Jair de Souza: Ficar do lado da OTAN é ir contra os interesses do povo brasileiro

Tempo de leitura: 3 min
Desde 2014, militantes armados de extrema-direita se agruparam na Ucrânia para criar organizações paramilitares neonazistas, como o Setor Direito e o Batalhão de Azov, que passaram a atacar instalações públicas e reprimir apoiadores do governo russo. Fotos: Reproduções de rede social

FICAR DO LADO DA OTAN É IR CONTRA OS INTERESSES DO POVO BRASILEIRO

Por Jair de Souza*

Agora, não tem mais jeito. O conflito bélico Rússia-Ucrânia estourou e o resultado vai afetar os interesses do povo brasileiro e de todos os outros povos periféricos, seja qual for o desenlace do confronto militar em curso.

Em vista disto, é muito importante saber qual posicionamento devemos tomar em relação ao problema surgido.

Basicamente, há três variantes que nos serviriam de opção: demonstrar neutralidade, tomar o partido da OTAN, ou aderir às posições da Rússia.

Mas, em qualquer destas alternativas, existem matizes e variações que podem dar significados bem diferentes à escolha que fizermos.

Vamos ter de nos expressar em relação a dois blocos de forças alheios à nossa realidade e, por isso, precisamos entender o que está por trás dos mesmos.

Por um lado, estão os países europeus e os Estados Unidos, que compõem a OTAN, o maior aparato de guerra a favor do imperialismo já criado em toda a história da humanidade.

Por outro, está a Federação Russa, remanescente da extinta União Soviética, que aderiu ao capitalismo e busca encontrar uma posição satisfatória para acomodar-se no jogo das potências que influenciam a humanidade.

Não podemos ter ilusões, a Rússia atual não pode ser caracterizada como um país socialista que luta para estender a luta em prol dos objetivos do proletariado a outras nações.

Seu presidente, Vladimir Putin, também não é alguém que possa ser catalogado como uma liderança da esquerda anticapitalista tradicional. Suas visões conservadoras sobre questões comportamentais são bastante conhecidas, ou pelo menos, muito alardeadas.

Então, nossa escolha deve ser feita tendo em conta que esses são os blocos de força em pugna.

Portanto, diferentemente do que apregoam os falsos moralistas, nossa conduta deveria ser orientada pelos interesses reais de nosso futuro como nação independente, não pelas simpatias com as características particulares predominantes em cada um dos campos.

Apoiar as posições da OTAN em seu objetivo de agregar a Ucrânia a seu bloco de forças e, desta maneira, encurralar ainda mais a Federação Russa é atuar ativamente em favor da permanência e elevação do controle exercido pelos Estados Unidos sobre todos os povos do mundo, incluindo, sem nenhuma dúvida, o aumento de seu domínio sobre o Brasil.

Em outras palavras, defender ou desejar que a OTAN saia vitoriosa desse entrevero é colocar-se favorável à manutenção e revigoramento das condições neocolonialistas às quais o Brasil e os demais países periféricos estão submetidos.

Colocar-se acriticamente favorável às medidas de força tomadas pela Federação Russa com o envio de tropas à Ucrânia também não me parece ser um posicionamento coerente com os princípios de respeito à soberania nacional que devemos manter e cultivar.

Embora esteja mais do que evidente que a Federação Russa está repleta de razões para se sentir ameaçada com a expansão da máquina mortífera da OTAN até as portas de sua capital, não devemos aceitar que seja tão somente pelo império da força que seus direitos venham a ser levados em conta.

É bem provável que a parte OTANista jamais acederia a ouvir seus pleitos se a Rússia continuasse esperando respostas para seus pedidos de negociação.

Portanto, talvez, do ponto de vista de Vladimir Putin e dos dirigentes da Federação Russa, o recurso ao emprego da força possa ser entendido como o caminho mais efetivo para destravar o bloqueio que o campo imperialista havia levantado para impedir uma saída negociada.

