O processo de desinformação não se limita às redes sociais. Isso é um mito confortável para redimir a mídia tradicional. A manipulação impede o necessário debate público
Por Eliara Santana*, em Hora da Verdade no site do PT
Há décadas, os debates entre candidatos nas TVs brasileiras são peças relevantes para as disputas eleitorais e para algum esclarecimento, em termos de propostas, aos eleitores.
Mas alguma coisa ficou bem fora da ordem quando as estratégias de manipulação começaram a solapar aqueles eventos e passaram a produzir e reproduzir retratos grotescos de um país que está em ebulição desde o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.
O salutar debate público foi paulatinamente sendo substituído por performances de auditório, em que ideias sobre os rumos do país pouco importam. Além disso, a construção de narrativas pela mídia, a partir do uso sem medidas do repertório corrupção, criou um enviesamento que amordaça qualquer outra manifestação.
O processo de desinformação, como já vimos, tem várias nuances e várias estratégias e não se limita às redes sociais – isso é um mito confortável para redimir os meios tradicionais de comunicação, que também desinformam ao conduzirem somente a determinados cenários de interpretação da realidade.
Como sinalizei na tese sobre o Jornal Nacional, no discurso de informação, as estratégias discursivas empregadas na elaboração da notícia jornalística direcionam para a produção de determinados efeitos de sentido e contribuem para a ressignificação da realidade.
Essa “máquina de produzir informação”, expressão cunhada pelo professor e pesquisador Patrick Charaudeau, a imprensa, “captura” o público, mas também “capitula” diante de grupos de interesse. Nesse contexto, o que ocorre é que o viés apresentado nas notícias diárias vai se tornando, aos olhos do público, pelas narrativas construídas, a única verdade possível. E tal desenho se mostra nos debates da TV, sobretudo o de maior audiência.
Hoje, no cenário de um mundo conectado, o que reverbera é o espetáculo grotesco. Ao longo das décadas, o formato dos debates com candidatos foi se alterando e se tornando pior. Passou a privilegiar o desempenho de apresentador de auditório, ao contrário de privilegiar a sadia exposição de ideias.
No contexto da extrema conexão em que vivemos atualmente, os debates passaram a ser pensados para gerar cortes sensacionalistas para as redes sociais, com frases totalmente fora de contexto e espaço quase zero para a saudável exposição de ideias.
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Nesse conjunto, as dinâmicas de desinformação colocadas em funcionamento e por meio de diversas estratégias se articulam para produzir consenso em relação a determinados assuntos e temas relativos ao cenário nacional e aos candidatos. E nesse processo, há um redesenho do que seria o debate público, que se transforma num jogo bruto, desrespeitoso e vazio, povoado pelo empobrecido senso comum.
A manipulação em vários atos e o Brasil que vem depois
Em 1989, o Jornal Nacional promoveu uma edição extremamente tendenciosa do último debate entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. Isso já está público, inclusive no portal “Memória Globo”, em que vários jornalistas comentam a edição.
O jornalista Otávio Tostes foi o responsável pela edição daquele debate para o Jornal Nacional. No vídeo, ele declara que a ordem que veio de cima, da direção da Rede Globo, foi: dar o melhor de Collor e o pior de Lula. Fernando Collor, o caçador de marajás, foi eleito, e não precisamos recapitular tudo de ruim que aconteceu no Brasil a partir daquela eleição.
Em 1998, Fernando Henrique Cardoso, que era presidente e candidato à reeleição, recusou-se a participar de debates no primeiro turno. Diante daquele quadro, a TV Globo decidiu cancelar o debate, não promover nenhum tipo de confronto e não exibir um púlpito ou cadeira vazia. Fernando Henrique foi reeleito.
Em 2022, no debate do primeiro turno entre os candidatos, a Rede Globo permitiu a participação de um “padre de festa junina”, como bem definiu a senadora e candidata Soraya Thronicke. Era o Padre Kelmon, aliado de Jair Bolsonaro, cuja única função no debate foi provocar e constranger, sem qualquer restrição, um único candidato.
Em 2026, tudo estava organizado para uma confluência negativa que iria prejudicar, de novo, um único candidato, o presidente Lula: foco reiterado na cadeira vazia; perguntas dirigidas a esse vácuo; ausência do candidato Renan Santos, que tem travado um embate duro com Flávio Bolsonaro e que poderia ser um contraponto (segundo a jornalista global Malu Gaspar, em entrada na Globonews na noite em que haveria o debate, essa era uma exigência do candidato Flávio para participar).
Nessas condições do que seria o último debate em 2026, antes do primeiro turno, cabe questionar: o que estava em jogo era um evento em TV aberta para que o eleitor se aproximasse das ideias do candidato ou um massacre premeditado de um único personagem político?
Se o que importava era o debate, a exposição de ideias e a “conversa” com o eleitor, por que o candidato Flávio Bolsonaro desistiu de participar ao saber que o candidato Renan Santos estaria presente?
Esses recortes temporais nos ajudam a identificar e colocar em perspectiva momentos e personagens históricos distintos e ações manipulativas que reverberaram na organização democrática do país e na vida dos brasileiros.
Pluralismo e outras formas de acesso à informação
A participação do presidente Lula no podcast Flow, na noite de 1 de outubro, alcançou o recorde de quase 1,7 milhão de pessoas assistindo ao mesmo tempo no momento da transmissão. Menos de 24 horas depois, o número de visualizações já passa de 17 milhões. Um recorde.
E um movimento que talvez simbolize o marco de um novo e necessário tempo, com mídias mais plurais de verdade, que possam dar voz às várias perspectivas de candidatos e agremiações políticas sem manipulação para beneficiar alguns, sem enviesamento, sem concentração dos meios e sem o abuso de poder.
Os debates entre candidatos são – ou deveriam ser – fundamentais para que os eleitores tenham condições de saber as propostas para saúde, educação, transporte público, segurança, meio ambiente, assistência social, cuidados com a infância e a velhice, liberdade de imprensa, acesso à informação – tudo o que afeta a vida da sociedade no geral e a vida de cada cidadão em particular.
Mas, há muito tempo, eles deixaram de cumprir esse papel e se tornaram porta-vozes do grotesco.
*Eliara Santana é jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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