Geandro Ferreira Pinheiro: Crentes defendendo a jogatina, ateus defendendo Nossa Senhora. A aparência e a essência da disputa eleitoral
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Por Geandro Ferreira Pinheiro*, no Substack
Tudo irá como se realmente visses jogar a
partida entre pessoa e pessoa, ou, mais
claramente, entre Deus e o Diabo.
Machado de Assis, in Esaú e Jacó
Talvez poucas imagens expressem tão bem a estranheza desta eleição. De um lado, pessoas e lideranças profundamente identificadas com o cristianismo mobilizadas contra a proibição das bets. De outro, ateus, agnósticos e setores historicamente laicos da esquerda defendendo Nossa Senhora Aparecida. Na aparência, o mundo parece ter virado de cabeça para baixo. Mas só na aparência. A caricatura evidentemente simplifica posições muito mais diversas. Mas justamente por exagerá-las, torna visível coisas importantes sobre o momento político.
A reta final da campanha foi efetivamente tomada por esses dois temas. Em 25 de setembro, o governo Lula editou medida provisória proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país, as chamadas “bets” e “tigrinho”. Quase simultaneamente, explodiu a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida e sobre a possibilidade de retirada de seu título de padroeira do Brasil, tema politicamente associado ao campo de Flávio Bolsonaro. Bets e religião terminaram ocupando boa parte da conversação política justamente nos últimos dias antes do primeiro turno.
Vista apenas pela superfície, a cena parece feita de incoerências. A tradição cristã desconfia da usura, da compulsão, da exploração da fragilidade humana e da transformação do dinheiro em finalidade absoluta. Ainda assim, no interior da polarização eleitoral, a proibição das bets pôde ser convertida em mais um capítulo da defesa abstrata da “liberdade” pelo campo da direita e extrema direita. Caberia ao indivíduo decidir o que fazer com seu dinheiro, e ao Estado não interferir. No polo oposto, gente sem qualquer fé mariana passou a defender Nossa Senhora. Não por um surto coletivo e súbito de conversão religiosa, mas porque a santa se tornou signo de outra coisa, uma resistência à pretensão de determinada corrente religiosa de converter sua teologia e sua moral em orientação para o Estado e para toda a sociedade.
É aqui que a aparência começa a revelar sua essência. Não porque a superfície seja falsa, mas porque ela é a forma concreta, contraditória, pela qual relações mais profundas se manifestam. Não estamos assistindo simplesmente a uma discussão sobre jogar ou não jogar, apostar ou não apostar, muito menos sobre acreditar ou não acreditar em Nossa Senhora. O que aparece como conflito moral contém uma disputa sobre a própria organização da sociedade.
As bets são especialmente reveladoras porque transformam em mercadoria algo muito particular. A esperança de escapar individualmente de uma situação social da qual parece cada vez mais difícil escapar coletivamente. Sua promessa é radicalmente privada. Não oferecem salário maior, emprego melhor, habitação, direitos ou serviços públicos. Oferecem outra coisa: talvez você consiga. Talvez aquele jogo, aquele gol, aquele clique retire você da condição em que está. Há uma tela, uma aposta e a possibilidade estatisticamente remota de ascensão instantânea. A insegurança social transforma-se em mercado e oportunidade de negócio, a esperança, em mercadoria. E, em determinadas situações, a dívida passa a alimentar a própria tentativa de escapar da dívida.
Há outra dimensão, talvez ainda mais explosiva politicamente. As bets passaram a disputar diretamente uma parcela da renda das famílias e, portanto, recursos destinados à sua reprodução cotidiana. Isso ocorre em um país no qual o endividamento familiar já se encontra em patamares historicamente elevados. O indicador de endividamento das famílias do Banco Central estava próximo de 50% em março de 2026. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, que mede outra dimensão do fenômeno, registrava 82% das famílias com algum tipo de dívida em julho de 2026. Evidentemente, não são as bets que explicam sozinhas esse processo. Juros elevados, crédito caro, renda insuficiente, custo de vida e formas historicamente constituídas de financiamento do consumo continuam decisivos. Mas estudos já relacionam a expansão das apostas ao agravamento do endividamento e da inadimplência. A CNC estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, as bets contribuíram para retirar cerca de R$ 143 bilhões do comércio e poderiam ter levado centenas de milhares de famílias à inadimplência severa. Entidades representativas das empresas de apostas contestam a metodologia e insistem no caráter multifatorial do endividamento. Pode até ser uma importante ressalva, mas nem de longe elimina a existência do problema.
