Fernando Nogueira da Costa: Tico e Teco contra o Imperador Donald ou — Dois Neurônios Heterodoxos contra a Ortodoxia Econômica

Tempo de leitura: 12 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

Apólogo sobre o Terceiro Incluído diante dos Reducionismos Binários

Por Fernando Nogueira da Costa*

O império das duas alternativas

No Reino do Equilíbrio Geral, governava o Imperador Donald, um pato de temperamento explosivo, paletó azul e gravata vermelha, topete alaranjado cuidadosamente penteado e uma confiança ilimitada na superioridade de suas próprias ideias.

Donald tinha uma paixão: a ordem sob seu comando. Tudo deveria estar em seu devido lugar, obedecer às “leis naturais do mercado”, formuladas por ele, e, preferencialmente, caber em uma equação matemática.

Seu lema imperial era:

— Se a realidade não cabe no meu modelo, pior para a realidade!

Na entrada da The White House, uma placa anunciava:

MINISTÉRIO DAS VERDADES ECONÔMICAS UNIVERSAIS

Ali funcionava o Departamento de Expectativas Racionais e Ajustamento Automático.

O Imperador havia mandado dividir seu jardim em duas partes perfeitamente simétricas. À esquerda ficava a Oferta; à direita, a Demanda. No centro, uma estátua representava o Equilíbrio, com uma placa: “Proibido perturbar”.

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Mas havia um problema. Na grande árvore, diante da Casa Branca moravam dois esquilos inconvenientes, conhecidos como Tico e Teco.

Tico, de nariz preto, dentes unidos e chapéu de investigador, era cauteloso, estudioso e apaixonado pela Complexidade das interações entre Economia Comportamental, Institucional, Ambiental e Evolucionária.
Teco, de nariz vermelho, dentes separados e cabelo despenteado, era impulsivo, irreverente e admirador das ideias de Keynes, Kalecki e Minsky.

Os dois esquilos apresentavam-se como os dois neurônios heterodoxos do cérebro econômico. Tico era o cérebro da dupla por representar a inteligência, o planejamento, a cautela e a responsabilidade. Teco era o contraponto descontraído e representava a ingenuidade, a impulsividade, o bom humor e a descontração.

O pensamento Tico-e-Teco emergia quando os “2 neurônio (sem S)” conversavam sobre o terceiro incluído. Eles apresentavam alternativas aos reducionismos binários econômicos porque estes desconsideravam todas as demais variáveis…

— Tico, você já percebeu que Donald só consegue pensar em duas alternativas?

— Percebi, Teco. Ele acredita em tudo se resumir a A ou B.

— Então vamos apresentar C!

— C de Complexidade?

— Não! C de confusão na cabeça dele!

E desceram da árvore para iniciar sua conversação.

1. A racionalidade perfeita e o esquilo irracional

Donald estava diante de uma lousa, escrevendo uma equação: max U(x1,x2,… xn)

— Eis o segredo do comportamento humano! — proclamou. — Todo indivíduo racional maximiza sua utilidade, dadas suas preferências e restrições!

Teco aproximou-se carregando uma noz.

— Imperador, tenho uma pergunta. Se estou com fome, mas meu amigo também está, devo dividir esta noz?

— Depende! Calcule sua utilidade marginal!

— E se eu gostar dele?

— Inclua a amizade na função de utilidade!

— E se eu não souber quanto vale a amizade?

— Estime!

— E se eu mudar de ideia?

— Atualize suas preferências!

— E se eu simplesmente lhe der a noz porque ele precisa mais do que eu?

Donald começou a perder a paciência.

— Você está sendo irracional!

Tico interveio:

— Imperador, com todo o respeito, entre a racionalidade perfeita e a irracionalidade existe um terceiro elemento: a racionalidade limitada.

— Limitada?! Isso é defeito de fabricação!

— Não. Herbert Simon demonstrou os indivíduos decidirem com informações incompletas, tempo escasso e capacidade cognitiva limitada. Utilizam hábitos, regras práticas, aprendizado e instituições.

