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Heloisa Villela: A longa história do racismo e do antissemitismo nos Estados Unidos
Política

Heloisa Villela: A longa história do racismo e do antissemitismo nos Estados Unidos


24/08/2017 - 12h17

O Partido dos Sabe Nada alertava contra a influência estrangeira

por Heloisa Villela, de Nova York

Trinta mil mortos. Dez vezes o número de vítimas dos ataques do 11 de setembro de 2001.

Esse era o potencial da tragédia programada por um grupo de seguidores da Ku Klux Klan do condado de Wise, no Texas, em 1998.

Eles planejavam explodir uma refinaria de gás natural para atrair a atenção de policiais, bombeiros, ambulâncias para um lado da cidade enquanto, do outro, assaltariam alguns bancos.

Com o dinheiro roubado eles planejavam financiar a revolução ariana.

Mark Potok ouviu a gravação do FBI na qual um casal discutia os planos.

A refinaria ficava ao lado de uma escola primária e eles comentavam esse “inconveniente”. Mas a mulher concluiu: “meu bem, o que tem de ser tem de ser”.

Em seguida, conta Mark, ouvem-se os gritos do FBI, a ordem de prisão e a gravação termina.

Mark Potok descreveu o conteúdo da gravação em fevereiro de 2009 em uma palestra menos de um mês após a eleição do presidente Barack Obama.

Jornalista, ele trabalhou no USA Today, no Dallas Times Herald e no Miami Herald antes de se tornar editor chefe do Intelligence Report, jornal do Centro de Direito e Pobreza do Sul dos Estados Unidos.

Ele também é fundador do blog Hatewach que monitora os grupos de ódio dos Estados Unidos.

Mark é hoje o maior especialista no assunto no país.

Essa palestra, apesar de ter acontecido há 16 anos, não poderia ser mais atual; recebi o link recentemente, depois da pancadaria em Charlottesville, na Virgínia, que terminou com o assassinato de uma advogada.

Ela morreu quando um simpatizante neonazista jogou o carro sobre um grupo de manifestantes anti-racistas.

Na palestra, Mark traça um histórico da intolerância nos Estados Unidos. E começa com Benjamin Franklin, um dos chamados fundadores da nação, que se referia aos alemães como pessoas estúpidas que imigravam para os Estados Unidos e eram incapazes de aprender inglês.

Isso lá pelos idos de 1.700 e algo.

Em 1840-50 surgiu o partido Know-Nothing que era veementemente contra a imigração.

Todos os membros eram seguidores da igreja católica.

Ele segue com a lista: em 1882 foi assinado o Ato de Exclusão que proibiu a imigração de trabalhadores chineses para os Estados Unidos.

A Ku Klux Klan, grupo de ódio mais conhecido do país, teve três, digamos assim, gerações.

Criada em 1860, ela foi suprimida dez anos depois mas ressurgiu em 1915 e teve uma terceira reencarnação depois da Segunda Guerra Mundial.

Se variou um pouco nos diferentes períodos, manteve sempre o racismo, o antissemitismo e a supremacia branca como metas.

Nos anos 20 e 30, antes da Segunda Guerra mundial, proliferaram os pastores de rádio.

Charles Coughlin chegou a ter 30 milhões de ouvintes e foi retirado do ar quando começou a defender as políticas de Adolf Hitler, Benito Mussolini e do Imperador Hirohito multiplicando os ataques antissemitas.

“Henry Ford também estava nesse grupo”, disse Mark Potok na palestra, lembrando que o empresário publicou The International Jew, uma coletânea de panfletos que promoviam, entre outras coisas, a ideia de que os judeus estavam por trás de uma grande conspiração internacional.

Muito antes dos alemães, Mark diz que os americanos já estavam trabalhando com a ideia de construir uma raça melhor, a eugenia.

“Vários estados deste país, bem antes dos alemães, passaram leis exigindo a esterilização de certas pessoas”, afirmou.

Somente depois da Segunda Guerra Mundial essas ideias deram trégua “porque as pessoas se deram conta das consequências”. Mas o respiro durou pouco. Uma década.

Em 1949, George Rockwell criou o Partido Nazista Americano e ampliou a ideia da raça branca nos Estados Unidos para incluir eslavos e outros europeus que Hitler não aceitava na nação ariana.

