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Jamil Chade: Embaixadora do Brasil se recusa a ouvir resposta de Jean Wyllys e promove barraco no ONU; veja
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Política

Jamil Chade: Embaixadora do Brasil se recusa a ouvir resposta de Jean Wyllys e promove barraco no ONU; veja


15/03/2019 - 13h05

Embaixadora do Brasil na ONU promove bate-boca com Jean Wyllys

Ex-deputado havia denunciado ligação do governo com crime organizado. Diplomata, que não ouviu o discurso do ex-deputado, o atacou e qualificou de “vergonha”. A embaixadora deixou a sala sem ouvir sua resposta. 

por Jamil Chade, no UOL

GENEBRA – A ONU foi hoje palco de um bate boca promovido pela embaixadora do Brasil, Maria Nazareth Farani Azevedo, que ainda se recusou a ficar para ouvir uma resposta do ex-deputado, Jean Wyllys (veja vídeo abaixo).

O ativista que abandonou o Brasil foi convidado a falar em um debate sobre o populismo no mundo. Em sua fala, porém, ele alertou para a suposta relação entre o crime organizado e o governo brasileiro.

“Os novos autoritarismos são os velhos autoritarismos agora articulados com as características próprias da contemporaneidade”, disse Wyllys, em seu discurso. “Novos autoritarismos, como o do Brasil, continuam elegendo inimigos internos da nação por meio da difamação e constituindo grupos para culpá-los pelos problemas econômicos”, afirmou.

“A diferença é que agora estão articulados com as novas tecnologias da informação. Articulam com organizações criminosas que se infiltram no estado, e tem um fundo religioso e moralista muito mais acentuado”, alertou o ex-deputado.

“Sou a prova da eficiência desses novos métodos utilizados pelos novos autoritarismos”, insistiu. “Não pude assumir meu terceiro mandato do qual fui democraticamente eleito por conta de ameaças de morte que vinha recebendo desde 2011 e, em especial, durante a campanha [de 2018]”, explicou.

Ao explicar a vitória de Bolsonaro, ele apontou como a campanha havia sido baseada na disseminação de fake news e no discurso de ódio.

Maria Nazareth Farani Azevedo, a embaixadora do Brasil na ONU, não estava na sala no momento do discurso e, em toda a semana, não apareceu em nenhum dos eventos organizados por ONGs para tratar da situação no Brasil. Mas, nesta sexta-feira, ela entrou no local, depois de o evento já ter sido iniciado.

Ela chegou a pedir para intervir no meio das falas dos demais membros do painel organizado para debater o populismo no mundo.

Mas a moderadora, num primeiro momento, a ignorou. Com o tempo do debate se esgotando, ela mandou recado de que queria falar, o que levou a moderadora do debate a abrir espaço para a embaixadora. Ao tomar a palavra, a diplomata passou ao ataque contra Jean Willys.

Ataque – “Bolsonaro não abandonou o Brasil, mesmo depois de ter levado uma tentativa real de tirar sua vida”, disse. Segundo ela, Bolsonaro estaria “trabalhando duro”. “Mas essa é a era de fake news e cabe a nós, pessoas sérias, esclarecer”, afirmou.

“Não é um criminoso e seu governo não é uma organização criminosa”, insistiu a embaixadora, que ainda esclareceu que Bolsonaro “não é racista, fascista ou autoritário”.

“Ele não cuspiu na cara da democracia”, disse a embaixadora, numa referência aos incidentes no dia do impeachment de Dilma Rousseff e sem mencionar que Bolsonaro teria elogiado um torturador. “Ele escolheu os votos, a eleição e o diálogo”, declarou.

Ao dizer como o governo prometia defender os direitos humanos, a sala composta por ONGs e ativistas não segurou o riso. Segundo ela, outra fake news é dizer que homossexuais estão sendo perseguidos e afirmou que existe uma preocupação do governo com essas pessoas. “Eles não estão sendo descriminados”, garantiu.

“É uma democracia forte”, disse a embaixadora, que já foi a representante do governo Lula e Dilma na ONU. “Pessoas que abandonaram seus eleitores para percorrer o mundo para disseminar fake news não tem credencial para falar sobre democracia”. Para ela, é uma “vergonha” que o palco da ONU tenha sido usado.

Para ela, aquele debate “não era democracia”, mas sim uma forma de “zombar” da escolha democrática de milhões de pessoas.

Ao terminar de falar, se levantou para sair da sala. Mas um dos membros estrangeiros do debate, Jamil Dakwa, alertou: “a senhora não quer ouvir a resposta dele?”

