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Jorge Mattoso e Pedro Rossi: Dois projetos em disputa


19/09/2014 - 07h01

combate

18 de setembro de 2014 – 11h04

Eleições 2014: Dois projetos econômicos em disputa

Se ninguém tem o monopólio do repúdio à pobreza, há concepções diferentes sobre igualdade e justiça social em disputa nesta eleição.

Por Jorge Mattoso* e Pedro Rossi*, no Brasil Debate, via Vermelho

Dois projetos econômicos em disputa.

Ainda que o clima eleitoral possa encorajar posturas mais militantes, esperávamos que um economista experiente como Arminio Fraga se dispusesse a dialogar com opiniões divergentes com alguma serenidade. Lamentamos o tom e os termos de sua resposta ao nosso artigo publicado em 1º de setembro neste mesmo espaço.

Mesmo assim, agradecemos sua resposta. Ela reforça nossa constatação de que desqualificar o interlocutor e apresentar questões econômicas como um problema técnico seriam apenas uma tentativa de esconder divergências essencialmente políticas ou determinados interesses econômicos.

Divergências no campo da economia têm diferentes pontos de partida. O paradigma keynesiano fundamenta o papel do Estado na preservação de bancos públicos, no incentivo à diversificação da estrutura produtiva, no provimento de serviços sociais universais e na redução das desigualdades. Nessa perspectiva, os mecanismos de mercado seriam incapazes de garantir uma distribuição de renda mais igualitária ou o acesso de todos aos direitos sociais fundamentais.

Já o paradigma neoclássico, que fundamenta o atual liberalismo econômico, tem outra visão do papel do Estado e das políticas sociais e da desigualdade de renda. Alguns economistas neoclássicos, como Gregory Mankiw, justificam explicitamente a desigualdade de renda e os supersalários do setor financeiro alegando que as remunerações de mercado refletem a meritocracia e remuneram fatores de produção de acordo com a contribuição que esses proporcionam à sociedade.

Esse argumento crê que a criação de riqueza depende de incentivos de renda. Por isso, a desigualdade seria funcional ao crescimento e deveria ser “corrigida” pelo próprio mercado. Com relação às políticas sociais, os neoclássicos defendem a focalização em detrimento do acesso universal aos serviços sociais. Ao Estado caberia apenas cuidar dos mais pobres, enquanto os demais buscariam no setor privado o atendimento de suas demandas.

Portanto, além de refratários à distribuição da renda, há também evidentes contradições entre a visão neoclássica e o Estado de bem-estar proposto pela Constituição de 1988.

No debate brasileiro, os economistas neoclássicos mostram seu liberalismo ao defender a redução do Estado no setor produtivo e no sistema financeiro. Mas quando tratam da questão social e distributiva, o liberalismo esbarra em suas próprias contradições. Talvez venha daí a dificuldade de Arminio Fraga em explicar claramente aos brasileiros por que os salários cresceram “muito” e por que, na visão dele, isso seria ruim para a economia e a sociedade.

Essas concepções marcam a diferença entre um projeto econômico liberal e outro em que o Estado seja ativo na garantia dos direitos sociais e na busca do crescimento econômico com distribuição da renda.

O projeto liberal reaparece nas candidaturas de Aécio Neves e de Marina Silva trazendo de volta a possibilidade de o país retomar um padrão de crescimento concentrador de renda e de desmontar nosso incipiente Estado de bem-estar social.

Em contrapartida, nos últimos 12 anos, o Brasil caminhou na direção da redução de nossa histórica desigualdade de renda – mesmo em meio à turbulência da crise internacional – e a candidatura da presidenta Dilma Rousseff vem reafirmando esse compromisso.

Se ninguém tem o monopólio do repúdio à pobreza, existem concepções diversas sobre igualdade, meritocracia e justiça social que diferenciam os dois projetos econômicos em disputa nesta eleição e que precisam ser cada vez mais explicitadas no debate público.

*Jorge Mattoso é professor do Instituto de Economia da Unicamp (aposentado), foi secretário municipal em São Paulo e São Bernardo do Campo e presidente da Caixa Econômica Federal.

*Pedro Rossi é professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e membro da Rede Desenvolvimentista.

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5 comentários

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Mário SF Alves

19 de setembro de 2014 às 21h36

Francamente, eu não esperaria nada de útil em termos de seriedade/honestidade intelectual vindas de quem veio. Ainda assim, envergonho-me ante tanta falácia e dissimulação.

Afirmar, rotular e utilizar-se de surrados bordões de tipo “mitos do discurso econômico do PT”, “que petistas carregam preconceito ideológico com o investimento” e que compartem a visão de que “basta estimular a demanda que o resto se resolve”, é forçar e distorcer demasiadamente a realidade.

Nem uma réles palavrinha sobre as estratégias adotadas pelos governos Lula e Dilma na dinamização da economia e na geração de riquezas.

