Gustavo Guerreiro: Os algoritmos não conseguem decifrar o Brasil profundo
Tempo de leitura: 7 min
Por Gustavo Guerreiro*
Ou é zero, ou é um. Gostou ou ignorou, adorou ou detestou, permaneceu na bolha da direita ou se isolou no cercado da esquerda.
Para os programadores e engenheiros que produzem modelos sofisticados de algoritmos e têm a ambição de criar uma representação do mundo a partir de confortáveis escritórios climatizados na Califórnia, a totalidade da experiência humana se encaixa em uma lógica decisória simplista, quase ingênua, mas bastante presunçosa.
Por anos — e admito que eu mesmo caí nessa armadilha —, acreditamos que tudo não passava de um jogo de cartas marcadas. E tudo soava com uma lógica cortante e friamente evidente. As gigantescas empresas de tecnologia, como a Meta, do Instagram, construindo seu império invisível de manipulação da razão e do coração, finalmente descobriram a fórmula necessária para controlar o comportamento político das multidões.
Converteu cidadãos comuns em usuários e, mais do que isso, em ratos de laboratório, contra os quais aciona a alavanca do ódio sempre que a tela de seu celular se move.
Observemos mais de perto o que está acontecendo nas profundezas deste país e poderemos notar algo estranhamente dissonante dos modelos computacionais do Vale do Silício; um erro que nenhum especialista em dados formado em Stanford pode corrigir simplesmente lançando uma atualização de software da noite para o dia.
Os números estão aí para quem quiser ver: a partir da TIC Domicílios, que o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostraram que mais de 84% da população brasileira utiliza a internet, passando horas a fio imersos no Whatsapp e Instagram, tornando assim o Brasil estatisticamente uma das populações mais conectadas e incessantemente expostas a bombardeios algorítmicos em todo o mundo.
De acordo com a lógica infalível da programação de modelos ditos preditivos, o povo brasileiro deveria ser a horda mais obediente e, portanto, uma cobaia ideal. A engenharia comportamental levaria populações inteiras ao vazio abissal de um comportamento político premeditado sem oposição.
No entanto, na realidade, tudo tende a desafiar o que acontece nos laboratórios da Meta, nas últimas eleições. Isso foi provado inequivocamente pelas inúmeras pesquisas Datafolha, Quaest, CNT/MDA, etc. e verificado pelos próprios registros de apuração de votos do TSE.
Foi visto como os milhões de eleitores, bombardeados incessantemente em grupos familiares de Whatsapp todos os dias por uma avalanche de desinformação serializada, simplesmente fizeram uma curva cega no último momento para votar no candidato que lhes garantiria o seu sustento diário: a Farmácia Popular ou os programas de habitação social continuados sem se importar se era ou não a guerra cultural que se acendia em suas mãos.
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A solução não está nos livros de ciência da computação ou mesmo naqueles que lemos. A alta cúpula das gigantes da tecnologia não tem, e, francamente, nem os membros da nossa esquerda acadêmica, que adoram trazer conceitos já elaborados de Paris ou Nova York, uma leitura cuidadosa de Roberto DaMatta em sua bagagem.
Todo o mecanismo de funcionamento da máquina digital segue a lógica inquebrável do que o antropólogo carioca gostava de descrever como o espaço da rua. Enquanto a rua, segundo a sociologia de DaMatta, é o espaço regido pela lei abstrata anônima, hipercompetição implacável onde somos apenas um número de CPF e, na metáfora agora modernizada: um pedaço de metadado pronto para ser vendido ao anunciante que pagar mais.
Enquanto o código computacional é a vitória imperecível da rua: lá o que é permitido e o que não é permitido impera acima de tudo, juntamente com a verdade e a falsidade sob declarações lógicas; um livro de regras inflexível que estabelece cada ser humano como um indivíduo estatístico isolado.
A questão é que os brasileiros se recusam categoricamente a viver apenas na rua, muito menos das redes digitais. Porque a verdadeira vida social, aquela que estabelece quem deve proteger, em quem devemos confiar faça chuva ou faça sol e para quem devemos estar quando a cortina se fecha depois de encerrada a urna eletrônica aconteceu na gramática da casa, lá os humanos abstratos anônimos dão lugar ao indivíduo, um ser imbuído em suas teias de relações familiares, compadrio, dívidas e favores devidos e vizinhos que não se pode escolher, relações afetivas que não podem ser encaixadas em um gráfico de engajamento.
O algoritmo alimenta o eleitor com puro ódio. O faz lutar luta contra o vizinho que petista, querer “acabar com os índios” e defender uma ruptura absoluta com o “sistema”.
No domingo, porém, ele tem um churrasco com os amigos, a madrinha que empresta um botijão de gás quando o dinheiro para ele acaba no dia 20 do mês, o sobrinho que conserta seu computador de graça e a igreja que acolhe suas angústias (para o bem ou para o mal).
A vida se impõe de tal modo, que nenhum feed de notícias pode traduzir. Entre o “sim” e o “não” do modelo de algoritmo estadunidense reside o bom e velho “mais ou menos” brasileiro que vira solução para tudo. O “jeitinho brasileiro” não compraz com o moralismo porque é uma forma de resistência contra uma externalidade fria, distante e arrogante.
Chega a dar pena dos analistas de dados olhando para suas planilhas, vendo esses milhões de interações sintéticas, pensando que entenderam a alma de um país-continente, sem nunca ter a menor ideia de que foram solenemente enganados pela nossa ambiguidade plurirreligiosa.
Mas a questão é mais profunda do que a simples astúcia cotidiana das relações pessoais, mais profunda ainda, porque se DaMatta nos ajuda a descobrir como podemos contornar o código em suas entrelinhas, é o velho e imenso Darcy Ribeiro que explica a natureza vulcânica dessa nossa força indomável.