Teco completou:

— Além disso, emoções, confiança, reciprocidade e altruísmo podem orientar decisões perfeitamente compreensíveis!

Donald resmungou:

— Dois neurônios não podem compreender o comportamento humano!

— Justamente por somarmos dois — respondeu Tico — sabemos ninguém sem nenhum possuir capacidade ilimitada de cálculo!

Teco entregou metade da noz ao amigo.

— Está vendo? Minha utilidade aumentou quando a dele aumentou!

Donald tentou calcular a utilidade marginal da generosidade, mas quebrou a ponta do giz.

2. O Mercado contra o Estado: quem chegou primeiro?

No dia seguinte, Donald organizou um campeonato de cabo de guerra.

De um lado, colocou O Mercado, representado por um empresário sobrenatural, porque com sentimento de ser onipresente, onipotente e onisciente – até se deparar com o futuro incerto. Do outro, o Estado, representado por um funcionário público, carregando uma pilha de regulamentos da Sociedade de Advogados, defensora da vetocracia.

— A economia de mercado funciona melhor quanto menor for a interferência estatal! — anunciou Donald. — O Mercado é eficiente; o Estado é burocrático!

Teco perguntou:

— Quem garante a propriedade privada do empresário?

— A lei!

— Quem faz cumprir os contratos?

— A Justiça!

— Quem multiplica a moeda?

— O sistema monetário!

— Quem estabelece as regras desse sistema?

Donald começou a grasnar.

— Parem de fazer perguntas!

Tico desenhou um triângulo no chão.

Em seus vértices escreveu: Estado, Mercado e Sociedade.

— Imperador, O Mercado não existe fora das instituições. Estado e Mercado são interdependentes. Mas há ainda um terceiro incluído: a Sociedade Civil, com suas organizações, redes de cooperação e formas comunitárias de governança.

Teco acrescentou:

— Elinor Ostrom mostrou: comunidades conseguem administrar bens comuns sem depender exclusivamente da privatização ou do comando estatal!

— Impossível! — gritou Donald. — Ou é público ou é privado!

— E uma cooperativa? — perguntou Tico.

— E uma associação comunitária? — acrescentou Teco.

— E uma floresta administrada coletivamente?

— E uma instituição de ensino comunitária?

Donald começou a arrancar penas da própria cabeça.

— Vocês estão multiplicando desnecessariamente as categorias!

— Não, Imperador — respondeu Tico. — Estamos reconhecendo a diversidade institucional da realidade.

Teco sorriu:

— O problema não é haver um terceiro incluído. É Donald querer excluir todo o mundo, menos o dele!

3. Economia Positiva contra Economia Normativa: a neutralidade do Imperador

Donald convocou uma coletiva de imprensa.

— Minha Velha Ciência Econômica é absolutamente neutra! — anunciou. — A Economia Positiva estuda os fatos: o que é. A Economia Normativa trata dos valores: o que deveria ser. Eu faço ciência. Meus adversários fazem ideologia!

Tico levantou a patinha pedindo vez para mais uma pergunta:

— Imperador, por qual razão seus modelos destacam eficiência e não distribuição de renda?

— Porque eficiência é científica!

— E por qual razão considera uma distribuição eficiente, no sentido de Pareto (ou Ótimo de Pareto), uma situação na alocação de recursos na qual não é possível melhorar a condição de uma pessoa sem piorar a de outra, mesmo quando uma pessoa possui quase toda a riqueza e as demais vivem na pobreza? Por que ninguém pode melhorar sem prejudicar outra?

— Porque essa é a definição!

Teco perguntou:

— Mas quem escolheu a definição?

Donald engasgou.

— Um economista ortodoxo!

— E quem escolheu os indicadores usados para avaliar o sucesso econômico?

— Os especialistas do mainstream!

— E quem decide se devemos priorizar combate à inflação ou ao desemprego, com crescimento da renda e políticas sociais para queda da desigualdade?

