Marcelo Zero: Ameurus, objetivo é enfraquecer a Rússia para enfrentar a China

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Os presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China. Foto: Reprodução de rede social

Ameurus: Enfraquecer a Rússia para enfrentar a China

Por Marcelo Zero*

Em 1997, Zbigniew Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, publicou, na Foreign Affairs, um artigo intitulado “Uma Geoestratégia para a Eurásia”, que já antecipava algumas teses de seu livro “O Grande Tabuleiro de Xadrez”.

Nesse artigo, ele argumenta, com razão, que a Eurásia é o eixo geoestratégico do mundo, já que esse supercontinente, além concentrar boa parte do território e dos recursos naturais do planeta, conecta os dois grandes polos econômicos do mundo além dos EUA: a União Europeia e o Leste da Ásia.

Para Brzezinski, é vital que os EUA tenham o controle desse supercontinente, caso queiram permanecer como a única e inconteste superpotência.

Pois bem, a geoestratégia concebida por Brzezinski implicava várias ações de longo prazo concomitantes.

Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico.

Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia.

Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.

Brzezinski chegou a pensar até mesmo numa descentralização territorial da Rússia.

Argumentou ele que:

Nessas circunstâncias, deve ficar mais evidente para o russo da elite política que a primeira prioridade da Rússia é modernizar-se em vez de se engajar em um esforço inútil para recuperar seu antigo status como um poder.

Dada a enorme dimensão e diversidade do país, um sistema político descentralizado, baseado no livre mercado, seria mais propenso a liberar o potencial criativo tanto do povo russo e os vastos recursos naturais do país.

Por sua vez, a Rússia descentralizada seria menos suscetível à mobilização imperial.

Uma Rússia frouxamente confederada – composta por uma Rússia europeia, uma República da Sibéria e uma República do Extremo Oriente – também acharia mais fácil cultivar relações econômicas mais estreitas com a Europa, com os novos Estados da Ásia Central, e com o Oriente, o que aceleraria assim próprio desenvolvimento da Rússia. Cada uma das três entidades confederadas também seria mais capaz de explorar o potencial criativo local, sufocado por séculos pela pesada mão burocrática de Moscou.

Como se vê, a ideia da fragmentação da Rússia é antiga. Putin não está delirando, quando diz que o “Ocidente” gostaria de dividir a Rússia.

Poucos anos mais tarde, no artigo intitulado Rebuilding the International Order –Profiles of a Trilateral Strategy, apresentado pelo Bertelsmann Group for Policy Research do Center for Applied Policy Research de Munique, surgiu a ideia de se recriar uma ordem internacional trilateral, sustentada numa articulação entre os EUA, a Europa (UE) e a Rússia: a AMEURUS.

Nessa ordem, a Rússia teria um papel dependente e secundário. A avaliação era a de que:

Mesmo sendo otimista em relação às reformas internas de Putin, a Rússia é um país relativamente fraco, com um PIB comparável ao da Holanda, e de forma alguma um par internacional dos Estados Unidos. Além disso, seu poder econômico é baseado muito mais em matérias-primas e energia do que no desenvolvimento e modernização tecnológica. Embora a Rússia seja uma grande potência nuclear, suas forças armadas não são capazes nem modernas o suficiente para desempenhar papel ativo substancial na agenda internacional.

Obviamente, nessa nova ordem, se previa que China ficaria relativamente isolada. Não teria centralidade alguma.

Contudo, sob Putin, a Rússia desenvolveu uma geoestratégia própria. É a da constituição de uma “União Euroasiática”, voltada para a criação de um bloco econômico envolvendo Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão, bem como à integração com a China e outras potências econômicas do leste asiático.

Assim, a Rússia de Putin, ao invés de se voltar para o Ocidente, numa articulação subalterna com os EUA e Europa (como, de fato, tentou, mas foi rejeitada, no período de Boris Yeltsin), voltou-se para a Ásia Central e o Oriente (China), procurando se contrapor à crescente influência dos EUA/UE no leste europeu.

A crise da Ucrânia nada mais é que a expressão visível e aguda desse choque geoestratégico.

No entanto, agora volta a se especular, de novo, com a trilateral AMEURUS.

Com efeito, no artigo “After the war: AMEURUS” (“Após a Guerra: AMEURUS”) Mathias Döpfner, Chairman e CEO da Axel Springer, defende uma nova tentativa de se criar a AMEURUS.

Trata-se de especulação que tem de ser levada a sério.

A empresa Axel Springer é a maior editora da Europa e controla a maior fatia do mercado alemão de jornais diários: 23,6%. Isso deve-se, em grande parte, a que seu principal tabloide, o Bild, é o jornal de maior circulação na Europa, com mais de 12 milhões de leitores diários.

Após a aquisição da Político e da Business Insider, a Axel Springer anunciou que todos os funcionários devem apoiar uma economia de mercado livre, uma Europa unida e o direito de Israel existir.

É, portanto, uma enorme organização da mídia conservadora, extremamente influente. Assim, um artigo de seu CEO tem de ser analisado com cautela.

