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Diário da Resistência


Leonardo Botega: Num país em que candidato mito manda esquecer historiadores, Luzia está morta
Sopro Neoliberal, por Vitor Teixeira
Falatório Política

Leonardo Botega: Num país em que candidato mito manda esquecer historiadores, Luzia está morta


03/09/2018 - 14h00

Sopro Neoliberal, por Vitor Teixeira

Luzia está morta no Reino dos Sem Memórias

por Leonardo da Rocha Botega*, na Rede Soberania

Luzia permaneceu na Gruta da Lapa Vermelha, no município de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, por cerca de 12.500 a 13 mil anos.

Esteve lá entre os tantos vestígios ocultos da história até ser encontrada e seu crânio desenterrado, em 1975, pela missão arqueológica franco-brasileira da arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire.

Foi levada ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, onde ficou mais uma vez esquecida entre as caixas e os refugos dos acervos da instituição.

Anos mais tarde, o arqueólogo Walter Neves, da USP, a encontrou e passou a estudá-la.

As descobertas eram surpreendentes.

Aquela “jovem” de 1,50 m, que perdeu a vida entre os seus 20-24 anos, de crânio estreito e longo, queixo proeminente, faces estreitas e curtas, era diferente de qualquer outro habitante conhecido no continente americano.

Uma surpresa que se revelou ainda mais com a reconstituição de seu rosto feita pelo grupo de pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, que identificaram Luzia como uma mulher com feições nitidamente negroides.

O nariz largo, os olhos arredondados, o queixo e os lábios salientes demonstram uma espécie de hominídeo diferentes das que originaram os atuais povos indígenas brasileiros.

A mais antiga habitante da América era mais parecida com os habitantes de algumas regiões da África e da Oceania, o que despertou um revolucionar na até então pouco questionável Teoria do Estreito de Bering.

Saída do anonimato, Luzia estava lá no Museu Nacional, junto com a coleção Santarém, a civilização Marajó, as moedas de Dom Pedro, as coleções Nagô, a nação Haussa, o maior crustáceo do Pacífico, as múmias de Puma, as coleções Kadiweu, os cristais do Brasil central, os vidros de Pompéia, às ânforas da Magna Grécia, a Sala dos Embaixadores e a biblioteca de camponeses, índios e negros.

Estava lá junto com 20 milhões de peças que representavam 200 anos de preservação e pesquisas, que faziam a alegria dos visitantes, sobretudo, os dinossauros tão amados pelas crianças.

Luzia queimou junto com a política de austeridade que vem queimando milhares de empregos e de vidas dignas no Brasil.

Luzia queimou em tempos em que a história e a cultura são renegadas como custos em um país cujo repasse anual de seu Museu Nacional equivale a 10 auxílios moradias recebidos por muitos juízes com casa própria.

Luzia queimou junto com 20 milhões de peças guardadas por apenas quatro vigilantes.

Luzia queimou no final da semana onde o “mito de alguns” pronunciou na principal rede de televisão do país a frase “Deixa os historiadores para lá”.

Deixar os historiadores (e a história) pra lá é o que tem sido feito constantemente em um país onde a maioria dos adolescentes tem míseros 50 minutos de aula de história por semana e mesmo assim os seus professores e suas professoras são acusadas de “doutrinadores” por muitos que fazem parte dos 75% de brasileiros que sequer leram um livro no ano passado. Deixar os historiadores pra lá é esquecer a humanidade e deixar imperar a barbárie.

Deixar os historiadores pra lá é negar a memória, o patrimônio histórico, o passado, o presente e o futuro de uma Nação constantemente boicotada por cortes de recursos públicos em beneficio da manutenção dos interesses privados da casta superior.

Deixar os historiadores pra lá é se comover com a destruição do Museu Nacional e sequer se envergonhar de ter votado ou apoiado a PEC do Fim do Mundo.

Luzia está mais uma vez morta e um pouco de cada um de nós historiadores morreu junto as chamas que devoraram um Museu Nacional que ousava sobreviver em um país que mais parece um Reino Sem Memórias.

Cada vez que falar sobre ela vou lembrar daquelas chamas e dos canalhas que direta ou indiretamente acenderam o fogo.

Afinal, como disse Peter Burke, “A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”.

*Professor de História de EBTT da Universidade Federal de Santa Maria

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13 comentários

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Sebastião Farias

04 de setembro de 2018 às 17h40

Realmente, é muito triste de vermos, a memória cultural de um povo doente, que somos nós e, que há muito, vendo onde iríamos chegar, apesar de donos do Poder constitucional, nos omitimos e nos acovardamos em defendermos a tempo, antes de serem perdidos, a memória nacional, o estado de direito, a democracia e a soberania nacionais.
Pode anotar, à luz da ação dos atores que aí estão e, na falta de quem lhes dê um basta, como o Museu Nacional, o Circo Brasil continuará sendo incendiado aos nossos olhos, às provações de nosso povo ainda continuarão até que, quando não mais aguentarem, aí sim, os cidadãos unidos por necessidade, como nação livre, a exemplo do povo francês oprimido que derrubaram a Bastilha, tomarão uma atitude heróica no expurgo do mal.
E não se iludam, não estamos falando só do poder executivo mas, como está exposto aí pela imprensa, também os poderes legislativo, judiciário, bancos, imprensa golpista e o império, todos, contra o Brasil e seu povo, pois, suas obras más, testemunham contra eles, pesquise onde quiser, analise e conclua com sua consciência e, busque na história, que povo assistiu a sua destruição e não reagiu?
Tudo isso que aconteceu com o Museu Nacional, que não é pouco, exige que as autoridades competentes, investiguem com agilidade e ética, as causas e os fatores que somados, resultaram na tragédia da cultura brasileira e, encontrem os responsáveis que, por esse crime hediondo, merecem sim, serem punidos exemplarmente, nos termos da lei específica.
Felicidades.
Sebastião Farias
Um brasileiro nordestinamazônida

