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Marcelo Zero: Medo de Lula é medo da democracia real e inclusiva e, sobretudo, ódio ao povo
Foto Ricardo Stuckert
Política

Marcelo Zero: Medo de Lula é medo da democracia real e inclusiva e, sobretudo, ódio ao povo


11/11/2019 - 12h44

Medo de Lula é Medo da Democracia

por Marcelo Zero*

Steve Bannon, o líder da ultradireita mundial, deu a senha: Lula é a grande liderança da “esquerda globalista” e provocará “grande perturbação”.

Por aqui, os meios de comunicação já se perfilaram e começam a criminalizar Lula livre.

A tese é de um tal ridículo que provoca espanto, mesmo levando em consideração os padrões de indigência mental da nossa grande imprensa.

Segundo ela, Lula solto vai radicalizar a política brasileira e contribuir para definhar o “centro político”. Equiparam, assim, Lula a Bolsonaro. Acredite, se quiser.

Nada mais grotesco e equivocado. As diferenças entre os dois são abissais.

Em primeiro lugar, Lula é um autêntico democrata. Alguém que construiu sua carreira política na luta pela redemocratização do Brasil. Alguém que foi preso durante a ditadura militar simplesmente por liderar greves por melhores salários. Alguém que participou de todas as lutas libertárias do Brasil.

Já Bolsonaro é um fascista assumido. Alguém que sempre defendeu ditaduras. Alguém que sempre elogiou torturadores. Alguém que sempre pregou a eliminação física de adversários.

Em segundo lugar, Lula fez um governo muito moderado de conciliação nacional. Tirou dezenas de milhões de pessoas da miséria, diminuiu bastante a desigualdade, aumentou as oportunidades para os historicamente excluídos, mas não prejudicou os interesses das elites tradicionais.

Ao contrário, em seu governo, os empresários, principalmente aqueles que produziam para o mercado interno, lucraram muito, pois houve aumento exponencial do consumo, com a dinamização do mercado de massa.

Lula, um mestre da negociação, tornou-se admirado em todo o mundo justamente por sua capacidade de conciliar democraticamente interesses diversos.

Já Bolsonaro faz um governo de confrontação constante, baseado num feroz discurso de ódio. Não negocia e não procura conciliar, apenas ataca. Ataca até mesmo antigos aliados. Ao contrário de Lula, que fez um governo para todos, faz um governo para poucos.

Beneficia o grande capital, nacional e estrangeiro, e ataca barbaramente os direitos e os interesses das classes mais baixas. Busca incansavelmente o bem-estar da sua família e de alguns aliados e dedica-se a perseguir, de forma implacável, quem julga serem seus inimigos.

Bolsonaro não é apenas uma personalidade fascistoide, é um fascistoide tosco e primitivo, com uma visão de mundo provinciana e miliciana.

Assim sendo, equiparar os dois, identificando-os como polos opostos de um mesmo fenômeno político é de uma má-fé intelectual inacreditável. É, mutatis mutandis, algo semelhante a comparar Nelson Mandela com Hendrik Verwoerd, o criador do apartheid.

Essa má-fé talvez provenha do fato de que o chamado “centro político” (ou boa parte dele) é aliado do bolsonarismo.

Bolsonaro, um medíocre deputado do baixo clero, jamais teria chegado ao poder sem o apoio decisivo desse “centro político”, composto pela imprensa e pelos partidos tradicionais do centro e da direita, que apoiaram o golpe de Estado de 2016, a prisão sem provas de Lula e promoveram ferozmente o discurso de ódio contra o PT e a esquerda em geral.

A característica principal das oligarquias brasileiras e latino-americanas de um modo geral é sua falta de compromisso real com a democracia e sua incapacidade de conviver com processos significativos de distribuição de renda, de combate à pobreza, e de ascensão social e política das camadas da população historicamente excluídas dos benefícios do desenvolvimento.

No Brasil, como agora na Bolívia, por exemplo, governos que ampliam a democracia real, ampliam oportunidades e direitos, e permitem a ascensão dos historicamente excluídos provocam uma paúra extrema nas oligarquias acostumadas, no máximo, a uma democracia restrita e excludente, que não ameace seus interesses de classe ou seu domínio tradicional sobre o sistema político.

Sempre houve aqui uma espécie de demofobia, o medo à perda de controle político das grandes massas pauperizadas.

Perón, Getúlio (em seu segundo governo), João Goulart, Chávez, Correa, Lugo, Kirchner, Evo Morales etc. provocaram esse medo e esse ódio, sem nunca terem chegado sequer a se aproximar do socialismo, muito menos do comunismo.

Lula, embora de perfil bastante moderado e conciliador, também.

O medo a Lula não se justifica, portanto, por seu suposto perfil “radical” ou por um papel político disruptivo e violento, como é inegavelmente o de Bolsonaro e o de Steve Bannon.

O medo e o ódio a Lula proveem de um medo à democracia real e inclusiva.

