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Francisco Louçã: O sonho acabou; o projeto da União Europeia fracassou
Política

Francisco Louçã: O sonho acabou; o projeto da União Europeia fracassou


24/06/2016 - 17h34

bandeira da eu e reino unido

E a União Europeia é um projeto falhado

Falhou a aventura de Cameron, que foi apoiada a contragosto pelas autoridades europeias, mas a Escócia pode a partir de hoje escolher ser independente e a Irlanda pode escolher unificar-se. Na Europa, tudo mau.

24 de Junho, 2016 – 16:07h

por Francisco Louçã, no Esquerda.Net

Enganei-me na previsão sobre o resultado do referendo, pois admiti que a morte de Jo Cox tinha invertido as emoções que concluiriam uma campanha povoada de demagogia contra os imigrantes (dos dois lados, dos chefes do “Brexit” sugerindo a xenofobia e dos chefes do “Remain” negociando com Bruxelas a restrição dos direitos dos cidadãos europeus imigrados no Reino Unido).

Agora, contados os votos, só se pode concluir que, no argumento e na preparação para o futuro, o Reino Unido não sabe para onde vai – mas rejeita continuar numa União que não vai para lado nenhum.

Falhou a aventura de Cameron, que foi apoiada a contragosto pelas autoridades europeias, mas a Escócia pode a partir de hoje escolher ser independente e a Irlanda pode escolher unificar-se, pelo menos duas consequências merecidas.

Na Europa, tudo mau: falharam os subterfúgios, falhou a interpretação dos tratados à la carte, falhou o medo dos grandes mas cresce o medo dos pequenos.

A UE não tinha mais nada para oferecer se não esse medo, foi a esse ponto que caiu. E os seus líderes sempre pensaram que bastaria.

Não perceberam – será desta? – que perderam todos os referendos importantes até agora: sobre a Constituição Europeia, sobre tratados, agora sobre a própria pertença e logo na segunda maior economia da União. Quando aceitam consultar os povos, momento raro, et pour cause, arriscam-se a perder e isso diz tudo sobre o que tem vindo a ser a “construção europeia”.

O choque chegou hoje. Agora, liquidez para os mercados financeiros, negociação relâmpago com o Reino Unido sobre as condições de saída, quais regras de tratados (que implicariam um processo até dois anos, com votos do parlamento europeu e acordo dos outros governos) e o discurso de sempre para quem está: aguenta, aguenta.

Terão os líderes europeus a tentação de correr em frente, nomear um ministro das finanças, esquartejar os orçamentos nacionais, fazer do euro o santo e a senha da concentração de poderes, normalizar as políticas neoliberais no mercado de trabalho e na segurança social?

Hollande, um político da craveira de Cameron, acha que Paris vale bem a missa de uma proibição do direito de manifestação para impor essa visão sobre o emprego. E, se isto é Hollande, então Merkel decidirá o que quer pois quem manda, manda. E assim vai a liderança europeia na sua diversidade uniforme.

Lembra-se de quando os socialistas defendiam o pleno emprego? Esqueça. Os socialistas franceses agora defendem o fim dos contratos de emprego, à FMI. Um socialista holandês dirige a fronda das sanções contra Portugal e Espanha, à Schauble. Um socialista alemão é o ajudante de Merkel, à Gabriel.

E isso esclarece o que podemos vir a ter pela frente: depois da desorientação, a corrida para garantir mais poder aqueles cujo poder está a destruir a Europa.

Para Portugal, mais um susto nas exportações, mas muito mais um susto político. Se e quando vierem as sanções, se a tanto atrevimento chegar a violência das instituições europeias agora imbuídas de um novo espírito de missão desesperada, só poderemos então concluir que a absoluta discricionariedade tomou conta da política europeia, que a falta de soberania se paga com a vulnerabilidade da democracia.

O sonho acabou. A União Europeia é um projeto falhado.

Francisco Louçã é professor universitário e ativista do Bloco de Esquerda português

 





7 comentários

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FrancoAtirador

24 de junho de 2016 às 22h20

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A Saída da União Européia será a Única Alternativa
aos Países do Sul Europeu Endividados com Bancos,
principalmente Grécia e Ibéria (Portugal e Espanha)
que ainda têm uma Esquerda Legítima Organizada
em Resistência ao Desmonte da Social Democracia
ora Comandado pela Alemanha junto com BCE e FMI.
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Responder

