VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Jorge Souto Maior: Passe Livre e o direito de ir e vir


11/06/2013 - 18h18

Faixa na Ponte Estaiada, em São Paulo. Foto: Movimento Passe Livre

por Jorge Luiz Souto Maior

O Movimento Passe Livre está em luta, mediante passeatas e mobilizações, contra o recente aumento das tarifas do transporte público, preconizando, na verdade, a gratuidade do transporte. As recentes mobilizações em São Paulo atraíram manifestações contrárias aos efeitos que as mobilizações geraram sobre o trânsito, saindo-se em defesa do “direito de ir e vir” das pessoas que se sentiram “prejudicadas” pelas paralisações. Pessoas que, como se diz, queriam chegar em suas casas.

É interessante perceber, no entanto, que o direito de ir e vir dessas pessoas, considerando a realidade do trânsito de São Paulo, já não tem sido, de fato, respeitado há muito tempo, sobretudo nos denominados “horários de pico”, cuja definição está cada vez mais ampliada. São Paulo é a cidade que “não pode parar”, mas que carrega a contradição de não conseguir andar.

Com as mobilizações, o exercício desse direito, obviamente, fica ainda mais obstruído, mas há de se perceber que, ao menos do ponto de vista do percurso pelas vias automotivas, o tal direito de ir e vir já é bastante limitado e o é exatamente pela ausência de uma política em torno da essencialidade do transporte público.

As pessoas em seus automóveis (quase sempre uma em cada carro – e dentre elas, eu) atolam o cenário urbano e inviabilizam, mutuamente, o seu direito de ir e vir e quando se posicionam contra as mobilizações (não eu, dentre elas) daqueles que alertam os entes públicos sobre a relevância do tema, acabam, indiretamente, alimentando a lógica que suprime o próprio direito defendido.

Na perspectiva das preocupações individualistas, não há reação contra o caos do trânsito na cidade de São Paulo, que serve, inclusive, como materialização de crimes de toda ordem, advindos de assaltos ou de stress.

Os prisioneiros do trânsito são pessoas acomodadas e que buscam individualmente, quase sempre sem sucesso, a sua solução, um caminho alternativo, que alimentam a lógica de que o outro carro é seu concorrente, algo que pode inviabilizar o seu projeto, e que se veem, inclusive, dispostas a entrar em confronto com o anônimo que esteja na condução do outro veículo (e a loucura do mundo individualista e egoísta se concretiza).

Esse “projeto” individual, por evidente, é limitado e ineficaz.

O Movimento Passe Livre tem o mérito, portanto, de nos forçar a colocar a questão do transporte público em pauta, para que todos tenham, de fato, o direito de ir e vir.

Nesta linha da visualização social, é importante perceber que, mesmo considerando todas as dificuldades, facilmente verificáveis nas vias da cidade, a saída do transporte privado (cada um em seu carro, buscando caminhos alternativos), ainda é melhor – muito melhor – que o transporte público, o que nos força a reconhecer que o direito de ir e vir daqueles que, em virtude do desenvolvimento de um processo excludente advindo da desequilibrada divisão do trabalho e da especulação imobiliária, foram deslocados para periferias distantes e que dependem de transporte público tem sido ainda mais agredido: é fila no ponto; é ônibus que não para; é fila no trem; é trem que não chega; são ônibus e trens lotados, nos quais, durante as longas viagens, se intensifica a supressão da dignidade humana.

Já passou da hora, portanto, de sair de dentro do conforto do carro (mesmo com o sufoco do trânsito), de deixar de pensar no aconchego do lar e de começar a olhar para aqueles que dependem de transporte público neste país, percebendo, assim, que pouco importa querer exercer o direito de ir e vir se não for possível garanti-lo a todos.

É essencial compreender que o transporte público gratuito é um direito da cidadania, até como forma de tornar efetivo o direito de ir e vir, aclamado por aqueles que se sentem agredidos pelas mobilizações do Passe Livre.

O fato concreto é que trabalhadores (incluindo domésticas, terceirizados, aposentados, pensionistas e precarizados em geral), estudantes, desempregados e segmentos excluídos da sociedade não têm como exercer o seu direito de ir e vir se tiverem que pagar pelo transporte. Ademais, como dito, o investimento efetivo em transporte público é a única saída para a reconstrução do espaço urbano e da própria vida social.

Interessante perceber que a gratuidade do transporte público atende, inclusive, uma reivindicação recorrente do empresariado brasileiro em torno da desoneração da folha de pagamento, vez que muitos empregadores acabam sendo obrigados a suportar esse custo com relação a seus empregados.

