Fernando Nogueira da Costa: Lula reeleito por eleitores de todo o Brasil
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Por Fernando Nogueira da Costa*
Em eleição para presidente, o Brasil é mais representativo diante dos Estados Unidos!
Para a representação estadual no Congresso Nacional, não: a quantidade de deputados federais varia de oito a 70, a depender do estado – e não está proporcional ao número de eleitores. As bancadas estaduais na Câmara não são redistribuídas desde 1993, quando foram estabelecidas com base no Censo de 1991.
A Constituição americana proíbe mais de um representante por 30 mil pessoas e a lei federal fixou número em 435. Os EUA, com cerca de 340 milhões habitantes, possuem 435 deputados federais há quase 100 anos. O Brasil, com cerca de 215 milhões de habitantes, tem 513. As variações demográficas criaram distorções.
Parte da mídia brasileira não sabe analisar os dados publicados por ela. Analisa somente os relativos dentro de cada estado, como fosse a eleição nos Estados Unidos: quem ganhasse a unidade federativa levaria todos os seus delegados.
A eleição americana muito diferente de uma contagem nacional simples de “cada cabeça, um voto”. O voto popular lá é contabilizado dentro de cada estado. Depois, os eleitores, vinculados à chapa vencedora naquele estado, são nomeados para participar do Colégio Eleitoral. São formalmente responsáveis por votar para presidente e vice-presidente, depois da eleição geral. O dirigentes máximos dos Estados Unidos são escolhidos indiretamente pelos eleitores.
A maior parte dos estados americanos usa a regra conhecida como winner-takes-all, ou “o vencedor leva tudo”. Essa regra significa a candidatura mais votada no voto popular de um estado receber todos os votos eleitorais daquele estado.
Por exemplo, se um estado tem 10 votos eleitorais, a candidatura com mais votos populares naquele estado normalmente leva todos eles. Mesmo uma diferença pequena pode resultar na atribuição de todos os votos eleitorais daquele estado à candidatura vencedora.
Por esse motivo, já houve cinco casos de uma candidatura vencer no Colégio Eleitoral mesmo sem ter a maior votação popular nacional. Isso acontece porque o eleito depende da combinação de vitórias nos estados e da quantidade de votos eleitorais de cada um deles.
Esse sistema de votação indireto e o papel do Colégio Eleitoral abrem possibilidade para um “derrotado” no voto popular conseguir chegar à Casa Branca. Por exemplo, na eleição de 2000, disputada entre o democrata e vice-presidente Al Gore e o republicano George W. Bush, governador do Texas, a disputa final acabou sendo decidida no estado da Flórida, à época com 25 votos no colegiado. No voto popular em todo o país, Gore tinha uma vantagem de 540 mil votos, ou 48,4% do total, contra 47,9% de Bush.
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Em 2016, Trump venceu em uma série de estados decisivos, aparentemente garantidos para Hillary, inclusive no “cinturão da ferrugem”, uma região desindustrializada dos EUA antes pendente para os democratas. Ao todo, Trump venceu em seis estados os quais haviam votado nos democratas em 2012. Isso o levou a conquistar 304 votos no Colégio Eleitoral, contra 227 de Hillary.
A democrata, no entanto, ficou bem à frente de Trump no voto popular. Na contagem final, Hillary somou 65,8 milhões de votos (48,2%), enquanto Trump obteve 62,9 milhões (46,1%).
No Brasil, os mais votados em cada estado são eleitos para governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Para presidente da República importa o número absoluto de votos conquistados em todos as unidades federativas.
O Sudeste é a região com o maior eleitorado do Brasil em 2026. São 66.329.375 pessoas aptas a votar, equivalentes a 41,78% do total nacional. O Nordeste aparece em segundo lugar, com 43.529.845 eleitores, ou 27,42%. O Sul reúne 22.861.012 e representa 14,40% do eleitorado. O Norte tem pouco mais de 13,1 milhões de eleitores e o Centro-Oeste, cerca de 12 milhões.
Quase ⅕ dos votos em Lula (12,1 milhões) foram conquistados no Estado de São Paulo. Bahia e Minas Gerais juntos somaram mais 12,8 milhões. Estado do Rio, Pernambuco e Ceará juntaram mais 12,7 milhões. Eleitores dessa meia dúzia de unidades federativas com 37,7 milhões de votos lhe deram 58,8% do total.
Mas os eleitores dos estados com menos de um milhão de votos cada fizeram a diferença dele para o Capachonaro: quase 4,4 milhões de votos! Todos os eleitores de Lula, no Brasil todo, foram essenciais para a vitória!

O preconceito regionalista e a xenofobia contra os nordestinos têm raízes históricas, econômicas e sociais, ligadas à formação do Estado brasileiro e ao projeto de desenvolvimento centrado no Sul e no Sudeste do país.
No fim do século XIX, eventos como a grande seca de 1877, a Guerra de Canudos e o surgimento do cangaço começaram a ser retratados pela imprensa de forma a associar o Nordeste à escassez, ao atraso cultural e à fragilidade econômica.
A formalização do Nordeste como uma entidade administrativa separada do antigo “Norte” gerou debates políticos e resistências de regionalistas quanto ao envio de verbas e atenção federal para a região. Até hoje, ignorantes abominam isso.
Na década de 1920, campanhas em jornais e o discurso eugênico da época lançaram preconceitos contra a população nordestina imigrante para centros industriais como São Paulo. Esse fluxo de mão de obra contrariava o projeto de “branqueamento” nacional, pretendido pelos descendentes de senhores de escravos. Priorizavam a imigração europeia, dando origem a estereótipos racistas ao rotularem o nordestino como “preguiçoso” ou de “raça inferior”.
O preconceito transforma a pobreza estrutural — fruto da concentração de renda e riqueza fundiária — em suposta “culpa” dos próprios habitantes da região, associando-os a estereótipos pejorativos sobre auxílios sociais e trabalho. Essa discriminação se perpetua no imaginário social de habitantes de regiões rurais mais bem-sucedidas.
Ela é intensificada em debates políticos e redes sociais, manifestando-se também como assédio moral no ambiente de trabalho contra trabalhadores migrantes. No Brasil, a discriminação ou o preconceito em razão de procedência nacional ou regional é crime previsto pela Lei nº 7.716/1989 (alterada pela Lei nº 9.459/1997).
O quadro estatístico acima vai contra o preconceito regionalista, predominante no interior do Sul-Sudeste, ao acusar: “a culpa da vitória do Lula é do Nordeste”. Demonstra os eleitores do Lula no Brasil todo terem sido decisivos para sua vitória!
O petista acrescentou 10.376.694 votos ao total já recebido no primeiro turno. Flávio também ampliou sua votação com votos da direita, mas em ritmo menor: foram 3.721.538 votos a mais, ou seja, Lula impôs uma diferença de 6.655.156 votos nesse acréscimo.
O avanço combinou uma virada em Minas Gerais, a redução de desvantagens em grandes colégios eleitorais do Sudeste, e o reforço da liderança no Nordeste.
Nos resultados por unidade da Federação, Lula aumentou seu percentual de votos válidos nos 26 Estados e até no Distrito Federal em relação ao primeiro turno.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]




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