Rockwell também conseguiu mesclar, pela primeira vez, um tipo de ideologia socialista americana com uma visão radical da bíblica chamada identidade cristã.

Nos últimos quarenta anos algumas mudanças importantes foram registradas.

Com os avanços do movimento de direitos civis e a assinatura do Ato de Imigração, em 1964, que aboliu o sistema que escolhia os imigrantes pelo país de origem, a direita se radicalizou no país com uma nova roupagem teórica.

Segundo Mark: abandonou a ideia de que era preciso voltar aos velhos tempos, quando “o homem era homem, a mulher era mulher e o negro sabia o seu lugar” e assumiu uma postura revolucionária.

Hoje, os supremacistas brancos se definem como separatistas. Querem criar o próprio país.

Por isso vários grupos de arianos e neonazistas decidiram se mudar para o noroeste dos Estados Unidos onde vivem “bons cristãos brancos e poucas minorias”.

— Eu nunca vou me esquecer. Quando aqueles aviões entraram nas torres do World Trade Center, antes dos prédios desabarem, um homem chamado Billy Roper mandou um e-mail para todos os 1.400 membros do National Alliance, grupo que liderava os neonazistas dos Estados Unidos naquela época, dizendo o seguinte: o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo, todo mundo que joga um avião contra um edifício para matar judeus está bem comigo, conta Mark.

Ele também conta como a direita radical se mesclou com setores da mídia americana e conseguiu difundir teorias falsas a respeito de estrangeiros, especialmente os latinos.

Uma das mais inacreditáveis dizia que imigrantes ilegais haviam trazido para o país, em um período de três anos, 7 mil novos casos de lepra!

Na verdade, naquele período foram registrados 398 novos casos da doença e não era possível fazer ligação alguma com imigrantes. Legais ou ilegais.

Mas a teoria falsa que começou na direita radical foi divulgada em blogs de direita menos radicais e ganhou o megafone de Lou Dobbs, na época apresentador de um programa da rede CNN.

Dobbs disse que recebeu a informação de uma médica respeitada que Mark Potok descobriu se tratar de uma doutora em literatura medieval. Conhecimento algum de medicina.

Lou Dobbs foi o único âncora de uma grande tevê americana que deu espaço para a discussão a respeito do local de nascimento do ex-presidente Barack Obama.

Durante anos Donald Trump promovia a ideia de que ele não tinha nascido nos Estados Unidos e exigia uma cópia da certidão de nascimento de Obama.

Apesar de tudo isso, Dobbs deixou a CNN quando quis, não foi demitido. Conseguiu contrato melhor na Fox.

Os grupos de ódio se multiplicaram nos últimos vinte anos e já naquela época Mark Potok previa dias difíceis pela frente com a crise econômica que explodiu em 2008.

O que se viu em Charlottesville, na Virgínia, era, pois, de se esperar.

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1 comentário

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Morvan

25 de agosto de 2017 às 10h40

Bom dia.
Sempre muito bom ler os artigos de Heloisa Villela. Esclarecedores e nos mostram a Metrópole sem retoques.
Sempre disse aos meus interlocutores que os Estados Unidos são o nazismo funcional, pela sutileza na propaganda.
À guisa de colaboração, relembro a história de um dos “inventores”¹ do [efeito] Transístor; Willian Shokley. Detalhes, em inglês. por estar mais explícita, a página, aqui.
Shockley era eugenista de carteirinha. Aquelas experiências com as mulheres, principalmente as guatemaltecas (esterilização, testes de inseminação com virii bacteriae, etc.) têm o seu know-how. Ele publicou vários trabalhos eugenistas onde defendia a castração, por qualquer meio, dos “inferiores” negros.

¹ O transístor não foi inventado, e sim 'tomado emprestado' pelo Bell Labs e seus cientistas Shockley, Brattain e Bardeen. Juilius Lilenfeld, estadunidense naturalizado, já manipulava transístores desde 1925 e é o verdadeiro inventor do revolucionário dispositivo!
Os três encarregados do trabalho no Bell Labs estavam em busca do FET (Field Effect Transístor), mas o trabalho publicado pelos três claramente descreve um transístor bipolar. O Transístor de Efeito de Campo (FET) viria a ser produzido bem depois, até por ter propósito e princípio de funcionamento diferentes do bipolar
.

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