Alguns dizem que a gratuidade do transporte público é uma utopia, que não vai ocorrer. Esse argumento seria relevante se vivenciássemos uma sociedade próxima do que se poderia considerar ideal. Mas, como é fácil perceber, estamos muito longe disso e considerando que tanto o ser humano quanto à sociedade são projetos inacabados e em constante construção, sendo que a evolução da humanidade é até mesmo inevitável, acreditar no advento do passe livre, que é um passo importante e ao mesmo tempo não só possível como necessário, acaba sendo um alvo bastante singelo diante das transformações que devem vir – e virão – para a consagração de uma sociedade efetivamente justa, igualitária e humana.

Jorge Luiz Souto Maior é professor livre-docente da Faculdade de Direito da USP

Leia também:

Lincoln Secco: Anatomia do Movimento Passe Livre





24 comentários

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JASON RIVERA

17 de junho de 2013 às 13h36

ESSA E´ A EXENCIA DO MOVIMENTO DIALE´TICO HUMANO ,AS VESES BOM ,POREM AS VESES MAL,NAO REMEDIAR COM RELIGIAO OU PISICANALISE ,MA FE´ETC .TRANSFORMAR ESSE MAL EM ALGO POSITIVO CRI´TICO NAO EM FALSA PAZ .SE VOCE QUER PAZ PREPARETE PARA GUERRA.O HOMEM PRATICO NUNCA ENTENDERA´ ISSO ´SE NAO SE SUPERAR MENTALMENTE .ESSA E A LEI DA VIDA .O SER CONTRA O NAO SER.

Responder

    Conceição Lemes

    17 de junho de 2013 às 13h45

    Jason, nós preferimos letras minúsculas nos comentários. abs

Luiz Phelipe

17 de junho de 2013 às 11h19

Caro Tiago,

Não pude responder diretamente após o seu texto, acho que extrapolamos o limite(?) de respostas, então espero que encontre o meu post aqui, mais pra baixo.

Os questionamentos e a argumentação do movimento talvez não estejam exatamente ajustados, você tem razão que a discussão pode ter outros caminhos e que o risco da manipulação partidária (com aspiração em questionamentos genéricos sobre capitalismo) e perigosa e às vezes não muito pragmática.

Agradeço o tempo dispensado para o que vou chamar de “conversa”. Aprendemos um com o outro e o bacana é que (e assim eu espero) ambos estaremos nas ruas. A pauta sobressaiu ao transporte coletivo (assim como no chamado “primavera árabe” que também existiram estopins)e ganhou uma força maior, por um problema maior, mais generalizado.

Enfim, da luta não nos retiremos.

Um abraço!

Responder

Igor Felippe: A metamorfose de um protesto de jovens em ato de vandalismo - Viomundo - O que você não vê na mídia

13 de junho de 2013 às 15h13

[…] Jorge Souto Maior: Passe Livre e o direito de ir e vir […]

Responder

Fabio Passos

12 de junho de 2013 às 21h24

Tascar imposto na ricaiada branca pra subsidiar transporte publico barato (ou ate de graca) com qualidade e uma otima proposta.

Se ao inves de destruir onibus que transporta pobre, destruirem carrao importado de ricaco e veiculos da midia-burguesa, o manifestantes podem contar com minha solidariedade e apoio.

O povo sofre muito neste regime dominado pela burguesia.
O transporte publico nos grandes centros urbanos do Brasil e uma josta.
Detonar objetos inanimados da infima minoria rica e justificavel.

Responder

Tiago

12 de junho de 2013 às 12h48

Um texto bastante lúcido e sensato.

Porém, sobre o “movimento”…penso que seria mais razoável manifestações a favor da qualidade do transporte, da construção de corredores de ônibus, de exigir foco do poder público ao transporte coletivo como solução para o caos do trânsito.

Li uma entrevista de um integrante do movimento, que afirmou “essa tarifa é um assalto pelo lixo que são os ônibus”. Ok. E se a tarifa fosse gratuita, que é o objetivo primário do “movimento”, não faria diferença então que os ônibus fossem “um lixo”?

Mas não me admira que a qualidade e a necessidade de mais transporte público não sejam o foco dos manifestantes, afinal, quantos deles necessitam e utilizam ônibus? Arrisco dizer que NENHUM!

Leio no site do movimento e comentários de apoiadores defendendo a viabilidade da tarifa gratuita aumentando impostos da “propriedade privada”. Que o uso do carro é um “luxo”, é “status”. É o bom e velho discurso da esquerda…do século 19.

