VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Marcelo Zero: O golpe brutal na Bolívia, insuflado pela OEA, e a sangrenta quartelada miliciana
Foto: Tercer Mundo, via Diálogos do Sul
Política

Marcelo Zero: O golpe brutal na Bolívia, insuflado pela OEA, e a sangrenta quartelada miliciana


12/11/2019 - 13h38

Quartelada Miliciana

por Marcelo Zero*

O Brasil bolsonarista já tem um exemplo civilizatório a seguir: a Bolívia.

Com efeito, assiste-se lá a uma típica e sangrenta quartelada, que honra a tradição democrática da antiga Bolívia de oligarquias fascistas e racistas.

Nada de golpes brancos, travestidos com a diáfana legitimidade de sistemas jurídicos partidarizados, como o que aconteceu no Brasil.

Não, lá as coisas são mais cruas e mais “verdadeiras”. Não há máscaras jurídicas e políticas. A força bruta, justificada pela religiosidade neopentecostal, se revela em toda a sua aberrante violência.

Lá, as milícias neopentecostais de “Macho” Camacho, a polícia partidarizada e, agora, as Forças Armadas estão fazendo o que Bolsonaro sempre recomendou: exterminar fisicamente os opositores ou levá-los ao exílio.

Incendiaram as casas de ministros e políticos ligados ao MAS e a Evo Morales e sequestraram pessoas para violentá-las e humilhá-las publicamente.

Foi o caso de Patricia Arce Guzmán, prefeita de Vinto, departamento de Cochabamba. Por ser do MAS, ela foi sequestrada, brutalmente golpeada, teve seu cabelo cortado e seu corpo pintado de vermelho.

Depois, foi obrigada a andar por horas de pés descalços, sempre golpeada e humilhada, num espetáculo que lembrou muito a perseguição aos judeus na Segunda Grande Guerra. A polícia a tudo assistiu fazendo cara de paisagem. Só interveio quando ficou evidente que ela iria ser morta.

Esse não foi um caso isolado. A ONU se refere a mais 300 casos semelhantes de sequestros, incêndios de casas, e humilhações cometidos pelas hostes religiosas-fascistas de “Macho” Camacho, o Klaus Barbie de Santa Cruz, a região afluente e racista da Bolívia, que odeia os indígenas do Altiplano.

Curiosamente, eles se autodenominam “cívicos”. “Cívicos” virou eufemismo para milícias fascistas.

Em contraste, Evo Morales, ante a crise instalada, fez todas as concessões possíveis: convidou a OEA para fazer a auditoria das eleições, chamou os opositores para o diálogo e até concordou em realizar um novo pleito, sem a sua presença.

Mas “Macho” Camacho e Carlos Mesa mantiveram-se intransigentes em rejeitar qualquer diálogo e em perseguir o objetivo autoritário de derrubar o governo Evo Morales a todo custo.

O triunfo da força bruta e do racismo foi aqui aplaudido. Os “cívicos” tupiniquins ficaram alvoroçados.

Houve procuradora que considerou o papel das Forças Armadas na Bolívia como um exemplo a ser seguido.

O Ministro da Defesa do Brasil considerou o golpe violento como um “avanço da democracia”.

A nossa grande imprensa, seguindo sua notável tradição, também apoiou o golpe racista.

Nada de se estranhar.

A característica principal das oligarquias brasileiras e latino-americanas de um modo geral é sua falta de compromisso real com a democracia e sua incapacidade de conviver com processos significativos de distribuição de renda, de combate à pobreza, e de ascensão social e política das camadas da população historicamente excluídas dos benefícios do desenvolvimento.

No Brasil, como na Bolívia, governos que ampliam a democracia real, ampliam oportunidades e direitos, e permitem a ascensão dos historicamente excluídos provocam uma paúra extrema nas oligarquias acostumadas, no máximo, a uma democracia restrita e excludente, que não ameace seus interesses de classe ou seu domínio tradicional sobre o sistema político.

O grande crime de Evo Morales e do MAS foi ter promovido a ascensão econômica, social e política das grandes massas indígenas e miseráveis do Altiplano boliviano, historicamente excluídas de cidadania e odiadas pela “Medialuna” mestiça e racista, cujo centro geográfico é a Santa Cruz de “Macho” Camacho.

Com Evo Morales, a pobreza na Bolívia foi reduzida de cerca de 60% para ao redor de 35%. Já a pobreza extrema passou de 38,2% para 15,2%. O analfabetismo passou de 15% para 2,4%, e o desemprego em caiu de 9,2% para 4,1%.

Saliente-se que tal evolução social surpreendente foi conseguida com uma taxa de crescimento econômico que é a maior da América do Sul.

Nos últimos 10 anos, a Bolívia cresceu a uma média anual de cerca de 5%, muito superior à do Brasil e a de muitos outros países.

Mesmo com a grande crise recente das economias latino-americanas, a Bolívia continuou crescendo. No ano passado, cresceu 4,2 %, algo que faria o ultraneoliberal Guedes salivar de contentamento.  Até o conservador e sisudo FMI elogiou a performance econômica do governo do MAS.

