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Marcos Coimbra: Partidos em crise


01/05/2011 - 14h10

por Marcos Coimbra, em CartaCapital

Se há uma coisa com a qual todo mundo concorda quando se discute política é que os partidos são fundamentais na democracia. Até existem partidos em países não democráticos (como as legendas únicas de ditaduras à esquerda e à direita), mas não há democracias sem eles.

No Brasil, os partidos nunca encontraram, porém, ambiente propício para se enraizar e se desenvolver. Em nossa história, sempre tenderam a ser breves, pouco presentes na vida social e vistos com desconfiança.

Também pudera. Saímos de um regime de limitada participação no Império para uma República onde as restrições continuavam imensas. Nosso eleitorado era pequeno e decidia a respeito de poucas coisas. Tudo de relevante se resolvia nas confabulações da elite.

Atravessamos os 50 anos entre a Revolução de 1930 e a redemocratização de uma ditadura a outra. A cada mudança, os partidos existentes eram extintos e criavam-se novos. Seria querer demais que estabelecessem vínculos profundos com a sociedade.

Os que surgiram em 1945 duraram apenas 20 anos, mas foram os que mais marcaram nossa vida política. Até pouco tempo atrás, ainda era possível encontrar pessoas que se identificavam mais com eles do que com os atuais. PSD, UDN e PTB, ao lado de outras legendas menores ou regionais, ainda estão presentes nas referências de nossa cultura.

Nenhum morreu de morte natural, causada pela perda de representatividade ou o desinteresse dos eleitores. Em sinal paradoxal de respeito, os militares os extinguiram por Ato Institucional específico, como que reconhecendo sua importância e o quanto poderiam representar de obstáculo ao modelo de sistema político que queriam implantar.

Por que será que a democracia pós-redemocratização não conseguiu produzir organizações partidárias semelhantes? Este já é o mais longo período com democracia contínua que tivemos. Onde estão os partidos que expressam o Brasil de hoje?

Só temos certeza de um: o PT. É o maior (em termos de simpatia popular e número de militantes), o mais organizado (com vida interna estruturada e dinâmica), o mais bem-sucedido (com um terceiro mandato presidencial sucessivo) e o mais nacional (com presença expressiva em municípios e comunidades do País inteiro) de todas as legendas que existiram em nossa história.

Por que só o PT? Por que não surgiu algo equivalente ou parecido em nenhum outro lugar do espectro ideológico? É evidente que nem todos os brasileiros são petistas. A se crer nas pesquisas, a maioria, aliás, não é. Então, por que nenhum veio ocupar o vazio existente?

Neste início de governo de Dilma Rousseff, os partidos de oposição atravessam sua pior crise. Ao contrário do que se falou logo após a eleição de 2010, quando houve quem dissesse que os resultados mostravam que era grande o sentimento oposicionista no País, estão confusos, desnorteados, em conflitos internos.

O DEM, sucessor da velha Arena criada pelos militares, parece um doente em fase terminal. Que futuro pode ter um partido incapaz de resistir ao assédio de alguém da importância política de Gilberto Kassab? Qualquer um vê o dedo de José Serra por trás desse PSD de agora, mas não deixa de ser lamentável a trajetória da antiga Frente Liberal. Hoje, o melhor destino para os que restarem será a incorporação ao PSDB.

Esse, cindido por brigas internas irreconciliáveis, perde filiados históricos e não consegue se desvencilhar de lideranças que o prendem ao passado. Anda tão mal que seu principal intelectual propõe que invente alguém para representar. Sem o “povão” que lhe deu as costas, Fernando Henrique Cardoso sugere ao partido tornar-se porta-voz das “novas classes médias”. Como se os partidos primeiro existissem e depois fossem à procura de quem os quer.

É possível que só tenhamos um PT pela simples razão de que só ele foi um partido que nasceu na sociedade, se organizou aos poucos e cresceu ao atrair gente comum. Se houve um partido, em nossa história, que se desenvolveu de baixo para cima, foi ele. Não é apenas isso que explica seu sucesso, mas é onde começa.

Dizendo o óbvio: o PT é forte por estar enraizado na sociedade. Os outros estão em crise por lhes faltar o “povão”.





