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Diário da Resistência


Marcelo Zero: Brasília sitiada por aparato militar é “propaganda do novo regime autoritário”
Esplanada dos Ministérios preparada para o último ensaio geral da posse do presidente eleito, Jair Bolsonaro. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Política

Marcelo Zero: Brasília sitiada por aparato militar é “propaganda do novo regime autoritário”


31/12/2018 - 20h40

Esplanada dos Ministérios preparada para o último ensaio geral da posse de Jair Bolsonaro. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O Espetáculo da Fascistização

por Marcelo Zero, via whatsapp

Brasília está sitiada para a posse do presidente que defende a tortura e a ditadura.

Há um enorme aparato militar ostensivo distribuído em pontos estratégicos e de grande visibilidade.

A Esplanada e a Praça dos Três Poderes, o coração da cidade, estão cercadas por tropas numerosas. A toda hora, helicópteros militares sobrevoam a cidade de Niemeyer e Lúcio Costa.

Parece que estamos em guerra ou que há uma quartelada em andamento.

Alega-se que tudo isso seria necessário em nome da segurança do evento.

Trata-se, a meu ver, de alegação frágil.

No mundo civilizado, em países sujeitos a atos de terrorismo, há esquemas de segurança rígidos para eventos semelhantes.

Mas, por motivos claros, eles são bem mais discretos e certamente menos militarizados.

Nos EUA, por exemplo, os agentes do Serviço Secreto, do FBI etc. atuam discretamente, misturando-se a convidados e público.

Coloca-se ênfase em atividades de inteligência e na vigilância secreta, que são muito mais eficientes na prevenção a atentados que a presença ostensiva de militares uniformizados com tanques e mísseis.

Por óbvio, patrulhamentos militares ostensivos são facilmente burláveis por terroristas minimamente eficazes. Não

Assim, parece-me que o esquema militar grandioso e caríssimo da posse de Bolsonaro tem duas outras funções principais:

*Impedir eventuais manifestações contrárias ao presidente neofascista e, sobretudo,

*Fazer a propaganda do novo regime autoritário.

O primeiro ponto é óbvio. O segundo, nem tanto.

Tanto o fascismo como o nazismo foram regimes que recorreram a espetáculos grandiosos para sua afirmação e legitimação.

O historiador Karl Dietrich Bracher argumenta que o sucesso da ideologia nazista não pode ser entendido sem a compreensão do papel central da propaganda.

Tal propaganda criou um forte fenômeno psicorreligioso na população alemã. O líder passou a ser visto como uma espécie de representante do divino na Terra, um ser infalível, que pairava sobre todos.

Fundamental para a configuração de tal fenômeno foram as cerimônias cuidadosamente coreografadas e intensamente militarizadas, como os famosos rallies de Nuremberg, nos quais se comemorava o aniversário do partido nazista.

Nessas cerimônias, o aspecto militarista era central. Uniformes, estandartes e bandeiras desfilavam em rígida formação.

O objetivo era projetar força e poder. Força e poder para intimidar os inimigos e força e poder para “empoderar” os membros da seita político-religiosa.

Dessa forma, o cidadão comum, humilhado e amedrontado pela recessão, a insegurança e a derrota na Primeira Guerra Mundial, sentia-se forte e protegido. Sua vida medíocre ganhava propósito e sentido.

E o propósito comum era defender os valores culturais e religiosos do “Ocidente” e os valores nacionais da Alemanha contra a ameaça maléfica, universalista e corrupta do bolchevismo e do judaísmo.

Qualquer semelhança com o bolsonarismo, sua mistura de fundamentalismo cristão e reacionarismo político, sua cruzada santa contra o “marxismo cultural” que ameaça o “Ocidente” e seu discurso fortemente autoritário, violento e militarizante não é mera coincidência.

Embora em épocas e circunstâncias muito diferentes, o bolsonarismo cumpre, no Brasil da crise, o mesmo papel psicopolítico que o nazismo desempenhou na República de Weimar.

Ele proporciona, mediante a projeção de força, poder simbólico e propósito a uma legião de gente fragilizada e amedrontada, que busca no ódio a inimigos imaginários a sua redenção.  Por isso mesmo, seu primeiro grande ato será distribuir armas aos “cidadãos de bem”.

Nesse sentido, a posse do “Mito”, nesse ambiente de militarização ostensiva, será um primeiro grande rally político do nosso fascismo. Uma espécie de Nuremberg em Brasília.

Não se trata, portanto, de segurança contra atentados. Pelo menos não no essencial.  E não se trata, muito menos, de uma festa republicana, democrática, destinada a unir os brasileiros.

Ao contrário, trata-se de uma cerimônia para demarcar terreno simbólico e político.

Uma cerimônia para dividir o Brasil entre aqueles que têm de ser banidos, presos ou “metralhados” e aqueles que, agora, dispõem da força e “legitimidade” necessárias para eliminar seus “inimigos”.

Por muito tempo, o Brasil e sua democracia desprezaram a ameaça do fascismo bolsonarista.

Agora, talvez seja tarde demais. O rally político deste primeiro de janeiro poderá ser o primeiro de muitos.

A parte de baixo da Esplanada dos Ministérios e cercada por concertina, um arame farpado com lâminas instalada pelo Exército para reforço da segurança para posse presidencial foto Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Funeral da Democracia

por Marcelo Zero, via whatsapp

Em condições de normalidade democrática, as cerimônias de posse do novo presidente são festas da democracia. Elas são a manifestação maior do principio da soberania popular.

