Geandro Ferreira Pinheiro: O Brasil que não cabe na eleição

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Às vésperas da eleição de 2026, parte decisiva dos conflitos que atravessam o Brasil real aparece filtrada, esvaziada ou deslocada de suas determinações sociais. Conflitos de classe, soberania, trabalho, fundo público e poder econômico são recobertos pelo moralismo, pela fetichização das instituições e pela racionalidade do capital. Por trás do ruído da campanha permanece a disputa decisiva sobre quem exerce o poder, quem se apropria da riqueza social e em benefício de quem o país será construído

Por Geandro Ferreira Pinheiro*, no Substack

Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da Fantasia.
Eça de Queirós, A Relíquia

Há algo especialmente revelador na eleição presidencial de 2026. Quanto mais substantivos são os problemas colocados diante do Brasil, menos eles parecem capazes de organizar o debate político. O país está submetido a pressões externas sobre sua soberania, convive com uma crise de segurança que atravessa a vida cotidiana, discute a jornada de trabalho, segue comprimido por uma política fiscal que transforma direitos e políticas públicas em variáveis de ajuste e assiste à exposição das relações nada republicanas entre instituições de Estado e agentes do grande capital. Ao mesmo tempo, formas de barbárie e autoritarismo se naturalizam e a ameaça ao chamado “Estado de direito” oscila entre a ofensiva aberta de forças de extrema direita e a deterioração interna das próprias instituições. Há luta de classes em tudo isso. Mas quase não é assim que a eleição aparece.

A série de entrevistas da Globo com os presidenciáveis ofereceu uma fotografia quase didática. Na entrevista de Lula, uma parcela expressiva do tempo foi consumida por Lulinha, Banco Master, INSS e suspeitas de corrupção. No dia seguinte, Flávio Bolsonaro também foi confrontado com o Master e o dinheiro buscado junto a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o pai. Não se trata, portanto, de reclamar de perseguição a um candidato. Corrupção é assunto sério, deve ser investigada e, quando comprovada, punida. O problema é por que ela adquire tamanha capacidade de vampirizar a política, subordinando a si questões que dizem respeito às estruturas que produzem o próprio escândalo.

Na reta final da campanha, o mesmo mecanismo reapareceu em outro registro. Uma alegação de que Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil ganhou centralidade, desencadeou decisões conflitantes no TSE e no STF e ocupou parte importante da agenda política nos últimos dias. Mudam os personagens e o registro, do escândalo financeiro à guerra moral e religiosa, mas permanece a capacidade de certos acontecimentos de se tornarem quase totalizantes e empurrarem para as bordas questões estruturais que organizam a vida social.

A distância em relação à opinião pública ajuda a perceber o problema. Na Quaest divulgada em 2 de setembro, a violência permanecia como a principal preocupação dos brasileiros, citada por 31% dos entrevistados, seguida pela economia, com 16%. Saúde e corrupção apareciam com 14% cada. A segurança, portanto, não saiu da cabeça da população, mas deixou de ocupar na campanha uma centralidade equivalente à que possui na experiência cotidiana.

Algo semelhante ocorre com o fim da escala 6×1. Em março, 71% dos brasileiros defendiam a redução do número máximo de dias trabalhados por semana, segundo o Datafolha.

O tema deixou de ser apenas uma bandeira em circulação na sociedade, quando em 2 de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a PEC 221/2019, que reduz a jornada e amplia o repouso semanal, remetendo-a ao Plenário. A votação em plenário, porém, acabou adiada diante da obstrução da oposição, não enfrentada por Alcolumbre, que anunciou que a matéria seria apreciada depois das eleições. Ainda assim, a questão permanece muito aquém da centralidade que sua dimensão social justificaria no debate eleitoral. Não se trata apenas de discutir quantas horas ou quantos dias se trabalha, mas quanto da vida da classe trabalhadora continuará subordinado ao trabalho e quem se apropriará dos ganhos de produtividade.