As bets também se transformaram em um problema de saúde pública. O transtorno do jogo é reconhecido como transtorno comportamental aditivo. O Ministério da Saúde relaciona o uso problemático das apostas a ansiedade, depressão, alterações do sono e do humor, conflitos familiares, isolamento e problemas financeiros. Entre 2018 e 2025, segundo o Ministério, os atendimentos relacionados a jogo patológico e apostas cresceram cerca de 140%. Dados apresentados pelo governo indicam ainda milhões de brasileiros em padrões de jogo de risco ou problemático.
A iniciativa do Governo colocou no centro da campanha, portanto, não apenas um setor econômico que cresceu vertiginosamente, mas uma forma de apropriação privada de parcelas da renda familiar que já produz efeitos sobre endividamento, consumo, saúde e vida cotidiana.
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Por isso é tão curioso observar setores do cristianismo conservador convertendo a defesa das bets numa espécie de cruzada pela liberdade individual. A contradição não precisa ser procurada na Bíblia. Está numa articulação política concreta, de uma forte pretensão de disciplinar moralmente certos comportamentos e, ao mesmo tempo, resistência a limitar a liberdade econômica de transformar esses mesmos comportamentos em negócio.
Nesse sentido, a discussão sobre a proibição ultrapassa em muito a moralidade do jogo ou o direito individual de apostar. Ela recoloca uma pergunta antiga e decisiva, que expressa disputas entre distintos projetos de sociedade. Que formas de exploração e mercantilização o Estado autoriza, regula ou bloqueia, e que interesses ganham proteção nessas escolhas? Em outras palavras, existem relações sociais diante das quais a ação estatal deve impor limites? O que está em disputa, portanto, é o par dialético regulação de mercado versus livre iniciativa, e os limites socialmente impostos à mercantilização e à apropriação privada da renda e das vulnerabilidades sociais.
Estas não são, portanto, perguntas somente sobre liberdade, mas também sobre a forma de organização da sociedade. Estado e mercado não aparecem aqui como realidades externas uma à outra. O mercado é uma relação social sustentada por normas, instituições e poder. Por isso, a liberdade formal do apostador de apostar não é idêntica à liberdade econômica de empresas organizadas para capturar renda por meio da aposta. Colocá-las no mesmo plano apaga a assimetria real entre o indivíduo e o capital empresarial que organiza esse mercado.
Nossa Senhora Aparecida, curiosamente, nos leva ao mesmo terreno por um caminho completamente diferente.
Porque a controvérsia não é fundamentalmente teológica. A esquerda não se tornou mariana, assim como o conflito político não transformou subitamente todos os cristãos em defensores das apostas. O que ocorreu foi uma reorganização dos símbolos pela própria luta política.
Nossa Senhora Aparecida deixou momentaneamente de significar apenas uma devoção religiosa e passou a condensar questões como cultural popular, formação histórica brasileira, pluralismo religioso e convivência entre diferentes crenças e, sobretudo, os limites entre religião e Estado. Daí a cena aparentemente absurda do ateu defendendo a santa. Ele não precisa acreditar no milagre para considerar politicamente relevante que uma corrente religiosa ou política amplie sua capacidade de inscrever sua teologia ou ideologia nas instituições, na legislação e nos símbolos do Estado.
E essa hipótese não surgiu do nada. J.B. Carvalho, liderança religiosa próxima de Flávio Bolsonaro e pastor da igreja em que ele se batizou, defende em livro o “destronamento” de Nossa Senhora Aparecida. Isso não prova que Flávio Bolsonaro adotaria essa posição caso eleito, mas torna legítimo perguntar qual é o peso político dessas concepções entre grupos religiosos que integram seu campo de sustentação. Há uma diferença fundamental entre atribuir a um candidato um fato ou uma proposta inexistente e formular uma hipótese política a partir de alianças, posições e relações de força efetivamente existentes. Por isso, a questão não pode simplesmente ser encerrada com o carimbo de “fake news”, como alguns setores insistem em dizer, já que a política, e a cobertura jornalística da política, também se fazem por inferências, pela leitura de alianças e pela projeção de consequências a partir de posições e relações de força existentes.
Da mesma forma, o cristão que defende as bets não necessariamente abandonou sua moral religiosa. O que aparece como incoerência individual pode expressar uma articulação política bastante coerente, a ampla liberdade para a valorização do capital e forte disciplina moral sobre determinadas dimensões da vida social. Isso não significa que todos os atores desse campo pensem ou ajam do mesmo modo, mas ajuda a enxergar a combinação entre liberalização econômica e conservadorismo moral que aparece nesta conjuntura.