A embaixadora rebateu: “Fico. Com a condição de que eu possa responder de novo”.

“Não é assim”, contra-atacou o participante.

“Não? Então vou [sair]”, completou a embaixadora.

Neste momento, Jean Wylly tomou o microfone.

“Se a senhora quisesse um debate, ouviria minha resposta. Minha presença amedronta a senhora e seu governo, que não tem compromisso com a democracia”, atacou, lembrando justamente do noticiário que aponta para, segundo ele, “ligações” entre a família Bolsonaro, organizações criminosas e mesmo o assassinato de Marielle Franco (PSOL).

A embaixadora tentou interromper Wyllys de novo:

“A sua presença aqui envergonha o Brasil”, disse.

Mas ela foi cortada por Willys:

“Agora é a minha vez de falar. Respeite. Mais respeito à democracia”, disse o ex-deputado.

Ela então, antes de deixar a sala, respondeu. “Não amedronta. Envergonha”, disse. Enquanto Jean Wyllys pedia que ela “respeitasse a democracia”, a embaixadora tomou o caminho da porta.

Bolsonaro tem alertado que vai trocar embaixadores que não derem demonstrações de que estão defendendo não apenas o Brasil, mas também a ele mesmo. Num encontro nesta semana, ele indicou que sua imagem no mundo como presidente não estava sendo veiculada de forma correta. Ele sinalizou que caberia aos embaixadores mudar essa imagem.

“Acho que ela (Maria Nazareth) ouviu o recado e tem medo de ser removida, de perder os privilégios e de ostentar a única coisa que ela tinha, que era o colar de pérolas que ela trazia”, disse Wyllys, depois de terminado o evento. “Talvez por isso ela tenha pagado esse mico. Lamentável para ela”, completou.

O blog solicitou uma entrevista com a embaixadora, que até agora não foi atendida.

“Ela não ouviu minha fala e veio com um discurso pronto. Isso mostra que o governo Bolsonaro teme a posição que eu ocupo hoje. Eu chamo a atenção do mundo para um governo de mentiras”, disse. “Ela desrespeitou a liturgia do cargo. Sem ouvir o meu discurso, ela tentou sair da sala depois sem ouvir minha resposta”, afirmou.

“Quem desrespeita a democracia é ela, que sequer queria ouvir minha resposta”, disse Wyllys. Para ele, a embaixadora é “mentirosa” e “descontextualizou os atos políticos”.

Acostumados a eventos sem qualquer tipo de quebra de decoro, participantes não disfarçaram o choque que tiveram diante das cenas.

Assim que o evento terminou, uma coluna no Brasil de uma pessoa próxima à família de Maria Nazareth chegou a publicar que a embaixadora estava do lado de fora da sala, ouvindo o discurso de Wyllys. A versão não condiz com a realidade, já que eu mesmo estava do lado de fora instantes depois de o ex-deputado falar. Naquele momento, não havia ninguém. Alguns minutos depois, a embaixadora e seus assistentes caminharam pelos corredores, na direção da sala onde ocorria o evento.

 

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12 comentários

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Marys

16 de março de 2019 às 20h09

É melhor que Willys fique mesmo na Europa, a Venezuela e Cuba estão sob ataque de Tio Sam e a China é destino muito visitado por deputados do PSL, com direito a foto com painel de líderes comunistas ao fundo. E a Coreia, como sabemos, não quer saber de ninguém.

Responder

Zé Maria

16 de março de 2019 às 15h15

https://pbs.twimg.com/media/D1vn9LkX4AAeCF4.png

A Descompostura da Embaixadora

Por Jean Wyllys, no UOL/Universa, via GGN

Estou em Genebra, a convite do Centro de Estudos Legais e Sociais, uma prestigiada organização de direitos humanos da Argentina que, junto a entidades do Brasil e de outros países, organizou uma agenda de conferências paralelas à reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Eu fui convidado para falar num painel sobre as novas formas de autoritarismo.

O que aconteceu depois da minha fala foi inacreditável.
A embaixadora do Brasil nas Nações Unidas, Nazareth Azevedo, apresentou-se no local e, sem ter ouvido minha fala, pediu direito de réplica.
Uma “réplica” estranha, já que ela trouxe um discurso escrito, que seria lido independentemente do que eu tivesse falado.
Um discurso mais estranho ainda, porque não parecia a intervenção de uma embaixadora, mas a gritaria de uma ativista de ultradireita na rede social.