14 comentários

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Roque Gomes

03 de maio de 2011 às 20h24

Acho que os partidos brasileiros estão em crise justamente porque nunca experimentaram a política de fato. Temos um grande país que precisa ser governado, então vamos "inventar" um partido e convencer o maior número de eleitores. A razão da própria política não entra em questão. Qual ou quais necessidades fizeram nascer os partidos políticos brasileiros com excessão do PT? A política eleitoreira, eu diria. A necessidade de vencer eleições. O movimento migratório entre demos e tucanos e a invenção do PSD de Kassab e Sérra também nasce dessa necessidade. Melhor dizendo, é a necessidade eleitoreira que faz com que os políticos "inventem" seus partidos. Inventam suas "ideologias". A necessidade de se construir um Brasil por meio de uma política progressista fez nascer o PT, eu diria. E sua singularidade é marcante justamente por não se esconder nas confusões das letras ideológicas. Duas letras. Uma simplicidade complexa, talvez. O "T" não é de trabalhista, mas sim de trabalhador. É o primeiro partido brasileiro de fato. A crise nos partidos é um processo natural.

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Suzie

03 de maio de 2011 às 11h39

"É possível que só tenhamos um PT pela simples razão de que só ele foi um partido que nasceu na sociedade, se organizou aos poucos e cresceu ao atrair gente comum. Se houve um partido, em nossa história, que se desenvolveu de baixo para cima, foi ele. Não é apenas isso que explica seu sucesso, mas é onde começa."
A democracia interna é sempre exigida pelos(as) que militam e não são orgânicos no partido.
Tem gente que acredita que são pagos para escrever e para militar.
Convenhamos, a pior coisa é ex-militante arrependido( por " interesses" pessoais que entrou).
Dá uma guinada para a direita…

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José Silva

03 de maio de 2011 às 10h33

Na minha opinião, o que está faltando para a oposição no Brasil é SIMPLICIDADE. Isso mesmo!!! Seria muito melhor para todos, inclusive a própria oposição que ela reconhecesse os avanços alcançados pelos que hoje estão na situação e pensasse um Brasil com simplicidade, nada destes intelectuais reacionários a guiá-los pelo caminho mais complicado que é a distância do "povão". Apesar de algumas figurinhas difíceis de digerir no cenário político brasileiro, apesar de todas as dificuldades que estas figurinhas tentam impor ao povo e ao governo em nome de um projeto de poder na maioria das vezes pessoal, o Brasil está no trilho do desenvolvimento e tem muitos desafios a vencer, se esta oposição que está aí repetir os mesmos erros da campanha passada vai ser desintegrada e digo que já vai tarde, pois o Brasil não precisa deste tipo de político que pra se eleger vende a alma pro diabo e depois corre pra debaixo da batina do papa. Abraço a todos!!!

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dukrai

02 de maio de 2011 às 20h26

uai, o Marx Coimbra não era Aébrio Never? a não ser que o texto serviu pra dar o recado:
"Sem o “povão” que lhe deu as costas, Fernando Henrique Cardoso sugere ao partido tornar-se porta-voz das “novas classes médias”. Como se os partidos primeiro existissem e depois fossem à procura de quem os quer."

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Fred Oliva

02 de maio de 2011 às 20h19

A Confederação Midiática que se observa no país não é obra do acaso. Os donos dos principais jornais, revistas e emissora de TV (Globo) perceberam desde a eleição de Lula a tendência do PT era de crescimento acelerado. Não por outra razão viraram – de forma confessa – a verdadeira oposição no Brasil; porque sabem que fora do PT, não existem outros partidos. Simples assim…

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fernandoeudonatelo

02 de maio de 2011 às 17h04

A coalizão montada entre os partidos de oposição hoje, é fragilizada por própria incapacidadade de analisar o cenário sócio-econômico do país.

Por exemplo, não são capazes de fornecerem um projeto alternativo de Estado, que sustentem suas críticas ao modelo de gestão seguido pelo atual governo. Ao mesmo tempo, escondem em discursos de cortina de fumaça sua verdadeira bandeira ideológica, o Neoliberalismo e a Teoria da Dependência.

Pra piorar, não renovam lideranças partidárias, apresentando à sociedade figuras pouco "rotativas" e bem confusas nas Direções Nacional e estaduais.