O trabalhador, que comprou um carro com o seu salário (não ganhou do papai nem da mamae!), é demonizado, pois é um “individualista”…

O Kassab inaugurou aqueles novos pontos de ônibus ridículos que foram ampliados pelo Haddad. Ouve algum protesto dos nossos queridos “revolucionários”? Não…talvez os “manifestantes” não precisem se dar ao trabalho de ficar embaixo de um deles esperando ônibus.

Haddad recentemente ampliou o número de passageiros permitido para cada tipo de ônibus na cidade (microônibus, articulo, etc), sem ampliar as dimensões dos ônibus. Ou seja, tornou a lotação dos ônibus uma coisa oficial, um verdadeiro tapa na cara da população…ouve alguns protesto dos nossos “revoltados”? Não…talvez eles não precisem passar horas esmagados dentro do ônibus, afinal, o papai ou a mamãe podem dar uma carona, ou os mais generosos, até presentar com um carrinho os nossos “revolucionários”.

Queria entender como a tarifa gratuita aumentaria magicamente a qualidade do transporte ou ampliaria magicamente os corredores dos ônibus.

É triste.

Em tempo, uso ônibus diariamente e não tenho carro.

Responder

    Felix

    12 de junho de 2013 às 19h08

    eu DUVIDO que você use onibus.
    DUVIDO disso com a mesma certeza com a qual você DUVIDA que os manifestantes não usam.

    Tiago

    13 de junho de 2013 às 14h25

    Prezado Felix, bem que eu gostaria de não usar ônibus…mas não tenho carro e nem sei como dirigir um (não tenho carta).

    Por volta das 06:30 da manhã, pego um ônibus do meu bairro (prox. à rod. Raposo Tavares) até o bairro de Pinheiros.

    Depois, por volta das 09:00, pego um ônibus em Pinheiros até a av. Nove de Julho.

    À noite, por volta das 19:00, volto pra casa, pegando ônibus na mesma Nove de Julho rumo à rod. Raposo Tavares.

    Nos meus comentários aparece a minha foto. Se quiser tirar a prova e me encontrar algum dia nesses ônibus, por favor, não deixe de me cumprimentar para conversarmos um pouco. :)

    Luiz Phelipe

    13 de junho de 2013 às 15h40

    Tiago,

    Você me parece uma pessoa capaz de construir uma crítica, mas não consigo compreender em que se fundamenta a sua “indignação” quanto a presença de indivíduos que não utilizam transporte público junto ao protesto. Você coloca como algo que deslegitima o movimento e o antagonismo da nossa opinião chega a me vibrar o sangue(!), pois muito diferente do que você expõe, vislumbro que eles inflam, dão força e voz ao movimento, ao passo que ratificam o ideal de que a crítica é ampla e não preconiza interesses mínimos e particulares.

    O viés do movimento social se consolida na socialização das causa, numa construção coletiva que observa menos o “eu” e enxerga o nós. Se o transporte coletivo é ruim e caro, o reflexo é no bolso de quem anda, mas o problema é no Estado/país de quem mora.

    Residualmente, faço outras (menores) críticas. A começar que a sua premissa sobre o valor da passagem e a qualidade do ônibus é quase tautológica!!! Quando o manifestante diz que o preço não condiz com a estrutura, a frase dele não tem a ambivalência de afirmar que com a tarifa zero a precariedade se justifica. Essa interpretação é sua, as palavras também. Há uma presunção LÓGICA de que a prestação de um serviço deve ter consonância com o que lhe é cobrado. Mais qualidade, maior custeio, mais caro, correto? Aumentar o preço e melhorar a estrutura é uma argumentação válida (embora não inquestionável, sobretudo quanto a acessibilidade e a finalidade do T.C.). Já o ideal da tarifa zero, defende uma ótica onde o custeio do transporte seria uma responsabilidade do ente público. Se o Estado se ocupa da titularidade da oferta de um serviço existem duas premissas necessárias; 1. uma é a de que cobrar passagem pelo uso é impensável, tendo em vista que o Estado arca com todas as suas atribuições através da carga tributária (com exceção de atividades excepcionais que são tarifadas como SUBSÍDIO da execução, não custeio); 2. Se ele se obriga a oferecer, deve fazê-lo com qualidade e eficiência (além dos princípios mínimos da administração), independente do valor (e da existência de taxa). Lembrando que esse modelo de titularidade é o defendido, mas não o que vigora (que é particular, mediante algum tipo de concessão etc).