Haja cara de pau!

Realmente, parece que nem a retórica desses neoliberais evolui mais. Travaram a capacidade de raciocínio. Ou será que com a crise econômica/política internacional terá sido o modelo de pensamento [único] que se esgotou?

Pelo visto os “argumentos” do Arminio Fraga constituem mesmo um bom exemplo da tal “retórica do espantalho” a distorcer e a exagerar os argumentos do adversário para torná-los mais facilmente refutáveis.

__________________________________________________________
Sim, de fato, no Brasil [e especialmente nas condições, potenciais e peculiaridades do Brasil]:

“Submissões ao rentismo neoliberal, à ditadura do mercado, às privatizações irresponsáveis [e quiçá criminosas] e ao recurso sistemático à mentira, sim, de fato, são inimigos da democracia e da boa política”. Eis a síntese dessa cantilena neoliberal que desde Collor/FHC e agora com a ex-senadora, compõe a ópera bufa dessa fundamentação/argumentação econômica de quinta categoria.

Responder

    Urbano

    21 de setembro de 2014 às 16h26

    É assim sempre, Mário. E olhe que o burro domesticado já é uma desgraceira, imagine-se então o burro chucro, que chega ao absurdo de matar, pois sabendo que não possui argumentos minimamente sólidos. E para piorar, mesmo se tivesse não teria competência de externar. Os da oposição ao Brasil além de burros, torcem por agremiações recheadas de burros, portadores de projetos burros e/ou desonestos. A partir disso, chega a ser praticamente impossível extrair algo de bom.

Alemao

19 de setembro de 2014 às 18h32

Impressionante a cara de pau deslavada do autor. Em que momento há a tentativa de desqualificar o interlocutor??

O PT só está no poder porque a oposição quase inexiste, se ela joga-se um pouco que fosse o mesmo jogo rasteiro e nojento do PT esse já tinha sido desmascarado faz tempo.

Responder

Ester Neves

19 de setembro de 2014 às 07h34

Dois projetos: dois modos de governar
Estão em disputa dois projetos de governo: um focado no modelo econômico desenvolvimentista, e o outro focado no modelo monetarista.
A primeira coisa que você precisa saber é PORQUE ACONTECE A INFLAÇÃO, PELA ÓTICA DE CADA UM DESSES MODELOS:
PELA ÓTICA DOS DESENVOLVIMENTISTAS é porque não têm produtos suficientes para atender as necessidades do povo, ou porque o povo NÃO TEM RENDA SUFICIENTE para adquirir os produtos, inclusive os necessários para a sua sobrevivência.
Pela ótica dos monetaristas é porque a renda do povo está excessiva, E PRECISA SER REDUZIDA, para não ter condições de comprar. É assim que eles controlam a inflação: MASSACRANDO A RENDA DO POVO.
Existe todo um processo para esse massacre que eles impõem. A redução da renda é apenas uma das consequências. Vem antes o desemprego, e finalmente A DESTRUIÇÃO DA PRÓPRIA VIDA.
A ideia é essa: TIRAR-NOS AS CONDIÇÕES DE ADQUIRIRMOS AS NOSSAS PRÓPRIAS RIQUEZAS, assim, sobra para que eles possam colocá-las no mercado, PARA QUEM PAGAR MAIS, os que pagam com dólares, claro. Vamos detalhar como esse processo covarde acontece:
O primeiro passo é reduzir O PODER DO ESTADO, na condição de poder representativo do povo, PARA QUE NÃO TENHA CONDIÇÕES NENHUMA DE PROMOVER O EQUILÍBRIO. Nesse processo, a redução do poder do Estado passa pela redução do seu tamanho, o que é inviável, numa democracia fraca, como a nossa. O poder do Estado teria que ser substituído pelo poder de organizações fortes, coisa que não temos. É por isso que eles defendem O ESTADO MÍNIMO, focado nas (*) privatizações. A segunda forma de inviabilizar o poder do Estado, para que não tenha condições de cumprir o seu papel, veremos depois de mostrar o que eles fazem PARA INVIABILIZAR A CADEIA PRODUTIVA E FAVORECER O CRESCIMENTO DA RENDA DO MERCADO DE CAPITAIS. E aí você vai entender porque eles querem um Banco Central independente.
Vamos ver, então, como é conduzida a dinâmica dessa política monetarista: a primeira coisa que fazem é elevar os juros aos píncaros e restringir o crédito. Dessa forma o mercado produtivo fica inviabilizado. Por outro lado, AS APLICAÇÕES FINANCEIRAS TORNAM-SE MUITO MAIS ATRATIVAS. Assim os empresários optam por investir NO MERCADO DE CAPITAIS, ao invés de investir na produção. E o que acontece como consequência? O AUMENTO DO DESEMPREGO, que, por sua vez, resulta na degradação da renda e da própria condição de sobrevivência de todos, que precisam de emprego e renda, para sobreviverem com dignidade.
Só isso? Não, ainda tem mais. Como já coloquei acima, é fundamental para eles inviabilizar o poder representativo do Estado, assim, além da redução do seu tamanho, tem mais uma perversidade que eles fazem, para que o Estado não tenha condições de promover o a assistência necessária. Fazem o seguinte: PROMOVEM O ESVAZIAMENTO DA RECEITA DO ESTADO, focando maior percentual da arrecadação sobre a produção, deixando o mercado de capitais livre e solto para auferir lucros altíssimos, à custa da sangria do povo.
Os trabalhadores sangram, enquanto os rentistas riem. É por isso que o resultado dessa política covarde, imoral e corrupta em sua essência É UM QUADRO SOCIAL DANTESCO, pois, ao mesmo tempo em que se aumentam as necessidades do povo, reduz-se as condições do Estado atender as demandas.
Entenderam porque em tempos do governo FHC o Brasil era o campeão da desigualdade social.
É isso que você quer trabalhador? É isso que vocês querem cidadãos de bem?
É isso que vocês querem “homens de Deus”? Saibam que ser a favor da vida não é apenas ser contra o aborto.