O maior crime de Morales, no entanto, foi ter criado uma nova ordem político-constitucional, que deu voz e participação ativa aos indígenas miseráveis da Bolívia, historicamente submetidos ao tacão autoritário de uma oligarquia mestiça e racista, que agora se vinga de forma violenta.

A vingança, contudo, pode voltar-se contra toda a Bolívia. O golpe submergiu nosso vizinho em violência e total anomia.

Não há comando, não há governo. Só há o ódio das ruas. E há a reação das massas indígenas que apoiam Morales. Vive-se um clima de guerra civil.

O golpe brutal na Bolívia, que foi insuflado pela OEA, a qual contestou os resultados eleitorais antes da realização de qualquer auditoria, serve de advertência contra um otimismo excessivo gerado pelas revoltas populares ocorridas no Equador e no Chile.

O Império e as oligarquias locais apostam alto em regimes conservadores que reimplantem o modelo neoliberal e recoloquem os países da região na órbita geoestratégica dos EUA.

Para esse grande objetivo, vale tudo. Até mesmo violentas quarteladas milicianas.

Os “cívicos” estão salivando.

Últimas unidades

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



4 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Nelson

12 de novembro de 2019 às 23h43

Minha cara.

O assunto aqui é o golpe de Estado na Bolívia.
Mais um, de dezenas, que o Sistema de Poder que domina os Estados Unidos aplica contra a democracia e o direito inalienável dos povos de seguirem seu caminho próprio, o direito à soberania e à autodeterminação.

Se tu não tens a capacidade para apresentar algum argumento coerente para a questão, poderia nos poupar de teu ódio doentio ao PT.

A propósito, se o caso é criticar o PT, eu te ajudo. Tenho um caminhão de críticas aos governos do partido do “Barbudo” e não tenho qualquer prurido em expô-las. Não sou e nunca fui filiado a um partido político.

Porém, como não sou tapado e não guardo ódio doentio por quem quer que seja, tenho que reconhecer também os vários acertos do PT. Tenho que reconhecer que, mesmo fazendo muitas cagadas, o PT fez um governo muito melhor – ou bem menos ruim – do que os dos golpistas PSDB, DEM, PMDB, PP e outros, que muito raramente não andam encambulhados.

Responder

Zé Maria

12 de novembro de 2019 às 17h55

Um ótimo Trocadalho …

Hostes religiosas-fascistas de “Macho Camacho, o Klaus Barbie de Santa Cruz”,
a região afluente e racista da Bolívia, que odeia os indígenas do Altiplano.

‘Macho’ Camacho bebe da fonte dos nazistas fugitivos
que se esconderam na Bolivia. É nazismo, mas mestiço.
Que nem minion achando que é branco do primeiro mundo.
https://twitter.com/VIOMUNDO/status/1194317291116253184

Ken é o Barbie [email protected] ? É Bovino Macho ou é Vaca ? https://t.co/Mh14Hnat9j

Fanático religioso, histriônico, corrupto:
quem é ‘Macho’ Camacho, empresário
que encabeça o golpe na Bolívia

https://twitter.com/DCM_online/status/1193839772600586240

Por Kiko Nogueira, no DCM

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/fanatico-religioso-histrionico-corrupto-quem-e-macho-camacho-empresario-que-encabeca-o-golpe-na-bolivia/
.
“O Golpe em Evo é da elite,
racista e fundamentalista”

Jornalista Rodrigo Vianna
no FB Conversa Afiada Oficial

O jornalista Rodrigo Vianna falou
com exclusividade à TV Afiada
sobre o Golpe em curso na Bolívia.

O presidente legítimo Evo Morales,
recém-eleito para seu quarto mandato
consecutivo, foi “convidado” a renunciar
por integrantes das forças armadas
bolivianas.

Entretanto, os militares não foram
os primeiros a aderir ao Golpe.

Quem está por trás disso tudo?

Quem é o tal Luís Camacho, líder dos golpistas?

Qual é o papel do Brasil de Bolsonaro?

E por que a TV Afiada afirma que o golpe
é da elite, racista e fundamentalista?

Assista:
https://www.facebook.com/Conversa.Afiada.Oficial/videos/rodrigo-vianna-golpe-na-bol%C3%ADvia-%C3%A9-racista-e-fundamentalista/425018268163059/?_fb_noscript=1

Responder

Martha Aulete

12 de novembro de 2019 às 16h16

Esse Marcelo Zero é uma piadinha pronta.

E o PT? Não fala nada?!

Bom…, o PT “se acha”…
Mas o PT é Kitsch. O pior partido de toda América. Acabou aquela baranguice enorme de “PÁTRIA EDUCADORA”. [Êta frase, slogan, bregona. E falsa]. Além de ser picareta e vigarista. Muito pior que mentiras ou “fake news”…

Nunca vi partido mais bregaço, mais Kitsch, mais cafonérrimo, mais bregão que o PT. Há muito partido ruim no Brasil, mas de todos o PT é o pior.

Responder

    Jair Vieira

    13 de novembro de 2019 às 01h06

    “Mas, e o petê”?
    O PT tá muito bem, “quirida”. Vá se preocupar com o chefe do rebanho bovino e muar que tomou conta do país (e das redes sociais).😂😂😂


Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.