José do Vale: O lugar da Lava Jato na história brasileira

Tempo de leitura: 3 min
Deltan Dallagnol e Sergio Moro nos tempos áureos de Lava Jato. Fotos: Reprodução

O LUGAR DA LAVA JATO NA HISTÓRIA BRASILEIRA

Por José do Vale Pinheiro Feitosa*

Uma cena parece representar muito bem o longo ciclo da história das elites brasileiras.

Qual é? Em entrevista a um site (Brasil 247) o rico advogado Roberto Bertholdo, com uma estelar banca em atendimento de políticos, grandes empresas, negócios e outras formas mais, descreveu uma situação com todos os requisitos de uma novela barata da classe alta brasileira.

O advogado, como faz regularmente, almoçava no Gero, restaurante da rede Fasano, em São Paulo, onde uma refeição por pessoa varia entre R$ 256 e R$ 450.

Na mesa vizinha, estava a esposa do ainda senador Sergio Moro, Rosângela Moro, que é deputada federal.

O advogado descreve aquele momento com os requintes ácidos de um romance de Balzac, onde o ridículo e o alpinismo social fazem uma dobradinha de encantar os leitores.

Segundo ele, a senhora deputada, de hábitos caros, e gostaria de bolsa Louis Vuitton, cujo preço estaria na faixa de R$ 30 mil ou mais.

Daí, a maledicência do “fetiche da riqueza” e do “alpinismo social”.

A esposa do senador, após o percurso alimentar na cara mesa do Gero, pediu para encerrar os sabores da culinária sofisticada uma grappa, como aperitivo.

A grappa é uma aguardente de origem italiana elaborada a partir da fermentação de uvas.

O advogado, desafeto da família Moro, numa cena típica da baixa burguesia urbana, chama o garçom e pergunta o preço do aperitivo que a senhora acabara de pagar, saindo na sequência.

Bem ao estilo de fofoca estilizada e politizada, ele conta o valor: R$ 500 por uma pequena taça de  grappa. E fala ainda do tênis de R$ 8 mil do ex-juiz.

Tudo isso para criar o estrato sobre o qual a tese do advogado Bertholdo se alicerça.

Em se tratando do pessoal da Lava Jato, diz ele, nunca se tratou de justiça, controle de corrupção, melhora da sociedade e punição de malfeitos.

Era o “Deus Dinheiro”, o poder que resulta dele, a ganância materialista acima de valores éticos, sociais e políticos de uma sociedade democrática.

Não era a democracia e o devido processo jurídico. Tampouco o retorno ao bem comum dos recursos evadidos em “tenebrosas transações”.

Tudo era um arcabouço da “mani pulite” para justificar a ação sobre alvos específicos que simbolizavam o “risco” da “revelação” das intenções reais.

A dignidade do aprisionado pela Lava Jato, que resistisse às pressões por delação, se tornava objeto de punição.

Uma delas era o sujeito, um frágil corpo acorrentado, se debatendo solto num camburão da polícia a toda velocidade e saltando em quebra-molas da autovia.

Ao final da tortura, retornava à cela e logo vinha um agente do ministério público com uma sugestão de delação.

Em síntese a tortura em busca da apreensão e da condenação de outra vítima.

Se isso é a narrativa fortuita do advogado, ela não era desconhecida de parte do povo brasileiro por ocasião da ditadura militar.

E qual o longo ciclo da história da elite nacional?

O Brasil é uma criação do colonialismo europeu que implantou além-mar uma grei de capitães-mores para invadir as terras para agricultura e pecuária, transformar os produtos originais, negociar as mercadorias e embarcá-las em navios do comércio europeu.

A Colônia nunca foi uma razão em si, sempre foi objeto da exploração por parte dos povos nativos, dos africanos e de seus descendentes, inclusive dos pobres camponeses europeus, degredados ou não, que vieram a estas terras para serem a descendência explorada e morta enquanto produz.

Por isso, o longo ciclo histórico do Brasil é sempre de desconfiança com a elite.

A rigor nunca somos nós mesmos, por exemplo, como são o russos, os chineses e até mesmo os indianos superando a herança colonialista inglesa.

Até mesmo a África do Sul, que permitiu a permanência dos brancos racistas em suas terras, é hoje um país conduzido pelo seu povo original com todos os males de raiz do predomínio do capital.

O que o advogado Roberto Bertholdo relata não é um conflito moral, mas uma modo de operação da elite brasileira, econômica, cultural e política.

Por esta narrativa, a Lava Jato, a rigor,  é uma tentativa de intrusão de um determinado grupo da Justiça Federal no fluxo do capital de pessoas e empresas, inclusive estatais.

