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Fisk: A perversão do pensamento ocidental sobre o Oriente Médio


30/11/2010 - 15h17

Confirmado: Se depender dos EUA, todas as injustiças estão liberadas, no Oriente Médio

30/11/2010, Robert Fisk, The Independent

Aproximei-me desconfiadíssimo, do mais recente rumoroso episódio diplomático. E ontem, depois das eleições no Cairo – as eleições parlamentares egípcias foram, como sempre, mistura de farsa e fraude, o que, afinal de contas, sempre é melhor que choque e horror – mergulhei nos milhares de telegramas diplomáticos norte-americanos, sem absolutamente qualquer esperança. Como disse o presidente Hosni Mubarak, e lê-se num dos telegramas, “vocês sabem esquecer a tal de democracia”.

Não que os diplomatas dos EUA não entendam o Oriente Médio; é que eles já não sabem ver a injustiça. Quantidade imensa de literatura diplomática prova que o pilar da política dos EUA para o Oriente Médio é o alinhamento com Israel, que seu principal objetivo é encorajar os árabes a unir-se à aliança EUA-Israel contra o Irã, que a bússola da política dos EUA é a necessidade de domar/minar/esmagar/oprimir e, por fim, destruir o Irã.

Não vazou praticamente (pelo menos até agora) nenhuma referência às colônias israelenses ilegais exclusivas para judeus na Cisjordânia, nem aos ‘postos de controle’ israelenses, aos colonos israelenses extremistas, cujas casas pintam como cicatrizes de varíola toda a Cisjordânia palestina ocupada – ao vasto sistema ilegal de roubo de terra que é o coração da guerra Israel-palestinos. O que se vê mais, por incrível que pareça, são os mais variados espécimes de importantes diplomatas norte-americanos acocorados e rendidos ante as exigências de Israel – vários deles visivelmente apoiadores ardentes de Israel. É como se os chefes do Mossad e os agentes militares de inteligência de Israel obrigassem os padrinhos ouvir e decorar as instruções dos apadrinhados.

Há maravilhosa passagem nos telegramas, quando o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu explica a uma delegação do Congresso dos EUA, dia 28/4/2009, que “Estado palestino, só se for desmilitarizado, sem controle sobre o espaço aéreo e campo eletromagnético [sic], sem poder assinar tratados nem controlar fronteiras”. Assim sendo, adeus ao Estado palestino “viável” (palavra de Lord Blair de Isfahan) que todos supostamente desejamos. Não há registro nos telegramas de que os rapazes e moças deputados e senadores dos EUA e que lá ouviam Netanyahu tenham discordado.

Em vez disso, o The New York Times procurou as melhores frases. Eis o rei Abdullah da Arábia Saudita, por seu embaixador em Washington (sempre amigo da imprensa), dizendo que Abdullah crê que os EUA devem “cortar a cabeça da serpente” – onde, em “a serpente”, leia-se “o Irã” ou “Ahmadinejad” ou “as instalações nucleares do Irã” ou qualquer um desses itens ou todos.

Mas os sauditas vivem ameaçando cortar a cabeça de serpentes. Em 1982, Yasser Arafat disse que deceparia o braço esquerdo de Israel (depois que Israel invadiu o Líbano) e o então primeiro-ministro de Israel Menachem Begin respondeu que deceparia o braço direito de Arafat. Acho que quando somos informados – como, desgraçadamente, agora, por Wikileaks – de que candidatos a visto norte-americano, mas que os EUA não queiram por perto, são chamados pelos diplomatas dos EUA de “víboras do visto” [ing. visa vipers], a única conclusão a que podemos chegar é que cresce em todo o mundo a demanda por ofídios.

O problema é que, por décadas, os potentados do Oriente Médio ameaçam decepar cabeças de cobras, serpentes, ratos e insetos iranianos – esses últimos preferidos de Saddam Hussein, que usou “inseticida” fornecido pelos EUA para a matança como bem se sabe –, enquanto os líderes israelenses chamaram os palestinos de “baratas” (Rafael Eitan), “crocodilos” (Ehud Barak) e “bestas de três patas” (Begin).