(*) Privatizações – além de cumprir o papel de reduzir o poder do Estado, servem também para que eles salvem parte de suas moedas podres, forjadas à custa sangria do povo, APLICANDO-A EM ATIVOS REAIS. http://zip.net/bcpzZJ

Responder

    Mário SF Alves

    19 de setembro de 2014 às 22h13

    “Vamos ver, então, como é conduzida a dinâmica dessa política monetarista: a primeira coisa que fazem é elevar os juros aos píncaros e restringir o crédito. Dessa forma o mercado produtivo fica inviabilizado. Por outro lado, AS APLICAÇÕES FINANCEIRAS TORNAM-SE MUITO MAIS ATRATIVAS. Assim os empresários optam por investir NO MERCADO DE CAPITAIS, ao invés de investir na produção. E o que acontece como consequência? O AUMENTO DO DESEMPREGO, que, por sua vez, resulta na degradação da renda e da própria condição de sobrevivência de todos, que precisam de emprego e renda, para sobreviverem com dignidade.”
    ______________________________________

    Ester,

    Elogiável a clareza e respeito com que vocẽ expôs essa realidade.

    Ainda assim, arrisco-me a uma propor ligeira síntese:

    Estaríamos na iminência do advento do “salve-se quem puder”, versão 2.0?

    A fórmula dos neoliberais [regressistas por natureza], além das vergonhosas e indefensáveis privatizações, quebrou o Brasil 03 vezes, e os fez sofrer aquela desmoralização¹ que se tornou pública após aquele encontro de Chefes de Estado realizada em Florença, na Itália.

    Se no temo de Collor/FHC eram inescrupulosos aventureiros, agora estão indo mais longe: tornaram-se foroLeiros a enganar o povo com a falácia do ovo com farinha e lasquinhas de cebola no coração da maior floresta tropical do mundo.

    PS.:

    Sobre a tática de autopiedade/vitimização contida na falácia do ovo com farinha e lasquinhas de cebola no coração da maior floresta tropical do mundo…

    Será que não dispunham de nem uma castainha, nem um peixinho defumado, nem uma frutinha qualquer? Será que não dava pra juntar tudo e fazer uma rápida farofa?

    … fosse no Sertão Nordestino e em plena vigência da desumana indústria da seca, va lá.
    ________________________________________________

    ¹O vídeo a seguir reabilita a memória de como o governo FHC era submisso, incompetente, não tinha respeito internacional, e o plano real, em 1999, já tinha acabado e colecionava mais fracassos e instabilidade do que sucessos, quando visto longe dos olhos da imprensa demo-tucana nacional.

    O Brasil estava quebrado, pendurado no FMI, e sua economia não inspirava confiança, nem era vista como tão estável, nem em 1995 (crise mexicana), nem em 1997 (crise asiática) e nem em 1998 (crise russa), exigindo overdose de juros para controlar a inflação.

    FHC fez o discurso da choradeira dos quebrados, pedindo aos líderes dos EUA e Europa, que criassem uma espécie de CPMF mundial para salvar o Brasil da fuga de capitais especulativos.

    Bill Clinton (então presidente dos EUA), Tony Blair (Inglaterra) e Gerhard Schroeder (Alemanha) receberam mal a proposta.

    Clinton passou um verdadeiro sermão em FHC, sugerindo que faltava CONFIANÇA, HONESTIDADE, eficiência e boa governança sob FHC. Enquanto isso, outros países resolveram estes problemas frente as crises, citando Chile e Uganda, como exemplos para FHC seguir.

    Fonte:http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2011/02/exclusivo-video-historico-com-vexame.html


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