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Descrito em livro, golpe de Villas Bôas mostra que Bolsonaro foi eleito “na marra”
Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Política

Descrito em livro, golpe de Villas Bôas mostra que Bolsonaro foi eleito “na marra”


15/08/2019 - 15h47

Livro traz mais uma pista de ‘golpe branco’ pró-Bolsonaro na eleição

André Barrocal, em CartaCapital

Na terça-feira anterior ao domingo da votação final na eleição de 2018, houve uma reunião no Tribunal Superior Eleitoral entre juízes da corte e o general então à frente dos órgãos de inteligência do governo, Sérgio Etchegoyen.

A presidente do TSE, Rosa Weber, ainda hoje no cargo, havia sido xingada e ameaçada via redes sociais por um coronel bolsonarista, Antonio Carlos Alves Correia.

Quando a reunião terminava, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, também ainda hoje no cargo, avisou os presentes que iria ao TSE e queria dizer uma coisas.

O que ele falou ali é relatado em um livro que acaba de ser lançado com histórias da mais alta corte, Os Onze – O STF, seus bastidores e suas crises.

“Toffoli descreveu um cenário sombrio”, escrevem os autores Felipe Recondo e Luiz Weber, ambos jornalistas.

“Lembrou que o então comandante do Exército, general (Eduardo) Villas Bôas, tinha 300 mil homens armados que majoritariamente apoiavam a candidatura de Jair Bolsonaro.”

O relato do livro é outro tijolinho em um enredo que um dia a História com letra maiúscula contará sobre o Brasil e eleição de 2018.

Sobram pistas de que as Forças Armadas deram um “golpe branco” pró-Bolsonaro, emparedaram o STF para impedir a soltura e a candidatura de Lula, algo até hoje a desanimar muito lulista quanto à libertação dele, e não aceitavam a volta do PT ao poder.

Em 9 de outubro de 2018, duas semanas antes de Toffoli falar no TSE dos 300 mil soldados, que é a tropa brasileira da ativa, um dos chefes da campanha de Fernando Haddad havia recebido um alerta.

Todos os cardeiais do QG eleitoral petista estavam monitorados pelos órgãos de inteligência do governo, aqueles de Etchegoyen. Mais: Toffoli também estava, até havia um dossiê contra ele.

Seria um dossiê abastecido com investigações ilegais da força-tarefa da Operação Lava Jato reveladas recentemente pelo Intercept?

O alerta recebido pelos petistas foi relatado por CartaCapital na edição da revista que chegou três dias depois às bancas.

A reportagem contava ainda que naquele momento circulava no gabinete de Toffoli no STF uma história espantosa.

Quando Bolsonaro tomou uma facada, em 6 de setembro, altos oficiais haviam se rebelado e decidido ir às ruas.

A ameaça de golpe era real.

Como o então presidente Michel Temer não tinha autoridade moral para enquadrá-los, sobrou para Toffoli, que assumiria o comando do STF uma semana depois, descascar o abacaxi.

Toffoli assumiu o comando da corte em 13 de setembro, tendo nomeado como assessor especial o número 2 do Exército na época, o general Fernando de Azevedo e Silva, que chefiava o Estado Maior do Exército.

Era uma tentativa de ter um canal com o Exército. A indicação do general tinha partido de Villas Bôas, que era o número 1 do Exército, o chefe dos 300 mil bolsonaristas.

Azevedo e Silva é agora ministro da Defesa de Bolsonaro. Villas Bôas é assessor especial do GSI, o órgão de inteligência do Palácio do Planalto.

Autor de um artigo publicado em abril deste ano intitulado “Bolsonaro e os quartéis: a loucura com método”, Eduardo Costa Pinto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que o Exército pavimentou a vitória de Bolsonaro com um “golpe branco”, ao emparedar o Supremo. E que o maestro do golpe foi Villas Bôas.

Costa Pinto observa que ao empossar Azevedo e Silva como ministro da Defesa, Bolsonaro reconheceu enigmaticamente quem merecia: “Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

Ao deixar o comando do Exército para ser assessor especial da Presidência, Villas Bôas, hoje uma pessoa doente dependente de cadeira de rodas, disse publicamente ao presidente: “O senhor traz a necessária renovação e a liberação das amarras ideológicas que sequestraram o livre pensar”.

“O Villas Bôas deu um ultimato no Bolsonaro numa conversa: ‘Só temos você’”, disse a CartaCapital um general aposentado.

Tradução: só ele seria um candidato palatável para o que o Exército achava certo fazer no País.

Para Costa Pinto, as manifestações públicas do general quando chefe do Exército, de 2015 a 2018, mostram que Villas Bôas impediu um “golpe clássico”, uma quartelada, com sua pregação de legalidade, de resolução eleitoral dos problemas do País.

Mas foi “o grande armador” do “golpe branco” que levou Bolsonaro ao poder, ao agir para alijar Lula do páreo.