Agora, tanto para os partidos da base governista quanto da oposição, precisam promover diálogos com a sociedade, assoiciações e movimentos organizados, através de espaços públicos como as universidades, mídia pública, praças e etc.

Não precisam ser comícios eleitorais, mas Conselhos Populares, mesas de discussão rotineira, aonde as pessoas oferecem propostas e apresentam críticas.

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Jorge Nunes

02 de maio de 2011 às 14h09

A falta de representatividade da oposição não era novidade, pois, só se reúnem em torno de preconceitos e frases de efeito produzidos no seio da mídia tradicional.

É só puxar a memória a campanha do PSDB a presidência.

Qual foi a grande ideia do PSDB? (iria prender 20 milhões de mulheres que fizeram aborto?)
Qual a grande de ideia da vitrine da oposição hoje que é São Paulo?

Se oposição só existe dentro da mídia e não na sociedade tem alguma coisa errada.

O PT é forte por que nasceu longe da mídia teve que se desenvolver a pautar a si mesmo. A oposição ela dependeu da mídia e hoje é pautada por ela. O que é Aécio sem a imagem construída pela mídia

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SILOÉ

02 de maio de 2011 às 00h25

Crise de pelancas – aí apelam pro botox
Crise de opção sexual – manda o garotão fazer curso no exterior , com o senado bancando
Crise de abstinência – se nega a usar o bafômetro
Crise de indentidade – se acha o rei e manda caçar o blog
Crise da idade – só aceita a posentadoria se bem paga, fora o trauma provocado pelo bulling da imprensa
Crise da idade – além do botox só aceita a posentadoria se for para doa-la as suas ongs
Crise sexual não assumida – odeia gays – lésbicas e afins
Crise racial – odeia negros
Crise financeira – faz qualquer coisa pra ganhar um por fora, inclusive roubar e mandar matar
Crise de claustrofobia – pavor do povão
Fora as mais comuns – traumas – ojeriza – pânico – transtorno bipolar – etc, etc,etc…

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FrancoAtirador

01 de maio de 2011 às 21h50

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Crítica crítica e crítica transformadora

Por Emir Sader em seu blog na Carta Maior

Uma tragédia para a esquerda foi a dicotomia entre reflexão teórica por um lado, prática política por outro. Depois das primeiras gerações de teóricos e, ao mesmo tempo, dirigentes revolucionários – como Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, entre muitos outros -, os partidos comunistas e social democratas deixaram de ser espaços de reflexão teórica, levando a que os intelectuais marxistas se refugiassem em centros autônomos – universidades ou outros – e, ao mesmo tempo, em temas distanciados da prática politica – como a metodologia, a estética, a teoria literária, a ética.

Foi a partir dessa verdadeira ruptura entre teoria e prática que surgiu o intelectual crítico, mas sem prática política, portanto sem compromisso com propostas de transformação concreta da realidade e sem responsabilidade na acumulação de forças para construção das forças de transformação. A crítica crítica foi disseminando cada vez mais, conforme os partidos foram tendo práticas cada vez mais adaptadas aos sistemas de poder existentes, frente ao que as teorias apareciam com uma coerência e um poder explicativo aparentemente cada vez maior. Proliferaram cada vez mais intelectuais radicais, com prestígio diante dos jovens – sempre disponíveis, felizmente, para as utopias – e, mais recentemente, com espaços na mídia tradicional, na medida em que critiquem a esquerda realmente existente.

Essa visão e essa atitude diante da teoria e da prática têm não apenas o problema de não desembocar nunca em alternativas, restringindo-se à esfera teórica, mas também que interpela a prática do ponto de vista da teoria e não a teoria do ponto de vista da prática. Não se trata apenas de uma visão politicamente inconsequente, mas tampouco se trata de visões que captem a realidade na sua dinâmica real, porque se situam fora da prática concreta, do processo efetivo de luta entre campos constituídos que expressam, direta ou indiretamente, as contradições estruturais da sociedade.

