Morvan, Usuário Linux #433640

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Morvan

06 de agosto de 2011 às 09h36

Bom dia.
Nada como um dia após o outro. Olha só a tripudiação (merecida, arremato!) da Ideli Salvati:
Jobim viu agora quem é fraquinha, diz Ideli após demissão.
Elo de acesso: Terra (http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5282452-EI7896,00-Jobim+viu+agora+quem+e+fraquinha+diz+Ideli+apos+demissao.html).
Toma, otário de grande estatura física; não confundir com grande homem, e sim homem grande, como bem pontuou postante do Conversa Afiada (não credito, pois confesso não me lembrar de seu nome).

Morvan, Usuário Linux #433640.

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Helio Filho

05 de agosto de 2011 às 22h54

Nada a acrescentar, evidentemente, ao que escreveu Mauro Santayana.
Quero apenas dizer que fui trabalhar mais feliz no dia de hoje. O pais tem
presidente, um ministro presuncoso vai para o ostracismo e a vida continua.
Em que pese as profecias de alguns jornalistas, aves de mau agouro sem a
inteligencia que tinha o Corvo em 1964, nao ha crise.
Choram carpideiras, as mesmas de sempre, mas ninguem as ouve.
Dilma pagou pra ver e viu – era blefe (a direita sempre blefa, como nos EUA)
Agradeco a ela meu dia feliz e a Santayana por traduzir em palavras, com o talento que
nao tenho, meu proprio sentimento.
Trollzada, ao trabaho!

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Francisco Hugo

05 de agosto de 2011 às 22h37

Sempre que faço algum reparo aos textos de Santayana sou censurado.
Siamesa da tortura, a censura é a irmã mais cruel. Vai direto à alma: "Como ousas???!!!"
Mas…, vou arriscar:

Muito réquiem para pouco defunto.

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Rodrigo Vianna: Jornalista da Globo denuncia que emissora vai atacar Amorim | Viomundo - O que você não vê na mídia

05 de agosto de 2011 às 21h16

[…] Mauro Santayana: A República se consolida […]

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Louise

05 de agosto de 2011 às 20h29

…das bananas.

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Roque Pinto

05 de agosto de 2011 às 20h12

Quanta diferença quando se lê a mesma notícia de uma fonte que tão tem rabo preso (refiro-me, logicamente do PIG e suas tetas, logo após ler os comentários de Veja): http://es.noticias.yahoo.com/brasil-ministro-defe…

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Julio Silveira

05 de agosto de 2011 às 19h55

É dificil ter reparo a fazer nas ponderações do Santayana. É um cidadão de muita visão.

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francisco.latorre

05 de agosto de 2011 às 19h25

vou ter que repetir a elizabeth.

..maravilhosa finalização:
"Foi assim que se desfez a pequena crise: Jobim se demitiu no início da noite e um grande e sensato brasileiro, Celso Amorim, já foi nomeado para substituí-lo. O Brasil se consolida como República.

santayana. biscoito fino.

..

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ZePovinho

05 de agosto de 2011 às 17h59

Como o Santayana é da velha escola,mando essa para o Jobim,com toda a maldade do ZePovinho:

[youtube qkC2vgvRHo0 http://www.youtube.com/watch?v=qkC2vgvRHo0 youtube]

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Conceição Oliveira: Demóstenes, Who? | Viomundo - O que você não vê na mídia

05 de agosto de 2011 às 17h07

[…] Alipio Freire: Não basta demitir; é fundamental investigar e processar   […]

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augusto

05 de agosto de 2011 às 16h56

gentes do meu brasil varonil, paralelamente arrisco pedir que nao percam um artigo sensacional de Nick Turse no sitio
"tomdispatch.com", agora de 03.8.11. Assunto: os numeros budget e até detalhes do inacreditavel aparato americano para açoes militares secretas em todo o mundo. E aumentando… Traduzam e espalhem pela web que merece.