Rogerio Maestri

24 de junho de 2016 às 21h41

O que falta na Europa é mobilidade vertical e protagonismo dos descendentes das classes trabalhadoras.
Muitos se perguntam por que da revolta dos ingleses contra a Comunidade Europeia e os votos nos movimentos populistas de direita em toda a Europa, se pode pensar que as pessoas que recebam todos os recursos de estados de Bem Estar Social, não deveriam reclamar tendo uma série de direitos e ajudas.
Porém as pessoas confundem conforto e segurança mínima do Estado de Bem Estar Social a satisfação pessoal de cada um com mobilidade social e falta de protagonismo que se baseia todo o discurso Europeu. Espantam-se também pela revolta contra o “establisment” político-burocrático europeu que na realidade fornecem a estes revoltados todos os benefícios sociais que conhecemos. Estes que não entendem porque da revolta esquecem que as pessoas não vivem só de comida!
Por mais que se criem mecanismos de garantia social, de serviços públicos com relativo sucesso a Europa tem um sistema de ensino associado a um sistema de progressão social que torna extremamente difícil a carreira de um jovem filho ou neto de operários aos cargos mais altos tanto das carreiras públicas como das carreiras em instituições privadas.
A imensa maioria dos filhos e netos das classes proletárias em ascender a altos postos de trabalho na administração pública e privada. No exemplo francês, por exemplo, se tu és egresso de uma grande escola (grande escola são escolas de engenharia, de administração pública e de outros setores que são as melhores ranqueadas no sistema de ensino superior) tu terás garantido no setor público vagas para os egressos destas assim como nas empresas privadas serás recebido de braços abertos para tanto. Porém para ascender a estas grandes escolas terás que fazer um curso preparatório em instituições especiais para este fim (Classes Préparatoires aux Grandes Écoles – C.P.G.E.) desde que tenha conseguido um bom resultado no BAC (exame semelhante ao ENEN, só que diferenciado conforme a carreira a ser desejada).
Dos anos 40 até os anos 70 vários estudos realizados provam que a dificuldade de entrada nas Grandes Escolas aumentou após os anos 80 ou seja no sentido contrário do que se pode pensar (vide Diversité sociale dans les classes préparatoires aux grandes écoles : mettre fin à une forme de « délit d’initié » Publicação do Senado Francês), a diferença é tanta que em 2002 os alunos nas Grandes Escolas eram distribuídos na seguinte proporção conforme a “Origem sócio profissional do pai)
Agricultores 3,5%
Operários 5,2%
Empregados 5,7%
Artesãos 6,36%
Aposentados 7,2%
Profissionais de nível médio 10%
Quadros superiores e profissionais liberais 67,5%

Em resumo, profissionais de nível superior, que são uma minoria na França, conseguem colocar 67,5% de seus filhos nas grandes escolas, enquanto filhos dos demais só 32,5% entram nas Grandes Escolas.
Por outro lado o Sistema Educacional Francês permite o ingresso livre nas Universidades em que recebem milhares de títulos diversos, e com um bom diploma conseguem se não ficarem desempregados um emprego de “technicien de grande surface” (faxineiro de supermercado).
Em toda e Europa se reproduz o mesmo tipo de cenário, os grandes cargos e empregos são reservados para a elite da “meritocracia”, enquanto para os filhos do proletariado é reservado um diploma para ficar desempregado e ganhar um auxílio desemprego ou um emprego bem abaixo da formação acadêmica do mesmo.
Esta falta de mobilidade social cria uma verdadeira revolta contra os chamados burocratas em geral e da Comunidade Europeia em particular, pois simplesmente estes filhos de operários e camponeses que ajudaram a construir a Europa dos dias atuais, além do desemprego, se eles conseguirem sair dele, a possibilidade de ganhar um salário inferior a que ganhava um bom operário entre 1955-1975 é muito grande.
Estas pessoas se sentem alijadas das decisões europeias, pois o protagonismo que tem nas organizações políticas e sociais diversas é nulo, são chamados a votar periodicamente e encontram somente partidos de direita ou de esquerda que não apresentam nenhuma solução para os seus problemas.
Nenhum filho de operário ou mesmo de desempregado passará fome, ficará sem abrigo ou ficará sem escola, porém a chance de saírem deste círculo vicioso é muito baixa.
Na realidade o estado de bem estar social deu o mínimo para que seus pobres não passassem necessidade nem que seus filhos aparentemente tivessem a mesma oportunidade da burguesia europeia.
O voto no Brexit, o voto nos partidos de direita e no extremo o ingresso no Daesh é explicado por uma ruptura entre a sociedade de massas e o “establisment” que realmente manda nesta sociedade. Estes movimentos simplesmente adotam um discurso de contrariedade a tudo sem precisar provar nada, e quando são confrontados com intelectuais estes são vistos mais como inimigos como alguém que queira resolver o problema (e grande parte das vezes a identificação é real).
A falácia da meritocracia está levando a ruptura das sociedades que apesar de apresentarem índices mínimos de qualidade de vida satisfatórios não estão dispostas a discutir profundamente uma política de inclusão social real e de azeitamento da mobilidade vertical, pois claramente se vê que políticos e burocratas estão nesta perversa e desleal concorrência com as categorias sociais inferiores, e talvez instintivamente garantam antes de mais tudo a preservação do status quo que lhe dá certa garantia a sua prole.

