Lauro Mattei: A família Bolsonaro e a compulsão pela mentira

Tempo de leitura: 6 min
Ilustração: Quinho em A Terra é Redonda

A transformação da falsidade em projeto político revela um padrão comportamental que subverte fatos essenciais e desafia a maturidade democrática nas eleições

Por Lauro Mattei*, em A Terra é Redonda

1.

A palavra mentira vem do Latin, mentire, que significa faltar com a verdade, enganar, fingir. Historicamente a mentira foi associada à figura do diabo como sendo este “o pai da mentira”. Mas com o tempo a mentira se espraiou para outras esferas da vida, além da religiosa. Neste percurso ela foi ganhando maior destaque até chegar no campo político quando passou a ser usada como instrumento de manipulação da população por alguém que almeja o poder.

Para a neurociência, falar a verdade é o padrão automático do cérebro humano porque ele retém a verdade em segredo para não ser enganado. Todavia, quando a mentira se torna compulsiva, o cérebro acaba se adaptando para tornar o ato de mentir mais fácil e automático. A consequência é que a inversão do esforço cognitivo se torna o novo padrão comportamental da pessoa mentirosa.

Segundo o Instituto de Psicologia da USP, um mentiroso compulsivo ou portador de mitomania (também chamada de mentira patológica) é uma pessoa que apresenta tendência duradoura e incontrolável para mentir. No geral é contada de forma consciente tendo por objetivo a autoproteção ou o falseamento da realidade. Na essência, trata-se de um processo de adoecimento psíquico, uma vez que a pessoa busca retroalimentar as mentiras sequencialmente.

Para tanto, procura-se elevar a importância das mentiras que ela cria, mesmo que estas não correspondam à realidade. Em síntese, a mitomania é o exagero consciente da mentira, o que é diferente de mentiras sociais apenas ocasionais. Além disso, a mentira compulsiva também pode estar relacionada a outros sinais de doença psiquiátrica e psicológica.

Dito isso, é importante observar como o chefe do clã se comportava apenas durante o exercício da Presidência da República. Segundo a revista Isto é dinheiro, a mentira foi a marca registrada das ações de Jair Bolsonaro, uma vez que em 1.459 dias no exercício do cargo de Presidente do Brasil ele proferiu 6.685 declarações mentirosas ou distorcidas, destacando-se que apenas no ano de 2020 ele mentiu 1.682 vezes, o que corresponde a 4,5 mentiras por dia. Registre-se que somente em sua pequena fala na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2020 ele proferiu 7 mentiras.

Esse pode ser o caso típico descrito por Hannah Arendt em seu ensaio “A mentira como política”, no qual a autora destaca que a mentira moderna substitui os fatos por uma realidade alternativa, ao mesmo tempo em que a mentira se sobrepõe quando o sujeito não tem capacidade, inteligência ou interesse para mudar a realidade.

2.

É bastante provável que essa herança genética tenha sido passada para os filhos. Vejamos alguns aspectos relacionados aos pontos anteriores revelados pelo “Filho 01”. Para tanto, é importante registrar alguns episódios da trajetória pessoal e profissional do mesmo, a qual também é fortemente marcada pelo uso constante das mentiras. Com 19 anos (nasceu em 30.04.1981) ele foi indicado pelo pai e contratado para a vaga de assessor na liderança do PPB (hoje PP) na Câmara Federal (CF) ao salário da época de R$ 13 mil/mês, destacando-se que as normas da Câmara Federal já deixavam explícito que somente poderia trabalhar nas lideranças partidárias quem morasse em Brasília. Pelos registros oficiais ele ocupou esse cargo entre os anos de 2000 e 2002.

Acontece que o referido sujeito informa que detém bacharelado em Direito cursado na Universidade Cândido Mendes no Rio de Janeiro entre 2000 e 2005, curso este que é de tempo integral e que exige estágio como o próprio informou no site da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Aliás, nesse site ele informava também que havia feito uma pós-graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), informação nunca confirmada pela referida universidade.

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Todos esses assuntos vieram à tona em 2018 quando, na condição de deputado estadual (mandatos exercidos entre 2003 e 2018), ele passou a ser investigado pela prática de “rachadinha” na Alerj, ao mesmo tempo em que empregava em seu gabinete a mãe e a esposa do líder da facção criminosa “Escritório da Morte” (às vezes mencionado como Escritório do Crime). Quando indagado sobre isso simplesmente respondeu: “eu não conhecia o envolvimento dessas pessoas com o crime”.

A seguir iremos sistematizar apenas um conjunto de mentiras proferidas pelo filho 01 durante o processo eleitoral de 2026, especialmente aquelas sobre seu envolvimento em situações embaraçosas. Espero que isso não canse o leitor porque a lista é imensa, razão pela qual selecionamos apenas alguns casos que colecionam mentiras em série e continuamente repetidas.

