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José Dirceu: Estamos, de novo, às portas de mais uma ditadura militar; só não vê, quem não quer
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Política

José Dirceu: Estamos, de novo, às portas de mais uma ditadura militar; só não vê, quem não quer


18/02/2020 - 12h32

Às portas da ditadura

A gravidade da situação política do país está escancarada. Só não vê quem não quer. Estamos, novamente, sob a ameaça de uma ditadura militar

por José Dirceu, em Metrópoles, via A terra é redonda

A militarização do governo Bolsonaro com as últimas indicações para a Casa Civil e a Secretaria de Assuntos Estratégicos tem raízes em nossa história recente e no passado.

O general Braga Netto era chefe do Estado-Maior do Exército, o mesmo que no julgamento do habeas corpus de Lula publicou uma foto da reunião de emergência convocada pelo comandante do Exército Eduardo Villas Bôas para, numa aberta e flagrante violação da Constituição, ordenar – isso mesmo – ao STF que não ousasse conceder Habeas Corpus a Lula.

Villas Bôas fez a mesma ameaça via Twitter, o que teria levado à sua prisão imediata em qualquer democracia.

Ali se restabeleceu a tutela militar sobre o poder civil, que estava adormecida no artigo da Constituição Federal que trata das Forças Armadas como garantidora da Lei e da Ordem, a famosa GLO, uma espada de Dâmocles sobre nossa democracia.

Não é de hoje que os militares são uma força política no Brasil.

Fizeram a República; se levantaram logo contra ela na Revolta da Armada; na década de 1920 os tenentes se levantaram várias vezes em rebeliões e insurreições nos quartéis, com dezenas de mortos e feridos, até o triunfo da revolução de 1930, na qual os militares e os tenentes foram a força principal.

Getúlio Vargas governou até 1934, quando, após derrotar a revolta paulista separatista disfarçada de defesa de uma Constituinte, o país ganhou uma Constituição, rasgada em 1937 pelo Estado-Maior do Exército e Getúlio.

Foi substituída pela famosa Polaca, redigida por Francisco Campos, sob o comando do general Góis Monteiro, o chefe do Exército, cópia da Constituição imposta na Polônia pelo ditador Pilziuskque.

O Estado Novo durou até a deposição de Getúlio, em 1945. O presidente eleito, em 1946, Eurico Gaspar Dutra, ex-chefe do Exército, fez um governo reacionário, religioso, pró-Estados Unidos, repressivo aos trabalhadores e à esquerda.

Inconformados com a volta de Getúlio, eleito em 1950, e do seu PTB, partes importantes do Exército e da Marinha e Aeronáutica iniciam uma série de tentativas de golpes de Estado, ou o não reconhecimento dos resultados eleitorais, com a tese da maioria absoluta.

Organizam-se, em 1955, para impedir a posse de JK (Juscelino Kubitschek), com dois levantamentos militares, Jacareacanga e Aragarças.

JK debela as tentativas de intervenção, mas lhes concede anistia. Depois da renúncia de Jânio, dão um golpe, paralisado pela resistência de Leonel Brizola e a divisão do Exército, como em 1955, quando o marechal Henrique Teixeira Lott por meio de um contragolpe assegurou a posse de JK.

Hoje, 1964 é história, mas durou até 1985.

Os militares sempre foram uma força política a serviço das elites conservadoras e pró-Estados Unidos, sem contar a vergonhosa divisão antes da 2ª Guerra entre germanistas – fascistas, lógico – e pró-aliados.

Em 1964, o Brasil se alinhou totalmente aos Estados Unidos, mandando até tropas para a invasão imperialista da República Dominicana para sufocar uma rebelião popular democrática, sempre apoiando as elites agrárias e de direita sob o manto da luta contra o comunismo.

A Constituição de 1988 poderia ter posto um fim nisso, mas não o fez, conciliou com as Forças Armadas e o resultado agora nos assombra.

Eles estão de volta com Bolsonaro, hibernaram 30 anos nas escolas militares e na não submissão do poder militar ao civil.

Apesar do comando civil do Ministério da Defesa, ao qual estão subordinados os ministérios militares, nunca o poder civil decidiu a política militar no Brasil e jamais eles, os militares, aceitaram o presidente da República como comandante em chefe das Forças Armadas.

