VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Hélio Doyle: E a velha, antiga luta continua…


28/06/2012 - 01h37

A velha luta continua

Publicado 26/06/2012 22:22

por Hélio Doyle, em seu blog, sugerido pelo Rogério Madureira

Direita e esquerda continuam presentes no cenário político e ideológico, em todo o mundo. Prova disso é o golpe dado pela direita contra a esquerda no Paraguai. Em resumo, foi isso que aconteceu: dentro da lei e da formalidade jurídica, a direita paraguaia, que domina o Congresso, derrotou a esquerda paraguaia, que havia elegido o presidente da República. Em termos mais amplos, a direita sul-americana infligiu uma derrota à esquerda do continente. Agora, nas políticas internas e externas da América do Sul, a luta continua entre direita e esquerda.

A direita e a esquerda se subdividem em diversas correntes, algumas mais extremadas, outras mais moderadas, há uma centro-direita como há uma centro-esquerda, e muitas vezes a direita assume políticas de esquerda e vice-versa. Mas isso não acaba com a essência da divisão política e ideológica cujas denominações remontam à Revolução Francesa.

Direita e esquerda vêm travando batalhas de ideias e de armas ao longo dos anos. Disputam eleições, dão golpes de estado, fazem revoluções, recorrem a ações armadas, digladiam-se em guerras civis. Quando um lado ganha o poder, por eleições ou não, o outro cuida de derrotá-lo o mais rapidamente possível. E usa todas as armas, as literais, as políticas e as econômicas, de que dispõe. Há 52 anos os Estados Unidos e aliados internos fazem de tudo para derrubar o governo de Cuba e restaurar o poder da direita. Há 48 anos as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia lutam contra a direita que governa a Colômbia.

A direita leva uma boa vantagem nesta luta, em países governados por ela ou pela esquerda – em seus diversos matizes, com exceção de Cuba, onde houve uma revolução que hoje não se repetiria. A direita tem o poder econômico, praticamente detém o monopólio da imprensa, consegue ser maioria nos parlamentos graças às práticas clientelistas e à força do dinheiro e da mídia nos processos eleitorais, consegue, pelas ideias conservadoras, ter forte influência entre militares e religiosos. E ainda tem o apoio dos Estados Unidos e dos governos de direita da Europa.

Mesmo com todo esse aparato, ao qual se soma a presença histórica nos tribunais, e com a máquina pública trabalhando por ela, a direita vem perdendo eleições e assim presidentes de esquerda ganham alguns governos. A questão é que ganham o governo, mas não o poder, que continua nas mãos dos que têm o capital e controlam a economia, a imprensa e instituições consolidadas no domínio da direita. Daí, ou a esquerda aceita moderar seus projetos e reduzir as contradições com o poder verdadeiro, o econômico, ou radicaliza o processo, o que só é viável com forte apoio popular e de pelo menos alguns segmentos das forças armadas.

A direita convive com a esquerda no governo enquanto não sente seus interesses ameaçados de fato ou não tem condições objetivas e subjetivas de derrotá-la. Tentou derrubar Hugo Chávez, da Venezuela, com um golpe militar apoiado pelos estadunidenses, mas não conseguiu, pois havia militares e forças populares apoiando o presidente. Teve sucesso ao derrubar Manuel Zelaya, em Honduras, e Fernando Lugo, no Paraguai, com golpes baseados na institucionalidade criada por ela própria e não desmontada, legalmente, pelos dois ex-presidentes. Tenta derrubar Evo Morales, da Bolívia, com a mesma tática com que derrubou Salvador Allende, do Chile, em 1973. Teria derrubado Lula, em 2005, se o presidente brasileiro não tivesse forte apoio popular e poder de reação. Preservou-o para derrotá-lo eleitoralmente em 2006, mas não deu certo.

Assim funciona a política, não a superficial do dia a dia parlamentar, mas a que busca o poder. Direita e esquerda não acabaram, ao contrário do que dizem ingênuos, desinformados e pretensos pensadores pretensamente modernos. Basta ver quem apoia o golpe no Paraguai: donos de terras (inclusive grileiros brasileiros), empresários do agronegócio, banqueiros, a Igreja Católica, políticos e militares conservadores, muitos deles colaboradores ativos do general Alfredo Stroessner. Com o cada vez mais claro respaldo da embaixada estadunidense e da agência local da CIA. Basta também ver quem apoia, no Brasil, o golpe no Paraguai: a direita raivosa e a moderada que, se pudessem, fariam a mesma coisa aqui, mesmo não tendo muito a reclamar.

O golpe “constitucional e legal” no Paraguai, porém, foi tão descarado que até países governados pela direita sul-americana, como Chile e Colômbia, sentem-se obrigados a adotar medidas que demonstrem sua reprovação e condenação. Até que ponto, ainda não se sabe. Os outros sete presidentes de países latinos sul-americanos são de esquerda, mas a esquerda tem diversos matizes e cada um desses países tem uma realidade interna diferente. Também não se sabe ainda até que ponto vão na reação ao golpe paraguaio.

E a velha luta continua.