Do medo da perda de privilégios.

Do medo da perda de controle do sistema político.

Do medo de cidadãos pobres críticos e atuantes.

Da ansiedade em promover políticas neoliberais que assegurem e ampliem interesses de classe em tempos de crise.

Do medo a revoltas populares, como a que acontece no Chile.

Bolsonaro e parte “centro” político têm em comum o fato de quererem uma democracia restrita, controlável, sem processos de alargamento de direitos e de ascensão política e social das grandes massas. Caso isso acontecesse de novo, se uniriam para promover golpes, ainda que digitais e dissimulados.

São eles os radicais, os violentos. Creio que foi Max Horkheimer que afirmou que o fascismo é a “verdade” do capitalismo. O capitalismo sem disfarces ideológicos.

Bolsonaro, em toda a sua crueza tosca e autoritária, é a “verdade” das nossas oligarquias tradicionais e das classes médias conservadoras.

Constrange, intimida, mas, por enquanto, cumpre o papel de defensor dos interesses das oligarquias nacionais e do capital internacional.

Ambos, a ultradireita e o “centro” (ou parte dele) têm medo de Lula. Não por ser violento e radical, mas por representar a possibilidade de real ascensão econômica, social e política das grandes massas.

Assim, o medo e o ódio a Lula é o medo e o ódio à democracia real e substantiva. É, sobretudo, medo e ódio ao povo.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

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4 comentários

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Zé Maria

11 de novembro de 2019 às 17h19

Polarização

Pólo Superior
LULA
Estadista
______
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mito imbecil
Recruta Zero
Polo
inferior

Responder

Zé Maria

11 de novembro de 2019 às 16h47

https://pbs.twimg.com/media/EI4FYScXsAASBtf.jpg

El sindicalismo internacional a la expectativa
por la pronta liberación de @LulaOficial .

Trabajadoras/os del mundo solidarios con #Brasil .

#LulaLibre

https://twitter.com/CSA_TUCA/status/1192896872861650951

Responder

Luis Castro

11 de novembro de 2019 às 14h33

A Bolívia sinaliza para a volta dos golpes militares no nosso continente. Portanto, o sinal de alerta acendeu para avisar que no Brasil a extrema direita já governa o país, ou seja, o golpe aqui não precisa derrubar ninguém basta endurecer o regime com a decretação de um AI-5 como quer os Bolsonaros e os militares que os cercam.

Responder

Guanabara

11 de novembro de 2019 às 14h02

Vamos lá:

1) Há um desejo em boa parte da população, muito bem descrito por Jessé Sousa em “A Elite do Atraso”, em ser “elite”. Ser “elite” é “ser melhor do que outrem”. Herança da nossa cultura colonial-escravagista.

2) Ser melhor que alguém é relativo. Há o “pobre rico”, assim como há o “rico pobre”. Há o morador de periferia que reside “na melhor rua do bairro”, mesmo que seja do bairro pobre. Há o rico que tem um jatinho. Mas é um jatinho simples, incapaz de cruzar um oceano, por exemplo. Ambos abominam a possibilidade de verem “ascensão social” através de políticas públicas. É a tal “meritocracia”, mesmo que as condições sejam desiguais.

3) Essa cultura é ALTAMENTE DISSEMINADA pelos meios de comunicação, forçando a existência de pobreza e miséria como coisas “normais”, independentemente das riquezas do país.

4) Os governos acima citados abalaram essas relações. Parte do povo começou a ver que “dava pra mudar”. Porém…. associaram essa mudança exclusivamente a “mérito próprio”. Foi a deixa para o crescimento do fascismo.

5) Ainda devido à campanha midiática, o pobre ou miserável no país não quer acabar com a miséria, com a opressão. Ele quer “mudar de lado”! Ele quer “ser o opressor”. Daí as apostas de “tudo ou nada”: que o filho seja jogador de futebol, cantor de pagode ou música sertaneja. Essas classes raramente buscam investimento em educação. Há quem busque, mas são exceções.

6) Daí entendemos parte das classes menos favorecidas terem ódio de Lula, PT e esquerdas em geral, e como “os mais favorecidos” querem se diferenciar “do povão”, podendo dizer “eu sou melhor que você”, independente de onde morem ou quanto tenham de renda.

7) A fórmula acima foi MUITO BEM EXPLORADA pelas forças golpistas. Com isso, faturaram pré-sal, petrobras, embraer… e mantiveram o Brasil como colônia: fornecedor de matárias-primas não industrializadas e mão de obra (cada vez mais) barata. Sem distribuição de renda não há mercado consumidor, logo, não há desenvolvimento.

E viva o neocolonialismo.

PS: quanto à equiparação de Lula à Bolsonaro, quem escreve isso sabe que não é verdade. Nada mais é do que estratégia. Se ambos são iguais, que “elejamos” (oi?) uma alternativa ao centro. Loucura, loucura, loucura?

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