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Luiz Conceição

05 de agosto de 2011 às 16h16

É delicioso ler textos produzidos pela sabedoria do jornalista Mauro Santayana. A cada ano que passa transborda cultura e ironia nos seus escritos, com adequada erudição e clareza. Atualmente há no Brasil um bom número de provectos senhores nada circunspectos que deitam bobagens e mixórdias para ganhar espaços na mídia decadente retrô. Vida longa ao Santayana e à sua inteligência!!!!

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Elizabeth

05 de agosto de 2011 às 15h56

Uau!!! Que texto fabuloso! Gente, tinha me esquecido do que ele fez com Valdir Pires!! Fez um discurso que insinuava para Valdir Pires :não se queixar, resmungar, lamentar… E o que este Pavão do Jobim, mais fez antes sair? !!Patético!
.
E maravilhosa finalização:
"Foi assim que se desfez a pequena crise: Jobim se demitiu no início da noite e um grande e sensato brasileiro, Celso Amorim, já foi nomeado para substituí-lo. O Brasil se consolida como República.

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Alexei_Alves

05 de agosto de 2011 às 15h42

Celso Amorim será ótimo, tenho certeza disso, mas não estou esperando grandes mudanças para agora. Os primeiros meses deverão ser de muita cautela. Não se pode dar pretextos, por mais falsos que sejam, e por mais insensato que uma "revolta na caserna" possa ser nos dias de hoje.

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Alipio Freire: Não basta demitir; é fundamental investigar e processar | Viomundo - O que você não vê na mídia

05 de agosto de 2011 às 15h34

[…] Mauro Santayana: Brasil se consolida como República   […]

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ZePovinho

05 de agosto de 2011 às 15h02

O senhor é um FANFARRÃO,Nelson Jobim!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

[youtube RP4qK31EdRU http://www.youtube.com/watch?v=RP4qK31EdRU youtube]

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Orlando Bernardes

05 de agosto de 2011 às 14h57

Exemplar este texto. Coloca o Sr. Jonhbim ( é isto mesmo ) no seu devido lugar!

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Guilherme Scalzilli

05 de agosto de 2011 às 14h46

Depuração

Aos poucos Dilma Rousseff vai arrumando certas bagunças e conferindo características próprias ao seu governo. Desde já fica previsto que as defenestrações dos quadros mais indigestos do ministério fornecerão à imprensa oposicionista e aos desafetos da própria base um motivo para desqualificar a presidenta assim que alguma ocorrência fortuita arranhar sua popularidade. Se souber resistir às pressões, contudo, em poucos meses ela colherá frutos político-administrativos que sequer Lula almejou.
A excelente nomeação de Celso Amorim para a Defesa também anuncia uma gritaria desestabilizadora dentro e fora dos quartéis. O ridículo (e termerário) Nelson Jobim teve tempo e poderes suficientes para garantir que sua futura demissão causasse o máximo de barulho. É um erro subestimar a força dos lobbies militares.
Com o aval da chefe, Amorim poderia começar a gestão imitando os militares da antiga: batendo o sabre na mesa, distribuindo ordens e negando permissão para falar. Caso precise amansar as tropas, o ministro… continua: http://guilhermescalzilli.blogspot.com/

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Saulo

05 de agosto de 2011 às 13h25

Era só um tucano, filiado ao PMDB e infiltrado num governo petista !!!! Vai tarde !!! Brevemente vira colunista do Estadão, Globo ou Folha !!!!

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Morvan

05 de agosto de 2011 às 13h21

Boa tarde.
Obrigado pelos créditos, mais uma vez, Conceição e Azenha. Só para ser tão ético, com relação à fonte, como vocês sempre o são, peguei o elo no Conversa Afiada, o qual já fazia o elo do JB. Desculpem também pela formatação do HTML na sugestão do elo de ligação. O IntenseDebate usa um mecanismo de âncora um pouquinho diferente do convencional.

Morvan, Usuário Linux #433640.

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