 Leia também:

Ricardo Canese: Motorista multado no Paraguai tem mais prazo que Lugo

Pública: Revolução à americana (o golpe veste roupa de civil)

Honduras: O que rolou depois do golpe

Washington vai usar golpe para bloquear Venezuela no Mercosul?

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
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Por Laurindo Lalo Leal Filho



19 comentários

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Excertos do ensaio “Escravos de Cuba” (e um pouco mais sobre o livro que nunca sai) « Ceticismo Político

18 de novembro de 2013 às 02h04

[…] Artigo: “Hélio Doyle: e a velha antiga luta continua…”. Viomundo, 28 de junho de 2012. […]

Responder

Robert

28 de junho de 2012 às 17h41

A produção mundial d petroleo esta estagnada ha anos
Inclusive a crise economica é sintoma d estagnação d produção/extração d petroleo, fato q acarretou na estagnação do PIB mundial tb

Portanto, a crise economica mundial está entre outros aspectos, ligada a escassez d petroleo barato (extraido na superficie e em meio terrestre)

daqui p/ frente petroleo sera +: caro (extraido a grande profundidades em oceanos) e escasso;

o 11/09 é ligado a escassez de petroleo barato, por ter sido “alibi” utilizado por bush p/ invadir iraque, uma das maiores reservas mundiais d petroleo barato (extraido na superficie em meio terrestre)

ou seja, petroleo caro e barato não tem relação com $$ + c/ o retorno d energia em funçao da facilidade ou nao d sua extração

o barato é aquele q retorna d energia quantidade IMENSAMENTE superior à energia empregada p/ extraí-lo ex: extraido na superficie e em meio terrestre. ex de local onde ocorre: orientemédio

o caro é aquele q retorna d energia quantidade POUQUISSIMO superior à energia empregada p/ extraí-lo, ex: grande profundidades em oceanos. ex. de local onde ocorre: pre-sal

em outras palavras: a crise veio p/ ficar
é daí p/ beeeem pior!!

Quer queiramos ou não, a tendencia é sim de conflitos armados por recursos e pelo petroleo em especial.

a IEA – International Energy Agency em 2006 previa que a China ultrapassaria o consumo americano de energia em 2026/2030; em 2007 seria 2021/2024; em 2008 o numero foi 2016/2020; no corrente ano a EIA está prevendo que a China já ultrapassará o consumo americano de energia até 2014!

A guerra gera de uma maneira complexa um ciclo de destruição/reconstrução que faz girar a roda de varias industrias (armamentos, construção civil, industria farmaceutica, entre outras), alem de permitir a apropriação das riquezas dos paises conquistados, sendo portanto conveniente ao regime capitalista, em especial nos momentos de crise economica aguda e prolongada, sem qq perspectiva de solução a curto prazo, como a crise que hoje assola os EUA e a Europa

sem mais

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Celso

28 de junho de 2012 às 15h33

Até a Folha (Clóvis Rossi) narra o acontecido contra Lugo como “o crime perfeito” – http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/1111405-o-crime-perfeito-contra-lugo.shtml

Se o Wikeleaks estivesse a pleno vapor logo saberíamos que o que aconteceu com Lugo tem um dedo da CIA como movimento geopolítico para a nossa região.

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Maria

28 de junho de 2012 às 15h14

Tinha um amigo que odiava as expressões ‘neo, pré, pós’ nas discussões teóricas e acadêmicas, talvez porque assim tentava-se fechar um ciclo (como se a história tivesse acabado, como tentou nos convencer o japonês Fukuyama), como se não deixasse rastros do passado. O capitalismo nunca desapareceu das manchetes de jornais, ligado sempre ao que há de mais avançado (tecnologias), nem perdeu seus antigos teóricos, ainda conseguiu outros tantos nas ondas do neoliberalismo e, principalmente, do pós-estruturalismo (pelo menos no que se refere a determinados autores). Mas, ele precisava ser desvinculado das ideologias e das suas discussões. Lembro que era considerada uma blasfêmia falar de ideologia em certos programas de estudo nas universidades.Estranhamente, Marx nunca perdeu sua importância, pode ter sido silenciado,esquecido em alguma prateleira de livrarias e com as compras virtais, nunca está na exposição virtual espontânea. O que não tem visibilidade, não existe. Os PIGs mundiais sabem disso. O capital, o dos capitalistas, hoje mais do que nunca tem esse poder. Paradoxalmente, na crise atual das grandes potência, as palavras do velho Marx na sua obra inteira e em ‘O Capital: crítica da economia política’ ainda são atuais e explicam perfeitamente a situação global.

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    Maria

    28 de junho de 2012 às 15h37

    Uma correção. No lugar de pós-estruturalismo, queria dizer pós-modernismo, um movimento acadêmico que, segundo Perry Anderson, nasceu no Canadá como uma reação de teóricos de direita (o que, obviamente, também não se aplica a todos os autores dessa linha).Aliás, tanto o pós-estruturalismo como o pós-modernismo até hoje são vistos como conceitos amplos e de definições pouco precisas, como bem colocado por Tomáz Tadeu da Silva.

smilinguido

28 de junho de 2012 às 15h07

de um grafitti do maio 68 na França “de quem diz que não existe mais esquerda e direita só se pode dizer uma coisa com certeza: esse não de esquerda”..

