Manuel Domingos Neto: Heroismo e vilania

Tempo de leitura: 2 min
20 de janeiro de 2020: Jornalistas que participaram da entrevista ao “Roda Viva” com Sergio Moro, entre eles Malu Gaspar (penúltima em pé), posam para foto com o ex-juiz e então ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução

HEROISMO E VILANIA

Por Manuel Domingos Neto*

No bombardeio sofrido por Alexandre de Moraes, uma paráfrase de Malu Gaspar me intrigou: “a democracia não precisa de heróis”.

Por que maltratar assim Bertold Brecht e negar elementaridades do jogo político? Quando e onde sistemas políticos e instituições públicas prescindem de ícones?

Não há sociedades sem heróis e vilões. Figuras paradigmáticas são construídas para sinalizar o que deve ser rejeitado ou enaltecido. Heróis e vilões simbolizam o justo e o injusto, o honrado e o abjeto. Criancinhas aprendem a distinguir o bonzinho do malvado.

Essas noções estão no palco político. Independentemente de seu desejo, o político é candidato à herói: sagra-se quando a maioria percebe seu oponente como inferior. Preferentemente, como vilão.

A guerra, forma extrema da política, é o mais fértil berço de heróis. Excetuados os mercenários e tarados, guerreiros são reverenciados porque, em defesa de sua gente, matam ou dão-se à morte. Daí Platão ter destacado o guardião perfeito ao escrever seu tratado político, concluindo que ninguém deve negar beijo ao guerreiro retornado do combate.

Por muito séculos a história foi escrita como obra de homens extraordinários. Nem Marx, que destacou o embate de classes sociais, negou relevância aos que protagonizam vontades coletivas.

Brecht, marxista alemão, não minimizou a importância do herói. Ao pôr na boca de Galileu a frase “infeliz a terra que precisa de heróis”, denunciou a perseguição da Igreja Católica ao cientista heroico. Essa peça teatral foi escrita em 1937/1938, no auge do poder de Hitler, para alimentar a luta contra o obscurantismo nazista.

Não sei se a jornalista conhece a obra de Brecht, mas sua manipulação boba remete à outra frase do dramaturgo: “O que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e nada diz é um criminoso”.

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As mazelas do Judiciário brasileiro são conhecidas. Nem são exóticas.

A literatura universal descreveu a falsa moralidade dos tribunais. Há inclusive, um aforismo irônico, atribuído a Brecht, crítico mordaz do Estado moderno: “muitos juízes são absolutamente incorruptíveis: ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”. Em senso de humor, Brecht não perdia para nosso Barão de Itararé.

O Judiciário brasileiro tem contas a prestar à história e precisa ser reformado, assim como os quartéis, delegacias, hospitais, parlamentos, universidades… Mas, nas circunstâncias que atravessamos, não tem cabimento ignorar a relevância de Alexandre de Moraes na sustentação da democracia.

A imprensa que tenta desacreditá-lo sabe o valor de ícones no jogo político. Ao longo das últimas décadas, fabricou heróis em série: Castello Branco, Médici, Collor, Moro…

Estivesse preocupada com justiça e democracia, voltaria suas baterias contra o juiz que, inspirado por estrangeiros, bagunçou a institucionalidade, prendeu Lula, prejudicou o desenvolvimento e turbinou o avanço da extrema direita.

O quartel melhorou sua imagem com a prisão de alguns generais. O mesmo ocorreria com o tribunal, se algumas figuras de Curitiba entrarem em cana.

Quando Malu Gaspar e seus colegas alvejam Alexandre de Moraes sem argumento rigorosamente irretorquível, descredenciam o Supremo. Em consequência, protegem Sergio Moro, o herói que ajudaram a construir. A súcia golpista agradece.

*Manuel Domingos Neto é doutor em História pela Universidade de Paris. Autor de O que fazer com o militar – Anotações para uma nova Defesa Nacional (Gabinete de Leitura).

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Zé Maria

Esta Foto é a Imagem da Infâmia:
https://www.viomundo.com.br/wp-content/uploads/2025/12/malumoro-scaled-e1766845819942-993×600.jpg

Zé Maria

.
Propriedade privada das terras, uma
história de roubo e expropriação.

