VIOMUNDO

Diário da Resistência


Janio de Freitas: Se respeitada a dignidade da profissão, a imprensa brasileira teria se retirado da cobertura da posse de Bolsonaro como alguns jornalistas estrangeiros
Amanda Audi/ Intercept Brasi
Política

Janio de Freitas: Se respeitada a dignidade da profissão, a imprensa brasileira teria se retirado da cobertura da posse de Bolsonaro como alguns jornalistas estrangeiros


03/01/2019 - 15h41

Poder e dever na imprensa

As instituições oficiais não estão em condições de defender as conquistas democráticas

por Janio de Freitas, na Folha

Tanto quanto dependerá de Jair Bolsonaro e sua trupe ideológica, o Brasil e seus anos vindouros passam a depender da imprensa.

Em vista do que o novo Congresso prenuncia e do visto nas altas instâncias da Justiça, quando seria necessário proteger direitos e a própria Constituição, impõe-se a evidência: as instituições oficiais não estão em condições de defender as conquistas democráticas dos últimos três decênios.

A responsabilidade pode ser excessiva para uma imprensa que não supera a vacilação, põe-se como terreno desnivelado de embates entre o interesse público e o interesse privado e, como novidade, já está ameaçada por Bolsonaro.

A rigor, a missão nada excederia, porque já integra a concepção de jornalismo consagrada no século passado.

O problema é que essa concepção encontra dificuldades aqui. Tanto no poder econômico, que abomina a liberdade de imprensa, como em vícios remanescentes em parte da própria imprensa. Entre eles, o conflito vivido entre ética e conveniência por inúmeros jornalistas.

A complacência da imprensa com o governo Collor não foi posta em questão, mas foi muito grande a sua responsabilidade pelo desastre.

O plano econômico então imposto foi essencialmente inconstitucional, além de sua violência, e a corrupção regida por PC Farias era o tema do dia e da noite no poder econômico. Mas a imprensa, em geral, calou o quanto pôde.

A administração caótica juntou-se aos desmandos para induzir um atraso de anos incalculáveis ao país.

Não é esse o único exemplo da complacência culposa, muito ao contrário. Mas não absorver sua lição, para repelir toda complacência, será condenar a priori a democracia e o país ao desastre.

A defesa dos direitos, da liberdade e demais fundamentos da Constituição exige ser proporcional à ameaça e ao ataque que sofram.

Nada menos e, se necessário, mais. Fora disso, é conivência. Essa é decisão de comando empresarial, sim, mas não só.

Os jornalistas brasileiros precisamos rever muitas condutas. Chega das compensações, por exemplo, para um falso equilíbrio de apoio e de crítica. Para compensar a crítica aos discursos inversos de Bolsonaro em sua posse, foi lugar-comum o ataque aos partidos de esquerda por não irem às solenidades ouvir os discursos criticados.

Até por caráter, se a razão política não bastava, os políticos de esquerda não tinham mesmo que prestigiar a posse de quem disse que vai exterminá-los, seja por “acabar com os petralhas”, seja mandando os opositores “para a cadeia ou para fora”.

Ainda no jornalismo profissional, são em número excessivo os mais realistas do que os reis.

Sua “cautela” chega a fazer mais mal do que bem aos jornais e respectivas empresas. O boicote a comentaristas e repórteres, por motivos “ideológicos” ou políticos, é outra prática de chefias que se volta contra o jornal. E quem quiser pegue aí as carapuças, à espera de mais.

Eram 1.500 jornalistas na cobertura da posse de Bolsonaro. Entre serem revistados ao menos duas vezes, obrigados a se apresentar 7 horas antes da posse, serem confinados em cercadinhos sem cadeira, sem alimento, sem direito de ter maçã, iogurte ou garrafa de água; com restrição de acesso a banheiro e bebedouro, o planejado para os jornalistas foi humilhação generalizada.

Nem por isso a dignidade da profissão mereceu mais do que o aborrecimento pessoal.

Se respeitada, com a reação proporcional levando à retirada geral, a ausência de cobertura reverteria para Bolsonaro a lição que seu general planejador quis para os repórteres. Mas só uns poucos jornalistas estrangeiros se retiraram.

Depender da imprensa (termo em que incluo também TV, rádio e revistas) é arriscado.

Sempre encantada com a imprensa americana, porém, a brasileira tem agora um exemplo diário a considerar: a reação proporcional do Washington Post, do New York Times, da CNN e de outros aos desatinos de Donald Trump.

Salvaram a liberdade de imprensa nos EUA e a si mesmos.

A imprensa brasileira talvez esteja condenada a algo parecido: o ódio à imprensa na trupe de Bolsonaro, militar e paisano, não quererá perder a oportunidade. Não é hipótese. É certeza.

Leia também:

Haddad diz que Bolsonaro tira Brasil do socialismo com tungada no salário mínimo

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



5 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Edgar

03 de janeiro de 2019 às 22h11

Para isso, Janio de Freitas ! O cara tem que ter vergonha na cara e coalháo para enfrentar o chefe o que muitos desses paus mandados da imprensa nao tem.
Veja o caso da Cantanhede, ela nao enfrenta o dono do jornal nem a pau e muitos outros sao iguaizinhos na globo, veja, folha etc.
Aquela entrevista da cantanhede com o temer deveria entrar para a historia do jornalismo.

Responder

lulipe

03 de janeiro de 2019 às 19h44

É bom JAIR se acostumando. O próximo passo será reduzir drasticamente a verba publicitária do governo, principalmente em alguns blogs ditos progressistas, seja lá o que isso signifique.

Responder

    Viviane

    05 de janeiro de 2019 às 08h00

    Seria ótimo se essa redução valesse para toda a imprensa. Mas se vão mudar só os favorecidos, não adianta nada.

Zé Maria

03 de janeiro de 2019 às 19h12

Em relação aos Donos das Empresas de Comunicação no Brasil,
assim como aos membros da PF, do MPF e às Cúpulas dos tribunais superiores,
poderia se dizer que são “os sicofantas dos poderes vigentes que envenenam
o espírito popular com o incenso do auto louvor mendaz”
para sustentar a popularidade do governo que se ampara
num “sistema militar que divide toda a população masculina
em duas partes: um exército permanente em serviço
e um outro exército permanente de licença, ambos igualmente
obrigados em obediência passiva a governantes de direito divino”;
e que “foram as classes dominantes que habilitaram” o Governo
Bolsonaro “a representar a farsa feroz” da Nação Restaurada – “que acabará como começou, por uma paródia”.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-22022010-115028/en.php
http://www.grabois.org.br/portal/especiais/150395-44365/2011-03-17/segunda-mensagem-do-conselho-geral-da-associacao-internacional-dos-trabalhadores-sobre-a-guerra-franco-prussiana

Responder

José Gilson Soares

03 de janeiro de 2019 às 16h49

Perfeito o Jornalista Jânio de Freitas. Permito-me acrescentar que mesmo as emissoras públicas, como a TV Cultura paulista, demonstram essa conivência ou covardia.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.