Contudo, neste 1º de janeiro de 2019, a cerimônia de posse do candidato neofascista terá um tom lúgubre.

Não será, de forma alguma, uma comemoração da democracia. Ao contrário, será uma espécie de funeral das instituições democráticas e dos direitos que as conformam.

Com efeito, como comemorar democraticamente a posse de um candidato que manifestou, inúmeras vezes, seu total desprezo pela democracia?

Como alegrar-se com a chegada ao poder de forças claramente antidemocráticas, que defendem a ditadura, a tortura e a eliminação dos adversários? Como festejar a hegemonia de racistas, misóginos e homofóbicos? Como ter empatia com as forças obscurantistas que só pregam ódio e intolerância?

Mas não se trata apenas da natureza neofascista e antidemocrática dos que chegam ao poder. Trata-se também do processo que as levou ao poder.

Tal processo foi antidemocrático. De fato, os neofascistas alcançaram o poder graças à destruição da normalidade democrática no Brasil.

Primeiro, criaram o ódio ao PT, à esquerda e à quimera do “marxismo cultural”, com mitologias e falsidades variadas, como a de que o “PT havia quebrado o Brasil”, tinha “instituído o maior esquema de corrupção da história”, havia distribuído o “kit gay’ nas escolas e mamadeiras de pênis nas creches etc.

Depois, aproveitando-se dos primeiros impactos da crise internacional no Brasil, direcionaram esse ódio ao governo Dilma Rousseff.

Impediram-na de governar, com as pautas bombas, para mais tarde dar um golpe contra a presidenta honesta e a soberania popular, utilizando a invenção descarada do “crime”, definido a posteriori, das “pedaladas fiscais”, feitas à larga por governos anteriores.

Para completar o trabalho autoritário, instituíam, com o prestimoso auxílio de um judiciário grosseiramente partidarizado, uma lawfare destinada a criminalizar o PT e prender sua principal liderança.

Essa lawfare, já condenada até pela própria ONU, foi definitivamente confirmada com a nomeação de Moro para superministro da repressão no governo Bolsonaro.

Nesse processo, as forças retrógradas, que pretendiam reconquistar o poder na marra, saíram às ruas junto com Bolsonaro, MBL e outros grupos protofascistas, que pediam intervenção militar e condenavam a democracia e a política de um modo geral.

Chocaram o ovo da serpente que injetaria veneno mortal em nossas instituições democráticas.

Em sua obsessão irracional de tirar o PT do poder a qualquer custo, abriram a caixa de Pandora do nosso fascismo tupiniquim, que agora floresce e os engole.

Na sua sanha em derrubar a presidenta eleita, destruíram a democracia e jogaram na lama o voto popular.

Em sua tentativa de limar a credibilidade do PT, destruíram a legitimidade de todo o sistema de representação política.

De quebra, instituíram um Estado de exceção seletivo, destinado a reprimir movimentos socais ou partidos políticos que se oponham à restauração do paradigma neoliberal no Brasil.

Em suma, romperam com o pacto democrático, instituído com a Constituição de 1988 e a Nova República, e reintroduziram o culto à ditadura e ao militarismo.

E, mais ainda, chegaram ao poder com um esquema criminoso comprovado de disseminação de fake news com dinheiro sujo.

O pior, contudo, é que o governo neofascista e militarista de Bolsonaro, representa ameaça séria e concreta ao que restou da democracia brasileira.

Ao que tudo indica, a ruptura com a democracia e com o pacto político e social da Constituição de 1988 foi planejada e veio para ficar. É uma estratégia de longo prazo que intenta consolidar a agenda ultraneoliberal regressiva e uma “semidemocracia”, que não permitirá mais a alternância de poder e quaisquer políticas que se desviem dos dogmas da ortodoxia econômica e de uma inserção internacional subalterna.

Assim, o superministério da Economia, tendo à frente o folclórico “Posto Ipiranga”, encarregado do “desmanche”, à la Pinochet, do Estado e dos direitos sociais, terá de ser complementado pelo superministério da Repressão (“justiça”), dirigido por Moro, que se encarregará do “desmanche” seletivo dos direitos políticos.

Teremos também o núcleo militar, dirigido pelo ariano Mourão, que se encarregará de supervisionar tudo e de dar alguma credibilidade ao agregado caótico da gente ignorante e despreparada que compõe a armada Bolsoleone. Se necessário, tal núcleo promoverá a tutela definitiva e completa do poder militar sobre o poder civil.

Portanto, temos de tudo no Brasil atual, menos normalidade democrática. Se estivéssemos em normalidade democrática, no dia 1º de janeiro de 2019 Dilma Rousseff estaria passando a faixa presidencial a Lula, que era disparado o favorito para ter vencido as últimas eleições.

No Brasil, a democracia anda mais sumida que o Queiróz, o homem que faz dinheiro para famiglias.

Neste primeiro de janeiro, não há nada a comemorar, não há nada a celebrar.

Sob os zurros e a baba de ódio de uma massa de fascistas descerebrados, assistiremos ao funeral da democracia, da Constituição de 1988 e da Nova República.

Assistiremos à posse de quem odeia a democracia e tudo o que ela representa.

Assistiremos à posse de quem prometeu publicamente prender ou exilar a oposição.

Assistiremos a posse de quem não tem um átomo de civilização.

Bem faz o PT em não participar dessa farsa antidemocrática.

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