Na véspera de o Supremo decidir sobre a soltura de Lula, em abril de 2018, Villas Bôas ameaçou o tribunal via Twitter.

“Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.”

O general praticamente reconheceu a ameaça, em entrevista à Folha em novembro de 2018.

“Ali, nós conscientemente trabalhamos sabendo que estávamos no limite. Mas sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse. Porque outras pessoas, militares da reserva e civis identificados conosco, estavam se pronunciando de maneira mais enfática.”

Houve mais uma ação eleitoral digna de nota por parte Villas Boas. Quando o comitê de Direitos Humanos da ONU defendeu a candidatura de Lula, o general reagiu no Estadão: “Tentativa de invasão da soberania nacional”.

Cenas de um enredo à espera de entrar para os livros de História.

PS do Viomundo: O tweet do general Villas Bôas foi lançado a tempo de ser lido no Jornal Nacional, como última notícia, exatamente no tom que a emissora usava durante a ditadura militar, quando “recados” eram transmitidos assim — muitas vezes disfarçados de “entrevistas” com palavras duras de Antonio Carlos Magalhães. O Brasil muda muito pouco…



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20 comentários

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Marcelo

05 de abril de 2020 às 06h45

Pelo exposto, só podemos concluir que se um ministro de um tribunal se fez refém, só o fez por dever algo ou ter algo a esconder. Gente de bem não deve nada a ninguém. E esta é a causa do suposto golpe ter dado certo, e não o general ter ameaçado expor algo. Um erro grotesco de avaliação, mas bem comum e alinhado com nossa época. Infelizmente, todos eles têm algo a dever, independente do alinhamento político.

Responder

[email protected] de Oliveira Saldanha

01 de março de 2020 às 15h25

Salvo melhor juízo as FFAA, tem suas funções definidas e limitadas pela Constituição vigente. Não caberia pois a qualquer militar, de qualquer força ou patente, manifestar opiniões políticas e principalmente, ameaçar mesmo que veladamente, autoridades legalmente constituídas.

Responder

niveo campos e souza

20 de outubro de 2019 às 13h23

Esse pobre Villas Boas é um lixo político e humano. Não vale nada.

Responder

António Silva

16 de agosto de 2019 às 18h40

Teria sido melhor o PT, ter desistido de se apresentar às eleições, mostrando ao mundo o golpe que se estava a preparar. Como foi possível todos os outros poderes, principalmente o ST, ter-se posto de joelhos, perante os milicos. Se o ST, se tivesse demitido em bloco, quando um militar, Azevedo e Silva, se tornou assessor especial de Toffoli, não aceitando o jugo do exército, hoje não estaríamos nesta situação.

Responder

Zé Maria

16 de agosto de 2019 às 13h16

Sobre o “PS do Viomundo: O tweet do general Villas Bôas foi lançado a tempo de ser lido no Jornal Nacional, como última notícia, exatamente no tom que a emissora usava durante a ditadura militar, quando “recados” eram transmitidos assim — muitas vezes disfarçados de “entrevistas” com palavras duras de Antonio Carlos Magalhães.”

A Globo oferecia câmeras e microfones para
atender aos interesses da Ditadura Militar.
Assim, além do ACM, também eram destacados outros líderes da ARENA
(depois PDS) – Partido dos Governos
Ditatoriais – como Zé Sarney, Paulo Maluf,
Nelson Marchezan, Marco Maciel e todos
aqueles políticos que, em 1964, ‘marcharam pela família com Deus pela liberdade’ e que
mais tarde, em 1968, aplaudiram a decretação
do Ato Institucional Nº 5 (AI-5) que cerceou
as liberdades políticas, individuais e coletivas,
legitimando, de fato, a matança de pobres, negros e índios, e de estudantes ‘rebeldes’
e ‘subversivos’.
Em suma, eram essas práticas da Ditadura
dos Generais, Almirantes e Brigadeiros,
que a Globo sempre apoiou.

Responder

João de Paiva

16 de agosto de 2019 às 12h29

André Barrocal é grande repórter, disso sabemos. Mas qual a novidade na reportagem ou no livro sobre o qual ela discorre? Nenhuma. Aliás, essa história de chamar o general Villas Bôas de “cérebro do golpe” é muita generosidade com ele, pois pelo que observo ele nunca teve o efetivo comando da tropa, sendo apenas uma espécie de porta-voz da “tigrada”. Etchegoyen, também gaúcho, mas que “ladra” e aparece bem menos que VB, esse sim, teve e continua tendo muito poder na caserna.

Responder

a.ali

15 de agosto de 2019 às 23h18

milico safado morrendo aos poucos e foden…o pais…

Responder

Sergio Navas

15 de agosto de 2019 às 23h14

A foto do Vilas Boa, me faz lembrar da teoria de um amigo judeu.
Segundo ele, o que se faz aqui, aqui se paga.
Se estiver correto, Vilas Boa vai durar muitos anos ainda.

