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Marcos Coimbra: Os políticos e as pesquisas


06/12/2010 - 06h54

1 de dezembro de 2010 às 10:45h

por Marcos Coimbra, em CartaCapital

Uma das coisas que seria bom mudarem em nossa cultura política é o modo como alguns candidatos se relacionam com as pesquisas. Talvez não seja um tema prioritário na agenda do País nem um problema que exija mudança urgente em nosso sistema político e eleitoral. Mas é relevante, ainda assim.

Por mais que se brigue contra elas, é difícil imaginar a política moderna sem as pesquisas. A opinião pública acostumou-se com elas, a mídia ficaria de mãos atadas se não as tivesse, as campanhas eleitorais não saberiam o que fazer na sua ausência. Elas estão aí e vão ficar.

É claro que os políticos não são iguais na sua relação com elas. Há os que lidam com as pesquisas de maneira tranquila, seja porque conseguem lhes dar a importância devida, seja porque não lhes dão nenhuma. Políticos mais contemporâneos são capazes de usá-las de maneira serena, tendo ingressado na vida eleitoral sob sua égide. Mas um velho dinossauro como Leonel Brizola tampouco se preocupava com elas, preferindo apenas ignorá-las.

Neste ano, dois episódios são típicos dos problemas que precisam ser resolvidos. No primeiro, um candidato a governador de um grande estado conseguiu proibir a divulgação de pesquisas por um bom período, usando todos os recursos legais. De subterfúgio em subterfúgio, teve êxito até que as decisões da Justiça Eleitoral de seu estado foram reformadas pelo TSE.

O segundo foi mais visível, pois aconteceu na eleição presidencial. Um candidato, insatisfeito com os resultados das pesquisas de alguns institutos, resolveu usar das prerrogativas da candidatura para atacá-los de maneira ofensiva, tanto às empresas quanto a seus responsáveis.

O primeiro caso aconteceu no Paraná e envolve o governador eleito Beto Richa. O segundo ocorreu com José Serra.O que teria levado Beto Richa a querer ser o árbitro do que os eleitores do estado poderiam saber? Será que achava que lhe cabia criar uma nova legislação para proibir que os eleitores fossem “perturbados” pela publicação de pesquisas na reta final da eleição? Ou será que apenas temia que as pessoas fossem informadas?

E Serra, que direito achava que tinha de tratar com truculência e prepotência quem só fazia seu trabalho? Do alto do sentimento de impunidade que os políticos em campanha costumam ter, de que podem tudo e de que nada lhes será cobrado, protagonizou, nesses ataques, mais um capítulo lamentável na sua malfadada candidatura.

A razão de gestos assim está na incapacidade de reconhecer que o eleitor não é bobo, levado de cá para lá pela divulgação de pesquisas. Na dificuldade  de admitir a maioridade das pessoas e parar de temer que elas sejam influenciadas (“dirigidas”) pelas pesquisas.

Políticos desse tipo costumam dar às pesquisas uma importância maior que o cidadão. Para as pessoas comuns, a pesquisa é apenas uma das informações a considerar, raramente uma das fundamentais. Se existem, os eleitores que decidem o que fazer em razão de seus resultados formam uma parcela insignificante.

Vemos isso a cada eleição e suas evidências neste ano foram abundantes. Ou será que Dilma Rousseff teve, no primeiro turno, aquilo que a unanimidade das pesquisas lhe dava? Quanto a Marina Silva, não houve uma só que indicasse a votação que recebeu, mostrando que seus eleitores votaram ignorando os números divulgados na véspera.

Mas há um aspecto a ressaltar nos comportamentos de Richa e Serra: ambos foram relativamente bem-sucedidos no seu intento. Um conseguiu proibir a divulgação por algumas semanas; as imprecações do outro foram ouvidas (ainda que inutilmente).

Isso tem a ver com uma ambiguidade das pesquisas na nossa cultura política. Ao mesmo tempo que o meio político (candidatos, apoiadores, jornalistas) fica galvanizado por elas, é muito comum que seus resultados sejam vistos com desconfiança. Nada mais típico dessa atitude que o Judiciário.