Percebe-se, claramente, que um grupo de arrivista teria tentado ir muito além nessa prática de matriz colonialista: criar um arcabouço jurídico (as tais 10 medidas) que permitisse o predomínio dos “operadores da justiça” na partilha das riquezas nacionais.

A máxima da Lava Jato teria sido, segundo o advogado, a tentativa ou a ação efetiva de extorsão de desembargadores dos Tribunais Regionais Federais  (TRFs) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), para atender aos interesses específicos da operação em seu modo de perseguição e punição.

A intenção era tornar a Lava Jato tão expansiva e autônoma que ela romperia os interesses nacionais, associando-se com “operadores da justiça” de países estrangeiros, para, partilhando resultados, ocupar um nicho seguro no futuro.

Roberto Bertholdo não se esqueceu da casa luxuosa de Sergio Moro e esposa na cidade de Washington, nos EUA, quando o ex-juiz prestou serviço a um grupo de advogados estrangeiros, que tinham como clientes empresas atingidas pela Lava Jato.

*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista.


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Zé Maria

https://t.co/DIQSBfkmWn

Manifestações Populares Pressionam corte colombiana
contra tentativa de golpe de estado, que foi confirmada
pela OEA

Uma investigação do governo colombiano com indícios confirmados
pela Organização dos Estados Americanos (OEA) revelou que
o Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, seria alvo de uma tentativa
de golpe cuja liderança jurídica partiria da Procuradoria-Geral do País.

Francisco Barbosa, o procurador-geral, é um aliado de longa data de
Iván Duque e Álvaro Uribe, dois governantes de extrema-direita
que dominam a política colombiana há décadas.

Gustavo Petro pediu aos Movimentos Sociais que apoiam a Legalidade
que pressionassem a Suprema Corte para que colocasse na Fiscalía (PGR)
um Legalista que não use de Lawfare para Perseguição Política.

“O que o procurador-geral procura é um golpe de Estado
sob cobertura institucional, tal como queriam fazer na Guatemala
e pelas mesmas razões”, disse Petro, horas depois de acusar o PGR colombiano responsável de promover uma suposta “ruptura institucional.”

Quem escolhe o novo Procurador-Geral – Chefe do Ministério Público –
é a Suprema Corte (não o Presidente da República, como no Brasil).

E, ao invés de elegerem um nome legalista, os ministros do Supremo
Tribunal da Colômbia prorrogaram a eleição para manter a suspeita
Martha Mancera como interina no cargo.

O cerco contra a Corte deve se seguir nos próximos dias
e a grande imprensa segue pressionando para conseguir
derrubar Petro e os movimentos sociais do governo.
https://twitter.com/mspbra/status/1755751358379004251

As manifestações desta quinta-feira (8) parecem ser o início
de uma disputa complexa entre Petro e o Establishment Político
Colombiano, que tem usado do Lawfare para perseguir seu governo.

https://twitter.com/RevistaForum/status/1755961949550989662

https://revistaforum.com.br/global/2024/2/9/video-policia-colombiana-reprime-manifestantes-depois-de-tentativa-de-golpe-153731.html

.

Bertholdo

Muito Boa redação. Seria nota 9,5 não fora alguns importantes enganos de interpretação, conceito e conteúdo.. Foi você mesmo quem escreveu.? De todo modo, ao fim da leitura não compreendi onde vc pensou chegar?

Zé Maria

https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2024/02/Captura-de-Tela-2024-02-08-a%CC%80s-11.40.20-1024×608.png

“Não vai ter ‘Revisão do VAR’.
Então, o que tiver que ser feito
tem que ser feito antes das eleições.
Se tiver que dar soco na mesa
é antes das eleições. Se tiver que
‘virar a mesa’ é antes das eleições.“

“Gravação mostra General Augusto Heleno
propondo o arranjo da trama de Golpe
para manter no cargo o então Presidente
em reunião do Chefe do GSI com Bolsonaro”

[Reportagem: Camila da Silva | Carta Capital | 08/02/2024]

O General Augusto Heleno defendeu que o governo
“virasse a mesa” antes das eleições de outubro 2022
para garantir um segundo mandato de Jair Bolsonaro (PL)
“a qualquer custo”.

A declaração aconteceu em reunião da alta cúpula do governo
convocada pelo então presidente, em 5 de julho de 2022.

A gravação do encontro foi obtida pela PF no âmbito da operação
Tempus Veritatus, deflagrada nesta quinta 8, que investiga a
tentativa de golpe de Estado no Brasil.