Responder

Zé do rolo

15 de agosto de 2019 às 20h38

Esse general está com doença degenerativa já está pagando por seus possíveis erros cometidos aqui na terra.
Será que esse general (Villas Boas) está fazendo o que o capitão ordenou? Fazer cocô dia sim ,dia não?

Responder

fernando

15 de agosto de 2019 às 20h22

então temos que esperar uns 10 ou 15 anos…esperar a China superar e destruir o império estadudinense..só assim essa milicada pró eua vai sair do poder e a esquerda terá as forças armadas russas e chinesas como apoio para voltar ao poder e varrer todo ess bando de traidores para sempre!!

Responder

    Damarato

    18 de agosto de 2019 às 21h01

    Depois deste artigo, as Forças Armadas que já possuem a maior credibilidade entre as Instituições do Pais, aumentarão ainda mais na próxima pesquisa.
    Obrigado, General.
    O ladrão corrupto lavador de dinheiro continua preso.

Antonio

15 de agosto de 2019 às 20h02

O exército, a marinha e a força aérea deste país deveriam ter vergonha de se colocarem como defensoras da pátria.
Pátria para esses poltrões energúmenos são sinecuras como a do Gal Heleno que mamava no COB, o Echegoyen mamando no Millenium e outros menos votados que se vendem qual prostitutas por uns trocados.
Tendo como patrono um genocida se prestam ao trabalho de coiotes de qualquer um que lhe entregue um trocado.
Basicamente formadas por pessoas ignorantes do interior, Bolsonaro é um exemplo dessa minha colocação, não tem formação, berço ou cultura.
São “educados” para serem servis a qualquer um que tenha aparência de poder, ainda que esse poder tenha pés de barro.

Responder

    GauchãOrtiz

    16 de agosto de 2019 às 00h35

    Excelente comentário, que pinça desde do início do século passado as FFAA. Começou com Deodoro.

Zé Maria

15 de agosto de 2019 às 18h12

“Golpe Branco”?

Só se foi pela cor da pela dos golpistas.

Porque de fato foi outro Golpe Verde-Oliva.

A diferença de 1964 é que, desta vez, colocaram de Chefête do Poder Executivo
um “Recruta Zero”.

Responder

Arestides Fronza

15 de agosto de 2019 às 17h30

O inferno está a espera desse generaleco.

Responder

    Antonio

    15 de agosto de 2019 às 19h57

    Sim, mas que demore muito por aqui.
    Desejo vida longa ao Gal Villas Boas para que pague em vida o mal que fez.

15 de agosto de 2019 às 17h06

Eu só me pergunto se não era mais fácil entender que Lula (ou qualquer outro candidato do PT ) nunca seria eleito dadas as circunstâncias, e se retirado do pleito.
Não precisava apoiar ninguém abertamente. Bastava o silêncio.
Estaríamos bem melhor hoje.

Responder

    Mário

    15 de agosto de 2019 às 21h35

    O PT foi egoísta e ganancioso ao se forçar num cenário eleitoral completamente hostil a eles. O Bolsonaro até hoje não tem nada além de anti-petismo atrás ele. E claro, quem sofre as consequências é o povo.

    Zé Maria

    16 de agosto de 2019 às 12h40

    Falso!
    ‘Dadas as circunstâncias’ – ou seja, a destruição
    da Economia do Brasil pelo Bandido-Mor{o}
    e pela FTLJ que deixou Milhões de Pessoas Desempregadas – e a incompetência dos
    Candidatos Adversários ao PT, possivelmente
    o Lula seria Eleito no 1º Turno da Eleição Presidencial de 2018 e, se não no primeiro,
    no Segundo Turno com certeza voltaria
    a ser eleito Presidente do Brasil com Ampla
    Vantagem de Votos sobre qualquer Oponente.
    Por isso, precisavam prendê-lo no Ano Eleitoral.
    E mesmo assim tiveram que fraudar a Campanha Eleitoral, em favor de Bolsonaro,
    para que Fernando Haddad não se elegesse.
    Tudo isso, “Com Supremo, Com Tudo”,
    sob ameaça de Golpe dos Militares das FFAA.

    17 de agosto de 2019 às 10h50

    Que fraude em eleição? Do que você tá falando?
    O problema é que o PT insiste em não reconhecer como válida qualquer opinião diferente da deles. Curiosamente assim como os bolsominions.
    Há uma parcela significativa da população brasileira que não entende o PT como a melhor opção. O PT ganhou quatro eleições presidenciais seguidas. Alguém com o mínimo senso de democracia acha isso válido? O que você achou que a oposição faria? Gente razoável votou num candidato não razoável negando o PT. A CULPA DE BOLSONARO SER PRESIDENTE É DO PT.
    O PT NÃO AGIU COM DEMOCRACIA.


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