Pareceu a todos que ela foi ao evento como representante da família Bolsonaro, não do Estado brasileiro.

Ela leu um discurso defendendo o presidente, afirmando que Bolsonaro não é fascista, nem racista, nem homofóbico, e que não tem relação com as milícias (apesar de haver fartas evidências do contrário).

Ela fez até referências a mim, mencionando o “cuspe”, e disse que eu saí do Brasil para “viajar pelo mundo”, debochando assim das razões que me obrigaram a deixar o país: as ameaças de morte contra mim e a brutal campanha difamatória orquestrada pelos atuais inquilinos do Palácio do Planalto e seus aliados.

Foi vergonhoso, constrangedor, inédito na história da diplomacia brasileira, que sempre foi mundialmente reconhecida por seu profissionalismo.

Depois de ler seu discurso partidário cheio de mentiras, a embaixadora quis ir embora, recusando-se a ouvir minha resposta.
Outros palestrantes pediram a ela que, mesmo que fosse apenas por educação, ficasse e escutasse o que eu tinha a dizer.
Porém, quando comecei a responder, ela não conseguia manter a compostura, interrompia, gritava, tentando provocar um bate-boca comigo.

Vou repetir: estávamos em Genebra [Suíça, Europa], num evento com diplomatas e representantes de organizações sociais de todo o mundo, e essa adolescente nervosinha que fez um barraco na frente de todos era a embaixadora do nosso país nas Nações Unidas. Foi tão constrangedor que me faltam palavras para descrever a vergonha que eu senti como brasileiro.

Essa gente ainda não entendeu o que é o Estado.
Acham que o país é sua conta de Twitter, que o governo é um grupo de WhatsApp.
É surreal.

Mas, por outro lado, a reação destemperada, infantil e tosca da nada diplomática representante do governo miliciano mostra o quanto a minha voz e as minhas denúncias incomodam o presidente da República.
A embaixadora nunca havia participado desse tipo de evento paralelo e só foi lá, com seu ridículo discurso pronto, porque soube da minha presença.
Eu não sou mais deputado, abri mão do cargo porque precisava proteger minha vida, mas não abro mão do meu ativismo em qualquer lugar do mundo onde eu estiver.

Sou apenas um cidadão, já sem o cargo para o qual fui eleito (e que o estado de exceção em que vivemos me fez perder), mas mesmo que não seja mais deputado, minha voz é ouvida por muitos e muitas no mundo inteiro, e isso preocupa o fascista mentiroso e medíocre que ocupa a Presidência da República.

Por isso a embaixadora teve que correr até a sala onde eu estava para fazer aquele papelão.
Quanta baixaria!

Presidente, o senhor está avisado: eu vou continuar falando.
E vou continuar denunciando seus vínculos com o crime organizado e as milícias, sua relação com os assassinos de Marielle, seu governo de incompetentes, seu projeto fascista, sua boçalidade.
Vou continuar defendendo os direitos humanos e as liberdades individuais do nosso povo em qualquer lugar do mundo onde eu tiver a possibilidade de ser ouvido.
E não vai ser uma embaixadora que agiu mais como um “bolsominion” de Facebook que vai me fazer calar.

https://t.co/8S9voxNNOw
https://twitter.com/luisnassif/status/1106894592773947392
https://jornalggn.com.br/crise/a-descompostura-da-embaixadora-por-jean-wyllys/

Responder

Julio Cesar

16 de março de 2019 às 08h23

Infelizmente a gente já sabe que pessoas rastejam pela sobrevivencia, pela manutenção de status e poder então, rsrsrs, dá para imaginar o que não fazem. Mas é interessante pensar em tocar os papeis para se ter a dimensão das coisas. Fico imaginando essa embaixadora no lugar do Jean, sendo ameaçada de morte, e por grupos que ela nega reconhecimento, ou outro qualquer que por esse ou outro motivo a mantivesse sob o constante stress de uma ameaça ao seu bem mais precioso. Sempre penso na dignidade da pessoa ao encarar certos desafios, será que ela enfrantaria tal desafio mesmo com descaso, demonstrado na postura critica contundente que dedicou ao Jean?

Responder

Cláudio

16 de março de 2019 às 04h13

Como Dilma e Lula escolheram uma pessoa tão indigna como essa “emBAIXAdora” para representar o Brasil na ONU ? Lamentável.

Responder

Virgilio

15 de março de 2019 às 21h58

Por que este cara não vai morar em “países democráticos” como Cuba, Coreia do Norte, China ou Rússia?