Também não faltam conflitos internacionais capazes de recolocar o país diante de escolhas estratégicas. As tarifas e pressões do governo Trump, a disputa por minerais críticos e a ofensiva sobre a autonomia comercial brasileira recolocam, em forma concreta, os problemas do imperialismo e da dependência. A resposta do governo brasileiro fez da soberania um eixo político importante, não apenas no discurso. O enfrentamento ao tarifaço deu origem ao Plano Brasil Soberano e, mais recentemente, à Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que procura associar o controle desses recursos à industrialização, à agregação de valor e à autonomia tecnológica do país. Ainda assim, nem mesmo essa conjuntura foi suficiente para transformar a inserção internacional do Brasil, sua capacidade produtiva, o controle sobre recursos estratégicos e seu lugar na divisão internacional do trabalho em grandes eixos da campanha.

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O Brasil real está repleto de conflitos substantivos, mas não podemos dizer que a cena eleitoral simplesmente os ignora. Ela os seleciona, desloca, esconde ou reordena, fazendo muitas vezes com que apareçam separados das relações sociais que lhes dão origem. A dependência pode aparecer como uma divergência comercial, a disputa pelo fundo público como problema de equilíbrio fiscal, e a exploração do trabalho como questão de eficiência ou produtividade. Há nisso uma forma de fetichização da política, em que as relações entre classes, capital e Estado reaparecem como conflitos entre governos, indivíduos, comportamentos ou escolhas técnicas, enquanto as determinações que os produzem recuam para o fundo da cena.

Não é preciso imaginar uma reunião secreta em que donos de jornais e banqueiros definem o que a população poderá discutir. Os grandes meios de comunicação são empresas capitalistas, pertencem a grupos econômicos, estão inseridos nas mesmas relações sociais que narram e participam da disputa pela direção intelectual e moral da sociedade. Sua capacidade de selecionar e enquadrar acontecimentos não está acima das classes. Na boa tradição marxista, a aparência não é uma mentira, mas a forma imediata pela qual relações sociais reais se apresentam. O problema começa quando a exposição se detém nela e impede que se chegue às determinações que a produzem.

O Banco Master é um exemplo quase perfeito. É correto perguntar quem recebeu dinheiro, quem favoreceu quem e que crimes foram cometidos. Mas, se a discussão termina aí, o escândalo vira campeonato moral entre indivíduos. A questão mais profunda é saber que relações tornam corriqueiro que banqueiros, ministros de tribunais superiores, grandes escritórios, parlamentares e dirigentes públicos habitem os mesmos circuitos de poder. Não há oposição entre investigar a corrupção e revelar sua determinação de classe. O problema não é apenas descobrir quem é “sujo”, mas compreender como o capital, especialmente o financeiro, se relaciona com o Estado, disputa seus aparelhos e decisões e converte poder econômico em poder político.

É aqui que a velha UDN funciona como uma boa metáfora, sem precisar virar o centro da nossa explicação. Há algo udenista na transformação da política em tribunal moral quando a disputa social é reduzida ao caráter dos governantes e a pergunta sobre quais classes ganham ou perdem desaparece atrás da pergunta sobre quem é mais honesto. A busca de candidaturas como a de Augusto Cury encontra terreno nesse processo. Seria simplista atribuir apenas à procura de imagens de candidatos “limpinhos”, mas isso combina perfeitamente com a alegada necessidade de um pacificador exterior à polarização. Os antagonismos passam a parecer resultado de ego, radicalismo ou incapacidade de diálogo. A antipolítica não precisa negar a política. Basta retirar dela a luta social que lhe dá conteúdo.