Donald ficou vermelho.

Tico explicou:

— A distinção entre fatos e juízos de valor é metodologicamente útil. Mas a escolha dos problemas, dos pressupostos e dos critérios de avaliação envolve tanto paradigmas científicos quanto valores sociais.

— Portanto — acrescentou Teco — o terceiro incluído é a reflexão crítica sobre ideologia, paradigmas e pressupostos.

Donald protestou:

— Vocês querem politizar a Economia!

— Não — respondeu Tico. — Queremos tornar explícitas as escolhas normativas frequentemente escondidas pelo jornalismo sob a aparência de neutralidade.

Teco cochichou:

— O Imperador Donald é tão neutro a ponto de sempre chegar à conclusão de a sua própria política ser a melhor!

4. Oferta e Demanda: o casamento arranjado

Donald desenhou seu gráfico favorito: duas curvas cruzadas formando um X.

— Observem a beleza do equilíbrio! A oferta sobe, a demanda desce e ambas se equilibram no preço correto!

Teco admirou o desenho.

— Parece um mapa do tesouro!

— É o mapa da eficiência! — corrigiu Donald.

Tico perguntou:

— Imperador, e se uma grande empresa controlar boa parte da oferta?

— Concorrência contra ela!

— E se conseguir influenciar as preferências dos consumidores por meio da publicidade?

— Impera a soberania do consumidor!

— E se as empresas reduzirem a produção porque esperam vendas insuficientes?

— Devem fazer ajustamento de preços para baixo!

Teco interrompeu:

— E se os trabalhadores desempregados não tiverem renda para comprar os produtos, mesmo depois da redução dos preços?

Donald começou a tremer de raiva com aquelas ideias heterodoxas.

Tico explicou:

— Galbraith mostrou como grandes corporações podem moldar a demanda. Kalecki destacou o poder de mercado e os conflitos distributivos com o poder sindical. Keynes demonstrou como a insuficiência da demanda efetiva pode manter a economia em desemprego involuntário.

— Portanto — concluiu Teco — o terceiro incluído entre Oferta e Demanda é a estrutura de mercado e o poder econômico, além das instituições e expectativas condicionantes de suas interações.

Donald tentou apagar o gráfico.

Teco o alertou:

— Não precisa destruir o X, Imperador! Basta reconhecer: o mundo não se encerra nele!

5. Microeconomia contra Macroeconomia: a falácia da composição

Donald apresentou sua nova teoria:

— A Macroeconomia deve ser construída a partir de fundamentos microeconômicos, isto é, as melhores decisões segundo a teoria convencional! Basta somar os comportamentos individuais!

Teco levantou a patinha para perguntar.

— Imperador, se eu economizar minhas nozes, durante uma crise, ficarei mais seguro?

— Evidentemente!

— E se todos os esquilos deixarem de comprar qualquer coisa?

— Todos ficarão mais ricos!

Tico interveio:

— Mas se todos reduzirem simultaneamente o consumo, as empresas não venderão menos, diminuirão a produção e demitirão trabalhadores? A renda agregada não cairá, frustrando a própria tentativa de aumentar a poupança?

— Isso é um paradoxo! — gritou Donald.

— Exatamente — respondeu Tico. — O paradoxo da parcimônia, ensinado pela heterodoxia.

Teco perguntou:

— E entre os indivíduos racionais e a economia nacional não existe nada?

— Apenas a agregação deles!

Tico desenhou três círculos: Microeconomia — Mesoeconomia — Macroeconomia.

— Entre indivíduos e agregados existem setores, cadeias produtivas, redes financeiras, organizações, plataformas e sistemas de inovação. É o nível mesoeconômico.

— E acima de tudo isso? — perguntou Teco.

— O nível sistêmico complexo — respondeu Tico —, onde estudamos as interações entre economia, política, tecnologia, demografia, instituições e ambiente natural.