Responder

FrancoAtirador

24 de junho de 2016 às 20h42

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What’s After #Brexit?

Grexit
Departugal
Italeave
Fruckoff
Czechout
Oustria
Finish
Slovlong
Latervia
Byegium

Unitil EU Becomes…

Germlonely…

https://twitter.com/WalidKaram/status/746270337596170240?ref_src=twsrc%5Etfw
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Responder

Paulo Foleghatti

24 de junho de 2016 às 19h03

Cameron acertou diversos alvos com um único tiro. As consequências mais marcantes além da sinuca inglesa será a própria diminuição da influência da monarquia, caso se confirme o plebiscito reloaded na Escócia e nas Irlandas. É provável que queiram puni-lo isoladamente no escândalo Panamá Papers para tirá-lo da vida política e mais…

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Marina

24 de junho de 2016 às 18h42 Responder

    FrancoAtirador

    25 de junho de 2016 às 01h35

    .
    .
    O Mapa da Desintegração Interna do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte*,
    Causada pela Desagregação Humana, que hoje Ameaça a Própria Democracia Européia,

    Ocasionada pelo Contínuo Empobrecimento da População, Devido Fundamentalmente
    ao Desemprego e ao Desmantelamento do Sistema de Proteção Social, por Decorrência
    da Implantação do UltraLiberalismo Financeiro, Provocando Concentração de Riqueza,

    e às Constantes Intervenções Militares de Países Ocidentais – Historicamente Lideradas
    por Inglaterra, França e Estados Unidos da América – através de Sucessivos Bombardeios
    Genocidas nas Populações do Norte da África e dos Territórios Árabes do Oriente Médio
    que ocasionou a Imigração em Massa, de Dezenas de Milhões de Pessoas para a Europa.
    .
    Uma Análise Detalhada Realizada pelo Jornal Britânico The Guardian,
    comparando os Resultados do Plebiscito, em Cada Circunscrição,
    com as Características Étnicas e Sócio-Econômicas dos Eleitores,
    em Todas as Regiões dos Países que integram o Reino Unido,
    confirma que o ‘BREXIT’ conseguiu a Maioria dos seus Apoios
    em Zonas onde a Média de Renda das Famílias é Mais Baixa,
    onde um Grande Número de Residentes têm Menor Escolaridade
    ou, ao contrário do que acontece em Londres, que é Cosmopolita,
    onde a Maior Parte dos Habitantes se declara Não Imigrante.

    “O referendo posicionou os jovens profissionais,
    os que frequentaram as universidades e a classe média urbana
    contra os que enfrentam dificuldades econômicas,
    os mais velhos, os que têm pouca escolaridade
    e os que se sentem deixados para trás na sociedade”,
    escreveu no Guardian o Professor da Universidade de Nottingham
    e Especialista em Movimentos de Extrema-Direita, Matthew Goodwin:

    static.publico.pt/infografia/2016/mundo/brexit-mapa.svg

    http://www.theguardian.com/politics/ng-interactive/2016/jun/23/eu-referendum-live-results-and-analysis
    http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/22/eu-referendum-which-type-of-person-wants-to-leave-and-who-will-b/
    https://www.publico.pt/mundo/noticia/brexit-alimentouse-do-desencanto-nos-antigos-bastioes-labour-1736205

    *A Grã-Bretanha é uma Ilha Situada no Atlântico,
    Separada do Continente pelo Canal da Mancha,
    Composta por 3 Países: Inglaterra, Escócia e Gales,
    que em Conjunto com a Irlanda do Norte Constituem
    o United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland,
    que, por sua vez, Somado à República da Irlanda (EIRE)
    e a Outras Ilhas, forma um Todo Geográfico Maior,
    um Arquipélago há Cerca 2 Mil Anos Denominado
    pelo Simples Termo “British Isles” (Ilhas Britânicas).
    .
    https://en.wikipedia.org/wiki/British_Isles
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Ilhas_Brit%C3%A2nicas
    .
    .


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