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Luis Felipe Miguel: Para arrastar-se impune até o final do mandato, Bolsonaro precisa do Centrão civil e do Centrão fardado
Fotos: Divulgação/PR
Política

Luis Felipe Miguel: Para arrastar-se impune até o final do mandato, Bolsonaro precisa do Centrão civil e do Centrão fardado


26/07/2021 - 18h03

Centrão civil versus Centrão fardado

As providências de Jair M. Bolsonaro para arrastar-se até o final do mandato mantendo impunidade para si mesmo e para os rebentos

Por Luis Felipe Miguel, em A Terra é Redonda

Acuado pela crise sanitária, social e econômica, colocado na defensiva pela CPI, o governo Bolsonaro luta pela sobrevivência.

O capitão sabe que a parcela de eleitores que lhe é integralmente fiel, aqueles 25 a 30% que permanecem invulneráveis ao impacto da realidade, é fundamental para qualquer projeto eleitoral da direita. Este é seu capital.

Mas parece cada vez mais improvável conquistar os votos restantes, que propiciem a reeleição. O discurso da “escolha muito difícil” será, em 2022, ainda mais constrangedor do que já era em 2018.

Sob risco de ser abandonado pelos aliados ou mesmo de ver seu mandato abreviado – crimes de responsabilidade para isto não faltam –, Bolsonaro investe em duas estratégias paralelas: ameaça tumultuar o processo eleitoral e rateia o governo entre os políticos do Centrão.

São movimentos de alto custo. As bravatas contra as eleições aumentam a pressão para que as famosas instituições finalmente ajam para impor limites a Bolsonaro. E o acordo com o Centrão, como bem lembrou o general Mourão em outra estudada declaração pública, aliena de vez aquele eleitor que acreditou que Bolsonaro representava a ruptura com a “velha política”. O preço a pagar pela sobrevivência é aumentar a conta para o futuro imediato.

Até porque o modus operandi do Centrão, sobretudo diante de governos fracos, é o do saque, sem nenhum compromisso de longo prazo – no que lembra, aliás, a política econômica de Paulo Guedes.

Um exemplo eloquente: mesmo entregando a Casa Civil a Ciro Nogueira, talvez recriando o Ministério do Planejamento para devolver ao grupo o controle do orçamento da União, Bolsonaro pode não conseguir a filiação ao PP.

A imprensa reporta resistência de muitos caciques do partido, seja porque não desejam ver o clã do presidente dominando os diretórios locais, seja porque querem estar livres para apoiar outro candidato em 2022, em alguns casos ninguém menos do que o ex-presidente Lula.

O quadro se complica ainda mais porque o governo Bolsonaro já está em grande medida ocupado por um grupo dedicado a parasitar o Estado – os milhares de oficiais da ativa e da reserva que ocupam cargos civis e intermedeiam negócios, dos quais Pazuello foi o símbolo mais vistoso e Braga Netto é o porta-voz mais ativo.

Este “Centrão fardado”, por assim dizer, ampara as intentonas de Bolsonaro contra as eleições do ano que vem, por medo de, com uma mudança de governo, perder as prebendas de que hoje desfruta.

Não está feliz, portanto, de ver o Centrão civil invadir, com seu típico apetite de gafanhoto, os múltiplos espaços que conquistou nos últimos anos.

Por isso, é razoável interpretar – como fizeram vários jornalistas – o vazamento da conversa entre Braga Netto e Arthur Lira, na qual o ministro da Defesa anuncia sua intenção de impedir a realização das eleições, como parte deste conflito intestino (sem nenhum trocadilho).

O general foi obrigado a um desmentido, ainda que capenga, e é forte a pressão para que seja ao menos investigado.

Uma convocação pelo Congresso, para prestar esclarecimentos, é bem provável; falta saber o quanto custará, para o governo, evitá-la. Esta é, aliás, uma das vantagens dos civis na disputa ora em curso: possuem um amplo arsenal de medidas que podem usar de acordo com a ocasião, calibrando seu impacto. Já os militares contam apenas com a ameaça, que usada em excesso tende a se expor como mera fanfarronada.

A posição do governo Bolsonaro é pouco confortável. O agravamento da crise sanitária e social, a incompetência gerencial e a inabilidade política fizeram com que ele desperdiçasse, em pouco tempo, a situação vantajosa em que parecia estar no começo do ano, quando conquistou vitórias folgadas nas eleições para as mesas do Congresso e chegara a certa pacificação, ainda que tensa, na relação com o Supremo.

Sua fórmula de “governabilidade”, que no caso significa arrastar-se até o final do mandato mantendo impunidade para si mesmo e para os rebentos, exige tanto o Centrão civil quanto os fardados. Mas tudo indica que a convivência entre eles está ingressando em momento de forte turbulência.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).