    O mínimo que consegui concordar com você, é sobre a crítica generalizada que se faz contra quem, por exemplo, possui um carro. Mas nem vou adentrar nessa minúcia, acredito ser de cunho bem mais ideológico que pragmático.

    Saber que você utiliza o transporte coletivo e define os manifestantes como “revoltados” é deprimente. Profundamente entristecedor a visão distorcida e precipitada que você alimenta contra pessoas que estão lutando por uma realidade que diretamente irá atingi-lo. Há uma inquietação na figura pública, há o despertar de uma sensação de que as medidas políticas hão que ser dosadas, pois a submissão popular vai se sucumbindo aos poucos e pessoas que se posicionam da maneira que o faz, desaceleram esse movimento, mas não o inviabilizam, quer você concorde ou não. Não sei dizer se feliz ou infelizmente, mas os beneficiários desse momento, somos eu, eles e você.

    É inteligente o suficiente para saber que ninguém defende mudanças mágicas e eu me sinto na sensatez suficiente de não desperdiçar o meu tempo explicando isso pra você.

    Sei que existem caminhos que garantem essa mudança, então pesquise sobre.

    Tiago

    13 de junho de 2013 às 23h12

    Colega Luiz Phelipe,

    Realmente, beira o insuportável pra mim a presença de pessoas que nunca utilizaram um tranporte público na vida encabeçando esse movimento. E explico meus motivos.

    Eu me considero de esquerda, como a maioria dos colegas aqui. Eu acredito no anarquismo, sempre acreditei. Para o anarquismo, só existe uma única força que possa ser chamada de revolucionária: o povo. As multidões, as massas. Só através delas é possível alcançar alguma transformação que as beneficie. E, sim, “povo” aqui significa os pobres, os explorados, os excluídos, os que sofrem com as botas do poder. A esquerda tem o costume de resgatar seus grandes líderes históricos e manter a lembrança do momento das grandes revoluções. Reparo que, todos esses líderes em todos esses momentos históricos, se esforçaram para levar o povo ao levante (em menor ou maior grau). Até mesmo Lênin, figura que pessoalmente abomino, defendia que o papel de intelectuais burgueses nas revoluções era trazer idéias políticas para os movimentos, mas a condução da transformação se daria através do povo (depois ele se esqueceu disso, mas é outra história, hehe).

    Isto posto, sim, eu também “vibro meu sangue” ao ver esses indivíduos, jovens “antenados” das mais altas classes de São Paulo, da elite dos colégios particulares, das nossa USP tão notória por seus alunos playboys, encabeçando o movimento e sendo maioria esmagadora dentro dele.

    Eu não sou um deles. Eles não são um dos meus. Eles podem ser muitas coisas…mas “o povo”? Esses caras são “o povo”? NUNCA. Não são. NENHUM deles tem legimitidade para querer defender “o povo”, ou falar em nome “da população”. Nenhum deles.

    Isso deslegitima o movimento? A meu ver, não. Eu sou a favor de qualquer movimento social que de alguma forma proponha a subversão, proponha alternativas ao modelo que aí está. Dessa forma, o movimento tem seu mérito, e no mínimo estimula o debate. Mas que eles digam o que são. Porque “o povo” é que não é.

    Você poderia argumentar sobre a “socialização da causa”, a “construção coletiva que observa menos o eu e enxerga o nós”. Ok. Mas eles não estão entre nós, não são um de nós, o povo. E só o povo é capaz de conduzir qualquer transformação que o beneficie.

    Você comentou que a minha colocação sobre o valor/qualidade é tautológica. Será mesmo? Vejam o modelo que o movimento sugere como exemplo, saúde e educação. “Se a saúde e educação são gratuitos porque o transporte não?”. Ora, não há qualidade em nenhum desses serviços em cuja gratuidade o movimento se inspira, mas isso não parece incomodá-los (talvez porque, além de não usarem ônibus, não estudaram em escola pública nem usam hospital público). Mas ok, vou considerar que isso está implícito no caso do Estado oferecer o serviço, como você disse. Porém, assim como na saúde e educação, há diversos outros serviços públicos gratuitos e péssimos, e não vejo porque o transporte público seria diferente. O que eu comentei a respeito da qualidade é com foco no curto prazo; o movimento quer “revogação do aumento já” ou “tarifa zero já”, e o já é HOJE mesmo. Eu preferia “qualidade já”, “corredores de ônibus já”…seria uma vitória muito maior…será mesmo que o movimento não defende “soluções mágicas”?