Porém, nós brasileiros não fazemos parte do governo e nem da nação russa. Por isso, ainda que venhamos a ser compreensíveis das decisões tomadas pela Rússia, devemos exigir o cesse do conflito armado e que as partes envolvidas reassumam (ou assumam, por primeira vez) um diálogo franco, no qual as reais preocupações da Federação Russa sejam levadas em consideração.

Esta me parece ter sido a posição tomada por Lula, Dilma, Celso Amorim e vários outros líderes da esquerda latino-americana. Uma neutralidade, mas não uma neutralidade indiferente.

Uma exigência de que a Federação Russa ponha fim à sua intervenção armada, mas com o atendimento de suas justas reivindicações.

Um desejo de que o conflito venha a ser resolvido sem derramamento de sangue, mas sem ignorar que os causantes e culpados de que a tragédia tenha chegado a tal ponto são, em primeiro lugar, os Estados Unidos e os membros da aliança guerreirista da OTAN.

Não podemos deixar de levar em conta que a vitória dos Estados Unidos e de sua máquina da morte redundaria numa condenação de nosso povo e de todos os demais povos dos países não hegemônicos a muitos mais anos de sofrimento e espoliação nas garras do imperialismo.

*Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ

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Comentários

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Bíblia do Bolsonarismo

quero ver a dessa gente quando Maduro receber foguetes nucleares do Putin e exigir que ter direito de nomear governo para todos até o México

Antonio de Azevedo

O CÍNICO, A CORRUPÇÃO E A GUERRA

Diógenes de Sínope, filósofo que fez da mendicância sua expressão de virtude, vivia perambulando com sua lamparina pelas ruas da antiga Atenas, na atual Itália, no Continente Europeu – quando era indagado, alegava que estava procurando um homem honesto. Detalhe: ele morava em um tonel e buscava como ideal cínico uma vida sem luxúria a despeito das benesses da civilização da época; era ainda, conhecido como Diógenes, o Cínico, que enfrentou Platão com uma galinha despenada, atraiu a admiração de Alexandre, O Grande, pela franqueza e, praticava como nenhum outro filósofo de sua época a “parrhesía” (do grego: fala franca, fala reta). Admirado por Foucault, outro filósofo, em seu livro “Coragem da Verdade” descreveu-o assim: “O cínico é o homem do cajado, é o homem da mochila, é o homem do manto curto, barba hirsuta, pés descalços e sujos, com a mochila, o cajado, e que está ali, nas esquinas, nas praças públicas, na porta dos templos, interpelando as pessoas para lhes dizer algumas verdades”. Ou seja, para Foucault: “O cinismo é a forma de filosofia que não cessa de colocar a questão: qual pode ser a forma de vida que seja tal que pratique o dizer-a-verdade?” A “verdade cínica” é um grande desafio para a nossa sociedade atual. É o calcanhar de Aquiles. É o ponto nevrálgico das relações humanas da vida em comum. Ou seja, é dificílimo aceita-lá, simplesmente porque a partir da “verdade cínica”, existem coisas que não são negociáveis, não são objetos do mercado, não são vendáveis, não são consumíveis e, nem muito menos comercializáveis. Entretanto, a guerra que sequestra a verdade entre a Rússia X Ucrânia e o mundo atual clamam justamente pelo contrário, por coisas negociáveis, vendáveis, consumíveis e comercializáveis, onde a corrupção e a mentira é destacadamente a regra e não a exceção. Aliás, o combate à corrupção e as falsidades políticas da guerra tem sido uma das principais bandeiras advindas do clamor das ruas nos últimos tempos e encontra desafios gigantescos advindos dos próprios protestantes que para as ruas foram decorrentes em grande parte dos seus próprios vícios. Ou seja, ainda é raro, é raríssimo, encontrar alguém que nunca tenha cometido pequenos desvios de conduta no seu cotidiano, como por exemplo: furar uma fila de um cinema qualquer ou comprar produtos falsificados na feirinha da “china”. É importante frisar que esses comportamentos não deslegitimam, de forma alguma, o grito e o clamor que vêm das ruas contra a corrupção e contra a guerra, pelo contrário, apenas exemplificam que o problema da corrupção no mundo e da guerra que acontece no coração da Europa, estão para além da esfera midiática que apenas busca altos índices de audiência. Enfim, ao lançar um olhar mais sutilmente crítico sobre à guerra entre russos e ucranianos, o que encontra-se no horizonte é, estupefato e embasbacado, o arguto Diógenes de Sínope, o Cínico, perambulando com sua lamparina pelas ruas dos países da OTAN, tentando encontrar um homem honesto.