Controlam o orçamento, as promoções, as prioridades da defesa nacional e de sua indústria, seus planos de armamento.

E com a nova reforma da Previdência deles mesmos, votada apenas nas comissões do Congresso, se tornaram uma casta.

A gravidade da situação política do país está escancarada. Só não vê quem não quer.

Estamos, novamente, sob a ameaça de uma ditadura militar, e fatos como a execução, comandada por Ronnie Lessa, da vereadora Marielle Franco e, agora, no outro polo, a queima de arquivo com a execução do outro suspeito de envolvimento no assassinato, chefe dos milicianos, Adriano da Nóbrega, ambos com ligações mais do que provadas com a família do presidente, só comprovam a que ponto chegamos.

Não se trata mais do risco do autoritarismo, mas da face oculta de todas as ditaduras, a violência acobertada pelo Estado ou por ele promovida.

As impressões digitais são a prova que vivemos de novo às portas de uma nova ditadura. Aos poucos, vamos nos dando conta como nos custará caro ter anistiado os crimes da ditadura.

*José Dirceu foi chefe da Casa Civil no governo Lula.



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5 comentários

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LULIPE

20 de fevereiro de 2020 às 11h02

Em qualquer país sério esse aí estaria mofando na cadeia…

Responder

    Eridan

    20 de fevereiro de 2020 às 15h13

    Em um país sério teríamos menos gado.

    obriGADO.

Zé Maria

18 de fevereiro de 2020 às 22h27

Uma Mostra da Técnica de Manipulação da Mídia Fasci-Paulista Antipetista que contribuiu para trazer o Brasil
a esta Ditadura Nazista que se apresenta à População Brasileira
com Jair Bolsonaro e as Milícias Militares Poder.
Aliás, uma Colaboração Prestimosa de Lacerdas Cínicos com o Fascismo, que depois foram Descartados pelo Arbítrio e a Censura – que ajudaram a erguer no País – e agora posam de Madalenas Arrependidas.
https://youtu.be/EvDarRQ18fg

“Justiça Federal ABSOLVE ex-Prefeito de São Bernardo do Campo,
Luiz Marinho – DO PT – e todo o seu Governo, da [falsa] acusação do MP-SP sobre fraudes no Museu do Trabalhador”

Reportagem:
Glauco Araújo e Wallace Lara,
G1 SP e TV Globo — São Paulo
17/02/2020 18h22

Responder

Eduardo

18 de fevereiro de 2020 às 15h59

Bolsonaro não só vê como trabalha fortemente para que isso ocorra! Bolsonarao é um agente que arriscou se eleger, para que a ditadura que nunca esqueceu tivesse apoio no meio popular, exatamente como o golpe articulado em 1964. E teve sucesso parcial, foi eleito vejam só, isso ê apoio maior que o fórceps de 1964. Bolsonaro sabe que não é capaz, mas foi oportunista! E como? Nunca, jamais a qualquer tempo seria votado e eleito Presidente! Ele sabe que é um aborto, produto de crimes, decepções , desgosto de uma população idiota enganada e de uma elite tosca, burra e altamente desonesta é desumana. O circo está montado! As ruas estão vazias, os decentes estão com medo e escondidos pois já conhecem os desdobramentos de governo ditatorial Falta Presidente da República, falta decência, é hora do oportunismo, da ilusão, da enganação, Caro Dirceu, já não se fazem jovens como voçê!

Responder

Zé Maria

18 de fevereiro de 2020 às 15h24

Zé Dirdeu sempre preciso nas Análises Políticas.
Fica apenas uma dúvida:
se foi realmente o ex-PM Ronnie Lessa, vizinho
de Jair Bolsonaro no Condomínio “Vivendas da
Barra” [Pesada], o Comandante da Execução
Brutal de Marielle Franco, Vereadora do PSoL/RJ.
Afinal, até hoje não ficou cabalmente esclarecido
“Quem mandou matar Marielle”, e seu Motorista
Anderson Gomes que, sob a ótica da Milícia, ficou
por conta de ‘Dano Colateral’.
Quem efetivamente comanda os Esquadrões da
Morte (Grupos de Extermínio) no Rio de Janeiro?

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