Tenho de confessar que gargalhei, de chorar de rir, ante um telegrama de diplomata dos EUA, em tom solene-ridículo, reportando do Bahrain, que o rei Hamad – ou “Sua Alteza Suprema Rei Hamad”, como faz questão de ser chamado, em sua ditadura de maioria xiita em reino pouco maior que a ilha de Wight – havia declarado que o perigo de deixar prosseguir o programa nuclear iraniano era “maior que o perigo de fazê-lo parar”.

O maravilhoso jornalista palestino Marwan Bishara acertou ao dizer, no fim-de-semana, que esses papéis diplomáticos dos EUA são mais interessantes para estudos antropológicos, que para estudos políticos; porque são documento de uma perversão do pensamento ocidental sobre o Oriente Médio. Se o rei Abdullah (versão saudita em ruínas, em oposição à versão Reizinho Valente da Jordânia) realmente chamou Ahmadinejad de Hitler, se o conselheiro de Sarkozy chamou o Irã de “Estado fascista”, então se prova, apenas, que o departamento de Estado dos EUA continua obcecado com a II Guerra Mundial.

Adorei o espantoso relato de alguém que visitou a embaixada dos EUA em Ancara e contou aos diplomatas que o Líder Supremo do Irã Ali Khamenei sofria de leucemia e estava à morte. Não porque o pobre velho sofra de câncer – é mentira –, mas porque é o mesmo tipo de descalabro sobre líderes do Oriente Médio recalcitrantes que se vê há muitos anos. Lembro de quando “fontes diplomáticas” norte-americanas ou britânicas inventaram que Gaddafi estaria morrendo de câncer, que Khomeini estaria morrendo de câncer (muito antes de ele morrer), que o matador de aluguel Abu Nidal estaria morrendo de câncer 20 anos antes de ser assassinado por Saddam. Até na Irlanda do Norte um miolo-mole britânico contou-nos que o líder protestante William Craig estaria morrendo de câncer. Claro que Craig sobreviveu, como o horrível Gaddafi, cuja enfermeira ucraniana é descrita nos documentos dos EUA como “voluptuosa”, o que ela é. Mas haverá alguma dama loura não “voluptuosa”, nesse tipo de novelão?

Uma das reflexões mais interessantes – atentamente ignorada pela maioria dos jornais pro-Wikileaks de ontem – aparece no relato de encontro entre uma delegação do Senado dos EUA e o presidente Bashar Assad da Síria, no início de 2010. Os EUA, disse Assad aos visitantes, possuem “gigantesco aparato de informação”, mas fracassam ao analisar essa informação. “Nós não temos as habilidades que os senhores têm”, disse em tom sinistro, mas “somos bem-sucedidos no combate aos extremistas porque contamos com melhores analistas. (…) Nos EUA vocês gostam de fuzilar [terroristas]. Sufocar as redes deles dá melhor resultado”. O Irã, concluiu Assad, era o mais importante país da região, seguido da Turquia e – número três – a Síria. O coitado velho Israel nem aparece no retrovisor.

Evidentemente, o presidente Hamid Karzai do Afeganistão é “movido à paranóia” – como todos os habitantes daquela terra, inclusive quase toda a OTAN e, sobretudo, os EUA – e naturalmente o presidente do Iêmen mente ao próprio povo que está matando representantes da al-Qa’ida, quando todos o mundo sabe que os verdadeiros culpados são os guerreiros do general David Petraeus. Líderes muçulmanos não fazem outra coisa além de mentir que as proezas militares dos EUA contra outros muçulmanos são proezas deles, não ‘nossas’.

Claro, não se pode ser tão cínico. Gostei muito do telegrama diplomático dos EUA (do Cairo, claro, não de Telavive) no qual se lê que Netanyahu seria “elegante e sedutor (…) mas nunca cumpre o que promete”. Ora! Não se aplica também a metade dos líderes árabes?