Teco bateu palmas:

— Descobrimos o segredo! O todo não é simplesmente a soma das partes, porque as partes interagem, aprendem e se transformam mutuamente!

Donald reclamou:

— Agora vocês querem transformar minha elegante equação de duas árvores – a da causa e a do efeito – em uma floresta inteira!

— Exatamente! — respondeu Tico. — A economia é mais parecida com um ecossistema adaptativo em vez de atuar como fosse um mecanismo de relógio.

6. Risco contra Incerteza: o futuro não obedece ao Imperador

Donald estava construindo uma máquina de previsão do futuro.

— Meu modelo conhece todas as probabilidades relevantes! — anunciou.

Teco perguntou:

— Imperador, qual será a próxima inovação tecnológica disruptiva ou re-evolucionária?

— Calcularei!

— E a próxima pandemia?

— Estimarei!

— E a próxima crise financeira?

— Simularei!

— E qual será a próxima pergunta a ser feita por mim?

Donald ficou imóvel.

Tico explicou:

— Existe uma diferença entre risco mensurável e incerteza radical. Em determinadas situações, baseados em extrapolações de regularidades do passado, os economistas atribuem probabilidades aos resultados. Em outras, não podem conhecer todos os acontecimentos possíveis, inclusive por serem dependentes de decisões ainda a serem tomadas.

— Então como os empresários investem? — perguntou Donald.

— Com expectativas de lucro, capacidade produtiva esgotada e animal Spirits, para empreendimento inovador, além de cálculos de alavancagem financeira, para estimar se o retorno operacional superará as despesas financeiras — respondeu Tico.

Teco completou:

— E quando ficam inseguros, têm preferência por liquidez em vez de assumir compromissos de longo prazo!

Donald protestou:

— Sem probabilidades conhecidas, minhas equações não funcionam!

— Algumas continuam úteis — respondeu Tico. — Mas nenhuma consegue eliminar a incerteza histórica.
Teco examinou a máquina imperial.

— Imperador, ela consegue prever quando você perderá a paciência?

Donald explodiu:

— AGORA!

— Funcionou! — comemorou Teco.

7. Capital contra Trabalho: quem fica com as nozes?

No jardim imperial da Casa Branca, Donald havia instalado duas máquinas.

Uma representava o Capital; outra, o Trabalho.

— Cada fator recebe conforme sua produtividade marginal! — anunciou. — Assim funciona a distribuição eficiente da renda!

Tico perguntou:

— E quem determina o poder de negociação dos trabalhadores?

— O mercado!

— E qual é o papel dos sindicatos?

— Criar distorções!

— E as leis trabalhistas?

— São rigidezes!

— E a concentração da propriedade das empresas?

— É resultado da eficiência!

Teco apontou para a máquina:

— Imperador, por qual razão o proprietário da terra recebe tantas nozes mesmo quando não participa diretamente da plantação e colheita?

— Porque é dono do território!

— E quem decidiu como os direitos de propriedade seriam distribuídos?

Donald suspirou…

Tico explicou:

— A distribuição funcional da renda não depende apenas das produtividades marginais. Também envolve heranças históricas de propriedade, instituições, conflitos distributivos e poder de barganha.

— Portanto — concluiu Teco — o terceiro incluído é o conflito distributivo, mediado por instituições, como é o caso de sindicatos dos trabalhadores.

Donald tentou recolher todas as nozes em seu quintal.

Teco perguntou:

— Imperador, isso é produtividade marginal ou apropriação total?

O pato grasnou:

— É defesa da propriedade privada!

8. O grande debate brasileiro: a Selic e o feitiço das expectativas

Depois de sucessivas derrotas conceituais, Donald resolveu convocar uma reunião extraordinária do Conselho Imperial de Política Monetária.

— Chega de filosofia! Vamos discutir a economia brasileira!

Tico e Teco se infiltraram na mesa.

Donald proclamou sua primeira sentença:

— Se reduzirmos a Selic, as expectativas inflacionárias ficarão desancoradas!