Antonio Sergio Neves de Azevedo – Estudante, Curitiba – Paraná.

Zé Maria

https://horadopovo.com.br/wp-content/uploads/2022/03/HP-Edicao-3.845-2-a-8-de-Marco-2022.pdf

“Raiz do conflito na Ucrânia é expansão da Otan a leste”,
diz Noam Chomsky

O pesquisador norte-americano Noam Chomsky, em entrevista ao portal Truth Out, criticou a expansão da OTAN no Leste Europeu, que considera fundamental para entender o atual conflito entre Rússia e Ucrânia.

“A posição russa já é bastante clara há algum tempo.
O ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov,
declarou na sua conferência de imprensa nas Nações Unidas:
‘A questão principal é a nossa posição clara sobre a
inadmissibilidade da uma maior expansão da OTAN
para o leste e a implantação de armas de ataque que
possam ameaçar o território da Federação Russa’,
destacou.

Em resposta à pergunta formulada pelo jornalista
CJ Polychroniou sobre se seria correto dizer que a crise
fronteiriça entre Rússia e Ucrânia deriva na realidade da
posição intransigente dos EUA sobre integrar a Ucrânia
na OTAN, Chomsky acrescenta que “o mesmo foi reiterado
pouco depois por Putin, tal como ele já tinha feito muitas
vezes antes. Há uma forma simples de lidar com a
implantação destas armas: não as implantar. Não há
justificação para o fazer. Os EUA podem alegar que são defensivas, mas a Rússia certamente não o vê da mesma
forma e com razão”.

Chomsky destaca que foram os governos dos EUA,
que incentivaram a admissão de países do Leste Europeu
como novos membros da Otan, atingindo a segurança
da Rússia.

Assim, a entrada dessas nações ocorreu rapidamente
depois que a Alemanha Democrática se juntou à
Alemanha Federal.
Posteriormente, as nações que antes tinham composto o
bloco socialista europeu ingressaram na OTAN: República Tcheca, Hungria e Polônia (1999), Romênia, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Eslovênia e Eslováquia (2004),
Albânia e Croácia (2009), Montenegro (2017) e Macedônia
do Norte (2020).

Sobre a postura de Washington de insistir na integração
da Ucrânia na OTAN, Chomsky ironiza: “Os EUA rejeitam
veementemente que a Ucrânia fique fora, proclamando
ativamente sua dedicação apaixonada à soberania das
nações, que não pode ser infringida: o direito da Ucrânia de ingressar na OTAN deve ser honrado.
Essa posição de princípios pode ser elogiada nos EUA,
mas certamente está provocando gargalhadas em
grande parte do mundo, incluindo o Kremlin.
O mundo não desconhece a dedicação inspiradora
dos EUA à soberania, principalmente nos três casos
que enfureceram particularmente a Rússia:
Iraque, Líbia e Kosovo-Sérvia”.

O intelectual norte-americano indica que, em sua retórica,
os Estados Unidos insistiam em colocar lenha na fogueira
ao não responder aos pedidos da Rússia por segurança e
garantia de não entrada das tropas da Otan na vizinha
Ucrânia.

Papiro (BL)

https://pcdob.org.br/noticias/raiz-do-conflito-na-ucrania-e-expansao-da-otan-a-leste-diz-chomsky/

Omar Oto

Os jornaloes disseram que o Putin quer recriar a URSS. Olha o tamanho do dragão.
Só se quiser falir de novo com uma máquina estatal que não funcionava e que emperrou de vez em 1991 e faliu.
Como é sabido por todos, na guerra a 1° que morre é a verdade.

Zé Maria

Guerra, depois de entrar nela,
ou se sai vencido ou vencedor.

Guanabara

O grande ponto é que Putin não é Neville Chamberlain.

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