E assim chegamos ao apimentado e assustador relato de encontro entre Andrew Shapiro, “Secretário Assistente de Estado do Gabinete Político-militar dos EUA” e espiões israelenses há quase exatamente um ano. Israel não pode proteger seus Cessna Caravan e Raven aviões-robôs não pilotados no sul do Líbano, reconheceu o Mossad (o Hezbollah deve ao Mossad essa preciosa informação). Um coronel israelense “J5”, coronel Shimon Arad gorjeia sobre os perigos do “Hezbollahstão” e do “Hamastão” e sobre “o impasse político interno” no Líbano – naquele momento não havia; agora, há – e sobre o Líbano como “arena militar volátil” e a “suscetibilidade do Líbano a influências externas, inclusive da Síria, do Irã e da Arábia Saudita”.

E – claro, apesar de o coronel Arad não ter falado sobre isso – também suscetível à influência de norte-americanos, israelenses, franceses, britânicos, além, também de o Líbano também ser suscetível à influência dos turcos. Shapiro “citou a necessidade de oferecer alternativa ao Hezbollah” – talvez… os policiais da Costa Rica? – e sugeriu que o exército libanês poderia defender o Hezbollah (improvável, nas atuais circunstâncias).

Há uma inestimável rejeição-negação do relatório Goldstone da ONU sobre as atrocidades em Gaza em 2008-09, pelo major-general da reserva Amos Gilad, que diz que os documentos em que se critica Israel são “sem fundamento, porque os militares israelenses fizeram 300 mil chamadas telefônicas para as residências em Gaza antes dos ataques aéreos (…) para evitar baixas entre os civis.” O infeliz, pobre Shapiro, dado que o telegrama não registra resposta dele, manteve-se em silêncio. Teria sido apenas uma, de cada cinco famílias palestinas, avisadas por telefone, se se considera a população palestina total de Gaza, crianças, bebês, todos. E mesmo assim os israelenses mataram 1.300 palestinos, a maioria dos quais civis. Claro que a Autoridade Palestina do insípido Mahmoud Abbas não quis assumir esse campo de morticínio depois que os israelenses venceram – como Israel propôs-lhe, com aprovação dos EUA – porque Israel não venceu em Gaza. Sequer conseguiram localizar nos túneis de Gaza o soldado israelense que o Hamás mantêm preso há anos.

Há momento simbólico quando o Xeque Mohamed bin Zayed al-Nahyan de Abu Dhabi – sem comparação possível com o personagem “distante e sem carisma” de seu irmão Califa – preocupa-se com o Irã na presença do embaixador dos EUA Richard Olsen o qual, então, comenta que o Xeque “manifesta visão estratégica sobre a Região curiosamente semelhante à visão israelense”. Mas é claro que manifesta! São idênticos. Todos rezam em suas mesquitas de ouro, reis e emires e generais, comprando mais e mais armas dos EUA para protegerem-se contra “o Hitler” de Teerã – melhor Hitler, acho eu, que o Hitler do Tigre em 2003, que o Hitler do Nilo de 1956 – e praza a Deus Todo Poderoso que sejam salvos pelos santificados EUA e Israel. Fico, em suspense, à espera do próximo capítulo dessa fantasia-farsa.





11 comentários

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Robert Fisk: Now we know. America really doesn’t care about injustice in the Middle East | joaquim vai ao centro

02 de dezembro de 2010 às 11h01

[…] Fonte do texto traduzido Esta entrada foi publicada em oriente médio e marcada com a tag eua, irã, oriente médio. Adicione o link permanenteaos seus favoritos. ← Alvorada LikeBe the first to like this post. […]

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Emília

01 de dezembro de 2010 às 17h45

Supresa? Nenhuma. Os yankees sempre se acharam o máximo e, seus políticos então vivem na época de César. Eu sempre fui voto vencido em conversas sobre o povo americano, não todo lógico, pois existe exceção, ser arrogante, egoísta, desinformado e se dá muita importância como nação. Já está na hora do mundo parar de "venerar" essa potência que nem é competente como pensa que é. Cachorro que late não morde, já dizia minha avô. O povo do oriente tem mais de 10 mil anos de história e nós, do ocidente, quantos anos temos? Talvez 3 mil anos, portanto temos muito que aprender com a experiência deles e, na nossa arrogância, achamos que sabemos tudo. Ledo engano. Como disse o jornalista Fish, é de chorar de rir. Guerra nuclear? Não arriscarão seus "ricos" traseiros.