Há, portanto, algo mais profundo acontecendo sob a espuma eleitoral, e é então que as duas histórias, aparentemente tão diferentes, começam a se encontrar. Na superfície, discutem-se bets e Nossa Senhora. Sob essa forma imediata, porém, aparecem disputas mais profundas sobre projetos de sociedade.
Não se trata de dois projetos puros, acabados e perfeitamente coerentes. Mas é possível reconhecer orientações distintas. De um lado, ganha expressão um projeto que combina ampla liberdade para a expansão de circuitos privados de acumulação, mesmo quando assentados na captura da renda e das vulnerabilidades sociais, com a pretensão de ampliar a presença de valores religiosos particulares na orientação do Estado e da legislação. De outro, aparece uma coalizão heterogênea que, nesta conjuntura, converge na imposição de limites a formas socialmente destrutivas de mercantilização e na defesa de um Estado não subordinado a uma concepção religiosa particular.
É nessa disputa entre projetos que a controvérsia sobre as bets e o conflito em torno de Nossa Senhora adquirem seu sentido mais amplo. Por caminhos distintos, ambos condensam relações de força que atravessam o Estado, como os interesses econômicos vinculados à expansão de novos circuitos de valorização, as forças políticas que resistem à imposição de limites a esses circuitos. Os segmentos religiosos organizados que procuram ampliar sua capacidade de inscrever valores e concepções de mundo nas instituições e na legislação e, em sentido contrário, forças sociais e políticas que procuram conter esses movimentos.
Isso não significa imaginar os dois campos como blocos homogêneos, muito menos deduzir mecanicamente posições políticas da religião, da renda ou da posição de classe. Coalizões eleitorais articulam classes e frações de classe, grupos religiosos, instituições e atores distintos sob relações de força contraditórias. Há empresários, trabalhadores, católicos, evangélicos, ateus, liberais, conservadores e progressistas atravessando essas fronteiras. O ponto não é encaixar a realidade num esquema pronto ou construir tipos ideais, mas identificar que projetos se constituem a partir dessas articulações, que interesses ganham capacidade de direção e que orientação procuram imprimir ao Estado e à sociedade. A disputa concreta é sempre mais contraditória do que os projetos que nela podemos identificar.
Marx gostava de lembrar que, se forma de manifestação e essência coincidissem diretamente, toda ciência seria supérflua. Isso não autoriza abandonar a cena eleitoral em busca de uma verdade escondida por trás dela. Ao contrário, é nela que as determinações sociais se apresentam, embora de forma mediada e contraditória. Na superfície desta eleição, assistimos a uma cena quase cômica, com crentes defendendo a jogatina das bets e ateus defendendo Nossa Senhora. Quando examinamos as relações que produzem essa cena, ela deixa de ser tão engraçada. Porque ninguém está discutindo apenas jogo ou religião.
É aí que o aparente paradoxo ganha aconteúdo. O que se apresenta como discussão sobre jogo ou religião expressa uma disputa mais ampla entre projetos de sociedade. A eleição parece discutir bets e Nossa Senhora. Mas, por meio dessas controvérsias, tornam-se visíveis disputas sobre quem pode converter sofrimento e renda em negócio, que limites o Estado impõe a determinados circuitos de acumulação e até onde forças religiosas organizadas podem inscrever seus valores nas instituições.
Estão emergindo, por meio deles, projetos distintos sobre quem regula quem. Se a sociedade regula o mercado ou se o mercado reorganiza a sociedade. Se a reprodução da vida seguirá subordinada à expansão de novas formas de mercantilização. Se a religião permanece uma dimensão da sociedade civil ou conquista capacidade crescente de ordenar o Estado, onde grupos religiosos organizados transformarão sua força social em poder sobre a legislação, as instituições e os símbolos do Estado.
A política frequentemente funciona assim. Na superfície, os personagens parecem trocar de papel. Nesse caso, cristãos defendem a jogatina, ateus defendem a santa.
Talvez, afinal, na essência, ninguém tenha trocado de lugar.
Foram as circunstâncias que tornaram mais visíveis projetos de sociedade e alianças que já estavam ali o tempo inteiro em disputa. A conjuntura os obrigou a se expressar por objetos inesperados. A eleição não inventou essas contradições. Apenas produziu uma dessas raras situações em que as contradições da superfície deixam entrever, por alguns instantes, aquilo que normalmente permanece escondido por baixo dela, as relações sociais e os projetos que lhe dão conteúdo.
*Geandro Ferreira Pinheiro é sanitarista e membro do Fórum de Trabalhadoras e Trabalhadores da Fiocruz
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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