Responder

    Jardel

    17 de março de 2019 às 19h33

    É porque ele não quer fugir do Brasil, ele quer lutar a partir de fora do País para o restabelecimento da democracia no Brasil.
    Ele entendeu que sua vida corria risco aqui e, convenhamos, não foi sem razão.
    O Bozo, que pega crianças no colo e ensina a fazer sinal de arminha e dar tirinho, está dando um péssimo exemplo a muitos ignorantes aqui neste bananal que chamamos de país.

Marys

15 de março de 2019 às 20h07

Dá-lhe, Wyllys!

Esse opressores interesseiros de ocasião já não podem mais falar sem que haja opositores e contestadores dentro e fora do país.

Você é a voz dos exilados.
Primeiro de muitos que ainda irão sair do país, se a banda continuar tocando ao som da brutalidade governamental bolsonárica.

Isso aqui é uma esculhambação, e as elites se favorecem desse caos, criado pela ignorância e desinformação de que nossos algozes se valem para poder governar.

Basta ver a condenação penal sem existência de tipo penal em nossas leis, de que se valeram Moro e a extrema Direita, para prenderem Lula e manipularem as eleições em favor de um projeto golpistas e fascista, por isso mesmo vencedor.

Lula foi considerado culpado por ato inventado pela Lava jato: domínio de fato de bem particular de terceiro e lavagem de dinheiro privado em bem privado como civil sem mandato, cargo ou função pública em Comarca de competência de outro Juízo!

Onde está o Peculato se o agente é privado sem função pública?

Me poupe. Lula está preso porque agentes públicos inescrupulosos, principalmente os líderes do PSDB, do MDB e DEM, junto com a Globo e a Lava jato, plantaram desinformação e ódio na cabeça do povo incauto e sem formação intelectual, usando mentiras e oportunistas moralistas de fachada, somente para criar uma farsa processual.

A chamada Lava jato foi feita para desmontar o país, perseguir a esquerda e favorecer sabujos nacionais e o capital estrangeiro.

Isso tudo precisa ser dito aos quatro cantos do mundo.

Bolsonaro não é bom. É preconceituoso e prega o ódio político e social. Não tolera minorias e disse isso em alto e bom som a todos durante a campanha e no seu twitter.
Nem de diálogo ele gosta, tal como os diplomatas sem diplomacia que não nos representam.

O Brasil colocou suas ferraduras pra fora. Até na sua representação da ONU isso se apresenta.

Vergonha!

Responder

Virgilio

15 de março de 2019 às 17h29

Por que ele não fugiu para “democracias” como Cuba ou Coreia do Norte ou Rússia ou China?

Responder

    Marys

    16 de março de 2019 às 20h03

    Cada povo tem o sistema que merece.

    O nosso, antes do golpe que derrubou Dilma, era democrático. Agora, é pura esculhambação miliciana e o laranjal cresce.

    Por falar em Cuba e Venezuela, vc sabe que embargos criminosos causam mais mal à população do que governos criminosos?
    Não sei o que é pior, mas o Jean está certo de ter ido pra Europa, a América está cheia de colonos dos Estados Unidos e tornou-se muito perigosa nos últimos tempos.

    Jardel

    16 de março de 2019 às 20h53

    É porque em lugares neutros a voz de um político exilado tem mais força. Ela não se fixa na ideologia e na subjetividade e sim nos FATOS.

    Jardel

    16 de março de 2019 às 21h07

    A intenção de Wyllys não é estabelecer-se confortavelmente em outro país. Antes sim, é lutar pela volta da democracia no Brasil.
    Sendo assim, nada melhor que fazer essa luta a partir de um país neutro. Assim sua voz soa imparcial, sem ideologias.
    A ideologia é deixada de lado e o que impera é a razão verificada empiricamente mediante a observação dos FATOS.
    O governo Bozo é uma vergonha e não demora muito para cair.
    Os bozocoxinhas vão se cansar de passar pano nas merdas do Bozo e não irão impedir sua derrubada.
    É melhor Jair se acostumando.

    Doutor eu não me engano…

Zé Maria

15 de março de 2019 às 15h10

“Sem autorização e sem dar crédito,
Itamaraty usa vídeo feito por mim
para contar sua versão da história.”

“Solicito ao @ItamaratyGovBr @BrasDel
a retirada das imagens. Elas têm dono
e não permitirei que sejam cedidas.”

Jornalista Jamil Chade, Correspondente na Europa há 2 décadas

https://twitter.com/JamilChade/status/1106600105564618753
https://twitter.com/JamilChade/status/1106602154922594304

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