Terminam sendo visões que se encerram na teoria, que não dão conta da realidade, que castram a própria teoria, fechando-a sobre si mesma, desembocando em intermináveis denúncias de que a realidade não corresponde perfeitamente à teoria e em discussões entre distintas teorias. Na contramão da tese fundamental de Marx: “A filosofia até aqui interpretou o mundo de diferentes maneiras, mas trata-se de transformá-lo”. O marxismo se caracteriza justamente por não ser mais uma interpretação de como seria o mundo, mas por uma análise que desemboca necessariamente em projetos de transformação do mundo, protagonizados por forças sociais e políticas.

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostra

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    FrancoAtirador

    01 de maio de 2011 às 22h17

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    PRECISAMENTE "porque se situam fora da prática concreta,

    do processo efetivo de luta entre campos constituídos que expressam,

    direta ou indiretamente, as contradições estruturais da sociedade"

    QUE EXISTEM TANTOS PARTIDOS DESORGANIZADOS E IMPOPULARES

    E, EM CONTRAPARTIDA, HÁ TANTOS MOVIMENTOS SOCIAIS

    MUITO BEM ESTRUTURADOS E ORGANIZADOS POLITICAMENTE,

    MAS QUE SÓ SE ENGAJAM PARTIDARIAMENTE EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO.

    NO BRASIL, O MAIOR EXEMPLO DISTO É O MST,

    UM MOVIMENTO SUPRAPARTIDÁRIO E LEGITIMAMENTE DE ESQUERDA,

    QUE TEM BASE DE SUSTENTAÇÃO VERDADEIRAMENTE POPULAR,

    NO SEGMENTO QUE REPRESENTA, POIS ASSUME O COMPROMISSO

    "com propostas de transformação concreta da realidade".
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José Ivan M Aquino

01 de maio de 2011 às 21h27

Penso que o PT deveria partir para ter candidatos(as) em todas as prefeituras em 2012. Em 3.000 delas na disputa principal e em 2.560 na vice com candidatos gestores para as pastas de saúde e educação.
Deveria usar o critério da proporcionalidade de 50% para homens e mulheres.
Poderia construir uma relação de 50% das coligações com o PMDB, 20% com o PSB, 15% com o PDT e 15% com o PC do B.
A publicidade de campanha poderia ter a presença em vídeos, textos e gravações de rádio de apoio com equidade do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma. E as peças deveriam refletir os programas de governo com base no Pronatec, PACs I e II, MCMV, LPT local, Bolsa Família com novas condicionantes ligadas à erradicação do analfabetismo e promoção do ensino técnico, OBMEP como critério para bolsas no Brasil e no exterior.

José Ivan Mayer de Aquino
Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida

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David R. da Silva

01 de maio de 2011 às 17h12

Realmente, o PT é o ÚNICO Partido no Brasil e talvez no Mundo, que seus militantes e filiados escolhem pelo voto DIRETO seus representantes e renova suas Lideranças. É um Partido Dinâmico e Democrático. É a Cara do Povo! Não Acham? Belo Texto. Parabéns. É O PT no AR, como sempre. de Belo Horizonte.

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Alexei_Alves

01 de maio de 2011 às 16h53

Concordo com a análise do texto.
Partidos políticos não brotam do nada. É necessário a construção de uma relação com a sociedade. Aqui em Brasília isso fica evidente. Como apenas recentemente passou a haver eleição para governador do distrito federal os partidos são fraquíssimos na região. A lei é do apadrinhado. Felizmente isso está mudando. O exercício democrático aperfeiçoa a si mesmo.

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FrancoAtirador

01 de maio de 2011 às 16h42

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Não são somente os partidos políticos,

é a "democracia representativa" que está em crise.

Nessa "democracia" capitalista capenga,

o povo, afastado das decisões dos governantes

e sem informação dos fatos políticos e das atitudes dos maus políticos,

somente tem oportunidade de se manifestar politicamente a cada 4 anos,

com dois ou três toques "numas teclinha de computador",

depois de ser exaustivamente massacrado, visual e auditivamente,

por uma mídia tendenciosa, irresponsável e impatriótica,

que, em conluio com "prostitutos" de pesquisa,

atende exclusivamente a interesses de uma elite

pseudo-intelectualizada e moralmente decadente,

da qual, inclusive e tristemente, fazem parte jornalistas

inescrupulosos, mercenários e caluniadores

a serviço dessa mesma mídia oligárquica patrimonialista mercantil,

patrocinada por agentes capitalistas, com finalidades exclusivamente lucrativas.
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