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Esther Solano: Elite limpinha, cheirosa, não gosta da barbárie exposta de Bolsonaro, mas adora a escondida de Guedes
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Política

Esther Solano: Elite limpinha, cheirosa, não gosta da barbárie exposta de Bolsonaro, mas adora a escondida de Guedes


14/12/2019 - 22h05

Elite limpinha não gosta da barbárie de Bolsonaro, mas adora a de Guedes

É incomparável a inteligência política de Lula, mas seria muito burro subestimar a força da direita cheirosa ‘moderada’

por Esther Solano, em CartaCapital

“Não sou nem de esquerda nem de direita.” “Bolsonaro é extrema-direita e o PT extrema-esquerda.”

Procuro ser calma e razoável na vida, mas essas duas frases me tiram totalmente do sério, me dão vontade de estrangular quem as repete como papagaio irritante.

Aliás, quem recorre a uma invariavelmente afirma a outra.

A estratégia arquitetada pelos donos do poder com vistas às eleições de 2022, com a disputa municipal de 2020 no caminho, é evidente.

De fato, uma coisa que podemos dizer das elites políticas, econômicas e midiáticas do Brasil é que elas costumam ser bastante evidentes. Não se destacam pela sutileza.

Bolsonaro tem sido pior do que essas elites imaginavam. Um governo ridículo, bruto, incapaz, vergonhoso, deplorável, patético…

Recorro aqui a alguns adjetivos, entre tantos, para definir a catástrofe.

Talvez essas elites pensassem que poderiam domesticar o ex-capitão e seu clã, mas as feras não são facilmente domesticáveis.

Deveriam ter aprendido com a História. Quando se coloca uma fera no poder, ela torna-se ainda mais indomável.

Mas, como História é coisa de comunista, maconheiro, esquerdopata e professor doutrinador, para que aprender com ela? Melhor repetir estupidamente os erros do passado.

Bolsonaro os envergonha, mas Paulo Guedes não, e seu projeto menos ainda, portanto, essas elites cheirosas e bem-comportadas têm de dar um jeito de se afastar da rudeza de Bolsonaro, mas continuar a apoiar o projeto Guedes.

Essas elites limpinhas não gostam do barbarismo boçal e exposto de Bolsonaro, mas adoram a barbárie escondida no projeto econômico de Guedes.

Qual a tática para administrar esse equilíbrio?

Uma proposta que se distancie da violência e do vexame bolsonarista, mas que defenda o projeto Guedes.

Candidatos?

Vários. João Doria, que se faz de louco dizendo que nunca defendeu Bolsonaro. Imagina, delírios nossos.

Luciano Huck, um “homem de bem”, pai de família, que defende os pobres e o trabalhador, bonzinho e bonitinho, que cada sábado entra pela porta principal nos lares de milhões de brasileiros.

Até Joice Hasselmann, de olho na prefeitura de São Paulo, parecia uma figura moderada, prudente e sensata na CPI das Fakes News, como se não tivesse nada a ver com a selvageria bolsonarista.

Para reforçar mais ainda o marketing desta aposta eleitoral da centralidade e da moderação, é necessário o outro oposto, o outro antagônico, o outro polo de dois supostos extremos. Fácil.

Num polo, Bolsonaro, no outro, Lula e o PT. Pronto.

Não queremos a radicalidade do presidente, mas Deus nos livre da radicalidade do bolivarianismo petista.

A ideia de que alguém enxergue o PT como extrema-esquerda me dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

Ultimamente, mais de rir do que de chorar, pois consigo ver pelas minhas pesquisas com eleitores de centro (aqueles que votaram no PT, mas também em Bolsonaro, e poderiam votar em qualquer um, ou seja, aqueles que definem uma eleição) a força do discurso da moderação e do centro.

Nas minhas entrevistas com eles, percebo quase sempre fadiga e rejeição à violência bolsonarista.

Muitos reconhecem que durante as eleições o tom agressivo foi tolerado, até bem-visto, mas que no governo é hora de entendimento, equilibro e diálogo. Três palavras que nunca poderão definir o presidente.

Esse tipo de eleitor (que não se pode confundir com o bolsonarista radical) está cansado do folclore e da hostilidade do clã do Planalto, está cansado da instabilidade política e com frequência está exausto da insegurança econômica, pois a sofre na própria pele com o desemprego ou a precarização.

Por esse mesmo motivo é um tipo de eleitor muito suscetível a comprar a ideia de que não é desejável outro governo radical ou extremo (como seria o petista), e que o melhor seria uma aposta moderada, equilibrada, estável, “nem de extrema-direita nem de extrema-esquerda”.

Devemos estar muito atentos a essa estratégia.

Vejo amigos petistas otimistas demais com a saída de Lula da cadeia, como se este fosse melhorar indiscutivelmente o cenário para o partido.

É incomparável a inteligência política de Lula, mas seria muito burro de nossa parte subestimar a força desta direita cheirosa “moderada” que pode vir com tudo em 2022 – a começar por espaços conquistados em 2020. Basta as elites escolherem seu candidato.



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