Uma das maneiras de permitir que as pesquisas tenham um papel normal nas eleições brasileiras é os políticos pararem de agir como agem. Quando estão “bem”, abusam delas, chegando a construir candidaturas em razão de vantagens ilusórias. Quando acham que vão perder, fingem que as desprezam e saem distribuindo inverdades contra elas.

Embora menor, seria bom que o tema fosse considerado na reforma política que entra em pauta ano que vem.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.





15 comentários

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chanceler

07 de dezembro de 2010 às 10h51

Com todo respeito ao Marcos Coimbra, as pesquisas não são tão desimportantes assim no processo eleitoral. Contrariamente, são instrumentos decisivos, pois, motivam, influenciam e criam climas favoráveis ou não.
O grande problema é que nesta eleição, em particular, houve, uma cisão entre os institutos de pesquisas. Aqueles que sempre foram beneficiários, viram suas estratégias de um possível golpe, desnudadas por dois intitutos do estado de Minas.
Penso que interessante seria uma eleição sem pequisas, uma vez que a falta de parâmetros tornaria os pleitos mais excitantes.
As pesquisas criam a sensação de viodeo tape, desapaixona.
A não divulgação de pesquisas criaria a ideia de que todos ainda teriam chance.
Sempre fui contrário às pesquisas que somente servem aos interesses dos grandes meios de comunicação de de quem as possa comprar por melhor preço.
Poderiam continuar a existir para as tomadas de decisões e consultas externas, sem a divulgação pública.

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Jorge Stolfi

07 de dezembro de 2010 às 09h33

As pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial de 2010 tiveram erros de 5% ou mais, como demonstra a comparação entre elas:
http://www.ic.unicamp.br/~stolfi/EXPORT/projects/

Mesmo assim,elas são a ÚNICA proteção que temos contra fraudes em massa. A porcaria de urna que o TSE nos deu (e continua defendendo com unhas e dentes) permite transferir uma percentagem arbitrária de votos de um candidato para outro, sem que ninguém perceba, em todas as urnas de um estado ou do país. Não há teste ou artifício de software que consiga prevenir ou detectar esse tipo de fraude.

A única proteção eficaz que se conhece contra a fraude eletrônica em massa é o voto material (impresso, digamos), conferido pelo eleitor e guardado em urna convencional para posterior recontagem. É o que fazem todos os países que usam urnas eletrônicas — menos o Brasil e a Índia (e na Índia a discussão sobre esse ponto está braba). O Congresso Nacional bem que introduziu essa garantia duas vezes; em 2000 e em 2009, mas o TSE conseguiu reverter a primeira decisão em 2003 (com argumentos totalmente infundados) e está fazendo de tudo para reverter a segunda.

Se um ditador quisesse uma máquina de votar que lhe permitisse fraudar as eleições a bel-prazer e conhecer o voto de cada eleitor com total impunidade, debaixo do nariz de fiscais de partido e observadores internacionais, não precisaria inventar nada: bastaria copiar a urna "brasileira" (que, além de tudo, é fabricada por uma empresa americana).

Houve fraude eletrônica em alguma eleição desde 1996? Não sei. O TSE não sabe. (As afirmações de "seguranga 100%" do TSE não são técnicas mas religiosas, meras profissões de fé; é o papai coruja jurando pela inocência de sua criança predileta.) Tirando o autor de uma possível fraude, ninguém sabe, e não tem como saber; pois essa úrna ridícula é perfeita em apenas um ponto — ela é absolutamente "a prova de provas".

Porque o TSE tem tanto amor por essa máquina de fraudar eleições? Porque o Beto pediu ao TSE para censurar todas as pesquisas prévias? Porque o TSE atendeu prontamente a esses pedidos, mesmo sem nenhuma justificativa técnica ou embasamento legal? Infelizmente não temos como saber; só podemos fazer hipóteses.

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Cícero

06 de dezembro de 2010 às 22h32

No Paraná, a diferença de votos entre Serra e Dilma foi de 633 mil, num total de 5.819.000 milhões de votos válidos. Já a diferença de Beto Richa para Osmar Dias foi de 394 mil votos, num total de 5.797.026 milhões de votos válidos.