    Você diz que “há uma inquietação da figura pública, há o despertar de uma sensação de que as medidas políticas hão que ser dosadas, pois a submissão popular vai se sucumbindo aos poucos”. Se por “figura pública” você se refere à nossa elite revolucionária da classe A…então repito tudo o que escrevi nos primeiros parágrafos. Eu também me entristeço em chamar esses indivíduos por “revoltados” de uma forma irônica; a revolta é algo lindo, é a mola transformadora, é a insatisfação com algo, que nos leva às soluções. Eu queria poder chamar os colegas desse movimento de revoltados, assim, sem aspas. Mas não consigo, não ainda.

    A submissão popular está longe de terminar, e penso que o melhor caminho que temos é trazer as pessoas, o povo, para as lutas e causas justas. Vai demorar, muito. Mas a alternativa é esta aí: pessoas que não tem nenhuma identificação com as camadas populares criando seus movimentos (o que é válido) e gritando que são “o povo” (o que é mentira)

    “Nenhuma revolução social pode triunfar se não for precedida de uma revolução nas mentes e nos corações do povo.” (Piotr Kropotkin, pensador anarquista)

    Com todo o respeito, às suas opiniões. Saudações.

    Luiz Phelipe

    14 de junho de 2013 às 15h54

    Tiago,

    A priori quero apontar que embora a minha abordagem tenha sido áspera, pela efervescência que o tema suscita, não quis desrespeitá-lo, embora talvez tenha refletido assim em alguns pontos e pode tornar a acontecer.

    Eu tomo a liberdade de dizer que você está errado quando diz que as lideranças não usam o transporte. Quem fomentou, desde o início, foram os usuários sim! Tenho conhecidos ali e sei. Algumas pessoas que não utilizam o transporte fazem parte do GRUPO que deu continuidade ao processo (mais do ponto de vista logístico que “hierárquico”). Há diferença, certo?

    Mesmo assim, ainda que “líderes” fossem “não-usuários”, continuo não compreender e não concordar com nem uma vírgula quanto ao “erro” dessas pessoas estarem lá. REITERO: O viés do movimento social se consolida na SOCIALIZAÇÃO DAS CAUSAS, numa construção COLETIVA. O apoio e a participação de TODA a sociedade, é fundamental para concretizar as consequências que ela visa. TODOS os momentos históricos de subversão, de dominação de autoridades sobre determinados grupos só se perpetuaram porque a “sociedade” não alcançada pela opressão desses “líderes” era conivente e omissa. TODOS os processos de integração, de incorporação de grupos discriminados, que eu conheço, eclodiram com a inquietude TAMBÉM daqueles que não eram dominados. Não vamos discutir se eles se denominam povo ou se eles se denominam classe média, porque esse discurso não reflete os frutos a serem colhidos pelo movimento. É absolutamente contraditório arguir que paira sobre o país uma discriminação social contra o pobre (que é uma verdade, ÓBVIO), ao passo que discriminamos quem não é pobre, mas está ali, fazendo questão de que quem é, deixe de sê-lo ou tenha tratamento mais digno. Eu tenho asco do discurso ortodoxo e generalizado da luta de classes em todo e qualquer contexto. Existem sim duas classes em confronto: o povo (cidadão, eleitor, contribuinte… Não apenas quem utiliza transporte coletivo e estuda em escola pública) contra os governantes. A esquerda (tradicional) reacionária que conserva os ideias clássicos dos estritos moldes marxistas precisa se atentar às aspirações atuais! Não quero que ninguém mude de inspiração filosófica, mas que não caiam no erro do anacronismo, e que tenham a sensibilidade de observar que as sociedades se transformam, os ideias, os problemas e o povo, TAMBÉM. Não faz sentido nos escorarmos em ideais leninistas ou marxistas de burguesia e colocarmos no contexto atual, numa subsunção imediata de todo e qualquer indivíduo que não se enquadre na definição SOCIAL daquilo que você chama de povo. É uma ideologia que cega e os problemas do país estão muito acima disso.

