Por Gilberto Maringoni*, em perfil de rede social
1. As gigantescas manifestações populares em homenagem a Ali Khamenei impactaram o mundo nesta semana. O governo iraniano divulga o número de 35 milhões de pessoas nas ruas, num país de 94 milhões. Pode haver exagero. Mesmo que seja metade disso, nunca houve movimento de massas de tais dimensões em lugar ou tempo algum da História.
2. O Irã deu uma demonstração de coesão nacional que nenhum país ocidental jamais deu, mesmo em tempo de guerras. Lembremos: os EUA se dividiram na guerra do Vietnã e em outros conflitos. Talvez a URSS, durante a II Guerra, tenha se unificado assim, mas sem demonstrações de massa dessas dimensões.
O Estado persa, tido como isolado ou pária internacional, conseguiu o feito de contar com representações de autoridades de 90 países nos eventos fúnebres de 4 a 9 de julho.
3. Se compararmos o número de pessoas nas ruas ao que foram as comemorações dos 250 anos de independência, os Estados Unidos passam vergonha.
Apesar de todo aparato de mídia, propaganda e show bízines que têm à disposição e com um tempo de preparação e planejamento enorme para um show de patriotadas, não repetiram nem de longe a comoção nacional observada no bicentenário, em 1976. Não há dúvidas: Teerã empalideceu, por comparação, as festas de Washington.
4. Entre o final de semana de “stars and stripes forever” e as multidões no Oriente Médio, tivemos a reunião da OTAN em Ancara, na Turquia. Trump esmerou-se em críticas aos 31 aliados presentes, com reclamações contra a Espanha, a Dinamarca e reiterou sua vontade de avançar sobre a Groenlândia.
Os membros europeus apresentam ao mundo a escalada da guerra contra a Rússia, com a destinação de mais US$ 80 bilhões à Ucrânia. A língua que falam não é a da distensão, mas a do investimento bélico como forma de alavancar o desenvolvimento, através do velho e bom keynesianismo militar.
5. Nos dias do convescote na Turquia, Washington decidiu romper o instável acordo de paz e bombardear quase 200 alvos iranianos. Embora o ataque americano tenha causas objetivas – abrir imediatamente o estreito de Ormuz, reverter a derrota da Casa Branca na definição de um acordo de paz favorável a Teerã e a exibição pública de diferenças táticas no interior do governo Trump e entre EUA e Israel – é muito difícil não ver que o fato do Irã ter centralizado a agenda global nesses dias afigurou-se como tento intolerável para quem alardeia vitórias e bravatas a todo momento.
O desafio comunicacional é central para quem tem na disputa por hegemonia a baliza central de suas movimentações globais, ao mesmo tempo em que se vê diante de uma queda consistente de sua popularidade interna.
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6. Os Estados Unidos devem aumentar o uso da violência e das chantagens ao redor do planeta. Têm o poder de intimidar e fazer países recuarem. Isso não significa que aumentem sua legitimidade como liderança moral daquilo que um dia se chamou erroneamente de “mundo livre”.
*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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