Quando o debate chega à economia, outro filtro entra em funcionamento, o da Faria Lima. Dívida, déficit, equilíbrio fiscal, confiança, responsabilidade e corte de gastos aparecem como determinações naturais. Só que política fiscal é disputa de classe pelo fundo público. Não existe ajuste socialmente neutro. Enquanto saúde, educação, previdência e investimento público são permanentemente convocados a provar que “cabem” no orçamento, renúncias tributárias, benefícios concedidos a setores empresariais e a remuneração dos detentores da dívida recebem tratamento muito menos dramático. Nos doze meses encerrados em julho, os juros nominais do setor público chegaram a R$ 1,15 trilhão, 8,67% do PIB. Mesmo assim, a narrativa fiscal dominante localiza o excesso precisamente no gasto social.

E essa disputa não se esgota no volume do gasto. O fundo público também define que capacidades o Estado constrói, mantém ou abandona. Produzir, pesquisar, formar, fiscalizar, prestar serviços e responder diretamente a necessidades sociais não são efeitos administrativos posteriores à política, mas parte material da própria correlação de forças.

Essa operação transforma o interesse de frações do capital em racionalidade universal. “O mercado” aparece como sujeito abstrato diante do qual qualquer governo responsável deve prestar contas, enquanto trabalhadores aparecem como beneficiários de gastos ou consumidores, raramente como classe que produz a riqueza social e disputa sua apropriação. E, enquanto se cobra confiança para o mercado, a desconfiança das parcelas mais pobres na capacidade do Estado de garantir segurança e seguridade empurra a sobrevivência para soluções individuais, tais como empreendedorismos precários, endividamento, bets, tigrinhos e outras promessas de ascensão privada. Quando a segurança coletiva se enfraquece, ganha força a expectativa de escapar individualmente da própria condição social. Enriquecer, “dar certo”, encontrar uma saída particular para um problema produzido coletivamente. Assim, quando não se mede quem é mais corrupto, mede-se quem oferece mais garantias à reprodução do capital.

A crise do STF torna essa dinâmica ainda mais explícita. O caso Master, o confronto entre Alexandre de Moraes e André Mendonça e, mais recentemente, as revelações da chamada Turma do KN, expuseram relações normalmente protegidas pela aparência de neutralidade institucional. Não deveria surpreender que uma instituição formada por onze integrantes não eleitos, recrutados nos circuitos superiores do mundo jurídico e político, seja atravessada pelas relações das classes dominantes. O STF é uma instituição oligárquica do Estado burguês brasileiro. Isso não o transforma em instrumento mecânico de uma única fração do capital. Sua autonomia relativa é justamente uma das condições para arbitrar conflitos entre diferentes interesses e, em determinadas conjunturas, impor limites inclusive a forças das classes dominantes.

Foi essa autonomia que permitiu ao Supremo constituir um obstáculo real à ofensiva golpista bolsonarista. Mas é o mesmo Tribunal que validou a terceirização inclusive da atividade-fim, reconheceu a possibilidade de normas coletivas restringirem direitos trabalhistas não absolutamente indisponíveis, legitimou o modelo das organizações sociais e, em 2024, declarou constitucional a emenda que extinguiu a obrigatoriedade do regime jurídico único na administração pública. A uberização e o vínculo dos trabalhadores de plataformas seguem sob sua apreciação. Transformar, portanto, a defesa contra a extrema direita em defesa incondicional do STF é, nesta leitura, um grave erro político, sobretudo quando essa defesa vem de estratos da esquerda. Fetichizar uma instituição burguesa e oligárquica porque ela cumpriu, numa determinada relação de forças, uma função democrática desarma a crítica justamente quando suas entranhas ficam expostas.

O caso Master, porém, permite enxergar que aquilo que veio à tona no Supremo não se encerra nele. As mensagens extraídas pela Polícia Federal vêm revelando uma extensa rede de relações entre Daniel Vorcaro, magistrados, advogados e dirigentes políticos. As revelações alcançaram também o comando do Congresso. Mostram uma relação de forte proximidade pessoal entre Vorcaro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e, no caso do presidente da Câmara, Hugo Motta, diálogos que chegam a mencionar um “formato em sociedade” em um negócio imobiliário. Nada disso permite tratar indistintamente relações pessoais, negócios privados e ilícitos como se fossem a mesma coisa. Mas o conjunto expõe algo mais relevante para a análise do que um catálogo de escândalos, que é a proximidade estrutural entre os circuitos superiores do poder econômico, jurídico e político.