    É mediocridade (não sua, mas do senso comum que paira na boca de alguns) que só o pobre é atingido pelo poder porque é ele quem precisa do hospital público, é ele quem precisa da segurança pública… Não é bem por aí, existem outros pontos. Eu não utilizo o sistema único de saúde, por exemplo, mas embrulho o estômago quando observo a situação do CAIS aqui perto da minha casa. Não é porque não uso que não me incomoda, não é porque eu não uso que não me atinge; Se o rico tem que pagar por guarda particular, câmera, condomínio fechado, ele está diretamente sendo afetado pela falta de segurança pública, porque antes de desembolsar (muito) dinheiro com segurança particular ele é um contribuinte como você, que não é assistido pelo poder público quando deveria. DE MANEIRA ALGUMA estou comparando os problemas que afligem o rico e os problemas que afligem o pobre, mas só tentando ilustrar que discutir legitimidade para a causa é uma ignorância. E que se o problema é poder público para com os administrados, não há na égide desse sistema ninguém (que não seja da estrutura política) que não possa se denominar o povo.

    É curioso e paradoxal como algumas pessoas apontam para aqueles que possuem condições financeiras como monstros, como se isso fosse um defeito, sendo que o desejo da maioria (esmagadora) dos pobres é um dia chegar lá. Tantas vezes o sucesso veio de uma ascensão profissional batalhadora, o Ministro Joaquim Barbosa, por exemplo, que hoje recebe R$26.400, era faxineiro. Existe Procurador da República que era engraxate, por aí vai. É uma alienação(e um pouco de hipocrisia)dizermos que o problema é o dinheiro. NÃO É! O problema é o que as pessoas fazem dele e isso é outra discussão.

    Essas ideias fomentam conflitos desnecessários. As classes sociais tem interesses conflitantes SIM, mas não precisam ser inimigas entre si a todo custo.

    Eu acredito, Tiago, com todo respeito, que você e qualquer outro anarquista, não têm legitimidade nenhuma para dizer que eu, que (HOJE!!!) não utilizo o transporte coletivo, não posso ir às ruas enquanto POVO. Não há motivo nem objetivo na dicotomia que você constrói nesse sentido. Não é uma transformação que “te beneficie” (você, privilegiado titular da qualidade “povo”), não seja leviano, é uma transformação que ME ATINGE (SIM!), enquanto um indivíduo que exige o direito de viver em um país mais justo.

    Olha, não retifico o que disse sobre a tautologia. Continuo apontando que nesse quesito, não há uma exposição dos ideias do movimento, mas interpretações que você faz dele. Convido-o a participar e aprender mais com quem participa. Ninguém está contente com a saúde e educação e parte do movimento é nesse sentido, exatamente o contrário do que você diz, embasado na interpretação restritiva que você fez da escrita de um único cartaz. A gratuidade e a qualidade não se equivalem, são questionamentos diferentes sobre um mesmo assunto. Eu acho que fui claro quando elenquei a postura do estado frente a titularidade de serviços gratuitos e a eficiência, fui exaustivo e não pretendo retomar esse ponto.

    “Porém, assim como na saúde e educação, há diversos outros serviços públicos gratuitos e péssimos, e não vejo porque o transporte público seria diferente” – vou tentar ser mais claro. Pedir por um transporte gratuito não é negar a ineficiência atual. Pedir pela gratuidade não é equipará-lo à qualidade (horrenda) dos hospitais gratuitos e das escolas gratuitas. Eu não sei sob qual perspectiva você concluiu isso. Um dos pontos do movimento é levantar a discussão da gratuidade, mas NINGUÉM desconsidera a necessidade de reformas estruturais. Essas exigências também estavam nos cartazes, também estavam nos gritos. REITERO, o serviço não é público, mas se a gratuidade vigorar, AÍ SIM HAVERÁ atuação do Estado assumindo a titularidade e, nesse sentido, até como um pressuposto legal, está a necessidade de o Agente Público adequar esse serviço nos moldes da qualidade e da eficiência. Se isso não acontecer, que venham a eclodir novos protestos, uma coisa não inviabiliza a outra. A necessidade de ser gratuito ou mais barato é tão latente quanto a necessidade de ser melhor, não são ambivalentes, vou explicar quantas vezes for preciso.

    Olha Tiago, reduzir a tarifa é mais IMEDIATO que reformar todos os corredores. O que é mais abstrato: “qualidade” ou preço? Qualidade agreda centenas de fatores, dados e mudanças (necessários, claro, não é isso que discuto)… Preço se refere a um número (mais imediato; não há um parâmetro de mais ou menos importante, mais ou menos necessário, mas que é mais imediato, não tem como discutirmos). Quem parece ta mais perto da definição de “solução mágica” é você.

    Figura pública, Tiago, são os agentes públicos. Eles estão inquietos, porque estão incomodados, foram mordidos. Eu não sei quem é “elite revolucionária da classe A”, porque não dou apreço aos rótulos preconceituosos de quem se esquiva da luta por ideologia.