Sempre que releio O Povo Brasileiro, e o faço quase, como quem busca água mineral no sertão cearense, surpreende-me o que Darcy teria a dizer se pudesse ver esses bilionários pálidos tentando nos encaixar nas caixas comportamentais que eles projetaram.
Toda a nossa formação histórica de mais de cinco séculos foi definida por uma luta permanente de dois movimentos confrontantes: de um lado, o racionalismo burocrático e exógeno das elites coloniais; imperiais ou empresariais, sempre de cima para baixo tentando impor o “molde” inflexível, o projeto administrativo que deveria converter a população em simples engrenagens produtivas e do outro, a expansão anárquica, selvagem e espontânea das massas.
O que são os algoritmos das grandes plataformas digitais senão a versão do século 21 das velhas ordenanças, o novo feitor eletrônico que pretende ditar o ritmo do nosso desejo e da nossa cólera?
Ocorre que do lado de cá não há um povo europeu fatigado nem uma classe média suburbana norte-americana, domada pelo puritanismo. Há o que Darcy batizou como o “Povo Novo”. Viemos do contato brutal de que resultou o arrebatamento inicial de matrizes indígenas, africanas e ibéricas, moídas na engrenagem colonial, atiradas para aquilo que, com uma beleza poética, ele chamou um “vácuo de nulidade”. Quem já não era mais indígena, quem já não podia ser somente africano, quem já era português por direito, tinha de se reinventar do zero pela improvisação na dor.
Não se trata de romantizar a miséria, longe disso; quem acompanha os indicadores da PNAD Contínua do IBGE ou os relatórios do Ipea sobre concentração de renda tem a dimensão da tragédia material que o país ainda carrega nas costas. O problema central da política continua sendo essa brutal desigualdade regional; ou, de fato, a união nacional, que nunca foi definida como um projeto de país. É sintomático quando são mostrados os estados em que cada candidato teve mais votos. Há uma clivagem evidente entre o Sul e o Nordeste.
Também é preciso observar a verdadeira política brasileira quando ela pega fogo nas ruas. Ela tem a estrutura do Carnaval. Enquanto o mundo corporativo das redes sociais gira em torno de uma contabilidade rígida, contando segundos de visualização, taxas de rejeição, conversões de anúncios através de análises sofisticadas em suas fazendas de servidores, muitas vezes, a tomada de decisão do povo brasileiro explode em uma festa “anárquica”, da celebração, do corpo, do suor e do levante.
DaMatta argumenta prazer e a invenção no Carnaval subvertem a ordem burocrática; na política real das periferias e do interior, a sabedoria popular e rústica desafia a contabilidade tecnocrática e decide por instinto, através do olhar nos olhos, da memória afetiva daqueles que estiveram ao nosso lado quando a corda apertou demais no pescoço. Nenhum código binário pode calcular o valor político de um abraço orgulhoso da mãe em sua filha que entrou na faculdade pelo Enem.
É óbvio que as big techs continuarão tentando. O modelo de negócio dessa gente se baseia em reduzir a complexidade humana a mercadorias previsíveis em pacotes de ódio e consumo imediato e eles já possuem seu exército de lobistas em Brasília para impedir qualquer legislação séria que mexa com seus lucros extraordinários.
Confiar apenas a essa resistência orgânica da nossa cultura seria uma irresponsabilidade política imperdoável. A antropologia explica porque sobrevivemos ao ataque. Mas a política exige que desarmemos o inimigo antes que ele engula o Estado.
É aqui que o governo Lula precisa pular da trincheira meramente defensiva para tomar a liderança com a ousadia que o momento exige. Não basta destravar a lei de transparência econômica e algorítmica engavetadas no Congresso Nacional ou sair publicando paliativos no Diário Oficial toda vez que uma crise de desinformação ameaça políticas de saúde ou segurança públicas.
Não bastam medidas paliativas da Secretaria de Comunicação e Advocacia Geral da União. O Executivo Federal tem o dever de traduzir em infraestrutura pública e soberania tecnológica, essa sociabilidade brasileira, sobre a qual falava DaMatta.
Se a força dos brasileiros reside, nos elos comunitários e na invenção de uma sociabilidade única, por que o Estado ainda insiste em se comunicar quase que, exclusivamente, nas pocilgas privadas de Mark Zuckerberg, Elon Musk e Bill Gates, pagando pedágio ao capataz digital para conseguir falar com sua própria população?
Lula tem a faca, o queijo e o orçamento da união na mão para articular os ministérios da Cultura, Ciência e Tecnologia e Comunicações num projeto nacional que financie redes sociais próprias, que fortaleça os “Pontos de Cultura” criados há tempos por Gilberto Gil convertendo-os em verdadeiros centros de letramento crítico e crie, uma nuvem pública soberana que retire dados estratégicos do SUS, MEC e Cadastro Único das garras de corporações estrangeiras.
Só quando o Estado Brasileiro tiver a coragem de proteger institucionalmente essa “nova Roma” de Darcy Ribeiro, uma civilização tropical, banhada em sangue preto e sangue indígena, tão endurecida na resistência e desafeita ao freio nos livraremos de fugir aos bocados pelas frestas do muro digital.
Com o orçamento público a serviço da vida e a lei enquadrando a barbárie das big techs estaremos aptos a levar uma cadeira para calçada sem um algoritmo apontado em nossas cabeças convertendo nosso velho “jeitinho” de sobreviver em projeto de soberania e utopia definitiva.
*Gustavo Guerreiro é indigenista, doutor em Políticas Públicas e pesquisador do Observatório das Nacionalidades
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo




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