Como mostram os números, a proibição dos resultados de pesquisas no Paraná teve pouco impacto sobre as intenções de voto do eleitorado paranaense. Foi pequena a diferença entre um candidato e outro. Mesmo com o travamento judicial das pesquisas, a vitória do Richa não foi uma vitória esmagadora.

Significa dizer que as pesquisas, embora exerçam uma certa influência sobre uma parte do eleitorado brasileiro, especialmente sobre os indecisos, as pesquisas, repito, não 'decidem' uma eleição. No âmbito nacional, a grande maioria dos eleitores já sabem em quem vai votar meses antes das eleções. São os eleitores que se decidem ou por ideologia ou por identificação com o seu candidato. Esse tipo de eleitor, dificilmente muda seu voto em função de pesquisas.

Exemplo disso, é o que ocorreu na campanha presidencial deste ano, durante a qual, a presidenta eleita foi duramente bombardeada pelo PIG e perseguida e atacada por quase todos os setores conservadores da esfera política, econômica e social do país e, até pelo Papa, mas ela venceu. Por quê? Porque quem se decide por um ou outro cadidato, não muda seu voto facilmente.

Esta é a minha opinião.

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Vergonha

06 de dezembro de 2010 às 19h15

Aqui no Paraná a imprensa é omissa e submissa e o povo muito ignorante em matéria de política. Não se preocupam em ter informações verdadeiras e votam porque está na frente, porque é bonito ou porque fez um favorzinho (que seria uma obrigação). Não se interessam em saber porque a Linha Verde custou 33 milhões a mais sem que nenhum viaduto fosse erguido ou porque foi escolhida a empresa que cobrará 57 reais pela tonelada de lixo ao invés da que queria 39 reais. Porque a licitação do transporte coletivo foi dirigida aos mesmos que já dominam o mercado há mais de 40 anos.
Pela ignorância de alguns, todos pagaremos a conta.
Mas com o Beto teremos muitas propagandas em horário nobre, e não nobre também.
Ele gosta de aparecer e iludir.
Puro MK.

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Janes Rodriguez

06 de dezembro de 2010 às 19h08

A Assembleia Legislativa do paraná é um jardim de infancia comparada com a Câmara Municipal de Curitiba… E sobre ela não há a mínima fiscalização da mídia local. Todos num perfeito compadrio. A base do governo é de 90% dos parlamentares. Uma investigação jornalística com conselheiros tutelares não subordinados a prefeitura, pode explicitar com detalhes e com lupa, os esquemas de manutenção do poder por esse grupo. Envolve parcerias com centenas de ONGs, OSCIPs, Associação de Moradores, sindicatos Patronais, Midia, Sindicato dos trabalhadores do Transporte Coletivo, Sindicato Patronal do transporte coletivo, os Armazéns da Família, etc, etc, etc…

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Janes Rodriguez

06 de dezembro de 2010 às 19h04

No Paraná vai além: o grupo político de Beto Richa, que tem o controle da maṕquina da prefeitura há 40 anos, tem uma alinaça, uma sociedade sólida com a justiça-do-Paraná: consegue tudo o que quer nessa instância de poder. As oligarquias por aqui são levadas muito a śerio. É o valor que mais alto se alevanta nessas plagas. Basta ver que duas acusações de caixa dois contra ele deram em absolutamente NADA. E a imprensa local idem: a mesma mṕidia que fez estardalhaço contra Requião por contratar parentes na administração pública, agora apenas noticia, calmamente, que o irmão de Beto, José, será um super secretário. Serão fundidas as secretaria de transporte e de obras, que vira "infraestrutura" e o irmão será o super-secretário. Na maior naturalidade. E a esposa será a presidente do Provopar, claro. E o presidente da câmara, ligado aos barões do transporte coletivo da capital, vai, pela OITAVA vez consecutiva, presidir a Câmara Municipal da capital que se acha europeia. Serão Dezesseis anos de mandato e controle. Na imprensa local, vindo dos herdeiros do lernismo, tudo muito natural. Nenhum escândalo. Sobretudo porque agora vão poder recuperar a receita de 30% de verbas publicitárias que deixaram de ganhar com Requião, que só fazia publicidade do governo na TV pública. Supremo ódio angariou dos donos da mídia da província.