No século XIX, “a história da ocupação das terras
seguiu um padrão que vinha do passado e iria se
repetir ao longo da história do Brasil […]
prevalecia a lei do mais forte.

O mais forte era quem reunia condições para manter-se
na terra, desalojar posseiros destituídos de recursos,
contratar bons advogados, influenciar juízes
e legalizar assim a posse das terras.
[…]
O presidente da Assembleia Provincial do Rio de Janeiro,
em seu relatório de 1840, afirmava claramente que
assumir a posse de uma área e conservá-la dependia
da força.
Um proprietário ou posseiro que não dispusesse
desse recurso se via obrigado a ceder a terra ou
vendê-la a quem pudesse se manter nela pelas armas.”

Bóris Fausto, História do Brasil.

Por evidente, escravos, índios e mestiços
e brancos pobres ficaram de fora deste
processo de acumulação primitiva.

Susana Botár
Advogada.
Graduada em Direito (UnB).
Mestre em Filosofia e
Teoria Geral Direito (USP).
Pesquisadora do Direito (USP).
https://x.com/susanabotar/status/2004932111384404388
.

Zé Maria

“Moro diz que Decreto de Bolsonaro
Substituiu indulto salva-ladrão”
[Folha de São Paulo, 24.dez.2019,
quando Moro era Ministro
do desgoverno Jair Bolsonaro.]

[Neste ano (2025), já senador,
Moro votou a favor da Impunidade
ao Crime Contra o Estado Democrático
de Direito e a Outros Tantos Crimes.
(https://www.extraclasse.org.br/politica/2025/12/quem-sao-os-senadores-que-votaram-a-favor-de-reduzir-penas-lula-diz-que-vai-vetar/)]

.

Zé Maria

https://f.i.uol.com.br/fotografia/2019/01/22/15481992135c47a52d48cc2_1548199213_3x2_md.jpg

“Moro e Globo:
Aliança que condenou Lula sem provas ataca Moraes para salvar “herói” da Lava Jato”

“Novas provas da PF complicam Sérgio Moro,
enquanto a Globo ataca Alexandre de Moraes.
Entenda a relação entre a Lava Jato e a mídia”

Por Antonio Mello, na Revista Fórum

“Sérgio Moro, o Herói das Organizações Globo,
que não resistiria a meia hora de jornalismo sério
e imparcial sobre suas atitudes e decisões,
foi homenageado como Personalidade do Ano [*],
e deve grande parte do alcance da Lava Jato
ao trabalho incessante das Organizações Globo
em todos os seus veículos, em especial o principal
telejornal do país, o Jornal Nacional, acusando Lula
de corrupção, sem provas mas com abundante ‘convicção’.

Agora, quando começa o desmonte de Moro,
quando vai ficar claro para o país quem era
o bandido, a Globo arma sua artilharia lavajatista
contra o ministro Alexandre de Moraes como
uma forma de desviar o escândalo da primeira
prova cabal das ilegalidades de Moro.

Aproxima-se o momento em que Sérgio Moro
e sua parceira de crimes prestarão contas
à Justiça e ao povo brasileiro.”

Íntegra:
https://revistaforum.com.br/revista-forum/moro-e-globo-alianca-que-condenou-sem-provas-ataca-moraes-para-salvar-heroi-da-lava-jato/

*[“Iniciativa do Jornal O GLOBO
Prêmio Faz Diferença presta
homenagem aos destaques de 2014
Juiz Sérgio Moro, responsável
pela Lava-Jato, foi eleito
Personalidade do Ano”
(O GLOBO, 18/03/2015)

“Juiz Sérgio Moro vence prêmio ‘Faz Diferença’
como personalidade do ano”
Prêmio é uma iniciativa do jornal O Globo.”
(G1.GLOBO, 19/03/215)]

[Um Crime Premeditado:
Aí Começou a Propaganda
Aberta do Juiz Marréco
pela Mídia Canalha.
Um passo adiante em direção
à prisão do Presidente Lula.]
.

Ricardo Oliveira

Não são jornalistas são cúmplices dos crimes que ajudaram a normalizar.

Zé Maria

.
“O Infortúnio, o Isolamento,
o Abandono e a Pobreza
são Campos de Batalha
que têm Heróis”

VITOR HUGO
Escritor Francês.
Em “Os Miseráveis”.
.

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