Teco perguntou:

— Desancoradas de quê? O Brasil é um navio?

Tico explicou:

— As expectativas dependem de muitos fatores: trajetória da inflação, atividade econômica, câmbio, credibilidade institucional, política fiscal e condições internacionais. A taxa básica de juros é importante, mas não atua isoladamente.

Donald apresentou outra sentença:

— Se reduzirmos os juros curtos, os juros longos poderão subir!

— Poderão — concordou Tico. — Mas isso não é uma lei universal. Depende das expectativas sobre preços dos títulos no futuro, inflação, prêmios de risco, liquidez e composição da dívida pública.

Teco sorriu e perguntou baixinho:

— Então, os juros longos não obedecem automaticamente ao Imperador?

— Exatamente.

Donald prosseguiu:

— E se a remuneração das LFTs ficar pouco atraente, os investidores poderão abandonar os títulos públicos!

Tico respondeu:

— Poderá haver mudanças nas carteiras, nos preços e na demanda relativa por diferentes títulos. Mas é preciso considerar alternativas de investimento, regulação prudencial, gestão da dívida e capacidade de coordenação entre Tesouro e Banco Central.

Teco perguntou:

— E por que não discutir um Conselho Fiscal e Monetário capaz de coordenar democraticamente políticas fiscal e monetária com metas graduais para ambas?

Donald levantou-se furioso com a impertinência heterodoxa:

— Porque isso provocaria desancoragem das expectativas!

— Imperador — respondeu Tico —, o senhor acaba de usar a mesma expressão para encerrar uma discussão sobre arranjos institucionais diferentes.

Teco gargalhou:

— Descobri! “Desancoragem das expectativas” é a palavra-mágica do Império! Serve para assustar qualquer proposta heterodoxa!

Donald bateu na mesa:

— Não é mágica! É a Velha Ciência Econômica!

Tico respondeu:

— Então precisamos explicitar os mecanismos causais, as condições de validade e as evidências empíricas. Uma hipótese científica não se torna verdadeira apenas porque é citada como fosse argumento de autoridade.

Teco acrescentou:

— Nem falsa porque foi apresentada por dois esquilos!

9. O Terceiro Incluído toma o palácio

Desesperado, Donald convocou seus conselheiros.

— Esses dois neurônios estão destruindo toda a Velha Ciência Econômica!

Tico respondeu:

— Não queremos destruir os modelos matemáticos. Queremos apenas reconhecer suas limitações.

— Modelos são simplificações necessárias — continuou. — O problema começa quando hipóteses convenientes são transformadas em verdades universais, sem considerar suas condições de validade.

Teco acrescentou:

— Uma simplificação é útil quando ilumina um mecanismo. Torna-se reducionismo quando apaga mecanismos decisivos e depois afirma explicar a realidade inteira!

Donald perguntou:

— Então, vocês pretendem substituir todas as minhas dicotomias por um terceiro incluído como alternativa?

— O Terceiro Incluído não é necessariamente uma solução intermediária entre dois extremos — explicou Tico. Pode ser uma instituição, uma relação social, um nível de análise ou um mecanismo capaz de transformar a própria maneira de formular o problema — e antes excluído.

Teco começou a escrever na lousa:

Dicotomias de Donald  — Terceiros Incluídos de Tico e Teco

Racionalidade × Irracionalidade — Racionalidade limitada, hábitos e heurísticas

Mercado × Estado — Sociedade civil, redes e bens comuns

Positivo × Normativo — Paradigmas, valores e ideologia

Oferta × Demanda — Estrutura de mercado e poder econômico

Micro × Macro — Mesoeconomia e interações sistêmicas

Risco calculável = Futuro previsível — Incerteza radical e preferência pela liquidez

Capital × Trabalho — Conflito distributivo e instituições

Donald examinou a tabela.

— Mas agora tenho sete problemas onde antes havia apenas duas alternativas!