A dificuldade é real. Forças de extrema direita capturam uma contradição verdadeira, a oligarquização e a promiscuidade entre Estado e poder econômico, e procuram convertê-la numa saída reacionária, que consiste justamente em enfraquecer os limites institucionais que ainda constrangem seu projeto. Não basta “defender as instituições”, como se fossem neutras. Tampouco basta denunciá-las abstratamente, como se sua destruição pela extrema direita abrisse, por si mesma, algum caminho progressista. É preciso defender liberdades e barreiras ao autoritarismo sem abdicar da luta pela democratização radical do Estado e sem esconder seu conteúdo de classe.

Talvez seja mais preciso, inclusive, dizer que as instituições estão funcionando. Elas se constituíram historicamente no interior de uma sociedade capitalista e são atravessadas pelas relações sociais que a estruturam e garantem a reprodução do capital. Sua própria autonomia relativa é parte dessa forma de funcionamento. Permite arbitrar conflitos, conter determinadas frações das classes dominantes e, em certas conjunturas, produzir efeitos democráticos reais, sem deixar de operar no interior de uma ordem cuja reprodução depende da preservação das relações fundamentais de propriedade e poder. O problema, portanto, não é apenas perguntar se as instituições funcionam, mas como funcionam, para quem e sob quais relações de força.

É aqui que a análise precisa deixar de ser contemplativa. Se a esquerda aceita o terreno oferecido, entra na disputa escolhendo entre provar sua superioridade moral e apresentar credenciais de responsabilidade à Faria Lima. Nos dois casos, já perdeu parte da batalha. Intervir na conjuntura significa disputar a própria pauta, fazendo do fim da 6×1 um tema sobre poder de classe e tempo de vida, disputar a segurança pública sem entregá-la ao punitivismo, transformar o Master de novela sobre personagens corruptos em debate sobre financeirização, fundo público e relações entre capital e Estado, ligar soberania à capacidade de decidir sobre recursos, tecnologia e desenvolvimento e, por fim, enfrentar a extrema direita sem canonizar instituições oligárquicas.

Há ainda outro risco nessa redução da política à cena eleitoral, que é imaginar que tudo se resolverá, para melhor ou para pior, no momento em que o resultado das urnas for conhecido. Não será assim. A eleição altera a correlação de forças, às vezes profundamente, mas não inaugura uma sociedade nova na manhã seguinte. Permanecerão a estrutura econômica, a disputa pelo fundo público, os aparelhos de Estado, a dependência externa, as capacidades públicas construídas ou destruídas ao longo do tempo e as relações entre classes que atravessam tudo isso. O problema, portanto, não é apenas quem governará depois de outubro, mas que condições materiais existirão para governar, quais forças disputarão o Estado e que capacidades a sociedade brasileira terá acumulado para realizar determinados projetos.

Isso exige que a classe trabalhadora reapareça na política não apenas como destinatária de benefícios, vítima da violência ou segmento de pesquisa eleitoral, mas como sujeito capaz de formular um projeto de país. Há muito em disputa no Brasil de 2026. O que falta não são questões substantivas nem opinião pública sobre elas, mas convertê-las em força política. Talvez esse seja o combate decisivo desta eleição: romper a pauta estreita que nos oferece a escolha entre o moralismo da pequena política e a racionalidade do capital, para recolocar no centro a pergunta que ambos preferem evitar. Que país será construído, por quais classes e em benefício de quem. Porque essa disputa não termina quando fecham as urnas. Em boa medida, o dia seguinte à eleição já começou.

*Geandro Ferreira Pinheiro é sanitarista e membro do Fórum de Trabalhadoras e Trabalhadores da Fiocruz

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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