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easonnascimento

06 de dezembro de 2010 às 19h00

Desde que o Brasil foi descoberto 500 anos atrás que político assim age. Se rebela contra pesquisas que lhe são desfavoráveis e enaltece àquelas que lhe elevam. Beto Richa se elegeu enquanto Serra não. Os motivos obviamente foram diferentes. O tucano paranaense conseguiu apoio na justiça, enquanto Serra ficou só no discurso.
http://easonfn.wordpress.com

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LUCAS PEREIRA

06 de dezembro de 2010 às 17h43

A NOVA IMAGEM DO CONGRESSO NACIONAL
Qualquer semelhança não é mera coincidência… http://desatualidadescronicas.blogspot.com/2010/1

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vanraz

06 de dezembro de 2010 às 15h10

Pessoal, brasileiro modesto, não existe. Quando a gente consegue um objetivo, logo aparece outro e queremos vencê-lo. O Paulo Henrique já é o nº1 no Brasil. Agora seremos o nº 1 no mundo! Vamos colocar o PH como o 1º no mundo!!
1. Alireza Nourizadeh 28381
2. Ugur Mumcu 21645
3. Ahmad Zeidabadi 20151
4. Adnan Hassanpour 14203
5. Nihat Genç 12936
6. Paulo Amorim 12816
7. Alexandre Garcia 12446
8. Shahram Homayoun 12390
http://www.vanraz.wordpress.com

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Gerson Carneiro

06 de dezembro de 2010 às 10h44

Há ainda pelo menos mais dois espisódios que não foram citados. Um foi o fato da vênus platinada escolher e limitar de quais institutos seriam divulgadas as pesquisas, revelando sua sintonia, obediente, com o Zé Bolinha; o outro foi a pesquisa, de última hora, encomendada pelo Da Coisa. Embora também ambos episódios se mostraram inúteis na prática.

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João Carlos

06 de dezembro de 2010 às 10h38

Depois dos vexames protagonizados pelos institutos de pesquisa, o que menos quero saber é o que pensam os diretores desses institutos.

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Jairo_Beraldo

06 de dezembro de 2010 às 10h18

Serra e Richa perderam votos usando o judiciário para vetar dilvulgações de pesquisas. Amigos paranaenses de direita, me dizem isso. Falam que Osmar Dias e Dilma cresceram em função do autoritarismo de Serra e Richa no Paraná. Mais uma semana, e ambos teriam revertido o resultado das eleições por lá.

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    Elton

    06 de dezembro de 2010 às 11h50

    Sei não amigo, aqui no Paraná as coisas não são tão simples assim, nosso eleitorado se impressiona muito com as "obras" que embelezam Curitiba mas literalmente "varem a sujeira pra debaixo do tapete".

    Marcio Leandro

    07 de dezembro de 2010 às 06h55

    Concordo plenamente, para vermos que as obras são onde aparecem basta sair pelas ruas secundárias dos bairros para ver o abandono. Eu tive esse impacto cerca de um mês atrás quando mudei do bairro Juvevê para o Alto Boqueirão. No primeiro, por ser um bairro "nobre" temos passeios, asfalto perfeito, meio fios, limpeza o tempo todo, capinação dos canteiros, etc, etc, no outro por ser um bairro "pobre" temos buracos em todas as ruas (menos nas principais), não existem passeios e vc tem que andar no meio da rua, o mato cresce e não existe capinação.
    A sorte de Beto e cia é que o povo curitibano, seja pobre ou rico adora aparências, marketing e propaganda.

Elton

06 de dezembro de 2010 às 10h06

No caso das eleições locais para governador, o tal Beto richa em verdade não quis "se arriscar", o eleitor paranaense é conservador em sua esmagadora maioria e a bem da verdade, não tinha muitas opções pois o candidato "situacionista" era Osmar Dias, de passado reconhecidamente conservador. Sou paranaense e conheço bem nossa política, lamentável aliás. Nossa Assembléia Legislativa é verdadeiramente uma máfia, ruralistas e donos de cartórios "deitam e rolam" em prol de seus interesses. Netos de ex-governadores grileiros posam de "bons moços" e perpetuam-se no poder.

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