    O que eles gritam e o que eles são, definem “verdades” expostas por você, não retomo o mérito delas. Mas o que eles podem conquistar, ah, isso eu garanto que está acima do campo teleológico dos sábios “anarquistas”, porque é concreto! E são causas que NÃO precisam do aval de um indivíduo para serem definidas como justas. Tomam vida por si só, ainda que uma camada de pseudo-filósofos não concorde, pois sobressaem às anuências, pela emergência que suscitam.

    Tiago

    16 de junho de 2013 às 23h17

    Colega Luis Phellipe,

    A priori, não se preocupe pois não me senti ofendido. :)

    E nem poderia, pois não me considero o dono da verdade. Tenho opiniões e convicções, sim, mas elas não são absolutas. Esse é o valor que vejo no debate de idéias, pois sempre posso aprender com opiniões diferentes, refletir, absorver novos conceitos que posso incorporá-los ou não, mas sempre vou sair de uma discussão diferente do que entrei.

    Algumas coisas que você disse me fizeram refletir. Como disse, eu acredito no anarquismo, e no pensamento anarquista enxergamos duas coisas: o Estado como o inimigo supremo da liberdade, e o povo como o único agente capaz de destruí-lo. Aqui, o governo é o alvo, então o discurso de “classes” perde força, pois nesse contexto só há duas classes: o governo e o governado. Então a convergência de objetivos dos governados contra o governo é válida, pois há um “alvo em comum”. O que você disse me fez refletir nesse sentido, apesar de eu ter dificuldade em me identificar com um movimento “sem povo”, não obstante reconheça e concorde com a sua luta. Parece que é um “preconceito” que terei que refletir e superar e agradeço por ter apontado isso.

    Ação direta, propaganda pelo ato, foram conceitos criados e estabelecidos pelo pensamento anarquista. Mas o mais importante nesses conceitos não é apenas “protestar”, e sim demonstrar e trazer o povo à luta “sem enganar ou corromper as massas” (Malatesta). Não vejo sentido na “construção coletiva” se assim não for. E ainda creio que não é o caso, mas em nosso país vejo que é comum o pensamento pequeno burguês que quer “iluminar” o povo, se colocando como superior àqueles que o “iluminado” vê como “dominados”. É um pensamento perigoso, mas ainda demorará muito para que essa luta seja “coletiva” de fato.

    É o que penso, mas espero estar errado. Eu quero estar errado. Mas ainda que eu não concorde totalmente com a pauta/métodos/objetivos, qualquer movimento contra o poder estabelecido sempre terá o meu apoio. Estarei presente nas próximas manifestações aqui em São Paulo, quero estar lá com nossos colegas, quero ver pessoalmente a construção dessa luta coletiva, e mesmo que veja coisas que não concorde, certamente discordo ainda mais dos poderosos.

    Nos aspectos práticos da coisa, a questão da redução do preço, qualidade do serviço público, etc, entendo e respeito o que disse, mas não encontro os seus argumentos no movimento. A defesa da “tarifa zero” me dá a impressão de ser mais um sintoma do mal que, a meu ver, a esquerda brasileira vem sofrendo nos últimos anos: o argumento de que o Estado deve nos dar tudo. E esse sentimento é capitaneado por muitas bandeiras que vemos nas manifestações: PSTU, PSOL, PCO, UNE…é curioso que alguns indivíduos desse grupo em especial defendam que o povo se levante contra o poder, e sugerem como alternativa que este mesmo Estado se apodere de tudo. Tenho lido propostas para a melhoria do transporte público que passam pela quebra do monopólio do Estado; o que o movimento teria a dizer dessa proposta? Que é ruim por a+b, ou que é ruim porque “o transporte ficará nas mãos das grandes corporações capitalistas” ou coisa do tipo? Enfim, a defesa da tarifa mais baixa, mais qualidade, etc, não obstante sejam bandeiras justas, ainda não me convence pela forma como o movimento a defende. Ainda creio que é preciso ajustar esse foco. Os seus argumentos são razoáveis, mas vejo o movimento defender outras coisas.

    Com todo o respeito. Saudações.