— Não, Imperador — respondeu Tico. — O senhor tinha sete problemas e fingia haver apenas duas possibilidades para solucionar cada um!

Teco completou:

— A realidade não ficou mais complicada. Apenas seu modelo deixou de escondê-la!

10. A coroação da Complexidade

Naquela noite, Donald reuniu os habitantes do reino para fazer um pronunciamento histórico.

— Reconheço meus modelos serem simplificações!

Todos aplaudiram.

— Reconheço também instituições, expectativas, poder econômico e mudanças tecnológicas poderem influenciar os resultados!

Os aplausos aumentaram.

— Mas tenho fé e continuo crente em meus modelos serem os melhores!

Teco cochichou:

— Ele melhorou. Antes acreditava serem os únicos!

Tico respondeu:

— O pluralismo científico começa quando reconhecemos a possibilidade de existirem explicações concorrentes e complementares, sujeitas à crítica e à verificação com testes das hipóteses.

Donald olhou para os dois esquilos.

— Afinal, o que vocês propõem no lugar de minha Economia de Equilíbrio Geral?

Tico respondeu:

— Uma Nova Ciência Econômica capaz de integrar contribuições comportamentais, institucionalistas, evolucionárias, ambientais, pós-keynesianas e da complexidade, sem presumir todas serem automaticamente compatíveis.

Teco acrescentou:

— Uma economia onde indivíduos aprendem, empresas inovam, instituições evoluem, redes se reorganizam, conflitos distributivos modificam as regras e o futuro permanece em aberto a inovações!

— E onde ficam minhas equações? — perguntou Donald, preocupado.

— Continuam sendo instrumentos úteis — respondeu Tico —, caso sejam subordinadas às perguntas relevantes e confrontadas com a realidade histórica.

Donald respirou aliviado.

— Então ainda posso ser Imperador?

Teco respondeu:

— Pode continuar sendo pato!

— E Imperador?!

— Só se vencer as eleições democráticas entre os habitantes da floresta e reconhecer o resultado!

Donald explodiu furioso:

— ELEIÇÃO?! ISSO VAI DESANCORAR AS EXPECTATIVAS!

Tico e Teco caíram da árvore de tanto rir com o medo de alternância do poder.

E assim terminou a primeira revolução epistemológica do Reino do Equilíbrio Geral. Não houve destruição do palácio, confisco das nozes ou expulsão do Imperador. Apenas uma pequena mudança na placa da entrada.

Onde antes estava escrito:

MINISTÉRIO DAS VERDADES ECONÔMICAS UNIVERSAIS

Passou a constar:

INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO DOS SISTEMAS ECONÔMICOS COMPLEXOS

Logo abaixo, Teco acrescentou, com letras vermelhas:

“PROIBIDO PROIBIR O TERCEIRO INCLUÍDO!”

Moral do apólogo:

A realidade não é obrigada a obedecer às simplificações de quem pretende explicá-la. O pensamento de correlação binária pode ser útil para formular hipóteses, mas se torna reducionista quando transforma oposições analíticas em supostas leis universais e exclui outras causalidades.

O Terceiro Incluído representa a descoberta de relações, instituições, comportamentos e níveis de organização ignorados pelas dicotomias convencionais. Não significa necessariamente conciliação entre dois polos de causa e efeito, mas a possibilidade de reformular o problema e identificar mecanismos emergentes de outras interações.

A Nova Ciência Econômica não precisa abandonar a matemática nem rejeitar todas as contribuições neoclássicas. Precisa superar a pretensão ortodoxa de explicar sistemas complexos adaptativos mediante modelos cuja simplicidade decorre da exclusão de aspectos essenciais da realidade.

A inteligência científica não consiste em reduzir o mundo ao tamanho de nossas equações, mas em desenvolver instrumentos adequados à complexidade do mundo.

E, como demonstram Tico e Teco, às vezes bastam dois neurônios, conversando entre si e com outros, para questionar as certezas de um Imperador convencido de possuir a única inteligência possível.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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