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assalariado.

28 de junho de 2012 às 13h44

Muitos artigos colocados, aqui no viomundo, para debates/ respostas mais confundem, que esclarecem. Não estou fazendo defesa da censura, muito pelo contrário, que apareçam mais e mais, assim, todos aprenderemos os conceitos e preconceitos do que é ideologia politica e suas ramificações. No geral, fazem criticas ou, apenas rotulam direita x esquerda, radicais disso e daquilo e tals,… sem a profundidade necessária que, acabam por muitas vezes criando um falso debate, com falsos comentários/ respostas. Vejam bem, não estou falando que os internautas sejam falsos.

Me refiro aos posts que muitas vezes falam de tudo e, colocam joio e trigo num mesmo saco. Não explicam o seu sentido e afirmações. Por conveniência ou não. Sim, a luta de classes que é omitida neste post, e em muito outros, é o centro destes, porém nunca mencionados como origem destas várias lutas sociais travadas, dentro desta sociedade, onde os explorados tentam, tempo inteiro, se libertarem da exploração imposta pelos donos do capital e seu Estado burgues junto com suas instituições, não menos burguesas. A busca, é sim, pelo poder -( mas, que tipo de poder queremos?) Dentro desta sociedade de luta de classes, a ideologia social democrata fica tempo inteiro, em cima do muro que, por dedução, tirei lendo este artigo, é que: a luta pelo poder entre direita x esquerda se traduz e, morre em si mesma. Porque, quer queiram, ou não, é a luta de classes, o combustível que movimenta a história e, por consequência, suas transformações/ revoluções. Quanto a qualidade destas lutas, ideológicas ou fisiológicas, iremos aprendendo, nas discussões.

Saudações Socialistas.

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Alexandre Carlos Aguiar

28 de junho de 2012 às 12h47

PT e PSDB representam, respectivamente, direita e esquerda em nosso pais. Mas há gente no PT alinhada com a direita e gente dentro dos tucanos que lambe uma foice e martelo sem constragimentos. Isso me leva a pensar que, fatalmente, daqaui há poucos anos, teremos uma coligação PT-PSDB para a presidência da República.
Quem viver, se arrependerá de estar vivo.

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Jose Mario HRP

28 de junho de 2012 às 11h55

Nunca o desafio direita X esquerda esteve tão na atualidade!
Vladimir Safatle publicou recentemente obra em que reve e moderniza a forma de se pensar a esquerda!
Essa atualização cabe como uma luva no nosso momento politico!
E a direita se movimenta para pegar uma posição de força(golpes, ilegalidades mimetizadas por leis espúrias, e manipulação via midia) .
O mundo está necessitado de novidades intelectuais para combater o capitalismo e seus exercitos.

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O_Brasileiro

28 de junho de 2012 às 10h55

Quando operários e camponeses ascendem à classe média, a maioria se torna de direita.
Esquecem o passado e comprometem o futuro.

Responder

Willian

28 de junho de 2012 às 09h23

Se foi a direita paraguaia que deu o golpe, podemos concluir que quase todos os membros do legislativo paraguaio (deputados e senadores) são de direita. A pergunta que se faz é esta: quem os colocou lá? Se o povo que quer Lugo de volta ao poder é de esquerda, e seriam tantos, por que nas eleições legislativas não colocaram representantes de esquerda?

Responder

    Jose Mario HRP

    28 de junho de 2012 às 11h22

    Descobriu a América!

Mardones Ferreira

28 de junho de 2012 às 08h59

Muito bom. Parabéns!

Responder

Roberto Locatelli

28 de junho de 2012 às 07h54

O autor finge estar acima das divisões políticas. Portanto, é de direita.

O autor não menciona que a divisão política é o resultado da divisão de classes. A direita representa, grosso modo, os ricos, principalmente banqueiros, especuladores e grandes latifundiários. Enquanto que a esquerda defende as classes pobres.

Responder

    Willian

    28 de junho de 2012 às 10h56

    Pelo o que eu entendi, os bons e puros são de esquerda?

    Maria

    28 de junho de 2012 às 14h41

    Positivo,operante.

    Maria

    28 de junho de 2012 às 14h45

    Meu comentário foi em relação ao que o Locatelli escreveu. Muito bom, principalmente quando diz que o autor finge estar acima das divisões políticas. Nada a ver com pureza ou impurezas ideológicas, mas com posturas honestas.

    Rodrigo Leme

    28 de junho de 2012 às 14h59

    Se não lambe as botas da esquerda e a aceita como única força política legítima no mundo, é direita.

    Deviam trocar o artigo dessa postagem pelo Roberto Locatelli, traduz o que 80% das pessoas aqui pensam mas ao menos têm vergonha de dizer pra não perderem o lustre progressista.

Marduk

28 de junho de 2012 às 07h47

O contrário também acontece. Veja o caso do PT malufando…eheheheheheheeheh

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