Ricardo Tonelli Munhoz

12 de junho de 2013 às 12h27

Somente para esclarecimento qualquer sistema funciona com lucro operacional. Tarifa gratuita somente para aqueles que realmente precisam, e ponto!!! Realmente o que estamos vendo é uma mobilização burguesa que acha que devemos ter uma tarifa gratuita em todos níveis. Quem depreda o diretório do PT, faz isto porque não gosta, tem raiva e nojo das politicas sociais implantadas ao longo de 10 anos de Governo. Com seis meses de Governo Haddad, querem que se faça o que não foi realizado em 8 anos de administração do PSDB-DEM. Por favor! Tenham brio, vergonha na cara!! Discuto com qualquer um de movimento sobre tarifas, programas sociais e, principalmente o acesso das camadas mais discriminadas desse país nos últimos 10 anos.

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Wagner Iglecias: Da molecada nas ruas - Viomundo - O que você não vê na mídia

12 de junho de 2013 às 10h43

[…] Jorge Souto Maior: Passe Livre e o direito de ir e vir […]

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Maria Frô: Depredar a sede de qualquer partido é ato fascista - Viomundo - O que você não vê na mídia

12 de junho de 2013 às 10h43

[…] Jorge Souto Maior: Passe Livre e o direito de ir e vir […]

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Mardones

12 de junho de 2013 às 08h48

O vi o mundo precisa dar espaço ao pessoal do MPL e não a gente que deseja mostrar que sabe escrever bem, mas esquece o essencial: as alternativas a esse sistema de transporte coletivo que mantém passagens caras, ônibus velhos, sujos e desconfortáveis.

Responder

    Maurício

    13 de junho de 2013 às 01h28

    quando o pessoal do MPL não for seletivo em suas manifestações, atacando apenas o Haddad e poupando Alckmin e seu PSDB (principalmente pelos 20 anos de sucateamento dos trens e metrô, cujo aumento das tarifas sequer é criticado pelo MPL)talvez mereçam espaço em todos os meios, mesmo naqueles como esse aqui, que os manifestantes partidário do MPL alegam ser “imprensa chapa branca do governo federal”. E eu imaginando que o movimento poderia propor um debate bem legal sobre a mobilidade urbana. Ledo engano ao ver que o movimento se partidarizou e perdeu o controle.

Lucas

12 de junho de 2013 às 05h40

Que lindo! Que tal discutir a viabilidade econômica do passe livre?

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    Roberto

    12 de junho de 2013 às 10h29

    Releia o último parágrafo. Acho que você não entendeu muito bem.

São Paulo: A intensa polêmica sobre as manifestações do Movimento Passe Livre - Viomundo - O que você não vê na mídia

12 de junho de 2013 às 00h32

[…] Jorge Souto Maior: Passe Livre e o direito de ir e vir […]

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Vlad

12 de junho de 2013 às 00h05

Ao vincular os protestos à gratuidade do sistema (objetivo institucional do MPL) e não ao que realmente é neste caso concreto (a revogação do aumento da passagem), exclui o notável jurista a responsabilidade de quem a tem …e este zero (ou h mudo) à esquerda, fingindo não a ter, faz cara de paisagem e esconde-se atrás de frases lacônicas diretamente de Paris. Além de pedir socorro à presidenta magna, como é sabido.

http://saopaulo.mpl.org.br/

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    Maurício

    13 de junho de 2013 às 01h33

    pior é a indignação seletiva de quem somente vê o prefeito em Paris e se esquece de outro que também está lá, seletivamente poupado de críticas pelo MPL, principalmente com relação ao aumento das tarifas de metrô e trem. Parece-me cada vez mais claro que o MPL poupa Alckmin e seu partido, partidarizando o debate que poderia ser bastante proveitoso em termos de idéias e propostas para a melhoria da mobilidade urbana em SP. Perderam oportunidade de ouro. Vai ver que para o MPL, não existe trabalhador que usa metrô e trem. Sequer, na reunião com o MP, foi tocado nesse assunto.

MAXIMO SILVA

11 de junho de 2013 às 21h38

O artigo do prof. Souto Maior evidencia notável alcance futurista, especialmente por realçar o fato de que “tanto o ser humano quanto à sociedade são projetos inacabados e em constante construção” e que propostas como o passe livre é algo bem simples de se conquistar, uma vez que a marcha à solidariedade, inevitável e inestancável, transformará necessariamente a sociedade para a consagração do justo e do essencialmente humano”, onde SER representará muito mais do que TER.

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Urbano

11 de junho de 2013 às 21h34

A primeira providência tungana, quando se aboletaram há quase vinte anos, foi acabar com essa história de que São Paulo na podia parar. Creio que tenha sido a única competência de fazer deles, pois conseguiram. Na verdade, a segunda; que a primeira, como bem sabemos, não tem pra ninguém…

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