O artigo começa com uma frase polêmica e definitiva: agora é a hora de começar a pensar nos anos após a guerra na Ucrânia. Porque o resultado do conflito é claro: a Rússia perdeu – mesmo que o presidente Vladimir Putin vença a guerra.

Sustenta seu autor que: a guerra deixará a Rússia um país economicamente enfraquecido, quase destruído. Um país que enfrentará um Ocidente cada vez mais unido, com uma OTAN fortalecida, uma União Europeia fortalecida e uma aliança transatlântica fortalecida. Um mundo ocidental que será menos dependente do fornecimento de gás, quebrando a espinha dorsal econômica da Rússia. As sanções terão deixado sua marca. O seu exército uma sombra do que era antes. Seu povo estará dilacerado e desmoralizado.

Nesse cenário apocalíptico do pós-guerra, os “sucessores de Putin” terão de abandonar uma geoestratégia própria e aliar-se ao Ocidente.

O autor defende que: quando chegar a hora, o Ocidente não deve explorar a fraqueza do perdedor, da Rússia pós-Putin. Em vez disso, deveria olhar para uma nova Rússia, governada de maneira diferente. E já pode começar a se preparar para uma aliança que significa estabilidade, segurança, prosperidade e, acima de tudo, liberdade: “AMEURUS”. Uma aliança estratégica da América, Europa e Rússia, em uma comunidade de valores e comércio que permita a reconstrução econômica mais rápida possível da Rússia, resistindo assim aos desafios e ameaças colocados pela China e pelos estados islâmicos radicais.

Embora francamente delirante, pois não há quaisquer indícios de que a Rússia será enfraquecida e destruída pela guerra, uma vez que está fortalecendo sua parceria com a China e outros países, o artigo revela claramente a intenção estratégica das forças conservadoras da Europa e dos EUA: enfraquecer a Rússia com o objetivo último de enfrentar a China.

Pois bem, um cenário desse tipo não prejudicaria apenas a Rússia, a China e a alguns de seus aliados mais próximos.

Na realidade, uma ordem mundial assentada na trilateral AMEURUS seria um grande retrocesso, algo bastante prejudicial para o SUL Global e para o Brasil, em particular.

A maior parte dos países do mundo aposta, e se beneficiaria, de uma ordem mundial multilateralista e multipolar, na qual não houvesse hegemonias que os submetesse a interesses que não os seus.

A bem da verdade, o mundo vem se beneficiando da Rússia mais forte, da China mais afluente, da Índia mais pujante, do Brasil mais assertivo.

A constituição do BRICS, em particular, criou um polo alternativo nas relações internacionais que diversifica oportunidades de comércio, de investimentos e de cooperação.

O novo mundo desta segunda década do século XXI, geoeconômica e geopoliticamente bastante diferente do mundo do início deste século, é um mundo no qual os países em desenvolvimento têm mais espaço para se posicionarem, soberanamente, na ordem internacional.

A China, em particular, está criando oportunidades de comércio, de investimentos e de cooperação que antes não estavam disponíveis.

EUA e Europa precisam, agora, competir com ela e com outros países para manterem alguma influência.

Essa competição é saudável para nossos interesses.

Foi por isso que a UE anunciou plano de investimentos de até 300 bilhões de euros em países em desenvolvimento para “conter influência da China”. Ontem mesmo, a Espanha anunciou que vai investir R$ 50 bilhões na América Latina.

Duvidamos que isso “contenha a influência da China”, mas aumentaria a cooperação entre UE e a América Latina, num jogo de ganha-ganha.

A vantagem estratégica do multilateralismo, que nada mais é que democracia no plano mundial, e da multipolaridade é justamente essa: o mundo inteiro tende a ganhar.

Já a grande desvantagem estratégica da nova Guerra Fria é que ela tende a prejudicar não apenas seus polos opostos, mas também a maior parte dos países do mundo.

É o que se observa na guerra da Ucrânia. Não são apenas a Ucrânia, os EUA, a Rússia e a Europa que estão sendo prejudicados. O mundo inteiro está, em especial as populações mais pobres do planeta.

Nesse sentido, a voz pela paz de Lula é a voz da racionalidade, é a voz que expressa os interesses legítimos da maior parte da comunidade internacional e da humanidade. É a voz do novo mundo multilateralista e multipolar.

Os “pontos fora da curva” são aqueles países que apostam na guerra. Na guerra na Ucrânia e na nova Guerra Fria. E que vivem num passado já superado, irrecuperável.

A última reunião do G7, por exemplo, que deveria ter debatido os grandes problemas mundiais, acabou por se constituir num simpósio de propaganda da Ucrânia e da OTAN, constrangendo aqueles que, como Lula, tinham levado a agenda oficial a sério. Lamentável.

De qualquer maneira, a AMEURUS e qualquer outra arrumação geopolítica semelhante fracassarão.

E a guerra na Ucrânia jamais resultará numa ordem mais estável, segura, próspera e livre, como argumentam os defensores dessa ordem trilateral. Ao contrário, tem tudo para redundar num desastre mundial, talvez nuclear.

A paz, como a democracia, será sempre o lado certo da História.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

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Zé Maria

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