(i)Sabatina realizada pela Rede Globo em 28.08.2026: Segundo a própria emissora, durante a entrevista ele mentiu oito vezes envolvendo temas relativos ao Banco Master, além de outros assuntos como as homenagens que fez a um miliciano quando era deputado estadual; sobre os atos de 08.01.2023; sobre a prestação de contas do filme de seu pai; sobre a criação do Pix pelo governo de seu pai; sobre o tarifaço de Donald Trump, chegando ao ponto de afirmar que foi o único representante público que foi aos EUA defender o Brasil. Além disso, demonstrando um comportamento de vassalo afirmou que “não estamos em condições de exigir nada do governo Donald Trump porque ele irá fazer o que ele quiser, independentemente de nossa vontade”.

3.

(ii) Sobre o caso Master: sete meses após o surgimento desse escândalo bancário-financeiro a agência de checagem “Aos Fatos” constatou que o Filho 01 já proferiu 43 mentiras sobre o assunto sempre procurando desvincular sua imagem do caso. Sua negativa inicial começou com uma gargalhada ao afirmar que tudo o que estava sendo dito era mentira.

Depois criou a ladainha de que se tratava de dinheiro privado e que o caso era um problema do governo Lula. Mas a mentira mais esdrúxula foi dizer que não conhecia o banqueiro quando seu número de celular foi encontrado nos contatos de Daniel Vorcaro e que nunca tinha solicitado nada a esse senhor, além de nunca ter usado o avião do banqueiro. Relatórios da PF revelam que ele trocou mensagens por três meses e que teve pelos seis encontros presenciais com a referida personagem. Todavia, o investigado afirmou que se encontrou uma única vez com o sujeito.

(iii) Sobre os atos golpistas de 08.01.2023: continua afirmando que tal evento foi uma grande farsa armada pela esquerda visando tirar seu pai do poder e que as pessoas que lá estiveram não se conheciam e que ninguém delas portava armas.

(iv) Sobre urnas eletrônicas: seguindo o exemplo das mentiras de seu pai, também atacou a segurança das urnas eletrônicas do sistema eleitoral brasileiro junto aos embaixadores. Neste evento mentiu que os hackers invadiram as urnas por 35 vezes durante os testes oficiais realizados em dezembro de 2025.

(v) Sobre a proibição recente da Bets no Brasil: ao classificar a medida adotada pelo Governo Lula de “estelionato eleitoral” e também um ato de desespero porque ele sabe que irá perder as eleições no primeiro turno. Além disso, afirmou em 25.09.26 que Lula é o pai do jogo “tigrinho” e também o pai do “cassino online” no Brasil. Por isso, “é o presidente que está afundando o país”. A verdade é que as apostas online foram legalizadas em 2018 pelo governo de Michel Temer, destacando-se que a legalização deveria ser feita nos próximos dois anos. Registre-se que o governo de Jair Bolsonaro não cumpriu com seu dever, sendo que a legalização desses jogos foi realizada apenas em dezembro de 2023 pelo governo Lula.

(vi) Sobre a questão religiosa: a polêmica recente nesta seara decorre de uma declaração do filho 01 para agradar parte do público evangélico que o apoia. Para tanto, no dia 24.08.26 ele declarou solenemente: “seu for eleito presidente do país meu primeiro ato será declarar o Brasil como pertencente a Jesus Cristo”. Essa declaração, além de alimentar o conflito religioso no país que já está em curso desde 2019 à luz de uma declaração de um dos líderes da bancada evangélica no Congresso Nacional mencionando que a igreja católica é uma religião morta, fajuta e local de avivamento do satanás, desvirtua o debate político para o foro individual das pessoas, uma vez que a opção religiosa é uma decisão individual de cada pessoa que não pode se transformar num debate político.

Registre-se, ainda, que o próprio presidente Jair Bolsonaro chamou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de parte podre da igreja católica no Brasil. Para piorar a situação, nos últimos dias o seu rebento 01 acusou a CNBB de estar divulgando fake news sobre suas declarações, recebendo como resposta: mentiras não se combatem com novas e mais mentiras!

Talvez a melhor síntese a fazer sobre esse candidato que não tem a verdade como padrão de comportamento social é resgatando sua ignorância sobre a temática das mudanças climáticas e do aquecimento global: para esse senhor “a melhor forma de resolver esse problema é aprovar o marco do saneamento básico para combater o esgoto que passa na casa de quem está me ouvindo e assistindo”.

O Brasil já viveu o pesadelo de ter passado pela experiência de ser governado quatro anos por um mentiroso costumaz. Por isso, não é recomendável que um rebento também mentiroso costumaz venha a governar o país pelos próximos quatro anos. E ainda o sujeito tem a pachorra de afirmar que “Lula chegou ao poder pela mentira e nós vamos tirá-lo pela verdade”. Sinceramente o povo brasileiro não merece isso!!!!

*Lauro Mattei é professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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