“Não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver que ser feito tem que ser feito
antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições.
Se tiver que virar a mesa é antes das eleições“, afirmou o ministro
do Gabinete de Segurança Institucional na reunião.

“Eu acho que as coisas têm que ser feitas antes das eleições.
E vai chegar a um ponto que nós não vamos poder mais falar.
Nós vamos ter que agir. Agir contra determinadas instituições
e contra determinadas pessoas. Isso pra mim é muito claro“,
completa o General Augusto Heleno na Reunião com
o ex-Capitão do Exército, então Presidente da República.

O trecho em questão (https://bit.ly/4bwuBOx)
foi transcrito na decisão do ministro Alexandre
de Moraes, Relator do Inquérito no Supremo
Tribunal Federal, que autorizou a operação.

https://www.cartacapital.com.br/politica/gravacao-mostra-heleno-propondo-golpe-em-reuniao-com-bolsonaro-leia-a-transcricao-do-encontro/

Segundo informações expostas da decisão de Alexandre de Moraes
que autorizou a operação desta quinta, a investigação da Polícia Federal
revela que a tentativa de golpe envolveu seis núcleos de atuação,
alguns deles já conhecidos.

Outros núcleos, porém, só tiveram sua atuação revelada agora e,
segundo a PF, envolveriam militares de alta patente e ex-ministros
militares do círculo de confiança do então Presidente Jair Bolsonaro.

Segundo a PF, os oficiais de alta patente “agiram para influenciar
e incitar apoio aos demais núcleos de atuação por meio do endosso
de ações e medidas a serem adotadas para consumação do golpe
de Estado”, formando assim um núcleo próprio que teria apoiado
outros núcleos.

Além do General Augusto Heleno (GSI), também integram a lista
de alvos de ações da PF desta quinta-feira, os seguintes GENERAIS:
– Walter Braga Netto (Casa Civil);
– Paulo Sérgio Nogueira (Defesa);
– Estevam Theophilo Gaspar de Oliviera (Comandante de Operações Terrestres do Exército).

Dentre esses Oficiais de Alta Patente das Forças Armadas,
o ex-Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra, Almir
Garnier, também integra o Núcleo MIlitar.

A PF registra, ainda conforme a decisão de Moraes, que a gravação
da reunião comprova a dinâmica da tentativa de um golpe de Estado.

A corporação diz ainda que todos os envolvidos atuavam para “validar
e amplificar a massiva desinformação e as narrativas fraudulentas
sobre as eleições e a Justiça eleitoral”.

Ao todo, foram 33 (trinta e três) mandados de busca e apreensão
e 4 (quatro) de prisão preventiva expedidos.

Destes, três alvos já foram presos, entre os quais está Filipe Martins, Assessor Direto de Bolsonaro.

O ex-capitão também foi alvo de medidas judiciais restritivas, como
a Entrega de Passaporte, ficando portanto impedido de viajar para
fora do Brasil, legalmente.

https://www.brasildefato.com.br/2024/02/08/operacao-expoe-plano-para-unir-militares-prender-pacheco-e-ministros-do-stf-e-incitar-golpe
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Notícias STF

“STF Torna Públicas as Decisões Sobre
Operação que Investiga Golpe de Estado”

A pedido da PF e com parecer favorável da PGR,
ministro Alexandre de Moraes decretou prisão
preventiva de quatro pessoas, além de busca
e apreensão em relação a outros investigados;
proibição de sair do país;
e de se comunicar com os demais suspeitos.

Segundo a Polícia Federal, seis núcleos de atuação
disseminavam a narrativa de ocorrência de fraude
nas eleições presidenciais, antes mesmo da realização
do pleito de 2022, para viabilizar uma intervenção
das Forças Armadas [nas Instituições do País].

Os 6 (seis) Núcleos seriam os seguintes:

1) Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral;

2) Incitação de Militares a Aderirem ao Golpe de Estado;

3) Jurídico;

4) Operacional de Apoio às Ações Golpistas;

5) Inteligência Paralela; e

6) Oficiais de Alta Patente com Iinfluência e Apoio a Outros Grupos Golpistas.

Íntegra da Decisão do Ministro Alexandre de Moraes,
Relator do Inquérito STF 4.784/DF (Pet 10405/DF)
em Trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF):

https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/PET12100Deciso.pdf

Reportagem do STF e links para as Últimas Decisões em:

https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=526568&ori=1

Zé Maria

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Espera-se que não haja Vazamentos
Seletivos à Imprensa Lavajatista
nesta Operação da Polícia Federal.

Aliás, toda Revelação de Informação
Sigilosa por Agente Público é ilegal.

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