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donizetti

04 de setembro de 2018 às 16h07

o que que a Luzia foi fazer atrás desta horta?…

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Eduardo

04 de setembro de 2018 às 12h13

Para onde caminha o Brasil e seu povo? A humanidade cada vez mais vislumbra os infernos conduzida por seus líderes! Porque o dinheiro das malas de Temer e seu Coronel, das malas de Aécio que sugere matar e do apartamento de Geddel nåo foram aplicados no Museu? Para os golpistas, a Globo e o Judiciario ignóbil e covarde com certeza isso tudo é resultado de 12 anos do PT no governo federal! Então, resta apenas nos humilhar, sentir e chorar! Estamos perdidos e ainda teremos que pagar auxílio moradia a partir de agora! O MPF está procurando culpados onde se o PT tem endereço e residência fixa?

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Otto

04 de setembro de 2018 às 10h35

Quanto a esta tragédia anunciada, enorme responsabilidade pesa sobre o PT, pois as verbas começaram a minguar durante os governos Lula e Dilma. A UFRJ tem sua parcela, pois foi sendo instrumentalizada ideologicamante com o passar dos anos. Não faltaria grana e holofotes se fossem criados os museus do funk e da maconha, enquanto o Museu Nacional ficava às traças. Esquerdistas posmodernosos e ressentidos sempre desprezaram a alta cultura. Olha o que aconteceu…

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Sergio

04 de setembro de 2018 às 10h01

A Luzia dá um nó na cabeça dos racistas. Com certeza queriam que fossemos ou tivéssemos o crânio de alemães ou italianos.
É uma perda irreparável para a história da América, mas ao mesmo tempo e uma oportunidade de conhecer essa história recentemente descoberta que estava restrita aos livros de história de uns 10 anos pra cá ou menos.
Hj, para variar, o Eduardo Gianetti, economista da Marina Silva, já fala mer.da sobre as cotas. E nega o inegável.
Só para lembrar esse Gianetti é o mesmo que disse num programa roda viva de uns 10 anos atrás que Deus era um autoengano. Só ele o super sábio Gianetti e seu papai corrupto é que não se enganam e nem enganam niguem.
Cota racial e cota social tem algo em comum, o que será super sábio ?
Vê se ele fala uma linha da aprovação continuada do psdb.

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Bel

03 de setembro de 2018 às 21h49

Prestem atenção: agora vão liberar verba gorda para a recuperação do Museu. Quem vai controlar essa verba? Vai ter transparência em ano eleitoral? Os blogs ¨sujos¨ podem ajudar o povo a fiscalizar a aplicação das verbas. Vamos seguir o dinheiro. Vamos exigir transparência total. Nós mesmos, as ¨viúvas¨conforme disse um certo ministro.

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Marcia Noemia

03 de setembro de 2018 às 18h43

Interessante é que Luzia tinha traços negróides como grande parte da populações jovens negros assassinadas nas ruas das metrópoles brasileiras.

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Marcia Noemia

03 de setembro de 2018 às 18h38

Interessante é que Luzia era de traços negróides como grande parte da população jovem brasileira que é assassinada nas ruas.

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claudio

03 de setembro de 2018 às 18h24

É uma pena e uma dor muito grande para a gente ver uma catástrofe dessa magnitude, que talvez só assim é que o povo sinta o descaso e desgoverno que vivemos após a retirada de Dilma da presidência.

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Julio Silveira

03 de setembro de 2018 às 16h41

Num país em que o povo nasce propicio a cair no conto do golpe, e de golpistas estelionatarios “do bem”, sistematicamente, e burramente, como forma de resolver seus problemas, Luzia já estava fadada a morte antes de renascer.

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Edgar Rocha

03 de setembro de 2018 às 16h05

Foi o melhor texto que li até agora sobre a tragédia do Museu Nacional. Mais do que números, a emoção (ou comoção) que deveria ser gerada é exatamente esta: a indignação, seguida de reflexão e implacável em seus argumentos.
Mas, se permite o brilhante autor do texto acima, vale outro libelo, dirigido às academias de História pelo país, sobretudo às mais proeminentes: pior que ver um povo se esquecer de sua História, é ver historiadores – aqueles que forjam o conhecimento histórico – negligenciarem o próprio povo. Seja excluindo-o de suas narrativas, seja privilegiando temas de interesse do mainstream, ou ajudando-o a forjar para a nação uma identidade nacional artificial, pouco condizente com o que se poderia esperar de uma produção historiográfica minimamente honesta e comprometida com sua função social mais relevante, a qual o autor do texto exprime com perfeição em sua última frase: lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer. Mais grave que destruir um patrimônio deste vulto, é subutilizá-lo ou destiná-lo a fins tão pouco dignos. Aos que desejam construir uma História de fato de nosso país, não há dúvida de que a tarefa ficou infinitamente mais difícil com a destruição de monumentos e documentos do Museu Nacional.
Já aos que procuram uma “história sem ideologias”, baseada em elucubrações pouco embasadas e destinas a serem livros de cabeceira, há motivos de sobra para festejarem a impossibilidade de contraponto baseado em referências materiais, dados e registros. É o triunfo de uma História romantizada, quase mítica, que infelizmente há de se embasar em argumentos datados, regidos pelo contexto histórico atual, a saber: o domínio do fato, o lawfare, o relativismo, o achômetro puro e simples e, sobretudo, a violência simbólica dos diplomados.

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    Cristiane

    05 de setembro de 2018 às 19h38

    … speechless, Just perfect!


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