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clau_stef

01 de dezembro de 2010 às 12h52

Ótimo!!!

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De Liz

01 de dezembro de 2010 às 12h43

A possibilidade de usar uma forca nuclear mostra-se cada vez mais o indicador de soberania de uma pais. Acorda Brasil!!!! Ta todo mundo blefando. So nao blefa quem mostra de fato a forca para manter sua soberania. Acorda Brasil!!!! Nao quero voltar a ser colonia. Ou o Brasil de arma, mesmo que seja blefando – e nao tem outro jeito – porque nao deixarao como nao deixam o iran, ou voltaremos a ser colonias. Mostra tua forca Brasil!!!

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Wesley João

01 de dezembro de 2010 às 00h20

A ganância corroeu por dentro outros impérios, tornando-os frágeis até sua destruição. Agora, é mundo inteiro que corre perigo.
O Império dos EUA cambaleia economicamente. A China, os outros BRICS estão no jogo e ganhando. Acontece que o império, seus satélites da OTAN, Israel, Arábia Saudita não querem perder status, poder; no jogo limpo não ganham mais, é lógico que vão apelar para a guerra e a pilhagem, se ainda puderem.
Antes mesmo dos relatórios secretos virem ao conhecimento ostensivo, Chomsky, Fisk, Hobsbown, Galleano, dentre outros tantos, já denunciavam explicitamente os meios espúrios de dominação norte-americana e seus aliados.
Agora, o que fazer quando a situação chega a tal ponto?
A quem não creia em milagres, eu creio e sei que é um milagre estarmos vivos a cada momento, considerando as circunstâncias. Boa sorte para todos nós e que Deus nos proteja dos nossos próprios semelhantes.

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Wesley João

01 de dezembro de 2010 às 00h19

Os Impérios se alimentam da guerra, do sangue, dos despojos dos mortos, dos derrotados, dos mais fracos, o império norte-americano não poderia ser diferente. Invadiu duas nações no Oriente Médio e prepara-se para invadir o Irã; não nos enganemos os próximos podem ser nós, a Amazônia; o Pré-sal. Agora, até onde isso vai? uma guerra nuclear certamente acabaria com tudo; mas a ganância travestida de Capitalismo cega a minoria do topo deste sitema piramidal, perverso, insano.

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Fábio

30 de novembro de 2010 às 23h47

Até agora, por conta das notícias que vazaram pelo "uiquiliquis", eu só vi consequências que creio sejam interessantes para o EUA. Criou problemas na relação Irã e Países Árabes, desestabilizou a transição Lula/Dilma no Brasil, criou problemas na relação Brasil-Bolivia,… Sei não. Estou achando esse vazamento muito oportuno para os yankes. Se não bastasse a "verdade (in)conveniente" agora aparece "o vazamento oportuno". Cinismo? Ummmm…. quem sabe?

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Jorge

30 de novembro de 2010 às 21h22

Problema do EUA com o Irã é na verdade orgulho ferido, coisa velha do problema da embaixada e tentativa de esconder da história uma manobra de resgaste das mais esdrúxulas até hoje. Hoje irrigam com US$ (desvalorizado por sinal) os "parceiros" de modo a formarem opinião e apoio para novas manobras.

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Jobim, fofoqueiro, enfiou tumor na cabeça de Evo Morales | Viomundo - O que você não vê na mídia

30 de novembro de 2010 às 21h18

[…] ler todo o artigo, clique aqui. […]

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andré frej

30 de novembro de 2010 às 18h56

Não é só pensamento ocidental que é perverso. Perversa é a maneira como o ocidente trata a Questão Palestina.

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luisa

30 de novembro de 2010 às 18h40

Azenha,

Para compreender este tabuleiro, será que tem alguma coisa sobre China e Rússia em relação ao Irã? Por exemplo, como os americanos falam entre si das relações destas potências com o Irã.

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