4 comentários

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Zé Maria

29 de julho de 2021 às 20h45

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo.
Um povo mestiço na carne e no espírito,
já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado.
Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo.
Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si…
Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional,
a de brasileiros…”

Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”
.
.
Darcy Ribeiro nos mostrou que pedagogia colonial
impede a verdadeira independência do Brasil

“Nunca houve aqui um conceito de povo,
englobando todos os trabalhadores”,
a “primazia do lucro” exigida pelo
“mercado externo”,
nos mantêm no “atraso”

Por Pedro Augusto Pinho, em Diálogos do Sul / Opera Mundi
[…]
Darcy, diferentemente da quase totalidade de nossos intérpretes,
pensadores e construtores da nacionalidade brasileira,
não se escorou em ideologias e teorias do norte,
do mundo colonizador.

Notável é a infiltração da pedagogia colonial em nossas mentes, que conduz às maiores ignomínias, às mais autodestruidoras ideias, e que, no entanto, seja considerada tão natural como o ar que respiramos. E, ainda pior, quando conseguimos apontar uma consequência da pedagogia colonial na atitude, às vezes até nociva à própria pessoa, ela, ao invés do reconhecimento, repudia o alerta.

Darcy Ribeiro vai ao âmago desta pedagogia colonial em nossa Nação, quando ressalta a “criação de necessidades” para populações originárias e o aprendizado da “língua do senhor” ambas conduzindo à escravidão e à subserviência.

Escreve este gênio brasileiro: “O preço da satisfação é a submissão final ao processo de produção”, “são integrados como consumidores, como produtores ou como reserva de mão de obra” (Darcy Ribeiro, Os Índios e a Civilização, Editora Vozes, Petrópolis, 1979, 3ª edição) e “desde o primeiro dia, o negro enfrenta a tarefa tremenda de reconstruir-se como ser cultural aprendendo a falar a língua do senhor, adaptando-se às formas de sobrevivência na terra nova” (Darcy Ribeiro, Educação no Brasil, in O Livro dos Cieps, Bloch Editores, 1986).

E esta ausência de uma cognição própria, individual, se transborda na compreensão igualmente submissa da sociedade que, salvo em poucos e isolados episódios de nossa História (veja na Era Vargas), “se ter fluido o conceito de soberania” nacional.

A luta pela soberania política-econômica-administrativa deve, por conseguinte, estar acompanhada da luta pela libertação da pedagogia colonial. E a Escola do Presente, que Leonel Brizola apresenta no Livro dos Cieps, como aquela que surge “questionando, por dentro, esta realidade social injusta, desumana e impatriótica”, esta escola de Darcy Ribeiro é o maior exemplo.

Embora lembre em alguns elementos a Escola do Trabalho, de M. Pistrak (1888-1940), o amor à criança e o humanismo de V. Sukhomlinski (1918-1970) e a alegria de estudar e a escola antipreconceituosa de Georges Snyders (1917-2011), os Cieps e a Universidade de Brasília são, acima de tudo, as escolas da brasilidade.

Aquelas que poderiam nos libertar da pedagogia colonial portanto, como tudo que seja construção nacional, que signifique a defesa do Brasil, especialmente do pensamento brasileiro, precisa ser imediatamente destruído, não pode existir ou deixaremos de ser colonizados.

E vemos hoje com tristeza os Cieps, como a Petrobrás,
sendo fisicamente destruídos, pois a destruição por dentro,
das motivações, do entusiasmo da construção nacional,
não tem como sobreviver aos tempos neoliberais,
a todos os governos após a Constituição de 1988 …

Íntegra:
https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/cultura/67338/darcy-ribeiro-nos-mostrou-que-pedagogia-colonial-impede-a-verdadeira-independencia

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Zé Maria

27 de julho de 2021 às 00h12

.
Centrão Covil e Velhacão Fardado ?
.

Responder

    Zé Maria

    27 de julho de 2021 às 16h49

    A Mídia Venal de Mercado
    já abraçou o Centrão Covil.
    Fórmula do Entreguismo
    e do Desmantelamento.

Bola Branca

26 de julho de 2021 às 20h54

Centrão, centrinho.
Enfim, um mensalão toda semana para se manter no poder.
É uma coisa normal para o povo a direita comprar deputados. Aí ninguém se indigna.
Então, deixa o barco rolar.
Comprou com nosso dinheiro os 2 centrão. Só gente boba não percebe isso.
O dinheiro nosso vai para o bolso dos 2 centrão.
Precisa depenar a Petrobrás para roubar ? Não !
Dá para fazer isso em QQ órgão. Até em órgão genital.

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