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Diário da Resistência


José do Vale: A próxima grande fome virá pela guerra?
Fotos: RT.Com, reprodução e Mark Garten/ONU
Política

José do Vale: A próxima grande fome virá pela guerra?


14/05/2022 - 22h14

A GRANDE FOME VIRÁ PELA GUERRA?

Por José do Vale Pinheiro Feitosa*, especial para o Viomundo

Neste sábado, 14-05, a narrativa sobre as ameaças de uma grande fome global teve um lance acusatório da ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, logo após uma reunião do G7:

“Há uma ameaça de fome brutal. A Rússia tomou uma decisão consciente de transformar a guerra contra a Ucrânia em uma ‘guerra de grãos. A disparada dos preços dos alimentos em todo o mundo é o resultado da Rússia perseguir uma estratégia de guerra híbrida”.

A ministra alemã completou com o grande tema da atualidade, as guerras híbridas, tão conhecidas nos EUA e na Europa:

“Não devemos ser ingênuos sobre isso. Não é um dano colateral, é um instrumento perfeitamente deliberado em uma guerra híbrida que está sendo travada atualmente”.

Imediatamente, a porta-voz do Ministério da Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, rebateu:

“Os preços estão subindo devido às sanções impostas pelo Ocidente coletivo sob pressão dos Estados Unidos. Isto é, se falarmos sobre a razão direta. Não entender isso é um sinal de estupidez ou engano deliberado do público”.

Independentemente do ângulo se avalie esse “pingue-pingue, é um quadro momentâneo de algo bem maior, as  transformações mundiais profundas.

Este quadro, nesta data, é essencialmente de lutas de forças contrárias expressas em diversas formas da organização política: partidos, associações, estados nacionais, organizações internacionais, forças de dissuasão pela violência.

Os componentes mais evidentes da civilização capitalista globalizada estão agitados.

Por exemplo, a moeda de troca, a cultura, o consumo, a religiosidade, a ciência e tecnologia aplicada, além de reservas tangíveis (do conhecimento e fontes materiais de matérias primas, solo, água e espaço).

A rigor tais componentes não conseguem formar concentrações estáveis capazes de sustentar o dia a dia nem planejar o futuro com alguma previsão.

Aqui, no Brasil, o bolsonarismo expressa muito bem essa agitação difusa, cujas palavras de ordem são planas como a terra e negacionistas como a inquisição medieval.

Nessa fase de transformações, as famosas “relações internacionais baseadas em regras” se fragmentam e estão longe de atingir consensos, até mesmo para cuidar dos problemas de saúde pública.

Aliás, o último “consenso” foi imposto por Washington e redundou no neoliberalismo.

E o neoliberalismo é a própria crise a provocar as tais transformações.

Quem acompanha as mídias hegemônicas tem percebido que o Ocidente achou um argumento principal para explicar inúmeras coisas que já estavam presentes antes.

Peguemos o caso da invasão da Ucrânia pela Rússia.

A situação dramática dos deslocamentos internos e de refugiados decorrentes das guerras não começaram agora.

Tivemos, por exemplo, o genocídio em Ruanda, as guerras na Iugoslávia, Iraque, Líbia, Afeganistão e Síria.

Além da destruição física das estruturas de vida das populações desses países, milhares de pessoas morreram devido a bombardeios e ações armadas.

Nesses países, grandes contingentes de refugiados e populações se deslocaram internamente.

Em 2008, o planeta foi atingido pela crise decorrente dos “subprimes” americanos.

A crise foi mundial.

Lamentavelmente, 12 anos depois o balanço é catastrófico: a economia continua instável, não consegue crescimento inerente ao modelo capitalista de produção, gerando desarranjos locais e insuficiências globais.

Inevitavelmente, grandes abalos modificam enormes arranjos.

Por exemplo, a crise e dissolução da União Soviética provocaram enorme impacto social nos países que a integravam. A saúde pública deteriorou-se a tal ponto que, doenças até então controladas como a tuberculose, passaram a aumentar nessas populações.

Neste momento, a governança global está muito difícil. A Organização das Nações Unidas (ONU) e os diversos mecanismos multilaterais são alvos de questionamentos. A visita do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, à Ucrânia e à Rússia não logrou resultados consistentes.

Neste contexto, toda regra para a governança global é resultado da imposição de privilégios de uma minoria sobre a esmagadora maioria da população.

Isso é quase ontológico. Em sociedades cuja maior parte das decisões econômicas se concentra na mão de 1% da população, nada é mais do que privilégio de classe.

É privilégio indutor de regras, como por exemplo medidas para controlar a covid-19.

A minoria privilegiada não quer perder ganhos para criar uma sociedade mais dedicada a sustentar e salvar a vida de todos.

Tanto que, ao abrir sites e blogs do Ocidente, encontramos enorme ressentimento de seus autores com o isolamento social para controlar a pandemia.

Os movimentos neofascistas e anti-establishiment fizeram duras manifestações na Europa, nos EUA e Brasil contra as medidas de isolamento e a vacinação obrigatória.

Isso refletindo a regra da liberdade individual como anterior a qualquer realidade complexa de populações concentradas em megalópoles e dependentes da cadeia de trabalho e renda monetária.

A covid-19 revelou enormes diferenças entre os países no modo de enfrentá-la.

Destaca-se a falência ocidental, em especial dos EUA e do Brasil (com, respectivamente, 3.064 e 3.084 mortes por um milhão de habitantes), em comparação com as taxas da China e Índia.

A China teve 4 mortes por milhão e a Índia, 373 mortes por milhão, segundo dados do site Worldometer.

Neste momento, principalmente na Europa e nos EUA, há uma gritaria tentando açular os países mais empobrecidos para o risco de uma grande fome e da falência dos estados nacionais em decorrência da guerra da Ucrânia.

Claro que o peso do comércio de cereais pela Rússia e a Ucrânia é significativo, mas a causa da fome não é apenas deles.

Nem são os únicos produtores de alimentos do mundo, uma vez concentrados em trigo e sementes de girassol.

Este tipo de comportamento é típico de insuficiências históricas e de capacidade de realizar a história segundo os desafios postos.

Estamos enfrentando grandes transformações. E um dos fatores que se somará à pandemia de covid-19, às crises financeiras, aos desafios da ordem mundial, certamente é a guerra da Ucrânia, que tem forte componente de conflito entre os Estados Unidos/Europa Ocidental contra a Rússia e a China.

*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista





3 comentários

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marcio gaúcho

15 de maio de 2022 às 16h21

Nunca é demais lembrar os QUATRO CAVALEIROS DO APOCALISPE, que são: a PESTE, a GUERRA, a FOME e a MISÉRIA. Creio que a cavalhada está em movimento para transformar o planeta, através do sofrimento e da desgraça.

Responder

    Zé Maria

    15 de maio de 2022 às 22h35

    E todos conduzem à MORTE.

marcio gaúcho

15 de maio de 2022 às 16h18

Nunca é demais lembrar os

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